Com todos os cuidados morriam de amor as moças, muito translúcidas e veias de fora, algumas trigueiras, outras morenas, suspirando por amados com quem não chegavam a trocar uma caricia, às vezes apenas um bilhete escondido, um favor de uma alma portadora. O amor era, então, um jogo, uma sedução e tinha a dose de perigo suficiente para que nada mais tivesse qualquer importância.
Os cientistas dizem que o amor dura cinco anos, na verdade dois, os últimos são uma espécie de exercício de “aguentar” ou de “ser crescido”. Posto isto, chegados aos seis anos de casamento e quase dez de relação, a pergunta que se podia fazer seria de índole indiscreta e, porventura, pouco simpática, temerosa, em sobressalto. É bom quando não se fazem perguntas, conclui há muito. Assim como conclui que quando duas pessoas falam muito sobre a relação que têm, a dita cuja já era. Pode ser uma ideia minha, é certo, e cada um vive com as suas ideias e anda para trás e para a frente, diz e contradiz num exercício de condição humana que garante que ser-se coerente uma vida inteira é um enorme acto de desinteligência.
Hoje um adolescente disse-me, com desdém, que não acredita no casamento. Ri-me e respondi:
Eu também não acreditava.
E o que é isso de acreditar num casamento nos dias que correm? É um risco e uma exigência, é como ter fé e assumir que se tem. Ser cristão é difícil, ser católico, com todas as dúvidas, é uma eterno compilar de questões. Mas ficamos tão sozinhos sem Deus e é tão exigente viver sem esse consolo.
Ficamos também sozinhos por não acreditarmos que o plural composto com outra pessoa possa ser um caminho que precisa de ser tratado com os mesmos preceitos do século XIX. Como sempre, o amor é um problema, uma questão, um mistério, passem os séculos que passarem, leia-se a literatura que se ler. Brindar está em desuso e, a esta hora, é impossível, não tenho como. Seis anos depois de tudo a casa está vazia e não faz mal. Daqui a pouco será distinto. Será, como na vida, uma possibilidade e um mistério.

Muito provavelmente, aquilo que vou escrever, não passará de um lugar-comum, no entanto, traduz a minha opinião, cuja, neste momento em que escrevo é esta, mas que daqui a um momento poderá ser outra.
😉
Tenho sérias dúvidas, se colocar a questão do casamento no campo da fé ou da crença, seja acertada.
Do meu ponto de vista, a questão é meramente biológica e as predisposições de acreditar ou de esperar que o outro também acredite, não passam de armadilhas que a natureza espiritual nos lança, com o fim de estimular a dinâmica biológica.
E ao servir-me da biologia, não me refiro exclusivamente ao acto sexual, mas sim, ao de preservação da espécie, que envolve também outros tão díspares como a necessidade de nos alimentarmos e de nos mantermos física e espiritualmente sãos.
Sim, nós somos seres metafísicos e, essa condição, só por si, impõe-nos um número de exigências só alcançáveis em comunhão. A tendÊncia para colmatar esta necessidade comum, impele-nos a optar por um ou mais meios que julgamos ou sentimos serem os mais aptos para esse fim, ou equilíbrio (chamemos-lhe, o que melhor nos soar).
O casamento… bom, essa instituição como muitos o consideram, não existe na génese humana, foi criada como forma corruptiva de unir dois seres. E porque se define corruptiva, faz uso de meios, que retiram aos que nela se envolvem, o direito de uso e propriedade de si mesmos e da sua liberdade.
Portanto, cara Patrícia; do meu ponto de vista, do alto da minha imensa ignorância da matéria em apreço, penso que não se trata de acreditar ou ter fé no casamento, mas sim, de estar disposto(a) a, em troca de uma suposta estabilidade física e/ou emocional, abdicar de uma determinada liberdade e, durante quanto tempo.
Ou então não é nada disto e o casamento pode ser um perfeito caleidoscópio, que não nos cansamos de agitar, mostrando-nos a cada agitadela uma nova e brilhante composição de cores. Ou então… um caleidoscópio que tememos agitar, limitando-nos e consolando-nos com a mesma imágem, cada vez que nos atrevemos espreitar pelo buraquinho.
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Bartolomeu, um casamento é uma montanha russa, a fé é um mar de dúvidas e uma terra imensa de certezas. O ser humano interroga-se. Bem, mal, mais ou menos. Tem dias. As coisas são o que são. O plural constituído por duas pessoas só é uma limitação da liberdade se quisermos, posso até garantir que é a maior libertação de todas, no entanto, mais uma vez, depende sempre de quem e como e onde e porquê. Não há generalizações possíveis no amor. Bom domingo:)
Belo texto Patrícia. E um excelente retrato de quem, ainda nos dias de hoje, se recusa, dolorosamente, a deixar de acreditar.
Um beijo grande, querida, aqui ando a acreditar, seguindo os melhores exemplos que tenho à mão:)
Patrícia, este é um dos melhores textos que escreveste aqui. Perfeito de forma e de linguagem. O tema, claro, presta-se a muitos voos. O teu é de mestre.
Ivone, a tua generosidade é imensa e agradeço, mas é exagerada embora, quando calha ao amor, o exagero seja uma máxima prevista na cartilha. Um beijo
Dizer que gostei é dizer pouco.
Pedro, tem um bom domingo e leva daqui um beijo de quem te beijo com carinho
Gostei muito, muito, do teu texto. Gosto sempre de constatar que há mais quem teime em acreditar em causas perdidas, são as únicas que vale a pena defender com a vida. E uma vida a dois (com ou sem casamento) é uma causa perdida a prazo, acho eu. Mas é também uma das mais belas utopias de sempre, e eu gosto de utopias. Uma possibilidade e um mistério, como dizes. Um desafio também, e não são os desafios que nos mantêm vivos?
Parabéns pelos seis anos, minha querida, e que venças muitos mais com esse espírito. 🙂
🙂 não sei se é uma causa perdida a prazo, porventura tens razão, mas é o último gesto romântico que nos resta: acordar todos os dias e escolher aquela pessoa. Mesmo que a odeies de momento, por qualquer razão, não deixas de a amar por isso. Beijo