POEMA QUOTIDIANO
Ruy Belo
Patrícia Reis,
POEMA QUOTIDIANO
Nunca digo que sou empresária. Acho a palavra frouxa e presunçosa, o que é um preconceito, claro, mas eu quero lá saber. Aliás, nesta fase (que já dura há uns tempos) não me importo com nada do que me possam dizer ou dizer sobre mim.
Tomei uma vacina de imunidade contra a maldade das pessoas que, às vezes, é eficaz; outras, nem por isso.
Uma coisa é certa. A minha empresa tem sete pessoas. Vai ter menos. Todas têm uma licenciatura com quatro anos de cadeiras completas e assistidas. Eu também e ando a trabalhar há 26 anos.
A única glória disto é chegar a casa, dar um curto texto a ler a um miúdo de 12 anos que remata dizendo:
Pois, mas o conto da Yourcenar é melhor.
E depois pensar:
Sim, sim, daqui a dois anos vais estar triste por não seres uma salsicha nobre como aconteceu ao teu irmão.
E o que é que uma coisa tem a ver com outra? Muito simples: larguei os jornais, as redacções, essas coisas estranhas, para ser mãe e decidi que levaria o meu papel com a seriedade de tribunal de contas digno de respeito. Na minha bolsa de valores, a empresa era apenas o pretexto para ir apanhar os miúdos às 16h20 ao portão da escola.
A empresa era uma forma de vida para suster uma outra forma de vida e, muitas vezes, fui acusada de me apagar para estar com os miúdos.
Tu não vais a festas, tu não estás, tu não apareces, quem não aparece, não existe.
Quero lá saber, pensava então e penso agora, sobretudo quando sei que o mais novo leu a Yourcenar, os Contos Orientais, acrescento, e que sabe a diferença entre os impressionantes e o extraordinários (trocadilho que lhe ficou e que se aplica bem à História de Arte), tendo uma fixação no Tolkien desde os 9 anos (há adultos incapazes de ler o Tolkien, mas adiante…).
Pouco me importa o que se diz ou se prevê porque o mais velho teve 20 a Literatura Portuguesa e tem um blogue que nos coloca todos a um canto (bay21.blogspot.com). Os miúdos que foram o meu chão, que estão a ir à vidinha. Crescem, não é? São um empréstimo e nós passamos a ser uma espécie de corrimão ao qual se encostam ou não.
Assim, a empresa tem de se tornar o meu caminho e o meu país, este país que adoro, onde me assumo europeia até ao mais pequeno osso, diz-me que agora não dá:
Tens de restruturar, procurar trabalho em Angola ou coisa que o valha, aparecer nos sítios para ser alguém, colocar um néon na cabeça a dizer Mind Me.
Como não tenho o tal feitio que deveria ter para ser empresária hoje vou escrever na folha de adesão a um programa comunitário que não ganharei: jornalista. Afinal de contas, não posso escrever mãe, pois não?
Com todos os cuidados morriam de amor as moças, muito translúcidas e veias de fora, algumas trigueiras, outras morenas, suspirando por amados com quem não chegavam a trocar uma caricia, às vezes apenas um bilhete escondido, um favor de uma alma portadora. O amor era, então, um jogo, uma sedução e tinha a dose de perigo suficiente para que nada mais tivesse qualquer importância.
Os cientistas dizem que o amor dura cinco anos, na verdade dois, os últimos são uma espécie de exercício de “aguentar” ou de “ser crescido”. Posto isto, chegados aos seis anos de casamento e quase dez de relação, a pergunta que se podia fazer seria de índole indiscreta e, porventura, pouco simpática, temerosa, em sobressalto. É bom quando não se fazem perguntas, conclui há muito. Assim como conclui que quando duas pessoas falam muito sobre a relação que têm, a dita cuja já era. Pode ser uma ideia minha, é certo, e cada um vive com as suas ideias e anda para trás e para a frente, diz e contradiz num exercício de condição humana que garante que ser-se coerente uma vida inteira é um enorme acto de desinteligência.
Hoje um adolescente disse-me, com desdém, que não acredita no casamento. Ri-me e respondi:
Eu também não acreditava.
E o que é isso de acreditar num casamento nos dias que correm? É um risco e uma exigência, é como ter fé e assumir que se tem. Ser cristão é difícil, ser católico, com todas as dúvidas, é uma eterno compilar de questões. Mas ficamos tão sozinhos sem Deus e é tão exigente viver sem esse consolo.
