Maria Teresa Horta


Patrícia Reis,

Ontem, na entrega do Prémio Máxima a Maria Teresa Horta calhou-me o privilégio de falar sobre ela. Assim:

A Maria Teresa disse:
Estou a fazer marmelada mas como me pode surgir um poema e depois perco a noção do tempo, ligo um alarme. Para não deixar queimar os marmelos com o açúcar. Não posso é deixar que o poema me escape da mão, percebes?

A desobediente disse tudo isto com uma calma imensa, um

riso pequeno guardado no canto de cada palavra.
Podíamos esquecer o cinzento lá de fora e ainda o estranho barulho na cabeça. Somos uma aparição uma da outra entre a marmelada e o poema. Agitamos a solidão, uma da outra, na panela já gasta. Uma colher de pau na mão, sempre na direcção do relógio. Sem pressa.

A minha relação com Maria Teresa Horta é feita destes pedaços. E, através dos seus olhos cor de mar, vejo o mundo de outra forma. Desde que a descobri, por fim, a palavra que melhor me serve surgiu com enorme clarividência: desobediência. Ela é desobediente e eu sou igualmente feita desse molde que não se encaixa em nada.

Há muito que nos separa, a começar pela idade, mas isso pouco nos importa. As nossas conversas fluem como água fresca num riacho e, de repente, pela noite, chega um poema numa letra a azul que a Maria Teresa escolhe e, no fim, a assinatura para aqueles que ama: beijo-te de te adorar. Nunca ninguém me tinha escrito nada de semelhante: beijo-te de te adorar. O amor entre as mulheres, amizade que nos cola e não se explica, nasce de uma forma algo inusitada. É um mistério. E, ao mesmo tempo, um regresso a um lugar de consolo, de renascimento.
Eu, a admiradora, ela, a escritora, poetisa, activista que tanto me tinha dado.

Leio a Maria Teresa desde os meus 13 anos.

No ano passado li e reli as Luzes de Leonor e nunca perco a sua poesia de vista. Preciso que esteja perto. E preciso ainda de um sentido ético que existe na Maria Teresa e que, ligado à desobediência e a um sentido político de cada acto individual, define a sua maneira de estar e ver o mundo. Não é – nunca foi ou será – uma mulher como as outras, uma acomodada, comodista, politicamente correcta, calada, submissa. No entanto, nada disto invalida o outro lado da moeda. É que com a Maria Teresa aprendemos a paixão, o empenho, o entusiasmo, a não desistência que é diferente da militância cega e fundamentalista.

Os poemas ditos eróticos de Maria Teresa são poemas de amor e ela carrega em si, na sua pele, na escrita, um amor imenso por pessoas que a rodeiam, do marido, Luís, ao filho Luís Jorge, à nora e filha de coração Antónia e aos netos Bernardo e Tiago. Mas há mais outros laços e rotinas que a encantam. As sextas-feiras da família. O bolo que faz, a marmelada que pode queimar e, acima de tudo, a ideia de que a escrita está na ponta dos dedos, no fim ou princípio de um caudal de alma que será derramado, diariamente, num poema. E um poema pode ser uma frase ou um desabafo. Ou, para quem saiba entender, um exercício de expulsar a tristeza. Pelo menos de tentar expulsar a tristeza.

Há um certo espelho da vida da Teresa que eu encontro na minha. Talvez por isso tenha demorado tanto tempo a ter a coragem de lhe falar. Depois disso nunca mais nos largámos e sei que será assim.

Esta homenagem, ou qualquer outra, comove-me e enche-me de orgulho, já que todas as vezes que alguém acarinha, lê e apreende o que Maria Teresa Horta anda a escrever há mais de 52 anos (faz este ano 52 anos de vida literária, teve o seu primeiro prémio como um prémio de carreira da revista Máxima em 2008 e o Dom Dinis no ano passado) eu acredito que fico menos sozinha no mundo. Tudo graças a esta mulher absoluta, a minha nossa senhora dos anéis.

10 comentários em “Maria Teresa Horta”

  1. Estou a fazer marmelada

    Só senhoras muito velhas e com muita paciência ainda fazem marmelada hoje em dia. Até me admira que ainda haja quem faça, porque dá imenso trabalho descascar os marmelos, tirar-lhes as sementes e depois ficar duas horas a mexer a massa enquanto ela coze e atira borbulhas cá para fora. A minha mãe fazia, há muitos anos atrás.

    1. Discordo completamente consigo…tudo na vida dá trabalho Luís Lavoura, também se fosse fácil, nem tinha graça alguma, o gozo é ultrapassar as várias etapas e atingir o fim com êxito. Eu não sou velha( acho) e sou impaciente e já fiz, posso garantir-lhe que vale a pena. Os poemas da MTH, associados á cozinha, só podem resultar num consolo para a alma. Ora experimente lá, vai ver que vai adorar fazer marmelada.

      1. Pois, eu não tenho paciência para descascar os marmelos nem para estar a mexer numa enorme panela de massa (a minha mãe usava um tacho enorme, que cobria todos os quatro bicos do fogão, porque os marmelos do marmeleiro eram muitos) durante horas.
        Por isso limito-me a lavar os marmelos, parti-los em pedaço, retirar as sementes, e depois guardá-los no congelador. Como-os mais tarde cozidos em vapor, ou às vezes assados.

    2. A minha mãe faz marmelada e geleia de marmelo todos os anos. Dá bastante trabalho, sim, descascar os marmelos em quantidade suficiente tanto para a marmelada como para a geleia, feita das cascas e das sementes que, portanto, não se podem retirar de qualquer modo, aproveitando o máximo, muito cuidadosamente quando há bicho. E que paciência!, estar de volta das pastas borbulhantes durante horas, esperando e remexendo até que atinjam a consistência que ela quer, repetindo incontáveis vezes que não, ainda não está pronta para provar sobre pão caseiro e para não ser apressada que, por muito bem que cheire, marmelada quente cai mal no estômago. Todos os anos. Só faz 54 em Dezembro, ora. 🙂

    3. Ainda no sábado passado estive a fazer marmelada com a minha mulher. Todos os anos fazemos, pelo menos uma vez, o que não é nada mau.
      Eu descasco-lhe os marmelos, e ela mexe, mexe…

  2. Gostei de ler este texto, Patrícia. Também gosto muito de Maria Teresa Horta. Eu, que não sou nada destas coisas, o ano passado (ou teria sido no anterior?) fui, de propósito, à Feira do Livro, com dois livros da sua Poesia Reunida (que já tinha) para ela autografar (um para mim, outro para oferecer). Mas não consegui. Falei com o editor que me disse que ela estava doente e por isso tinha cancelado… Fiquei triste.
    Mas é como dizes: não devemos perder a sua poesia de vista.
    Quanto à marmelada, já tenho em casa a deste ano (feita pela minha mãe)! 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *