O Mais e o Menos


lauraramos,

Fui às minhas reservas fotográficas para reavivar a memória e vos falar do Jorge Barreto Xavier que eu conheci.

Nesta altura ainda não era político. Ou antes, era. No melhor sentido do termo… Interventor, empenhado, consistente, profundamente conhecedor dessa disciplina difícil e fascinante a que se chama Gestão das Artes, free lancer comprometido no ‘bom governo’ da cultura.

Neste projecto inteiramente da sua autoria, por exemplo, revelou bem quanto tinha, em doses certas, de pensamento e de acção. E demonstrou uma observação apurada e reflectida acerca dos riscos em que incorrem as administrações culturais desnorteadas, sem capacidade de planificação, empolgadas pela quantidade em detrimento da qualidade (o mais e o menos…).
Mais uma vez, a receita que aqui se aplicava ao local aplicar-se-ia também, como uma luva, ao nacional (ia pensando eu na altura).

Depois disso, sim: veio a ser o Director-Geral das Artes de Gabriela Canavilhas, com quem conseguiu trabalhar com grande dificuldade. Demitiu-se mais tarde, usando de uma discrição notável, a contrastar com o show off  ruidoso, despeitado e sobranceiro da Ministra que jamais entendeu quem tinha realmente nas suas fileiras, confundindo-o com as restantes figuras de xadrez arregimentadas por critérios festivaleiros e pouco atentos ao mérito.

Não há tempo mais difícil do que este para conseguir o crescimento do “lugar político” para a Cultura e a sofisticação das equipas decisoras que o Jorge Barreto Xavier preconizava.

Mas parece-me – aviso já – que podem contar com rigor e clarividência. Com uma forte noção do bom uso dos recursos disponíveis. E com umas contas diferentes acerca do mais e do menos dos caminhos e dos resultados da acção política.

Foi uma boa aposta.

 

7 comentários em “O Mais e o Menos”

  1. usando de uma descrição notável

    Neste blogue que afirma pretender defender a língua portuguesa, convem saber distinguir claramente entre descrição (que é da família do verbo descrever, ou seja, uma descrição consiste em dizer como é que uma determinada coisa é) e discrição (que é da família do adjetivo discreto, ou seja, ter discrição é não dar nas vistas, passar desapercebido).

    Isto são coisas que tanto se distinguem na velha como na nova ortografia.

    1. Estava mal, muito mal, Luís Lavoura! Obviamente, tem razão. Já corrigi. Vou deixar de escrever depois da meia noite, quando já não tenho paciência para rever…

  2. Acredito que foi uma boa escolha, mas será então um desperdício de qualidades. Porque “recursos disponíveis” para a Cultura é coisa que não existe, e ninguém pode fazer omeletes sem ovos, sem frigideira e sem lume…

    1. Como diria o jovem centrista Manuel Monteiro, amigo do nosso Adolfo…permite-me que discorde, Ana 🙂
      O vício do nosso raciocínio é tamanho que, quando os recursos são escassos, achamos que pura e simplesmente não há recursos. Mas há! Estão inscritos no orçamento de estado, certo? Uns milhõezitos ‘ de nada, eu sei, mas pagos por todos nós…
      Ora, será que os ditos recursos não são hoje em dia escassos para todos, sem excepção? Porque é que continuamos a pensar como se o tesouro público comportasse todas as justiças a que o Estado Social deveria estar vinculado? Não dá, Ana, não dá. Não dá objectivamente. E não porque ideologicamente tais compromissos sejam maus. São até muito bons, entendamo-nos. Mas a família portuguesa que todos somos está em graves apuros de liquidez. Não compra sapatos novos e põe meias solas, e isto se quiser continuar a usar meias. E isto se não quiser acordar um belo dia de pé descalço, bafejada, com sorte, por um belo par de tamancas, daquelas que só se punham aos domingos, para ver a Deus.
      A Cultura sempre sofreu de subfinanciamento , é histórico. É mau, péssimo, mas é histórico. E note-se que nem sempre com a inocência dos seus gestores vitimizados, num discurso às vezes quase nauseante e recorrente no meio.
      Já nem te remeto para a Maria Filomena Mónica…
      Só te digo que a mim me descansa muito, justamente porque me interesso pela Cultura, que alguém como o novo Secretário de Estado vá gerir os nossos recursos disponíveis para essa pasta. O tais milhões, que existem mesmo… Mais precisamente, 190,2.
      Milhões.

      1. Permito-te tudo, Laurinha, e até gosto de ver o teu optimismo. O meu, que já é proverbial, está a esfumar-se… 🙂

        (E se és minha amiga por favor não me remetas para a Maria Filomena Mónica… remete-me antes para o António Barreto!)

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