28 de Agosto de 1915- 29 de Agosto de 1982
Patrícia Reis,
Somewhere over the rainbow, já se sabe, estará uma caixa com um tesouro, um duende para nos reconfortar.
Esta canção é para o Manuel António Pina.
Vou para fora uns dias.
Não serão dias passíveis de serem imaginados, serão dias de trabalho e o trabalho mais duro de todos é o que vem das vísceras.
É um pouco assustador, mas não farei queixas, nem apresentarei relatórios com detalhes sórdidos.
Se alguém fizer anos, pois parabéns; se alguém postar algo muito interessante verei mais tarde, depois de 27 de Agosto.
Até lá, não vou ter net, logo não posso saber do mundo ou o mundo de mim.
Como diz a canção, I will survive
É um filme de sempre. Será para mim o filme do corte do dedo, do Harvey Keitel nu, de uma Holly Hunter calada, sublime, de uma miúda a tentar perceber a vida, de uma ideia de mar e de perplexidade. A música? A música é eterna.
(roubei a inspiração ao post de Pedro Correia)
A avó que é bisavó.
A avó que é mãe.
E a mãe que é mãe. Foi a explicação dada por um dos miúdos.
Sábado à noite, à volta de arroz de cabrito ou de risotto de alheira, a família acolheu os amigos mais próximos, mesmo aqueles que vivem em Madrid ou em Beja.
A festa fez-se de conversas cruzadas, algumas fotografias e um silêncio maravilhado quando a lua nasceu amarela num rio escuro, ponteado de luzes da outra banda. Os risos e os gestos. Os bolos conventuais.
A minha mãe fez 60 anos.
A minha bisavó insistiu na necessidade de uma fotografia, afinal quatro gerações juntas é um feito. Para variar estarão desfocadas. Não faz mal.
Temos esta, já com seis anos. Não mostra 4 gerações, apenas 3, faltam os meus filhos. Apesar disso tem uma particularidade que poucos conhecem: aqui estão reunidas as três Pilares da família. Se um dos meus filhos tivesse menina seria quarta Pilar da família. Eu gosto do nome e não imagino nada mais certeiro para a minha mãe. Ela é um pilar na minha vida. Possa eu ser na dela. E assim, o melhor retrato será sempre a memória: a minha mãe abraçada aos amigos, surpreendida, coberta de flores e sacos com pequenas lembranças. Chegou aos 60 anos com o mesmo sorriso que lhe recordo de outros tempos e, contra marés e outros bruxedos, ainda cá estamos. Haja saúde.
O tempo de verão deveria ser uma pausa, programada ou não.
Quando se tem uma empresa – opção absurda e infinitamente pessoal – tudo muda.
Já não sei o que é parar.
Não sei o que é ter subsídio de férias ou de Natal há 15 anos.
Pago os impostos, pago o IVA de facturas que ainda não consegui receber, faço contas e refaço as contas até à exaustão e o mau gosto de tudo isto é o cansaço e a mente apavorada.
Sim, a idade faz diferença.
E ter filhos.
E outras coisas.
Não quero sair daqui, por isso é um exercício de masoquismo.
O atelier chama-se 004. Ninguém sabe, mas é assim.
A equipa é maravilhosa, o espaço pequeno e ali se exibe um saco de boxe para afogar as maiores mágoas.
Dizem que fazemos a Egoísta, é verdade, mas fazemos tanto mais que é impossível colocar aqui a lista e pouco serviria para me animar.
Este post não é para ninguém, é para mim, para ter pena de mim.
Para me sentir mal e colocar esse mau estar ao vivo.
Uma forma de arranjar soluções por saber que, daqui a duas horas, chegará o arrependimento e pensarei: que merda de post! Eu tenho tantas coisas boas e tantas por fazer.
Chama-se isto terapia. Acho eu.
“Há muitos anos li, não me recordo exactamente onde, mas talvez num policial, que as esquadras de polícia de Nova Iorque entram de prevenção nos dias muito quentes. O calor, explicava o autor cujo nome já esqueci ou nunca soube, enlouquecia as pessoas, e a violência subia assustadoramente, acompanhando o termómetro.
Enquanto esses picos de calor não desciam, os polícias mantinham-se nas esquadras, à espera de mais um homicídio. E, todos os verões, o que eles previam acontecia.
Alguns anos mais tarde, ouviria muitas vezes uma formulação semelhante para explicar o feitio ou a personalidade dos habitantes da cidade em que B. nascera. Sempre que alguém se excedia, fosse por que razão fosse, por vezes pelos motivos mais banais, eu escutava a sentença fatal:
não tem culpa, nasceu assim.
E assim, curiosamente, o meu mundo dividia-se em dois, nesse tempo: as pessoas a quem era permitido dizer e fazer tudo porque o muito calor (ou o muito frio, apesar de nesses dias pouco se sair à rua e a indulgência ser menor) era o verdadeiro culpado e as outras, as estrangeiradas, isto é, eu.” O Verão de Todos os Silêncio, Maria Manuel Viana, absolutamente excelente, edições Planeta.
brincávamos a cair nos braços um do outro
brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando,
e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor.
queríamos o amor um pelo outro sem hesitações,
como se a desgraça nos servisse bem e,
a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento
e não sabíamos que a vida podia parar um dia.
eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz,
o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo.
tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato,
quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio,
tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso.
estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho.
tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo,
um modo mais perene, lento, covarde.
Eu amava-te e julgava bem que amar era afeiçoar o corpo ao perigo.
caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando.
eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando
e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração,
iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me,
valter tem cuidado, não brinques assim,
vais partir uma perna,
vais partir a cabeça,
vais partir o coração.
e estava certa, foi tudo verdade
Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.
O miúdo telefonou para apurar a razão do nível da tristeza.
Morreu um homem que era historiador e tinha mais de 90 anos e?
E, meu querido filho, José Hermano Saraiva faz parte da nossa moldura de vida, como fez o Vasco Granja, o Sousa Veloso. Pessoas que vimos sempre, que reconhecemos a voz, imitámos os seus gestos e com quem aprendemos. Um homem que vivia para contar as histórias da História e que, anos a fio, fez um programa de televisão que só pode ser considerado serviço público, não pode ser visto de outra forma.
E o miúdo pergunta
Ah, então é como quando morre um músico de quem gostamos muito?
Isso. Ou um escritor que lemos desde sempre, um poeta, um pintor, alguém que se destacou por ser diferente.
Como o Mandela?
De certa forma.
E tu choraste com quem?
Quando morreu o José Cardoso Pires, a Natália Correia, o Zeca Afonso, o Bernardo Sassetti.
E o miúdo, outra vez, interrompendo:
Sim, sim, com o Sassetti até eu chorei. Felizmente ficou a música. Deste professor fica o quê?
Um acervo enorme na RTP e a memória.
O miúdo desligou o telemóvel e eu senti que as lágrimas estavam prontas a voltar.
POEMA QUOTIDIANO