« A natureza das instituições avalia-se pela sua resiliência às crises. O carácter dos amigos mede-se pela sua capacidade de ficarem ao nosso lado, contra tudo e contra todos, nas horas de perigo e desgraça. O que está a suceder a Espanha, a mergulhar numa espiral de destruição, revela que a União Económica e Monetária, como está, se tornou uma sala de tortura, condenada a perecer, e que os Estados membros da União Europeia são governados por uma gente pequenina que não percebe que é preciso ajudar os nossos aliados para nos ajudarmos a nós próprios. O índice IBEX, das maiores empresas espanholas, tem hoje menos valor bolsista do que dívida conjunta dessas empresas. A dívida pública espanhola (e italiana) está a subir em todos os prazos, apesar do incrível pacote de terror económico imposto por Berlim e Bruxelas a Madrid, para a aprovação do empréstimo de cem mil milhões de euros para o sector bancário. As autonomias, com Valência à cabeça, estão arruinadas. O cínico Weidmann, o torquemada monetarista à frente do Bundesbank, aconselhou Espanha a pedir um “resgate completo”. Suprema crueldade! O FEEF está reduzido a trocos e o MEE está na mesa do Tribunal Constitucional Alemão, sob observação, pelo menos até 12 de setembro… O BCE nunca mais fez compras no mercado secundário. Prometer o que não se tem é o máximo insulto a quem precisa… Reina o silêncio dos cobardes na maioria das capitais europeias. O de Lisboa é inqualificável. Só Monti, que sabe ser a Itália o próximo alvo, expressa a sua inquietação em voz alta. Por este caminho, este será o último verão da Zona Euro. O último verão antes de uma nova, perigosa e incerta geografia política europeia, cujas dores de parto não pouparão ninguém.»
“O último estio”, Viriato Soromenho Marques
DN 24/07/2012
Gosto de quem pensa pela sua cabeça e não se deixa contaminar pela ideologia oficial (valha esta o que valha e que até pode ter razão, no seu anti-catastrofismo).
Precisamos de consciência e dispensamos euforizantes.
Mas pensemos.
Naquela terra franca proibida aos ‘pensadores’ oficiais e ainda que sem o habitual derrotismo nacional.

‘…uma gente pequenina que não percebe que é preciso ajudar os nossos aliados para nos ajudarmos a nós próprios.’
E qual o tamanho da gente que precisa de ajuda e para si reclama manter tudo como dantes?
Fora da dimensão do transcrito, JgMenos. Sorry.
Assim fica fácil…
Está bem, tem razão, era do sono, JgMenos 🙂
Também pequenina, muito mesmo. E inconsciente.
Parece que as grandes tragédias escolhem o Verão para se anunciarem, tal como Agosto 1914, Setembro 1939 …o que virá aí ??
Nada de bom, Fernando. Crise a sério.
«governados por uma gente pequenina»
Sorry, mas não é de agora.
É pelos que levaram a isto.
E não se trata da UE política, “It is the economy…”
Gosto muito do Soromenho Marques, mas agora é tarde.
Para trás e na base, ficando apenas pela Lusitânia, duas décadas de bebedeira financeira colectiva.
Pese os sucessos dos proxenetas.
Em Paris, Bruxelas ou por aqui.
Agora é tarde.
Não posso concordar mais, Monti. Não é de agora.
Esta geração de políticos que nos governa, na Europa, e generalizando sempre, é uma geração que nada sabe da construção europeia, nada sabe do que esteve na génese desta Europa. Nunca leram, ler e não olhar, um livro sobre a construção europeia. Mais que crises financeiras ou económicas, atravessamos hoje uma era em que não há, em quem nos governa, memória histórica. Olham para a UE e apenas vêem um conjunto de países e a possibilidade de crescimento económico. A prosperidade que a UE permitiu aos seus países nada tem que ver com acordos económicos, com moeda comum e abolição de fronteiras. Tem a ver com a estabilização de relações entre nações, tem a ver com o respeito das fronteiras existentes entre essas mesmas nações. Conseguimos o que à partida era impossível, juntámos sob uma união política estados desavindos há séculos. Em poucos anos, fruto acima de tudo da ganância e da falta de ética, estamos a conseguir deitar para o lixo todo esse trabalho. Já ninguém tem medo de ninguém.
Muitos não terão essa visão de enquadramento, é verdade.
Basta folhear um pouco de Eduardo Lourenço ou de Ratzinger…
Para não falar na História pura.
Também concordo consigo no sentido de que o ‘abalo’ tem de ser lido à escala da enorme evolução que se deu na Europa a partir das últimas décadas do séc. XX. Sem precedentes e gigantesca, em muitos aspectos.
Nessa medida, o sobressalto também corresponde à grandeza do salto…
Preciso era que não perdêssemos tudo. Que tudo isto tivesse um sentido útil.
Soromenho Marques pode ser o retrato desagradável da catástrofe, mas é como dizes: pensa pela sua própria cabeça, o que anda a tornar-se pouco comum nos tempos que passam. Nada de influências nem de preocupações com o correcto.
Gosto disso, também, Concorde-se ou não se concorde com ele, faz sempre bem ler um verdadeiro autor.
Concorde-se, ou não, com as suas análizes é um dos muito poucos genuínos pensadores que vale a pena ouvir ou ler.
