O jogo começou e foi decorrendo com uma estranha acalmia, dentro e fora do relvado. Contudo, tudo mudaria após o intervalo, quando os estudantes levantaram os cartazes e o resto do estádio finalmente percebeu que estava num comício contra o Regime.
Quando o futebol era política… e isso só foi possível por causa de um clube que representava uma academia, formado por estudantes a sério, injectados de juventude e com mentes abertas ao Mundo. Coesos e difíceis de roer, foram os agentes de provocação mais singulares que a história do antigo regime enfrentou…
Pois é: o jogo de amanhã no Jamor leva-nos obrigatoriamente ao outro Final da Taça em 1969, quando a crise estudantil coimbrã emergiu naturalmente na super estrutura desportiva mais original do país, a Académica, a defrontar-se com o Benfica no mesmo estádio nacional.
O treinador foi suspenso e ficou em Coimbra. Os da Luz contavam com o infalível Eusébio, mas o “nosso” Artur Jorge fora recambiado para cumprir um oportuno serviço militar… A estudantada emergiu no Jamor distribuindo dezenas de milhares de comunicados pelas bancadas pejadas de agentes da PIDE-DGS. E a tribuna de honra estava deserta: ninguém se atreveu a aparecer.
Nem Marcelo Caetano. Nem Américo Tomaz, que já fora desfeiteado dias antes pelos mesmos estudantes desordeiros, ao ousarem tentar usar da palavra em plena inauguração do edificio das ‘Matemáticas‘, no célebre 17 de Abril: «Sua Ex.ª, Senhor Presidente da República, dá-me licença que use da palavra nesta cerimónia em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra?»
É claro que não. E a afronta resultou no encerramento compulsivo da Universidade.
Talvez poucos o percebam, mas a mística da Académica está neste fenómeno de memórias colectivas absolutamente invulgares que abrangem, mas em muito transcendem o gosto pelo futebol.
Tudo radica num património humano original, que ultrapassa as gerações e vive de uma solidariedade codificada nas amizades de bancada de anfiteatro, seja ele o da pedra dos estádios ou o da madeira das salas de aula.
É a vida, a grande vida, que une este clube ainda hoje. E não a pequena vidinha dos ordenados milionários, dos Maserati, dos casamentos com as super-modelos, da ascenção e queda dos treinadores, das presidências corruptas e dos adeptos alienados por um puro sentimento de circo sem laivo algum de humanidade e de espírito.
É o único clube com alma que conheço.
Que me desculpem todos os clubistas, mas o resto são acessos de coliseu e de arena.









