Havana, Julho de 2012


Pedro Correia,

 

Em pleno século XXI, ainda há quem seja preso por dar vivas à liberdade. Neste mesmo mês de Julho de 2012, ainda há quem seja ameaçado pela polícia política por citar Gandhi. Em Cuba, a ilha-prisão. Gerida há 53 anos por dois irmãos. Como resumia há três anos o Observatório de Direitos Humanos, referindo-se ao irmão mais novo, “um novo Castro, a mesma Cuba”. Nada de significativo mudou de então para cá. Toda a informação permanece asfixiada sob torrentes de propaganda. O regime continua a promover purgas ocasionais entre os seus serventuários, o que apenas se destina a reforçar as estruturas repressivas. E as desigualdades, em diversas situações do quotidiano, são cada vez mais chocantes.

Foi um mês particularmente infeliz para Cuba. Por ter desaparecido Oswaldo Payá, um dos mais tenazes opositores à ditadura. Prémio Sakharov dos Direitos Humanos, concedido em 2002 pelo Parlamento Europeu, e promotor do inédito Projecto Varela, que reuniu 11.020 assinaturas de cidadãos cubanos em defesa de um referendo pela abertura democrática, logo inviabilizado pela petrificada cúpula do regime.

Sem ele, tudo volta a ser mais difícil. Como escreveu Yoani Sánchez no seu blogue, “ninguém devia morrer antes de alcançar os seus sonhos de liberdade”.

16 comentários em “Havana, Julho de 2012”

  1. Também em Cuba, novo presidente dos USA, a mesma Guantanamo.
    O Império escolhe a vilania, e faz opinião sem delito, e quem publica o politicamente incorrecto arrisca até a extradição.

    Quem cresceu com a RDA e RFA sabe que o nome democracia pode ser usado em contextos opostos.
    Reunir dez mil assinaturas para maior abertura democrática seria notável, especialmente noutros Países de indiscutível cultura democrática… justamente por ser isso indiscutível.

    Por isso, antes de avaliar o estado de Cuba, convinha ver o estado perigoso a que chegaram as ditas democracias de referência…

    1. Não há equivalência moral entre uma democracia e uma ditadura, por muito que alguns se esforcem nessa equiparação. Seria o mesmo que comparar o Portugal do pré-25 de Abril com o Portugal democrático, por maiores erros ou imperfeições que tenham ocorrido desde a vigência do actual regime constitucional.

      1. Não é isso, Pedro. Estamos num “pragmatismo” da “interrupção, a constituição segue dentro de momentos”.
        Como sabe, a última constituição votada até foi a de 1933. E se a de 1976 até pode ter passado por “consensual”, já as posteriores revisões nada tiveram disso, nem as sucessivas perdas de soberania pela integração europeia.

        Constituições não votadas tanto as há nas “democracias”, como nas ditaduras.
        Quando a prática é os programas apresentados não serem cumpridos, onde fica a escolha popular?
        Para não falar no novo pragmatismo, como o da Itália, que tem um governo não eleito.

        Tudo se resolve nas eleições?
        Não é bem assim…
        Aliás, o próprio Pedro Correia, noutra altura apontou falhas eleitorais recentes, que permitiram suprimir 120 mil votos em Setúbal e acrescentar 40 mil em Viseu.
        http://albergueespanhol.blogs.sapo.pt/873318.html

        Como sabemos, da esquerda à direita, fala-se pouco disto… e fala-se pouco dos cadernos eleitorais que andam sistematicamente com milhões de eleitores fantasma.

        1. Caro Da Maia: a democracia é um bem demasiado frágil, como há muito venho salientando. Não devemos cometer o erro de pensar que está adquirida para sempre. Só quando um povo a perde é que acaba por lhe dar o devido valor. Demasiado tarde.
          Não podemos de forma alguma colocar a par o nosso sistema político – com imprensa crítica, opinião livre, uma oposição activa, órgãos jurisdicionais independentes, um Tribunal Constitucional que não hesita em desautorizar medidas nevrálgicas do Executivo, o poder militar submetido aos decisores políticos – com o cubano, onde não há parlamento, existe apenas um partido, toda a oposição está no exílio ou na cadeia, a existência de imprensa livre é um sonho eternamente adiado, a censura é omnipresente, as forças armadas confundem-se com o poder político e há mais de 53 anos que o país não tem um “líder supremo” sem o apelido Castro. Imagine: é como se Salazar tivesse governado entre 1932 e 1985…
          O nosso sistema é imperfeito? Certamente que sim. Essa é, aliás, uma característica genética das democracias: a imperfeição. O texto a que alude visa corrigir essas imperfeições, apenas isso. Ao contrário das democracias, as ditaduras são “perfeitas”. E os sistemas totalitários somam à utopia da perfeição uma que lhe é inerente – a do homem novo, reconstruído pela engenheria social alimentada pela ideologia que nega o mais ínfimo contraditório. Nem que seja necessário matar, torturar ou encarcerar milhões de “homens velhos” para produzir um novo.

