“Passos Coelho mentiu quatro vezes”
Miguel Sousa Tavares
(afirmando que o PM tinha mentido ao declarar que o CDS tinha tinha estado envolvido na decisão sobre o novo pacote de medidas de austeridade)
Expresso 15/09/2012
“Passos Coelho mentiu quatro vezes”
Miguel Sousa Tavares
(afirmando que o PM tinha mentido ao declarar que o CDS tinha tinha estado envolvido na decisão sobre o novo pacote de medidas de austeridade)
Expresso 15/09/2012
«O partido tem de ser mais maduro e tem de reforçar a credibilidade do próprio Governo»
Filipe Anacoreta Correia
Conselheiro Nacional do CDS
Não gosto da Merkel e também sou, em geral, contra o primo alemão.
É por isso que fico estupefacta ao ver quanto a memória é um bem escasso entre os portugueses.
Parece, portanto, que os Hércules de sofá continuam a abundar (só não muda o assento). E que o sentido crítico continua, década após década, a ser um bem tão mal distribuído: ora nenhum, ora excessivo.
Já na cama em que eles próprios se deitaram, estão semprea jeito para rapidinhas: orgasmos apressados ou ejaculações precoces. Não conseguem aguentar uma coisa mais difícil, estruturada e desafiante.
Coitados de nós: somos um povo pouco dado a melhorar de vida… Não passamos do básico adolescente, verdes e afogueados como se não houvesse amanhã.
Cada um tem aquilo que merece.
Eu cá é que não me revejo nisto.
A Bélgica poderá vir a considerar o piropo como uma contra-ordenação, punível com coima.
(E eu que pensava que os célebres assobios já só aconteciam em aldeias e vilas…)
Ora, esta coisa jurídíca das normas de mera ordenação social é necessária, sim senhor. E eu detesto a má criação e a ordinarice.
Eduquemo-nos, pois, se o não fizemos a tempo.
Mas… que um belo piropo de um desconhecido faz bem ao espírito, ai isso faz!
Tenho uma amiga muito divertida, letradíssima e bem bonita, que aqui há tempos confessava o inconfessável: quando está em baixo, naqueles períodos que todas temos e em que fugimos do espelho – por causa de nós próprias ou de um parvo qualquer – usa um remédio santo: passear pelas obras mais próximas para ouvir uns retumbantes e desinteressados galanteios, daqueles de fazer estontear a cabeça e acreditar na espuma do momento (a ilusão da distância ajuda…).
E assim punha ela as (suas) rodas nos eixos. E a dimensão da auto-estima no tamanho certo.
Claro que já perceberam que a minha meretíssima amiga está longe de…. isso mesmo: ser parva. E sabe rir da vida.
Eu própria, certa vez, tinha um telemóvel foleiro que incluía nos sons disponíveis o assobio da praxe. Esse mesmo: o das obras…
Nunca o seleccionei, é bom de ver, e só o mostrava por brincadeira. Mas um dia, em sessão presidida por um deputado lindo de morrer, alguém me ligou e aquela coisa disparou no ar não sei como, juro… Gritante e aparentemente intencional, como ninguém no seu perfeito juízo poderia deixar de julgar.
Eu na segunda fila, aflita; tudo atrás a a rir, deliciado, em gargalhadas abafadas; e o eleito da nação quase corado como Jesus Cristo, tal qual o fado da Samaritana.
Pois: uma desgraça pessoal, apesar de ter feito o telemóvel deslizar para o chão e em parte incerta, res nullius. E mau grado o meu olhar inocente.
Acho mal, muito mal, messieurs les belges!
Primeiro, o direito ao piropo é bilateral. Mas qual sexismo, qual coisa!
