Isto não é um conto


Patrícia Reis,

Faço contas de mercearia: o deve e o haver em folhas distintas. Não chega.

Há números que significam dinheiro e não chegam.

A vida é tão rara, canta o Lenine. Mas eu não tenho qualquer paciência e não posso parar e, por isso, refaço as contas. É o meu exercício de ignorante enquanto empresária e começo por ser empresária na minha família. O deve e o haver.

Nunca compreendi os números, admito. Dois e dois são quatro? Ok, mas se um dois estiver grávido? Pois. O excesso de imaginação tem estas coisas. Daqui a uns dias, o atelier que mantenho fará 16 anos e tem os dias contados. Daqui a uns dias o meu avô irá morrer. Já sabemos todos. Posso recusar a ideia, mas é certo.

A vida é tão rara. Mas como não tenho paciência e não há cura para o mal, o Lenine de novo, nem posso exercitar o acto de dignidade de sofrer o que for. O sofrimento pode ser um número muito comprido. Pode ser um telefonema que terei de fazer a um fornecedor para dizer… O deve e haver. Se isto fosse um conto, que não é, é a minha vidinha, seria indiferente, porque a literatura é uma suspensão. Na verdade, tudo isto é uma fuga, porque eu queria era ver as asas do meu avô em direcção ao céu.

5 comentários em “Isto não é um conto”

  1. É simples mas nem sempre é fácil, tente, pode que ainda consiga. Sim, a imaginação perde-se nas agruras do tempo.
    Chama-lhe maturidade eu chamo inevitabilidade, seria bom viver o nosso sonho…
    Pergunto-lhe -vive o seu?
    A vida é como é, o sonho é como a imaginamos.

  2. Não há nada que eu possa escrever que alivie o que sente, até porque cada um de nós sofre sempre só. Tudo o que posso fazer é enviar-lhe um abraço e dizer-lhe que compreendo, por razões que não cabe aqui elencar, o que sente.

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