Pela preservação do piropo!


lauraramos,

 

A Bélgica poderá vir a considerar o piropo como uma contra-ordenação, punível com coima.

(E eu que pensava que os célebres assobios já só aconteciam em aldeias e vilas…)

Ora, esta coisa jurídíca das normas de mera ordenação social é necessária, sim senhor. E eu detesto a má criação e a ordinarice.

Eduquemo-nos, pois, se o não fizemos a tempo.

Mas… que um belo piropo de um desconhecido faz bem ao espírito, ai isso faz!

Tenho uma amiga muito divertida, letradíssima e bem bonita, que aqui há tempos confessava o inconfessável: quando está em baixo, naqueles períodos que todas temos e em que fugimos do espelho – por causa de nós próprias ou de um parvo qualquer – usa um remédio santo: passear pelas obras mais próximas para ouvir uns retumbantes e desinteressados galanteios, daqueles de fazer estontear a cabeça e acreditar na espuma do momento (a ilusão da distância ajuda…).

E assim punha ela as (suas) rodas nos eixos. E a dimensão da auto-estima no tamanho certo.

Claro que já perceberam que a minha meretíssima amiga está longe de…. isso mesmo: ser parva. E sabe rir da vida.

Eu própria, certa vez, tinha um telemóvel foleiro que incluía nos sons disponíveis o assobio da praxe. Esse mesmo: o das obras…

Nunca o seleccionei, é bom de ver, e só o mostrava por brincadeira. Mas um dia, em sessão presidida por um deputado lindo de morrer, alguém me ligou e aquela coisa disparou no ar não sei como, juro… Gritante e aparentemente  intencional, como ninguém no seu perfeito juízo poderia deixar de julgar.

Eu na segunda fila, aflita; tudo atrás a a rir, deliciado, em gargalhadas abafadas; e o eleito da nação quase corado como Jesus Cristo, tal qual o fado da Samaritana.

Pois: uma desgraça pessoal, apesar de ter feito o telemóvel deslizar para o chão e em parte incerta, res nullius. E mau grado o meu olhar inocente.

 

Acho mal, muito mal, messieurs les belges!

Primeiro, o direito ao piropo é bilateral. Mas qual sexismo, qual coisa!

E depois um galanteio, venha ele de onde vier e desde que em formas aceitáveis e feitas à imagem da mente do seu sujeito, faz muito bem à alma…

43 comentários em “Pela preservação do piropo!”

  1. O único belga muito, muito fixe que conheço chama-se Tintin e não me parece que se oponha a um bom piropo. Um rotundo piropo daqueles que vêm de muito lá do fundo, de um balde de pedreiro ou de um de fato Giorgio Armani : não há nenhuma mulher no mundo que não os aprecie. Roliços, reimosos , picantes, melosos ou a transbordar de malícia e sexo rápido no vão da escada. Um piropo depois de um dia de muita raiva, ramelas e uma troca de galhardetes com a colega competente de serviço é o melhor que nos pode acontecer:«És gira de pai e mãe!»; «Tens tudo no lugar»;«Não nos conhecemos de qualquer lado?», ou a melhor que já ouvi «As tuas não são de silicone» – apesar de uma míope copa B/C – são piropos que ajudam o dia de qualquer mulher, reconciliam-na com o espelho e, muito melhor que tudo isto, põe-lhe no rosto o brilho que deveríam ter todos os dias, quanto mais não fosse para que no emprego nos perguntassem se nós somos como as hienas. Hi! Hi!.
    Não imagino a minha vida sem um bom (ou mesmo um mau) piropo. Também valem os dos filhos e o “Bom dia” mais conspícuo do senhor da portaria, nos dias em que o eye-liner não ficou às curvas. Mas isto digo eu que não sou belga.
    Confesso que,às vezes,me apetece assobiar a umas belas cãs ou uma gravata bem escanhoada. Confesso que já pensei em muitos piropos que gostava de ter dito…Multar quem diz piropos?!
    Não compreendo! E que fazer a quem está sempre de mau humor e tem a arrogância de pensar que o seu sofrimento é superior ao de todos os outros mortais?
    (se calhar passará a haver piropos normalizados…)

