Até já, João *


lauraramos,

LA COGIDA Y LA MUERTE A las cinco de la tarde. Eran las cinco en punto de la tarde. Un niño trajo la blanca sábana a las cinco de la tarde. Una espuerta de cal ya prevenida a las cinco de la tarde. Lo demás era muerte y sólo muerte a las cinco de la tarde. El viento se llevó los algodones a las cinco de la tarde. Y el óxido sembró cristal y níquel a las cinco de la tarde. Ya luchan la paloma y el leopardo a las cinco de la tarde. Y un muslo con un asta desolada a las cinco de la tarde. Comenzaron los sones de bordón a las cinco de la tarde. Las campanas de arsénico y el humo a las cinco de la tarde. En las esquinas grupos de silencio a las cinco de la tarde. ¡Y el toro solo corazón arriba! a las cinco de la tarde. Cuando el sudor de nieve fue llegando a las cinco de la tarde cuando la plaza se cubrió de yodo a las cinco de la tarde, la muerte puso huevos en la herida a las cinco de la tarde. A las cinco de la tarde. A las cinco en Punto de la tarde. Un ataúd con ruedas es la cama a las cinco de la tarde. Huesos y flautas suenan en su oído a las cinco de la tarde. El toro ya mugía por su frente a las cinco de la tarde. El cuarto se irisaba de agonía a las cinco de la tarde. A lo lejos ya viene la gangrena a las cinco de la tarde. Trompa de lirio por las verdes ingles a las cinco de la tarde. Las heridas quemaban como soles a las cinco de la tarde, y el gentío rompía las ventanas a las cinco de la tarde. A las cinco de la tarde. ¡Ay, qué terribles cinco de la tarde! ¡Eran las cinco en todos los relojes! ¡Eran las cinco en sombra de la tarde! * Ao João Carvalho

Amigos, amigos, ensinos à parte


lauraramos,

Tenho filhos crescidos. Senão, arranjaria a maneira de retomar uma pequena luta e empenhar-me-ia em contaminar os decisores (pais e professores) para as evidências demonstrativas que movem a European Association Single Sex Education (EASSE).
É verdade. Confesso que exulto quando vejo confirmados, de maneira autorizada, os juízos que a experiência me fez construir acerca das desvantagens do ensino misto, passada que está a era da desigualdade de oportunidades educativas e do apartheid social que levava a separar meninos e meninas, por causa do temor de enrolanço fulminante entre as partes ou dos funestos efeitos do seu livre convívio na paz das famílias e das paróquias em geral.
O assunto é interessante. Mas nunca alimentei qualquer disposição apriorística para ele até aos dias em que tive de assumir o papel de mãe-educadora, vagamente a contra gosto (mas alguma vez os meus ascendentes meteram o nariz na minha vida escolar? Tempos idos.)

Digo-vos que era um título difícil: aguentar aquelas reuniões de pais, ouvir os longos discursos circulares dos progenitores carenciados de tempo de antena, radiantes por encontrar uma plateia caída dos céus. Ou, pior ainda, suportar a apologética estafada, óbvia e tantas vezes medíocre dos directores de escola, sentindo que confundiam claramente a prática com a prédica, o sujeito com o objecto, a realidade com a ficção.

A maior parte das vezes calei-me: “piquei o ponto” para não prejudicar a prole por delito de ausência; bichanei com alguns outros sofredores cépticos e afins; e saí irritada com a perda do meu precioso tempo.
Depois, quando em casa cumpria o meu papel e me empenhava em levar os filhos pelos trilhos certos (os seus e muito seus próprios trilhos), esbarrava nas provas constantes de um ensino desajustado do intelecto masculino e de uma avaliação voltada para parâmetros monocórdicos, sem imaginação, eivados de vícios. Errados, já não tinha dúvidas.

Salvo honrosas excepções, lembrarei sempre aquela força magnética negativa dos gabinetes dos directores de escola, ou de turma, convertidos em cenário de encontros difíceis entre mães ou pais dos rapazes – é claro, muito dotados mas sempre ao contrário da batuta -a contrastar com a paz celestial das breves reuniões – toantes e consoanantes – dos abençoados progenitores das meninas…

Afinal tínhamos razão.

Longa vida à EASSE.