E depois um galanteio, venha ele de onde vier e desde que em formas aceitáveis e feitas à imagem da mente do seu sujeito, faz muito bem à alma…
« A natureza das instituições avalia-se pela sua resiliência às crises. O carácter dos amigos mede-se pela sua capacidade de ficarem ao nosso lado, contra tudo e contra todos, nas horas de perigo e desgraça. O que está a suceder a Espanha, a mergulhar numa espiral de destruição, revela que a União Económica e Monetária, como está, se tornou uma sala de tortura, condenada a perecer, e que os Estados membros da União Europeia são governados por uma gente pequenina que não percebe que é preciso ajudar os nossos aliados para nos ajudarmos a nós próprios. O índice IBEX, das maiores empresas espanholas, tem hoje menos valor bolsista do que dívida conjunta dessas empresas. A dívida pública espanhola (e italiana) está a subir em todos os prazos, apesar do incrível pacote de terror económico imposto por Berlim e Bruxelas a Madrid, para a aprovação do empréstimo de cem mil milhões de euros para o sector bancário. As autonomias, com Valência à cabeça, estão arruinadas. O cínico Weidmann, o torquemada monetarista à frente do Bundesbank, aconselhou Espanha a pedir um “resgate completo”. Suprema crueldade! O FEEF está reduzido a trocos e o MEE está na mesa do Tribunal Constitucional Alemão, sob observação, pelo menos até 12 de setembro… O BCE nunca mais fez compras no mercado secundário. Prometer o que não se tem é o máximo insulto a quem precisa… Reina o silêncio dos cobardes na maioria das capitais europeias. O de Lisboa é inqualificável. Só Monti, que sabe ser a Itália o próximo alvo, expressa a sua inquietação em voz alta. Por este caminho, este será o último verão da Zona Euro. O último verão antes de uma nova, perigosa e incerta geografia política europeia, cujas dores de parto não pouparão ninguém.»
“O último estio”, Viriato Soromenho Marques
DN 24/07/2012
Gosto de quem pensa pela sua cabeça e não se deixa contaminar pela ideologia oficial (valha esta o que valha e que até pode ter razão, no seu anti-catastrofismo).
Precisamos de consciência e dispensamos euforizantes.
Mas pensemos.
Naquela terra franca proibida aos ‘pensadores’ oficiais e ainda que sem o habitual derrotismo nacional.
«Divergências, tudo bem. Traições, não.»
Miguel Relvas, a um seu opositor político
Sons e silêncios, num pacto sublime, encheram a nave do Panteão Nacional de Santa Cruz, agarrando as alturas da belíssima abóbada manuelina e descendo sobre a gente que enchia o templo de acústica excelente, sentada pelos bancos e pelo chão carcomido de pedras quase milenares, diariamente pisadas por Camões ou Fernando de Bulhões, frequentadores do seu activo scriptorium.
Na capela-mor, cantava o coro do Oriel College, um dos 39 que compõem a colegiada inglesa mais conhecida do mundo, a Universidade de Oxford.
Não eram mais de vinte vozes, dirigidas por David Mow, as que fizeram aquele feitiço monumental e inesquecível.
Nas pausas, Maria João Araújo, professora de Música da universidade britânica, explicava as várias fases do reportório, em que não faltou a maravilhosa Ave Maria de Pedro de Cristo.
Sim, na internacionalíssima Oxford, et pour cause, há um investigador especializado na produção musical ibérica dos sécs. XV a XVII, Owen Rees, que se debruçou especificamente sobre a obra musical deste mosteiro de Santa Cruz e fez renascer trabalhos de criadores portugueses desse período como Duarte Lobo, Manuel Cardoso e, claro, Pedro de Cristo, compositor coimbrão do séc. XVII.
E foi assim que saí, consolada. Orgulhosa da música do meu país, mas… pela mão vocal dos ingleses.
Ouvir, sem ver, aqui (porque sem aquele palco não há imagens que mereçam o Oriel College Choir):
Há uma racionalidade própria no caso Miguel Relvas. Todos os sabemos.
A hipocrisia e os rabinhos de palha, também estes académicos e muito bem escondidos pelos opinion makers nacionais agigantam-se, à boa maneira dos cobardolas farisaicos que vivem destas coisas e não se eximem jamais da fácil tentação de vomitar sentenças. Santas profissões…
Exemplares e moralistas, zabumbam não no pecado, mas no inimigo. Não no caso, mas no sujeito dele. Não no valor ou desvalor de uma conduta, mas no perigo eminente que o objecto da sua indignação balofa – o decisor político – representa para os seus interesses, noutras contas e noutros domínios que jamais confessam.
As palavras chave não são as habilitações literárias, e a consequente abstracção desonesta do sistema de recorrências que os ministérios da educação foram fometando a partir de 1995, da forma que todos nós, os atentos, conhecemos.