Não pertence aquela triste maioría dos que, alinhadíssimos ás suas cores partidárias, antes de abrirem a boca já sabemos o que vão papaguear.
Quanto ao artigo. Com os presentes sistemas políticos dos Países europeus a obrigarem os executivos nacionais a lutar pela sua sobrevivência “local”, não há espaço para uma “geografia política europeia”, executivo realmente pan-europeu. Imbróglio.
A “Comissão” é apenas uma dispendiosa anedota de mau gosto.
E no entanto, europeístas ou não, era bom que não se retrocedesse em tudo, não acha? Uma nova “introversão” das nações não trará nada de bom.
“Não pertence aquela triste maioría dos que, alinhadíssimos ás suas cores partidárias, antes de abrirem a boca já sabemos o que vão papaguear.”
?! Certamente já se sabe o VSM vai papaguear. É o que o “fundos ilimitados” do Cavaco e o “imprimir dinheiro” do Soares. Qual a novidade?
Agora aos 10 anos de crédito para esconder a realidade segue-se o regresso aos anos 70 de impressão para continuar a esconder a realidade: sociedades insustentáveis.
Um louco que quer tornar a bolha ainda maior.
Um louco que coloca o ónus não em quem criou mas em quem combate(mal, mas o que defende é ainda pior).
Um louco que quer sociedades insustentáveis.
Um louco que apoia especualção monetária, o poder total do Estado sobre o dinheiro das pessoas.
Assim se prova mais uma vez a quantidade enorme de adeptos da teoria económica de José Sócrates.
Acusar os politicos de serem a causa de todos os nossos males, e de não tomarem as decisões que achamos necessarias para resolver os sarilhos em que estamos metidos, faz bem ao ego, mas não nos leva a lado nenhum.
Seria talvez mais util reflectirmos sobre as causas do que nos está a acontecer, e não vejo ninguem a fazer isso. A crise que a Europa está a atravessar era inevitavel e o que aconteceu nos States em 2008, apenas ajudou a precipitá-la.
Como vamos sair disto, não sei, mas sei o que faria se fosse eu a mandar: punha as rotativas do BCE a funcionar até ser necessario. Não é o que fazem os americanos desde os anos 30? E ainda ninguem se queixou.
A União Europeia nada tem a ver com os EUA. E ainda bem.
Tiago, não é bem assim. A Europa e a UE nada têm a ver comos USA, este último já histórico e federalista. É óbvio.
Mas é igualmente óbvio que temos tudo a ver com eles quando se trata de consequeências sistémicas. Isso aí é irrefutável.
Não acho que o texto nos induza na criminalização dos políticos ’tout court’… A coisa é mais ampla.
Paper money, papel moeda? Talvez…
O euro não tem a estabilidade, ou a garantia se preferirem, que tem o dólar. Se desatassemos a imprimir euros acho que era uma questão de meses até o euro rebentar. Os EUA fazem-no porque o dólar é a moeda de cambio internacional. O euro não o é e pertence a um conjunto de estados muito pouco unidos.
Claro que o dólar é – vai sendo… – incomparável. Essa é a fragilidade capital da nossa ‘zona’. Mas que a moeda única foi teórica e estrategicamente uma grande ideia, foi. Talvez, se sobrevivermos, consigamos dar razão ao nosso tempo. Será preciso chegar lá, ao estado da distância nas avaliações…
Concordo, Alexandre, até porque também nós somos políticos, quando pomos no poder quem queremos, pelo voto. E depois fazemos de conta que não temos nada a ver com o caso…
Mas a história é feita de homens e de circunstâncias e por isso as duas coisas não são propriamente indissociáveis, apesar daquilo que parece ter sido a bula atenuante de Ortega y Gasset. O decisor não é alheio à conjuntura, está bem, mas esta não nasceu por geração espontânea. Difícil, em Portugal, parece saber fazer uma pequena e básica abstracção sobre o imediato…
E pronto, é assim que Dellors foi um herói e os seus sucessores uns inconscientes, senão uns loucos apoucados.
Pergunto-me inúmeras vezes porque é que o Reino Unido, não assinou o tratado de Maastricht, nem aderiu à moeda única. Afinal sempre teve um papel forte e ativo em todos os grandes assuntos da Historia Europeia, mas neste, por mais voltas que dê, bato sempre na mesma parede. Não quiseram. Intrigante.
Intrigante não digo, mas expectável, sim.
E irritante…
Em todas as coordenadas, os ‘ilhéus’ sempre foram ‘outsiders’ cheios de poder, já reparou?
Mas agora é ouvir o nosso amigo Tony Blair em defesa da zona euro….
Bem visto, mas repare, talvez isso seja possível, exatamente por serem ilhéus ” que por Natureza se mantêm afastados do “continente”.
É bem provável que esse distanciamento lhes favorece uma prespetiva menos suja, conseguindo assim ver só aquilo que interessa e que realmente é importante, quem sabe. Afinal não lhes interessa a moeda, e resto, assim assim…
Bem visto, eu cá no meu pequeno ilhéu não tirava essa.
E muito bem! 🙂
Laura, junto a minha à tua vénia. Nunca fui europeísta convicta e agora, infelizmente, os factos vêm-me dar-me razão. Não há conciliação possível. A próxima bolha que rebentar vai ser a do sonho europeu.
Bem sei,Teresa. E acredita que bem pena tenho. Tudo isso tinha um sentido viável.