Recomeçar


lauraramos,
O novo ano não é dado a votos superlativos.
A desmotivação é óbvia. O desalento é humano. A lamentação? Chata, inútil e incomodativa… Mas não deixa de ser quase imperiosa.
Ainda assim, nós, as vítimas destas grandes pequenas perdas e tormentas, enjoamos mais do que um bravo marujo português numa caravela batida no mar alto. Um daqueles que deitava a sola de molho, para o outro dia jantar.
Porque será? Porque verdadeiramente não temos norte? O Norte astrolábico que eles tinham?
Pois.
Vamos, gente! BOM ANO!
Recomeçar…
Contigo ou sem ti (… ó crise).

Nobre povo ou A culpa é da Troika


lauraramos,

– Boa tarde. Candidatou-se a uma oportunidade de trabalho neste serviço público. Lemos o seu CV e concluímos que possui as habilitações necessárias ao desempenho do cargo que temos necessidade absoluta de preencher. Está interessada?

– Sim, porque estou desempregada. Tenho trabalhado como operadora de lojas de vestuário e acessórios; angariadora de contratos de adesão ao Dreamcard em centros comerciais; e ultimamente como operadora de caixa no hipermercado Universal.

(muitas queixas)

– Está, portanto, habituada às funções de atendimento ao público. Não terá dificuldade em lidar com várias centenas de pessoas que se dirigirão a este espaço para consultar bibliografia especializada. Trata-se da sala de leitura da nossa biblioteca.

– Sim, seria uma experiência óptima. Gosto muito de livros e trabalharia sentada, a sala é muito acolhedora, tem muita luz, computadores… E o horário?

– Normal, das 9 às 5 e meia, salvo alguma necessidade especial.

– O contrato é o modelo habitual do Instituto de Emprego? Um ano, prorrogável por mais 6 meses?

– Exactamente. Terá é de começar a trabalhar já amanhã, uma vez que é o último dia útil do ano civil e a prestação tem obrigatoriamente de iniciar-se em 2012. Depois só voltará ao serviço no dia 2 de Janeiro.

– Ai, isso é que não pode ser. Tenho uma viagem marcada.

(o júri entreolha-se, aturdido)

– Pois, entendo. Por nós não haveria problema algum, mas a questão é que a sua não integração até ao dia 31 de Dezembro invalidará todo o processo. Teremos de voltar à estaca zero. Novo cabimento prévio, nova candidatura a esta Medida, nova abertura de vaga, novas audições. Provavelmente nem voltará a ser seleccionada, como compreende.

– Pois. Mas eu tenho esta viagem.

– Para o estrangeiro?

– Não, mas já está paga.

– Claro, compreendemos o prejuízo. Mas perceba que estas regras são impositivas e compreensíveis. A sua aceitação só nos chegou há 3 dias. E nós temos absoluta necessidade de admitir uma pessoa. Tem consciência de qua sua não disponibilidade a fará perder uma oportunidade de trabalho durante, provavelmente, os próximos meses? E de que nós próprios corremos o risco de deixar de garantir o modelo de funcionamento deste espaço público, que deve estar aberto durante 9 horas diárias?

– Tenho. Mas não dá mesmo.

– Pense bem, Maria das Dores.

– Não posso. Tenho esta viagem.

(segue-se uma acta peculiar. Ou o que nos calha em sorte).

Sulfúricas


lauraramos,

Embora Portugal precise de melhor Europa, uma Europa mais solidária e mais visionária, temos de deixar de ser um problema.
Mas a Europa tem de saber encontrar soluções mais consistentes. As elites intelectuais e os políticos europeus têm de convergir. Portugal terá que contar acima de tudo com a capacidade de resistir e responder positivamente aos desafios mais difíceis.
O país nunca teve, como hoje, recursos humanos com uma qualidade tão próxima da dos países europeus de referência. Da Ciência, ao Pensamento, às Artes e à Inovação, à abertura aos outros, à racionalidade dos comportamentos individuais e colectivos, à sabedoria e bom senso do nosso povo. Por outro lado, dispomos hoje também de todas as condições para valorizar melhor os nossos recursos naturais, do mar à floresta e à agricultura e indústrias extractivas.
Assume prioridade da maior importância não dar passos em falso, não propor soluções que não estejam convenientemente estudadas, fundamentadas e testadas.
Finalmente, a mobilização de toda a sociedade passa pela bem preparada comunicação dos resultados que as políticas venham a proporcionar, a cuidada justificação dos desvios em relação ao prometido. Só assim as políticas assumidas e decididas poderão contribuir para projectar e construir um país mais livre, mais justo e mais moderno.

