POEMA QUOTIDIANO
É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo
Há quem diga que o sol foi longe demais
Alguns dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar… Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?
Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Quando ele acabou de ler o poema de Ruy Belo, no colchão da cama amarrotado, era um pensamento apenas. Uma memória. Ela estava encaixada na sua pele, como uma peça de seda, o corpo a pedir corpo, a pele na pele. Também por isso a poesia fazia sentido. O homem lembrou-se do quotidiano porque ali, àquela hora, preferia não saber nem de sol ou de ruas, de bairros ou espectáculos. O mundo, outra vez, podiam ser só eles. Que importância é que isso tinha? Mais do que o sol que pode morrer em qualquer de nós.

Bela pressoterapia!
Sabe tão bem, não sabe (a outra, a propriamente dita…)? Com uma boa penumbra e sob a música de fundo, a acompanhar. É o que me vai salvando ‘por estos dias’!
🙂 é mesmo isso, Laura, pressoterapia e poesia, rima e não faz mal. Beijo e bom fim de semana