A palavra chave não é sequer a tentativa de criar um caso gémeo ao de certo do salteador do povo, quando a analogia é troca-tintas e perversa. E sobretudo quando a inacreditável colmeia de universidades, valendo, diferenciadamente, o que cada uma vale, poderá estar – mas de há muito, e não de agora -, afectada na sua dignidade académica. Umas mais, outras menos… é certo. Mas sempre fruto das regras economicistas que as tutelas criaram para condicionar a sua subsistência, não defendendo ao fim e ao cabo as melhores, mas as mais rentáveis e facilitadoras.
As palavras- chave são apenas duas.
– Privatização da RTP
– Reforma do poder local
E a coragem do ministro em prosseguir nas suas metas, com assinalável determinação.
Os privilegiados de agora – e espoliados a prazo – ululam e contorcem-se de raiva, é claro. Sonegando os motivos.
No entretanto, alguma opinião pública come palha.

Por esta altura decorrem as festas da cidade. É fácil alhearmo-nos. O som e a alacridade são os mesmos de sempre, as procissões de ida e volta entre as margens do Mondego agregam, inexplicavelmente, os milhares de caminhantes do costume. O kitsch desfila em apontamentos repetidos de diversos tamanhos, às centenas, erráticos e sem um trilho cénico, alienígenos, incompreensíveis e pungentes: são as Rainhas Santas de todas as idades, desde as que vão ao colo às que percorrem a pé as pedras tortas da calçada, novas, maduras, gordas, magras. De negro ou rosa vivo, emolduradas em véus de tule hirto e vestes com galões de debrum de ouro, baratucho.
Nem faltam Dons Dinises…
Mesmo assim houve este ano o bom gosto de reduzir o tempo dos fogos-de-artifício: nem se deu pão, nem circo, quando a austeridade assola todos por igual.
E até o anfitrião temporário da imagem (aquela belíssima escultura de Teixeira Lopes) não se furtou a invectivar os tempos, pondo os dedos nas feridas sem dó nem piedade.
Tudo pesado, neste culto, vejo que há coisas – coisas ditas menores – que são de facto maiores do que todos nós.
E eu gosto de ter por padroeira uma mulher.
Isabel de Portugal, à parte o seu carisma milagreiro herdado, enredo incluído, da sua tia-avó Isabel da Hungria, foi uma pessoa admirável.
De carne e osso, incansável obreira, recidiva infractora, incorrigível na sua liberdade de, como hoje se diria, ser solidária.
Provocadoramente, até merecer castigo e a reprovação do clero que enfrentou, desafiando sem medo a cristandade oficial, foi compassiva, sim, mas foi activa, interventora e até diplomata ao evitar, de facto, diversas guerras fratricidas.

“Levava uma vez a Rainha Santa moedas no regaço para dar aos pobres, / Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas“.
Por mim, prefiro ver nesta lenda o registo de uma falsa candura que a sua inteligência soube apresentar à oficialidade assim, desta maneira:
– Tomem lá o que querem, a minha passividade. Vede rosas, Senhor…
E foi à sua vida.
Isto que eu vou dizer vai parecer ridículo a muita gente.
Mas houve um tempo em que as pessoas se lembravam, ainda, da época da infância, da primeira caneta de tinta-permanente, da primeira bicicleta, da idade adulta, das vezes em que se comia fora, do primeiro frigorífico e do primeiro televisor, do primeiro rádio, de quando tinham ido ao estrangeiro.
Houve um tempo em que, nos lares, se aproveitava para a refeição seguinte o sobejante da refeição anterior, em que, com ovos mexidos e a carne ou peixe restante, se fazia “roupa velha”.
E não era só no Portugal da mesquinhez salazarista. Na Inglaterra dos Lordes, na França dos Luíses, a regra era esta. Em 1945 passava-se fome na Europa, a guerra matara milhões e arrasara tudo quanto a selvajaria humana pode arrasar.
Houve tempos em que se produzia o que se comia e se exportava. Em que o País tinha uma frota de marinha mercante, fábricas, vinhas, searas.
Veio depois o admirável mundo novo do crédito. Os novos pais. Pais que se enforcavam por carrões de brutal cilindrada para os encravarem no lodo do trânsito e mostrarem que tinham aquela extensão motorizada da sua potência genital.
Foram anos em que o Campo se tornou num imenso resort de Turismo de Habitação, as cidades uma festa permanente, entre o coktail party e a rave.