Artur Santos Silva

5/12/ 2012

Uma baixa de peso


lauraramos,


Paulo Varela Gomes dá neste momento a sua Última Lição.
‘Do sublime em arquitectura’.
Olho este anfiteatro e, mais do que nele, penso sobretudo nos outros, os muitos que aqui se apinham e são os que verdadeiramente ficarão privados de qualquer coisa de vulto, porque não vão poder mais contar com a pedagogia do mestre: impaciente, perfeccionista, rebelde, exagerado, incessantemente à procura da verdade e concluindo, desafrontadamente, pela incerteza dos cânones e pelos antagonismos da realidade.
Mas que deixarão de poder contar, acima de tudo, com a pedagogia do homem: pragmático e no entanto utópico, lutando contra as injustiças, os abusos, a gritante imperfeição do comodismo.
Sim, esta assembleia é, verdadeiramente, a despojada, porque um professor como ele marca, sobretudo, ao ensinar a pensar de maneira diferente, a alimentar a dúvida, a dasafiar os limites.

Quantos restarão como ele?…

Um dos apresentantes diz, com infinita graça, que a aula que se segue irá de certeza ser uma anti-aula. Porque, como sempre, o Paulo acabará por provar, no fim, e tudo dito, que o seu contrário também poderia ser verdadeiro.

 

Esta não será, naturalmente, a sua última lição.
Espero que os jornais e as televisões se voltem a lembrar dele.

Urgentemente.

Os complexados de sempre


lauraramos,

Cresci, literalmente, a ver crescer a esquerda monopolista.

Eles tomavam conta dos nossos plenários, impunham a sua vontade com recurso a métodos anti-democráticos e, depois de tomado o poder, eram tão conservadores, ou mais, do que aqueles que tinham apeado.

Sofri na pele essa ditadura de opinião. E sofri no terreno sempre que dei voz, com outros, à não resignação, quando era preciso coragem (incluindo a coragem física) para bater o pé e destapar as carecas aos novos totalitaristas da verdade.

Eram malcheirosos e sebentos, pardos e feiosos. E tinham olhos de 40 anos.

 

Agora aprenderam a tomar banho.

Mas continuam tão velhos e complexados como sempre.

Claro.

 

Blogue da semana


lauraramos,

Vá-se lá saber porquê… lembra-me um caminho de tílias em abóboda onde apetece passear de cá para lá e de lá para cá, voltando sempre ao princípio e nunca chegando verdadeiramente ao fim, já que regressaremos sempre no dia seguinte.
O tileiral chama-se Malomil, um sítio em que tudo é muito: muitas fotos, muito texto, muita página, muita linha, muita estrada, muito livro, muito tema, muito humor sorrateiro.

Estava destinado a vir parar aqui ao Delito já há uns tempos, desde que descobri que o meu irrepetível amigo António Araújo tinha emergido das mil bibliotecas em que se perde para entrar nesta coisa mal frequentada da blogosfera.

Mas pronto, agora é mesmo o blogue da semana, porque merece (embora não liguem nada aos comentadores…)

E também porque conta há umas semanas com a colaboração de um abnegado e fecundo parceiro aqui da nossa casa.

Fair enough, não acham?

Comprazei-vos.

O Mais e o Menos


lauraramos,

Fui às minhas reservas fotográficas para reavivar a memória e vos falar do Jorge Barreto Xavier que eu conheci.

Nesta altura ainda não era político. Ou antes, era. No melhor sentido do termo… Interventor, empenhado, consistente, profundamente conhecedor dessa disciplina difícil e fascinante a que se chama Gestão das Artes, free lancer comprometido no ‘bom governo’ da cultura.

Neste projecto inteiramente da sua autoria, por exemplo, revelou bem quanto tinha, em doses certas, de pensamento e de acção. E demonstrou uma observação apurada e reflectida acerca dos riscos em que incorrem as administrações culturais desnorteadas, sem capacidade de planificação, empolgadas pela quantidade em detrimento da qualidade (o mais e o menos…).
Mais uma vez, a receita que aqui se aplicava ao local aplicar-se-ia também, como uma luva, ao nacional (ia pensando eu na altura).

Depois disso, sim: veio a ser o Director-Geral das Artes de Gabriela Canavilhas, com quem conseguiu trabalhar com grande dificuldade. Demitiu-se mais tarde, usando de uma discrição notável, a contrastar com o show off  ruidoso, despeitado e sobranceiro da Ministra que jamais entendeu quem tinha realmente nas suas fileiras, confundindo-o com as restantes figuras de xadrez arregimentadas por critérios festivaleiros e pouco atentos ao mérito.

