Eu diria que essa é a grande necessidade nacional, sem prejuízo da rua.
Parar para pensar. Ler as fontes. E não as notícias das notícias das notícias.
Exigir qualidade à nossa indignação.
Avaliar com a própria cabeça.
Lembrar Pavlov.
Recusar a facilidade do logro que é usar o nosso descontentamento como catalisador de outras ordens de valores. Ou então perder as peneiras. É consoante os casos.

Não li Pavlov.
E sem menosprezar nem desvalorizar os sábios, pouco me interessa seguir doutrinas.
Tenho uma questão para apresentar:
Faz sentido materializar a esperança?
Pavlov era um sábio, sim, mas não um filósofo. E com a invocação dele eu referia-me simplesmente ao que ele estudou: a psicologia do comportamento humano. O imediatismo de muitos dos nossos reflexos, como, por exemplo, reagir a certos estímulos sempre e invariavelmente da mesma maneira, irreflectidamente.
– Se faz sentido materializar a esperança? Então não faz?
É contra a desesperança que me insurjo.
Pois não era, mas por coincidência do destino, para alem de ter uma frágil base de filosofia, minha companheira é psicóloga e como já suspeitava, Pavlov é um fisiólogo, não um psicólogo. Referir o mesmo no contexto que referiu pode ser comparável a qualificar os manifestantes a ratos de laboratório, agem mecanicamente ou, indo ao seu encontro, parece-me que pretendeu dizer que chegamos a um ponto de rotura. Aceito.
Nem tanto, por favor… Comportamento humano. Nosso. De todos nós, ninguém excluído. E os ratos de que fala não supõem ofensa, supõem ciência. Além disso, só como nota, a psicologia é uma disciplina pós-fisiologia. Pavlov ou Freud foram (apenas…) precursores.
… perfeito, Laura. Mas depois disso tudo, imaginar e agir.
Mas claro, Fernando, suponho sempre isso, sem qualquer dúvida.
Agir é fundamental. Mas com sentido crítico e sem pulsões primárias (a não ser quando o primário nos for negado). Ou então, se quiseres, com pulsões aguerridas, genuínas mas não ingénuas, realmente ao nosso próprio serviço.
O que exige o desejo da boa informação, o gosto da autonomia, e às vezes, também, a capacidade de resistir ao impulso de lavrar doutrina feita à pressa, só pelo gosto de cada um se ouvir a si próprio.
Se quiseres uma síntese, e lembrando o João Pedro George, não é fácil dizer bem…
Entendo-te. E se não te entendo mais não é por culpa minha, é por fazer parte de uma geração em que a ingenuidade fez parte da genuinidade, e assim abriu caminhos. E bem novos. Hoje sabemos mais. Mas em parte nenhuma da História saberemos o suficiente, pelo que as multidões continuarão a descer à rua, por pulsões tão primárias como as que estão por exemplo na DUDH, todas por cumprir. Ou por mero sentido de injustiça, como aconteceu já duas vezes entre nós. Isto porque a injustiça não é coisa que venha nem nos livros nem nos jornais, é uma coisa que se sente.
Também eu te percebo, Fernando. O que seria – e teria sido – de nós sem isso? O romantismo das certezas, o toque irresistível do clarim, a impaciência para pensar 2 vezes… a chama incendiária de uma ideia.
– Quem, com neurónios, pode resistir a isso? Ao chamamento de uma ideia (sublinho)?
Não posso concordar mais contigo.
Mas eu falava de outra coisa bem diferente. E queria precisamente sublinhar a necessidade da não confusão entre as 2 situações.
Na rua há de tudo! Ele há a água benta das maciças procissões.
Há a redentora DUDH, que bem lembras. Há Boston e o 1º de Maio. Há a Marselhesa.
Etc, etc, etc.
E depois também há o ‘Terror’, com Marat e Robespierre… O povo ululante, aplaudindo as fogueiras da santa Inquisição… E até o gonçalvismo… Todas são coisas “da rua”, chamemo-las pelo nome que têm
Não te contradigo, só não comparo as situações, porque não as acho comparáveis.
E porque acho que a cultura não é uma boina à Che, nem um chá das 5 num Museu.
É qualquer coisa que nos obriga, pela acumulação de saberes que a vida nos dá (caso sejamos livres e sem lojas de qualquer espécie), a distinguir a escala das cores da nossa indignação.
Também estou contigo, Laura, na distinção entre grupos e rebanhos, ou alcateias. Lembro só que esta nossa troca de acertos veio a propósito de considerações de vários lados sobre duas manifestações de grupos de indignados, assimiladas por muitos colunistas a uma ameaça às instituições senão à própria democracia. Quando não o foram. A questão de fundo, Laura, é que Portugal chegou muito atrasado, como noutras coisas, à sociedade civil, que agora desce, pacífica, à rua, e isso mete medo, muito medo, a todos os casinos, incluindo à esquerda conservadora. Se cada um foi pelos seus próprios motivos, todos foram por um igual: o sistema esgotou-se, esta democracia esgotou-se, já não serve, é preciso reinventá-la, aprofundá-la, radicalizá-la. Tu chamaste, e bem, a palavra “ideia”. Tocaste no ponto, o ponto que assusta tudo o que é institucional, e por definição conservador, que cerrou fileiras mais uma vez, e, repito, da esquerda à direita mais caceteira. Enfim, quando eu disse que a rua não basta, que é preciso agir, apelava à recuperação de soluções que ficaram pelo caminho antes de sermos alegremente engolidos pelos ordenados mínimos e o bem-estar social, cujo resultado está à vista. Há alternativas, há soluções, sim senhora. O que passamos não é uma fatalidade. E não há que ter medo nem da rua nem da Ideia.