O país que produzia o que comíamos ficou para os labregos dos pais e primos parolos, de quem os citadinos se envergonhavam.
A agiotagem financeira, essa, ululava. Viviam do tempo, exploravam o tempo, do tempo que só ao tal Deus pertencia, mas, esse, Nietzsche encontrara-o morto em Auschwitz. Aguilhoando pela publicidade enganosa os bois que somos nós todos, os Bancos instigavam à compra, ao leasing, ao renting, ao seja como for desde que tenha e já, ao cartão, ao descoberto-autorizado.
Claro que os da política do poder, que vivem no pau de sebo perpétuo do fazer arrear, puxando-os pelos fundilhos, quantos treparam para o poder, querem a canalha contente. E o circo do consumo, a palhaçada do crédito servia-os. Com isso comprávamos os plasmas mamutes onde eles vendiam à noite propaganda governamental e, nos intervalos, imbelicidades e telefofocadas, que entre a oligofrenia e a debilidade mental a diferença é nula. Estamos nisto.
Que interessa? O Império Romano já caiu também e o mundo não acabou. Nessa altura, em Bizâncio, discutia-se o sexo dos anjos. Talvez porque Deus se tivesse distraído com a questão teológica, talvez porque o Diabo tenha ganho aos dados a alma do pobre Job na sua trapeira. O Job que somos grande parte de nós.
“A trapeira do Job” (excertos)
José António Barreiros
1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS, 13. NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO, 14. A INSPECTORA SONHA COM UM ESQUELETO
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ST. MARY MEAD E A BASE NACIONAL DE ADN
Hoje, dia 28 de Maio, José Augusto levantou-se cedo e preparou-se com esmero para a sua romagem anual. Dormira mais uma vez nos Candais, mas já viera munido da competente farpela e atavios de circunstância. Não deu grande conversa a ninguém. Entre todos, só Vivelinda e a dona da casa conheciam esta sua escapadela misteriosa, mas não lhe sabiam o destino. Em frente ao espelho do quarto de vestir do falecido, ajeitou o nó da gravata de riscas azuis, verificou os vincos das calças, meteu o relógio ao colete e por fim, com indizível gozo, cravou com cuidado o emblema na lapela de lealíssima alpaca, respirando fundo. Queria sair muito cedo, era o dia da memória. Os outros legionários aguardavam-no, ainda tinha muitas horas de viagem até Santa Comba e mais: queria ir buscar o Bentley sem dar nas vistas. O Bentley que a sua Stella lhe vendera.
Entretanto, a recuperar de uma curta noite de sonhos agitados, a inspectora espumava de frustração: pior do que um quarto espeluncoso era acordar sem poder dispor do sagrado direito a um café. O mundo era uma desordem sem cafeína… Enquanto tirava do seu fiel estojo de emergência o milagroso concealer da Bobbi Brown (um, dois, três pequenos toques e adeus olheiras) ouviu o ruído ronceiro de um aspirador e de um salto já estava à espreita, a meio do corredor da pensão. Viu-a logo, à escrava do lar, vestindo uma farda de duvidoso asseio. Chamou-a, e nada. Decidida, aproximou-se, desligou o indolente Hoover do tempo da guerra de 14 e disse-lhe, sem rodeios:
– Bom dia! Preciso urgentemente de um café duplo. Pode ir buscar-mo? – desferiu, enquanto lhe metia no bolso uma nota de 5. Atarantada, a rapariga retorquiu: – É p’ra já! M… m… mas vai chegar morno! – Não faz mal, é mesmo assim que eu gosto! Enquanto a empregada galgava as escadas, ainda lhe disse: – E que venha bem servido, ouviu?
Entrou no quarto poeirento e ouviu o telemóvel. Enfim, o mundo parecia estar a compor-se! O visor piscava: “Paulo a chamar, Paulo a chamar”. Pronto, está bem… nem que fosse o mundo a normalizar-se pela mão dos chefes (jamais perceberia como chegara ele a coordenador de equipas especiais…. só mesmo à força da lei das calças. Ou seria a lei do avental…?) Tinham-se despedido zangados.
