Certo burro teimava, como é próprio das asininas bestas, em comer. Uma burrice, já se vê. Sendo que esta, dirão mentes despertas, só se pode combater com inteligência. Foi o que o dono do burro fez. Convocando não mais de dois neurónios que lhe sobravam ociosos de todos os seus permanentes e elevados raciocínios, decidiu cortar à ração lentamente. E a cada dia, o burro passou a comer um pouco menos. A vida faz-se de pequenos nadas. E um nadinha menos de ração a cada dia representa, ao fim de algum tempo, uma poupança considerável. Exactamente nisto devem ter pensado os génios que gerem o hospital de Viseu. Pelo visto, e vendo a história ao preço a que a comprei ao Jornal de Notícias, decidiram que os doentes diabéticos podem passar muito bem sem o leite e a meia-dúzia de bolachas de água e sal que lhes eram servidas pelas 23h00. Os doentes, ao que parece, vão resistindo à prova e sobrevivem cerca de 12 horas sem comer. É certo que um ou outro já terão amanhecido descompensados. Mas, o que é isso perante a poupança que o corte de um copo de leite e meia-dúzia de bolachas já não deve ter gerado… É claro que na história do burro, a coisa acabou por não correr exactamente como o seu genial proprietário previra. Então não é que o bicho, no preciso momento em que se habituara a não comer, não dando já qualquer despesa, acabou por morrer? Em todo o caso, nada temamos. A analogia entre a história do burro e a dos doentes diabéticos do Hospital de Viseu não é perfeita. É que, se por acaso, algum deles, um dia destes morrer por hipoglicemia, até isso poderá ter as suas vantagens. Afinal de contas, os mortos não consomem medicamentos, não tomam pequeno-almoço, nem almoçam, nem jantam. Imagine-se só a poupança. Por outro lado, e se virmos bem, na história do burro temos a besta asinina e o seu dono que é também uma boa besta. No caso do Hospital de Viseu, as bestas são os génios da gestão. Deviam premiá-los em conformidade. Pagando-lhes o salário apenas em leite e bolachas de água e sal. Na exacta quantidade que pouparem cortando-as aos doentes diabéticos. Nem mais, nem menos. Com um bocadinho de sorte, pode ser que consigam sobreviver.
Adenda em 2 de Julho: chamo em todo o caso a atenção para os comentários da Isabel e do Artur Mendes. Espero que os factos que aqui nos trazem se confirmem, caso em que a minha indignação terá de voltar-se, naturalmente, para a peça jornalística.

Pois é Rui, este post não é para rir. É para lamentar o nada em que a vida, de muitos, se vai tornando.
Excelente sugestão a do salário para eles…
Bom domingo.
Anabela
A ser verdadeira a notícia, é absolutamente lamentável, Anabela. A esta hora já não vale a pena desejar-lhe bom fim-de-semana. Desejo-lhe bom início desta que aí vem.
Bem que esta notícia me parecia uma história mal contada. Segundo o Correio da Manhã:
“Doentes bebem água da torneira
O Hospital de São Teotónio, em Viseu, deixou de distribuir água engarrafada aos doentes internados, com excepção dos que têm sonda ou por indicação médica ou do dietista. O suplemento nocturno continua a ser servido em todos os serviços, a partir das 21h00.
A água era distribuída todos os dias, em garrafas de 1,5 litros, mas há um mês isso deixou de ser feito, para “evitar desperdícios”, disse ontem ao CM o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Tondela Viseu, Ermida Rebelo, adiantando que os doentes podem beber água da torneira, que é filtrada antes.
Aquele responsável negou que tenha sido cortado o suplemento nocturno, como foi noticiado ontem, garantindo que “todos os doentes têm acesso a chá ou leite aquecido com bolachas, que é servido às 21h00”. Os diabéticos e outros doentes que tenham indicação médica podem receber também um outro reforço mais tarde.
Os diabéticos “não podem ficar muito tempo sem se alimentarem – três horas no máximo – e antes de adormecerem têm de fazer uma pequena ceia, para não entrarem em hipoglicemia”, explicou ao CM Luís Gardete Correia, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal.”
Bem sei que é o Correio da Manhã contra o Jornal de Notícias, mas uma história é verosímil e a outra não.
Claro que a ideia de obrigar quem quer que seja, deputados ou doentes internados, a beber água da torneira parece raiar a tortura neste país…
Esperemos então que seja como o Correio da Manhã relata, Isabel. Estaríamos então perante (mais) um caso de absoluta incompetência jornalística. Para não dizer pior. Em todo o caso, melhor assim.
Caro Rui Rocha
O lóbi da “saúde” é diabólico e criminoso…
Leia-se:
Comunicado à Imprensa
1º A noticia veiculada, sobre o alegado corte das ceias dos doentes diabéticos é completamente falsa;
2 º Lamenta-se que, apesar do desmentido prévio do Conselho de Administração, a jornalista tenha insistido na redacção da notícia;
etc
(tenho o comunicado em meu poder)
A bem da verdade talvez fosse “legau” o Amigo escrever outro post… contra a incúria de certos jornalistas e jornais… Quanto não teria recebido ( por baixo da secretária) a jornalista para publicar esta notícia? É licito perguntar… Uma mentirosa não merece p beneficio da dúvida.
Obrigado
A ser como aqui nos diz, AMendes, a minha indignação dirige-se, naturalmente, para o tipo de jornalismo que dá origem a estas notícias.
A situação merece, como sugere, uma análise mais detalhada. De momento, colocarei uma adenda ao post para chamar a atenção para o seu contributo e para o da Isabel.
Criminoso é a palavra certa. Algumas notícias (melhor seria chamar-lhes fretes) deviam dar direito a prisão preventiva por “motivos de alarme social”.
Eu, por mim, gostava de ver esse comunicado num post aqui no Delito de Opinião bem em evidência para toda a gente ver. É em momentos como este que lamento não ter mais dois zeros nos meus 17 amigos no Facebook.
O desmentido do Conselho de Administração encontra-se aqui:
http://www.daotv.pt/index.php?option=com _content&view=article&id=6526:viseu-hospital-ldeixa-diabeticos-1 2-horas-sem-comerr&catid=49:viseu&Itemid=94
Não consegui encontrar o contacto do Provedor do Leitor do JN.