    1. Linda David: obviamente, o remédio é tão fácil… É como diz!
      E nós sabemos disso, não é?
      A auto-consciência é uma arma indestrutível…
      Talvez (inacreditavelmente) ‘eles’ nunca pensem nisso. Mas nós, as mulheres, avaliamo-los a eles tanto quanto eles nos avaliam a nós…
      Essa é a viragem psicológica.

        1. Fora de moda, o Brel? Nunca!
          Olha, o teu post já me pôs bem disposta, com a inevitável memória de piropos que já me alegraram instantes e me fizeram sorrir no meio da rua, divertida. Qual é o mal, caramba? Teremos que regular tudo e transformar a vida numa chatice sempre previsível?? Enfim, dos chatos dos belgas também não esperava outra coisa, confesso.

          Proponho o comentário da Linda David a “comentário da semana”. Viva o piropo!

        2. “…Señorita, tiene usted un diccionario ?? És que al mirarla me quedé sin palabras !! …”

          1. Fernado, já que não me conhece…o elogio será merecido, mas só porque decerto é dirigido à Ana, que deve estar ‘sin palabras’.
            🙂

          2. Não, não, era mesmo para ti. Mas agora deixaste o pobre Fanas entre as espada e a parede, sem saber sair desta sem ser indelicado com uma de nós… 🙂

          3. Mas é obviamente para as duas e o dicionário, para tal fim, só o da Real Academia Espanhola !!

          4. Ena! É por estas e outras que o piropo é uma instituição a preservar!
            E eu a subestimá-lo, Fanas… já vi que em matéria de piropos é mestre. Saiu-se muito bem, sim senhor! 🙂

          5. A sério, Fernando, com o meu manifesto pró-piropo não queria exactamente levar logo com um nos comentários! Mas obrigada, fico extasiada…

          6. Então leve lá poesia…

            “…hoja que del árbol seca
            arrebata el vendaval,
            sin que nadie acierte el surco
            donde al polvo volverá; …

            “…eso soy yo, que al acaso
            cruzo el mundo sin pensar
            de dónde vengo ni a dónde
            mis pasos me llevarán. …”

            ( G.A.Bécquer )

  2. Má educação é má educação. Piropo é piropo.
    Posto isto, só me ocorre dizer a esses arautos do moralismo: Tratem-se! Tratem-se a aprendam a gostar da vida, a gostar uns dos outros, obviamente respeitando-se mutuamente. Vão ao médico.

    1. Isso tudo é só por sua conta…
      – Sabe que ele há piropo e ‘ipiropo’?
      Nada de trolhistas…. No meu post.

      1. Ao que me ‘obriga’, Laura.
        Tentando evitar algumas deselegâncias.. admito que alguns me fizeram crescer um sorriso, senão mesmo soltar uma gargalhada.

        “És um bilhete de primeira classe para o pecado.“, “O teu pai devia ter a régua torta para te fazer com curvas assim.“, “Menina, queres ir ao céu? Sobe os andaimes que o resto do caminho é por minha conta.“

  3. Nem mais, Laura! Fartíssima do politicamente correcto, de gente de má consciência. Nunca se falou tanto em sexo e nunca tanto se tentou pôr o dito em camisa de varas. Ora, que se danem!

  4. Agora que não há mais estradas para construir, cidades para planear, os burocratas e políticos têm de inventar algo para fazer e justificar o que ganham, parece que o que sobra é controlar os outros.

