a crise


Patrícia Reis,

A crise é viajar pela cidade de Lisboa e ver cartazes a dizer: arrenda-se, vende-se, trespasse. A crise é ver o número de sem abrigos na Gare do Oriente a crescer. A crise é uma chamada para os bombeiros quando um velho só quer dois dedos de conversa. A crise é não saber como explicar que sim, são restos outra vez. A crise é ver o fundo do armário. A crise é ver os computadores vazios de coisas. 

 

O melhor da crise é puxar pela imaginação, rir na cara da crise como quem ri na cara de alguém que desprezamos e sabemos ser má pessoa. O melhor da crise é a oportunidade de fechar uma porta e abrir uma janela. O melhor da crise é, finalmente, ver como algumas pessoas têm de cair na real. O melhor da crise é saber dar a volta.

7 comentários em “a crise”

  1. Já agora, que seja de 180 e não 360 graus, tem sido esse o problema das crises cíclicas deste nosso Portugal…

  2. Crise é ver que até as lojas dos chineses estão às moscas e a fechar…

    E, sim, o bom da crise é constatar que muitas pessoas perderam uma certa pomposa importância apenas porque sempre confundiram ter com ser, ou fortuna com riqueza.

  3. Pessoalmente não acho muito boa ideia rir “na cara de alguém que desprezamos e sabemos ser má pessoa”, porque lá está, é “má pessoa” e é nosso dever perceber do que é que estas pessoas são capazes, quando nos rimos na cara delas. Prefiro ignorar e passar à frente. Essa energia que vou despender, canalizo-a para algo mais útil, como tentar dar a tal volta a determinadas situações.
    Quanto à crise, acredite que muitas portas se fecham e muitas janelas também e…ao mesmo tempo.

    Acho que esse ditado foi criado para iludir a malta.

  4. Belo texto, gosto particularmente do segundo paragrafo. Imagino que seja a sua costela de empreendedora a falar. Durante 35 anos, tambem via as coisas desse modo, porque tive a minha conta de crises: o PREC, 1983-85, 1991-93, e toda a primeira decada deste seculo. Agora que dobrei os sessenta, confesso que estou farto: reformei-me, porque já me falta a força para abrir janelas e a imaginação para dar a volta.

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