out


Patrícia Reis,

Vou para fora uns dias.

Não serão dias passíveis de serem imaginados, serão dias de trabalho e o trabalho mais duro de todos é o que vem das vísceras.

É um pouco assustador, mas não farei queixas, nem apresentarei relatórios com detalhes sórdidos.

Se alguém fizer anos, pois parabéns; se alguém postar algo muito interessante verei mais tarde, depois de 27 de Agosto.

Até lá, não vou ter net, logo não posso saber do mundo ou o mundo de mim.

Como diz a canção, I will survive

Piano para o feriado


Patrícia Reis,

 

É um filme de sempre. Será para mim o filme do corte do dedo, do Harvey Keitel nu, de uma Holly Hunter calada, sublime, de uma miúda a tentar perceber a vida, de uma ideia de mar e de perplexidade. A música? A música é eterna.

pois


Patrícia Reis,
“Há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos. Os loucos são internados em hospícios. As crianças, educadas.”

Jean Paul Sartre

4 gerações


Patrícia Reis,

A avó que é bisavó.

A avó que é mãe.

E a mãe que é mãe. Foi a explicação dada por um dos miúdos.

Sábado à noite, à volta de arroz de cabrito ou de risotto de alheira, a família acolheu os amigos mais próximos, mesmo aqueles que vivem em Madrid ou em Beja.

A festa fez-se de conversas cruzadas, algumas fotografias e um silêncio maravilhado quando a lua nasceu amarela num rio escuro, ponteado de luzes da outra banda. Os risos e os gestos. Os bolos conventuais. 

A minha mãe fez 60 anos.

A minha bisavó insistiu na necessidade de uma fotografia, afinal quatro gerações juntas é um feito. Para variar estarão desfocadas. Não faz mal.

Temos esta, já com seis anos. Não mostra 4 gerações, apenas 3, faltam os meus filhos. Apesar disso tem uma particularidade que poucos conhecem: aqui estão reunidas as três Pilares da família. Se um dos meus filhos tivesse menina seria quarta Pilar da família. Eu gosto do nome e não imagino nada mais certeiro para a minha mãe. Ela é um pilar na minha vida. Possa eu ser na dela. E assim, o melhor retrato será sempre a memória: a minha mãe abraçada aos amigos, surpreendida, coberta de flores e sacos com pequenas lembranças. Chegou aos 60 anos com o mesmo sorriso que lhe recordo de outros tempos e, contra marés e outros bruxedos, ainda cá estamos. Haja saúde.  

infinitamente pessoal


Patrícia Reis,

O tempo de verão deveria ser uma pausa, programada ou não.

Quando se tem uma empresa – opção absurda e infinitamente pessoal – tudo muda.

Já não sei o que é parar.

Não sei o que é ter subsídio de férias ou de Natal há 15 anos.

Pago os impostos, pago o IVA de facturas que ainda não consegui receber, faço contas e refaço as contas até à exaustão e o mau gosto de tudo isto é o cansaço e a mente apavorada.

Sim, a idade faz diferença.

E ter filhos.

E outras coisas.

Não quero sair daqui, por isso é um exercício de masoquismo.

O atelier chama-se 004. Ninguém sabe, mas é assim.

A equipa é maravilhosa, o espaço pequeno e ali se exibe um saco de boxe para afogar as maiores mágoas.

Dizem que fazemos a Egoísta, é verdade, mas fazemos tanto mais que é impossível colocar aqui a lista e pouco serviria para me animar.

Este post não é para ninguém, é para mim, para ter pena de mim.

Para me sentir mal e colocar esse mau estar ao vivo.

Uma forma de arranjar soluções por saber que, daqui a duas horas, chegará o arrependimento e pensarei: que merda de post! Eu tenho tantas coisas boas e tantas por fazer.

Chama-se isto terapia. Acho eu.

O verão de todos os silêncios de Maria Manuel Viana


Patrícia Reis,

“Há muitos anos li, não me recordo exactamente onde, mas talvez num policial, que as esquadras de polícia de Nova Iorque entram de prevenção nos dias muito quentes. O calor, explicava o autor cujo nome já esqueci ou nunca soube, enlouquecia as pessoas, e a violência subia assustadoramente, acompanhando o termómetro.
Enquanto esses picos de calor não desciam, os polícias mantinham-se nas esquadras, à espera de mais um homicídio. E, todos os verões, o que eles previam acontecia.
Alguns anos mais tarde, ouviria muitas vezes uma formulação semelhante para explicar o feitio ou a personalidade dos habitantes da cidade em que B. nascera. Sempre que alguém se excedia, fosse por que razão fosse, por vezes pelos motivos mais banais, eu escutava a sentença fatal:
não tem culpa, nasceu assim.

E assim, curiosamente, o meu mundo dividia-se em dois, nesse tempo: as pessoas a quem era permitido dizer e fazer tudo porque o muito calor (ou o muito frio, apesar de nesses dias pouco se sair à rua e a indulgência ser menor) era o verdadeiro culpado e as outras, as estrangeiradas, isto é, eu.” O Verão de Todos os Silêncio, Maria Manuel Viana, absolutamente excelente, edições Planeta.