    É a Democracia Totalitária a nascer passo a passo.

    http://hotair.com/archives/2012/08/22/video-va-farmer-facing-fines-for-hosting-a-birthday-party/

    http://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/australiaandthepacific/australia/9492504/Tasmania-considers-cigarette-ban-for-anyone-born-after-2000.html

  5. Não fosse a adjectivação e o não ter uma amiga chamada Laura e juraria que era de mim que se falava aqui. Há muitos anos que digo, e faço, que o melhor remédio para os dias de patinho feio é uma obra e vários trolhas.

        1. Ora, ora, Teresa, sabe que que eu tinha na mente precisamente essa resposta óbvia, ainda que declaradamente menor…? Estamos na mesma onda…
          Só não o verbalizei pelo óbvio sexismo da coisa.
          Coitadas das mamãs…
          Além disso, eu sei do que falo, “mea culpa”! É que, usando da maior objectividade científica, os meus dois filhos são uns verdadeiros “pães”…
          – Duvida?!
          Lindos de morrer, sobretudo quando vestem o que eu quero…
          Declarações certificadas pela SPA…
          🙂

  6. Grande post, Laura. Há lá coisa melhor do que um piropo bem lançado?
    Ah, les belgas … muito para aprender, ainda.
    E, já agora, um pormenorzinho e bem podes jurar à vontade: os telemóveis não disparam no ar sem saber como. Acto falhado, foi o que foi isso.

  7. Estou inteiramente de acordo contigo.
    Hoje não tenho idade para receber aqueles de que falas, mas não esqueço alguns que recebi.
    Aliás, casei com um dos seus autores. E foi o piropo que deu o mote a que eu reparasse no “piqueno”!

    1. É tão bom, não é, Helena?! 🙂
      Tudo o que é mágico começou por um bom piropo, e quanto mais ingénuo, quanto mais sincero!
      Aquele da elegia dos olhos oceânicos misturados de fogo incendiário… nunca acreditei, embora fosse recorrente.
      Mas uns dos meus (entre os hiper-consequentes) foi de salão e rezava assim, muito sentido: “Fica-lhe tão bem o azul que o céu perde sentido”.
      Eheh:)
      Eles sabem muito…

  8. São Belgas, talvez por isso.

    Costumo observar turistas numa quinta com turismo de habitação. Há muitos anos. Com esta minúscula amostra estatística formulei algumas ideias-feitas. Será que coincidem com as ideias-feitas de outros? No fim tentarei dar uma opinião.

    Portugueses/as, Franceses/as: armanço, não estão à vontade.

    Espanhóis/olas, Italianos/as: muito comunicativos, à vontade, simpáticos.

    Ingleses/as: Educados, respeitadores, não querem incomodar, respondem com à vontade quando se lhes dirige a palavra.

    Nórdicos: Excesso de “não incomodar”, não estão à vontade, não gostam de falar deles, nem dos outros.

    O piropo não é inglês e muito menos nórdico. Presumo que consideram que ninguém é obrigado a ouvir o que eles quereriam dizer. Este “princípio” até está correcto.
    Mas também se percebe que uma mulher gosta de ouvir um piropo. Por vezes percebe-se que as nórdicas até parecem gostar mais que as outras.

    Será devido ao tal “princípio”? Afinal de contas, só se alguém se queixar é que é crime.

    Aqui há anos li uma pequena notícia: o presidente (?) de uma região alemã proibiu os homens de urinarem de pé, mesmo em sua própria casa.
    Parece caricato. Mas como “só se alguém se queixar”… Fará sentido? Ou não?
    Também não sei.

  9. Que maravilha de post. Não há paciência para o politicamente correcto e para a fúria normalizadora. Viva o piropo (também de mulheres para homens)!

    1. O perigo e o subversivo desta coisa toda é esse mesmo: acharmos que a coisa é unilateral…
      Ou seja: só deles…
      Quando não é!
      Se há coisa sã e pura nos dias de hoje é que – informados – nos medimos em igualdade absoluta.
      Ámen.
      🙂

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