Ficamos também sozinhos por não acreditarmos que o plural composto com outra pessoa possa ser um caminho que precisa de ser tratado com os mesmos preceitos do século XIX. Como sempre, o amor é um problema, uma questão, um mistério, passem os séculos que passarem, leia-se a literatura que se ler. Brindar está em desuso e, a esta hora, é impossível, não tenho como. Seis anos depois de tudo a casa está vazia e não faz mal. Daqui a pouco será distinto. Será, como na vida, uma possibilidade e um mistério.
Dormir mal é um aborrecimento, em especial para o corpo, embora não favoreça a cabeça, já se sabe. A mulher saiu do banho com este pensamento e, ao espelho, julgou-se numa barraca de feira popular, uma tenda de espelhos mágicos de aumentar e diminuir.
A cabeça dela estava – sem dúvida – muito mais pequena e as pernas mínimas.
Não se preocupou muito com isso. Quando quis chegar à torneira percebeu que a mão, o ante braço, o braço, não conseguiam alcançar o pretendido. Estava a minguar, tal como a bisavó lhe dissera em tempos. A mulher viu-se, assim, nua, na casa de banho, a perder tamanho, sem qualquer dor.
Quando estava já sem corpo, restando apenas a cabeça minúscula, fechou os olhos e suspirou. Podia acordar.
amanhã faz um ano que morreu Big Man, Clarence Clemons, o saxofonista de BS durante 40 anos.
O miúdo disse que ia crescer, entregou os peluches e decidiu reformular o quarto.
Decidiu ainda a profissão a seguir e os livros que não têm qualquer importância.
Decisões.
Decisões importantes.
A mãe pouco podia fazer ou dizer e, por isso, deixou-o debitar as tais decisões e ouviu com cuidado e respeito. No fim, disse-lhe que crescer era bom, que há livros que são para a vida e que ninguém tem uma bola de cristal, logo é impossível saber que profissão se vai ter daqui a dez anos.
O miúdo concordou mais ou menos.
A mãe levou os peluches para o quarto dela.
Georges Victor Mathieu d’Escaudoeuvres foi um dos primeiros artistas a contestar a abstração geométrica. De uma forma veemente. Na década de quarenta do século passado fez parte de uma série de manifestações a favor da arte sem constrangimentos, classismo ou fronteiras. Mathieu apresentou Pollack à França e, por consequência, à Europa. Aém da pintura, os seus interesses centravam-se na arquitectura e design.
Era membro da Academia das Belas Artes francesa desde 1975. A obra que deixa é simplesmente notável.
Tenho uma amiga que diz que os mortos não morrem, andam por aí.
Tenho outra que acredita que morrem, que neste país tão pequeno, é fácil esquecer nomes como Cardoso Pires, Natália Correia, Vergílio Ferreira, António Charrua, Eduardo Prado Coelho e por aí. A lista é enorme, infelizmente. A estes juntou-se hoje Maria Keil, aos 97 anos, uma mulher absolutamente extraordinária que deixará saudades.
Muitas saudades para quem tiver memória, claro.
A mulher não sabe fazer contas mas sabe que tem estas horas todas à sua frente: 24 vezes quatro, ou seja, um tempo não previsto para ficar no seu canto, escrever, ler, dormir, não fazer nada. Por isso, fecha-se, como as obras embargadas, coberta de tapumes e vai para dentro. O marido dá-lhe iogurte com comida de pássaro. Ela sabe o que isso é: passas e nozes, coisas dessas. Deixa-se estar. Não pensa na segunda-feira. Não pensa. Vinte e quatro vezes a multiplicar por quatro.
http://mundopessoa.blogs.sapo.pt
Este é um blogue que podia ser centrado na actividade da Casa Fernando Pessoa (Lisboa), mas é, como o Poeta, uma multiplicação generalizada: neste blogue encontramos os lançamentos dos próximos livros (pessoanos ou não), as conferências sobre poesia, literatura, os novos ensaios, os documentários em exibição, entre outras coisas (permite ainda uma série de links interessantes a analisar com atenção).
Sim, podia ser apenas um diário da actividade diferenciada da Casa, mas é mais. Deduzo que o fantasma do senhor Pessoa, se andar por ali, ficará contente, ele que era, como escreveu, plural. A escolha deste blogue tem uma razão de ser: dia 13 de Junho a Casa comemora o nascimento do escritor e há várias actividades, das 10h da manhã à meia-noite, o serviço educativo a funcionar em pleno e muitas surpresas, até um recital de piano. Manjerico e Pessoa? Nada melhor.