– Paulo… então? – Helena, minha inspectora de eleição! Como estás tu? – Péssima! Vou regressar ao Ministério Público, estou farta disto…
– Calma, minha cara! Porquê tanto azedume? – O meu sentido de missão não suporta tanto, e tu não me dês sermões, sabes? Estás onde? No jogging da marginal, com a tua querida? – Helena… eu vinha justamente dizer-te que bem perto daí tenho uns amigos que te vão receber nos próximos dias, podes largar isso. Vais até Alvito e é logo na povoação a seguir: Vila Nova da Baronia. Ah, e não te esqueças de jantar no ‘Camões’, ouviste? Uma tasca imperdível!
– Hum…
– Mas o mais importante é que tenho dados novos: as amostras do cadáver seguiram para a ‘Base Nacional de ADN’. Em breve teremos respostas sobre a identidade da vítima.
– Boa, Paulo! Uma luz de civilização, enfim!
Desligou, procurou na lista “INML” (Instituto Nacional de Medicina Legal, 239854230) e perguntou: – Posso falar com o Prof. Tiago da Veiga? – Não está, minha senhora – E sabe a que horas posso ligar para o encontrar? – Ele está no Kosovo, só deverá regressar a Coimbra dentro de três dias, mas se quiser…
Não queria e desligou, indelicadamente. Preferiu telefonar-lhe: – Tiago? Olá… Helena Portas! Bem, Helena Cunha, tu sabes. Vou ser rápida:
– Podes dar prioridade aos resultados dos testes de ADN de um suspeito meu? Por favor!, senão dou em doida! Não é só uma questão de celeridade processual, é que nem imaginas: estou em plena vila das Mónicas, no meio de um deserto na planície, tenho uma família de cromos para interrogar que não encaixa em nenhum perfil psicológico e… pura e simplesmente não sou Miss Marple, percebes? Este St. Mary Mead português vai dar comigo em doida!
– Vou tratar disso, Helena. descansa. Quando nos vemos?
– E eu sei lá, Tiago… Estás mais por Lisboa do que eu, marca.
Fechou a pequena mala, prescindiu de puxar a asa telescópica – para quê? – e desceu:
– Quanto devo? – Quarenta euros.
Abafou um riso. – Olhe, pegue 41 e mande arranjar a máquina do café, faça uma quotização entre os seus hóspedes…
– Oh, também não temos cá mais ninguém: só o Sr. Sebastião Cosme (mas é segredo…) e o Senhor Fernando Justo Cusca, das Finanças…
E antes que me esqueça: deixaram uma carta para si, Inspectora. Aí tem.
Helena saiu, enfrentou o sol impenitente e o cheiro provocador dos jasmins a cobrir a sacada da pensão, toda em barras azuis. Estivesse ela em férias e…
Abriu a carta e leu, numa caligrafia encadeada e elegante, bem pouco ao gosto português, o seguinte:
– Não se deixe levar. Os medalhões não são iguais. Atente na palavra “memoriam” no verso da foto, e, se pegar numa lupa, na letra “O” do medalhão verdadeiro verá em pontilhado uma outra palavra: Cosmus.
(Este é o décimo quinto capítulo do nosso ‘cadavre exquis’, desenvolvido aqui. O próximo criador é o Luís M. Jorge.)
Já da última vez saltei para a aldeia global e escolhi um blogue americano.
Desta feita proponho um blogue inglês, do jornalista Shaun Usher (e com ele, em rigor, mais dois ou três do mesmo autor).
Letters of Note é um autêntico blogue de coleccionador, mas um coleccionador de cartas. Minucioso nas escolhas, constantemente à caça de pequenas raridades preciosas ou simplesmente encantadoras, venham elas de personalidades históricas como filósofos e escritores ou de músicos e de actores actuais, todos os que consigo tragam aquele lavrado único que refaz o ar do tempo.
Gosto de cartas… Escrevi e recebi tantas que, quando as reencontro, percebo que são documentos únicos que jamais serei capaz de repetir, agora que, há tantos anos, a electrónica tomou conta de mim e dos meus correspondentes.
É como as listas em que me desdobrei a vida toda, quase desde que escrevo. Primeiro em blocos, depois na mão, enfim nos moleskines e agora na agenda do telemóvel e no organizer do google. Listas para tudo. Escrevo-as para me poder dar ao luxo de me esquecer delas…
Não estranhem, por isso, que eu goste tanto de Shaun Usher, porque também é um colector de listas: não as minhas, mas a de gente interessante, no Lists of Note.
Divirtam-se tanto como eu.