O verão de todos os silêncios de Maria Manuel Viana


Patrícia Reis,

“Há muitos anos li, não me recordo exactamente onde, mas talvez num policial, que as esquadras de polícia de Nova Iorque entram de prevenção nos dias muito quentes. O calor, explicava o autor cujo nome já esqueci ou nunca soube, enlouquecia as pessoas, e a violência subia assustadoramente, acompanhando o termómetro.
Enquanto esses picos de calor não desciam, os polícias mantinham-se nas esquadras, à espera de mais um homicídio. E, todos os verões, o que eles previam acontecia.
Alguns anos mais tarde, ouviria muitas vezes uma formulação semelhante para explicar o feitio ou a personalidade dos habitantes da cidade em que B. nascera. Sempre que alguém se excedia, fosse por que razão fosse, por vezes pelos motivos mais banais, eu escutava a sentença fatal:
não tem culpa, nasceu assim.

E assim, curiosamente, o meu mundo dividia-se em dois, nesse tempo: as pessoas a quem era permitido dizer e fazer tudo porque o muito calor (ou o muito frio, apesar de nesses dias pouco se sair à rua e a indulgência ser menor) era o verdadeiro culpado e as outras, as estrangeiradas, isto é, eu.” O Verão de Todos os Silêncio, Maria Manuel Viana, absolutamente excelente, edições Planeta.

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