Não há tempo mais difícil do que este para conseguir o crescimento do “lugar político” para a Cultura e a sofisticação das equipas decisoras que o Jorge Barreto Xavier preconizava.

Mas parece-me – aviso já – que podem contar com rigor e clarividência. Com uma forte noção do bom uso dos recursos disponíveis. E com umas contas diferentes acerca do mais e do menos dos caminhos e dos resultados da acção política.

Foi uma boa aposta.

 

Governo mais pobre


lauraramos,

 

Francisco José Viegas pediu a demissão do cargo de Secretário de Estado da Cultura, cujas funções deixará de exercer no final deste mês.

Isto, sim, é um empobrecimento sem retorno.

Trabalhou diligentemente e sem queixumes com um orçamento franciscano.

E deixa agora a marca profunda  da sua forma de ser discreta, activa e determinada.

A mesma com que aceitou representar um pelouro formalmente diminuído e com que soube  ignorar inteligentemente os flatos dos fundamentalistas ofendidos e a soberba das Castafiore petulantes, cortando cerce os golpes de opereta que, sim… também pululam pelo pelo meio do trigo da  cultura nacional, como todos sabemos.

Isso mesmo: Francisco José Viegas combateu várias coisas importantíssimas, mas guerreou como ninguém o vácuo enganador das aparências.

Esperemos vê-lo de retorno à blogosfera de autor, depois de uma recuperação rápida, que bem merece.

Novos pobres


lauraramos,

 Os homens só se determinam e animam quando sabem o porquê e para quê dos sacrifícios que lhes pedem.

( Assembleia da República 1976 )

Pois é. E a predisposição para a lucidez  e para a consciência dos riscos era bem mais forte nessa altura.

Agora, novos-ricos da democracia, esquecemo-nos do quanto custou a ganhar e do quão fácil será perdê-la.

Só conseguimos ver o imediato.


Pensar duas vezes


lauraramos,

Absolutamente de acordo.

Eu diria que essa é a grande necessidade nacional, sem prejuízo da rua.

Parar para pensar. Ler as fontes. E não as notícias das notícias das notícias.

Exigir qualidade à nossa indignação.

Avaliar com a própria cabeça.

Lembrar Pavlov.

Recusar a facilidade do logro que é usar o nosso descontentamento como catalisador de outras ordens de valores. Ou então perder as peneiras. É consoante os casos.

Zoopolítica nacional


lauraramos,

 

– Isto aqui parece-nos um rato?

É espantoso como não conseguimos enxergar o fundo das questões: é preso por ter cão, preso por não ter.

A agenda escondida dos partidos também não é nacional. Parece que interessa criticar tudo a eito, mesmo aquilo que se vai fazendo, coerentemente, e bem, porque de facto se dói, deve doer a todos.

Falta encontrar o burro.

Balada do tempo breve


lauraramos,

  Luiz Goes (1933-2012)

 

Foi-se  uma voz  única, singular, irrepetível. Um cantar como não se tinha ouvido nunca. Um registo de barítono inimitável, pelo timbre e pela excelência. Pelo sentimento profundo, nascido das entranhas. Saído dos poros da autoria das suas próprias músicas e também das suas muitas e belíssimas letras.

Não, este não é mais um qualquer requiem. Goes era arrebatador e nunca faltou no prato dos meus cd´s. Ficará para sempre, porque não vou amá-lo pelo tempo breve que dura o voo da ave sobre um campo de neve…

Luiz Goes foi, com José Afonso, o expoente máximo da canção de Coimbra do século XX.  Ambos criaram estilos completamente novos rompendo tradições, o que, como sabemos todos, é o caminho certo para as manter vivas.

Hoje, a floresta arde nos subúrbios de Coimbra: olho ao longe e penso que serão, neste horror humano de destruição e perda, as cinzas das suas partituras, dos seus versos, das suas serenatas. E sobretudo das suas emoções, que convertia nas nossas próprias comoções.

Jamais conseguirei explicar a quem não o entenda o encanto indizível do fado de Coimbra. Que de elitista passou a provinciano, de bizarro a patético, mas continua, firme: fado, sempre fado, num género único que faz dele a única canção de cariz local que é cultivada pelos… forasteiros.

Talvez só saiba ouvi-lo quem vive o seu contexto.

Quanto aos outros, nem sabem o que perdem. Mas como chegar  a tudo, neste país de melómanos e de intensiva criação musical? Percebo.