          1. O da Maia está-se nas tintas para a Democracia.
            Se fosse “Democracia Popular” aí sim já era outra coisa.
            Desde que o Partido controle tudo no Estado Totalitário como em Cuba.
            Pergunto-me o que faz com que certas pessoas queiram controlar avidas dos outros e julguem sequer que tal é possível.

          2. Caro Pedro,
            se Cuba tivesse desenvolvido 3 partidos todos ligados aos irmãos de Castro, aparecendo como figuras patriarcais de bastidores, será que Cuba passaria a democracia?
            A independência do poder judicial e de imprensa ficaria com primos e sobrinhos, para não ser tudo para os irmãos. A imprensa poderia ser crítica para os partidos, falando de futilidades e gaffes, nunca discutindo o regime. A opinião poderia ser livre, porque seria inconsequente, já que a oposição activa seria um simulacro de oposição. Nem era preciso ter cadernos eleitorais falsificados…

            Se o regime de Castro produzisse esta mudança, não passaria a ser mais democrático, mas assemelhar-se-ia no funcionamento às restantes “democracias”.
            Esconderia a sua perfeição com a imperfeição aparente, na falha de escrutínio, na escolha dos eleitos, e na inevitabilidade da corrupção pela inexistência de perfeição.

            Meu caro, quem ainda cresceu no “antigamente” sabe como os longos regimes nos aparecem como naturais e não se questionam. Os que assumem pequenas falhas, iludindo as grandes, são mais perfeitos do que os que tudo escondem com recurso à violência.
            Nisso estamos de acordo!

            Só quando os muros nos tocam, ou nós tocamos nos muros, é que percebemos os limites da liberdade.

          3. Caro Da Maia, continuamos a divergir no essencial, o que não impede o diálogo civilizado, naturalmente. Mas interrogo-me: este diálogo que travamos não seria sequer possível em Cuba, onde há restrições de toda a espécie em matéria de direitos fundamentais, desde logo a liberdade de contestar nas redes sociais as instituições do estado, do partido e das forças armadas (que nesse país se confundem).
            Continuando a pensar em Cuba, julgo vir a propósito uma frase de Simón Bolívar, libertador de uma grande parte da América do Sul: “Nada é tão perigoso como deixar permanecer um homem muito tempo no poder.”

          4. Caro Pedro,
            se venho a este blog é justamente porque é possível o diálogo civilizado com os autores.
            Nem sempre estamos de acordo, o que é natural.
            Mas digo mais… há uns anos atrás eu até subscreveria largamente a sua posição, só que agora tenho obrigação de ser mais céptico.

            Para haver contestação precisa de uma estrutura organizada, as redes sociais são perfeitamente toleráveis se não se formar uma nova oposição.
            Por exemplo, o movimento “espontâneo” do 12-3-2011 será que foi tão espontâneo?
            Por que não se repetiu? – o problema resolveu-se?

            Não falamos de oposições “dentro do sistema”, que o PCP, BE ou a CGTP coordenam. Essas oposições têm uma agenda política própria e procuram civilizar o descontentamento. Também porque o pessoal não é parvo, e já não alinha tanto nessas manifestações “faz de conta”, que servem agendas alheias.
            Só quem for surdo e cego é que não percebe que o pessoal começa a ganhar consciência da manipulação, mas não se manifesta mais do que em bocas aqui e ali.
            Também toda a gente sabe que os sistemas de informações não estão propriamente a dormir, e o anonimato é o que é…

            Por isso, o Pedro pode ter grande parte dos escândalos escancarados na praça pública, mas não vai ver um jornalista como Frederico Duarte Carvalho a expor o que compilou em prime-time da TV:
            http://paramimtantofaz.blogspot.pt/search/label/Camarate
            … e isto, como é óbvio, é apenas para falar numa estória sobre a História condicionada.

            Ainda assim, ninguém vai para as montanhas da Serra da Estrela fazer uma guerrilha, como fizeram os manos Castro.
            Agora, quem julgar que assim tem o problema contido acho que se engana profundamente.

  2. E estes comentadores, DA MAIA e AMD, mereciam ir viver para Cuba, para aí fazerem oposição ao seu governo ilegítimo. Obstinados, pelo menos, seriam.

    1. Certa vez uma deputada do PCP disse-me que tinha gostado muito de fazer férias em Cuba porque, ao contrário do que sucede noutros locais, não via lá sinais de prostituição. Fiquei a pensar que terá passado férias em Cuba, no Alentejo. Porque na outra Cuba, que conheço muito bem, a prostituição é visível até para um ceguinho. A única inovação é semântica: em vez de prostitutas, por lá chamam-lhes ‘jineteras’.

  3. Caro Pedro Correia

    Permita-me o reparo:

    Acho indelicado não mencionar a fonte donde se baseiam as notícias dos post’s , neste caso :

    o “Avante”

    Saudações

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