Amigos sem idade


Patrícia Reis,

O Luis é uma figura pública. O meu filho mais novo não se importa com isso e tão pouco o que significa o chavão. São amigos. Conversam sem idade ou preconceito e abraçam-se com força, de forma prolongada. A amizade comove-me sempre.

valter hugo mãe, in ‘contabilidade’


Patrícia Reis,

brincávamos a cair nos braços um do outro

brincávamos a cair nos braços um do outro, como faziam as actrizes nos filmes com o marlon brando,

e depois suspirávamos e ríamos sem saber que habituávamos o coração à dor.

queríamos o amor um pelo outro sem hesitações,

como se a desgraça nos servisse bem e,

a ver filmes, achávamos que o peito era todo em movimento

e não sabíamos que a vida podia parar um dia.

eu ainda te disse que me doíam os braços e que, mesmo sendo o rapaz,

o cansaço chegava e instalava-se no meu poço de medo.

tu rias e caías uma e outra vez à espera de acreditares apenas no que fosse mais imediato,

quando os filmes acabavam, quando percebíamos que o mundo era feito de distância e tanto tempo vazio,

tu ficavas muito feminina e abandonada e eu sofria mais ainda com isso.

estavas tão diferente de mim como se já tivesses partido e eu fosse apenas um local esquecido sem significado maior no teu caminho.

tu dizias que se morrêssemos juntos entraríamos juntos no paraíso e querias culpar-me por ser triste de outro modo,

um modo mais perene, lento, covarde.

Eu amava-te e julgava bem que amar era afeiçoar o corpo ao perigo.

caía eu nos teus braços, fazias um bigode no teu rosto como se fosses o marlon brando.

eu, que te descobria como se descobrem fantasias no inferno, não queria ser beijado pelo marlon brando

e entrava numa combustão modesta que, às batidas do meu coração,

iluminava o meu rosto como lâmpada falhando a minha mãe dizia-me,

valter tem cuidado, não brinques assim,

vais partir uma perna,

vais partir a cabeça,

vais partir o coração.

e estava certa, foi tudo verdade

Professor Saraiva


Patrícia Reis,

O miúdo telefonou para apurar a razão do nível da tristeza.

 

Morreu um homem que era historiador e tinha mais de 90 anos e?

 

E, meu querido filho, José Hermano Saraiva faz parte da nossa moldura de vida, como fez o Vasco Granja, o Sousa Veloso. Pessoas que vimos sempre, que reconhecemos a voz, imitámos os seus gestos e com quem aprendemos. Um homem que vivia para contar as histórias da História e que, anos a fio, fez um programa de televisão que só pode ser considerado serviço público, não pode ser visto de outra forma.

 

E o miúdo pergunta

 

Ah, então é como quando morre um músico de quem gostamos muito?

 

Isso. Ou um escritor que lemos desde sempre, um poeta, um pintor, alguém que se destacou por ser diferente.

 

Como o Mandela?

 

De certa forma.

 

E tu choraste com quem?

 

Quando morreu o José Cardoso Pires, a Natália Correia, o Zeca Afonso, o Bernardo Sassetti.

 

E o miúdo, outra vez, interrompendo:

 

Sim, sim, com o Sassetti até eu chorei. Felizmente ficou a música. Deste professor fica o quê?

 

Um acervo enorme na RTP e a memória.

 

O miúdo desligou o telemóvel e eu senti que as lágrimas estavam prontas a voltar.

Pressoterapia V


Patrícia Reis,

     POEMA QUOTIDIANO 

 

 

                                      É tão depressa noite neste bairro

                                      Nenhum outro porém senhor administrador

                                      goza de tão eficiente serviço de sol

                                      Ainda não há muito ele parecia

                                      domiciliado e residente ao fim da rua

                                      O senhor não calcula todo o dia

                                       que festa de luz proporcionou a todos

                                       Nunca vi e já tenho os meus anos

                                       lavar a gente as mãos no sol como hoje

                                       Donas de casa vieram encher de sol

                                       cântaros alguidares e mais vasos domésticos

                                       Nunca em tantos pés

                                       assim humildemente brilhou

                                       Orientou diz-se até os olhos das crianças

                                       para a escola e pôs reflexos novos

                                       nas míseras vidraças lá do fundo

 

                                       Há quem diga que o sol foi longe demais

                                       Alguns dos pobres desta freguesia

                                       apanhou-o na faca misturou-o no pão

                                       Chegaram a tratá-lo por vizinho

                                       Por este andar… Foi uma autêntica loucura

                                       O astro-rei tornado acessível a todos

                                        ele que ninguém habitualmente saudava

                                       Sempre o mesmo indiferente

                                       espectáculo de luz sobre os nossos cuidados

                                       Íamos vínhamos entrávamos não víamos

                                       aquela persistência rubra. Ousaria

                                       alguém deixar um só daqueles raios

                                       atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

 

                                       Mas hoje o sol

                                       morreu como qualquer de nós

                                       Ficou tão triste a gente destes sítios

                                       Nunca foi tão depressa noite neste bairro

Quando ele acabou de ler o poema de Ruy Belo, no colchão da cama amarrotado, era um pensamento apenas. Uma memória. Ela estava encaixada na sua pele, como uma peça de seda, o corpo a pedir corpo, a pele na pele. Também por isso a poesia fazia sentido. O homem lembrou-se do quotidiano porque ali, àquela hora, preferia não saber nem de sol ou de ruas, de bairros ou espectáculos. O mundo, outra vez, podiam ser só eles. Que importância é que isso tinha? Mais do que o sol que pode morrer em qualquer de nós.