Nobre povo ou A culpa é da Troika


lauraramos,

– Boa tarde. Candidatou-se a uma oportunidade de trabalho neste serviço público. Lemos o seu CV e concluímos que possui as habilitações necessárias ao desempenho do cargo que temos necessidade absoluta de preencher. Está interessada?

– Sim, porque estou desempregada. Tenho trabalhado como operadora de lojas de vestuário e acessórios; angariadora de contratos de adesão ao Dreamcard em centros comerciais; e ultimamente como operadora de caixa no hipermercado Universal.

(muitas queixas)

– Está, portanto, habituada às funções de atendimento ao público. Não terá dificuldade em lidar com várias centenas de pessoas que se dirigirão a este espaço para consultar bibliografia especializada. Trata-se da sala de leitura da nossa biblioteca.

– Sim, seria uma experiência óptima. Gosto muito de livros e trabalharia sentada, a sala é muito acolhedora, tem muita luz, computadores… E o horário?

– Normal, das 9 às 5 e meia, salvo alguma necessidade especial.

– O contrato é o modelo habitual do Instituto de Emprego? Um ano, prorrogável por mais 6 meses?

– Exactamente. Terá é de começar a trabalhar já amanhã, uma vez que é o último dia útil do ano civil e a prestação tem obrigatoriamente de iniciar-se em 2012. Depois só voltará ao serviço no dia 2 de Janeiro.

– Ai, isso é que não pode ser. Tenho uma viagem marcada.

(o júri entreolha-se, aturdido)

– Pois, entendo. Por nós não haveria problema algum, mas a questão é que a sua não integração até ao dia 31 de Dezembro invalidará todo o processo. Teremos de voltar à estaca zero. Novo cabimento prévio, nova candidatura a esta Medida, nova abertura de vaga, novas audições. Provavelmente nem voltará a ser seleccionada, como compreende.

– Pois. Mas eu tenho esta viagem.

– Para o estrangeiro?

– Não, mas já está paga.

– Claro, compreendemos o prejuízo. Mas perceba que estas regras são impositivas e compreensíveis. A sua aceitação só nos chegou há 3 dias. E nós temos absoluta necessidade de admitir uma pessoa. Tem consciência de qua sua não disponibilidade a fará perder uma oportunidade de trabalho durante, provavelmente, os próximos meses? E de que nós próprios corremos o risco de deixar de garantir o modelo de funcionamento deste espaço público, que deve estar aberto durante 9 horas diárias?

– Tenho. Mas não dá mesmo.

– Pense bem, Maria das Dores.

– Não posso. Tenho esta viagem.

(segue-se uma acta peculiar. Ou o que nos calha em sorte).

20 comentários em “Nobre povo ou A culpa é da Troika”

      1. Apenas seguiu o exemplo da classe politica da nossa praça…eles também costumam ter viagens inadiaveis à sexta feira….conforme demonstra o historial de presenças na Assembleia.

  1. Se isto se passou na 5ª feira, 27 de Dezembro, o amanhã seria 28, hoje, que não é o último dia útil do ano, que é 2ª feira, dia 31, que não é o “amanhã” de 5ª feira…

    1. Está enganado(a).
      Na próxima segunda feira todos os serviços públicos estão encerrados por determinação governamental, à semelhança do que já aconteceu segunda feira passada, dia 24.

  2. Bem a «Troika» decorre do «nobre povo»… Quanto à história particular, de facto, também eu oiço de algumas almas recorrentes queixas sobre a falta de oportunidades e a vergonha que é este país. Eu aqui no meu cantinho, licenciado em 2009, trabalhador desde essa mesma data, passando por estágio, recibos verdes, contrato e agora pela renovação do mesmo e por me ver atribuido um prémio, sempre dei de mim o máximo para fazer o melhor possível nas tarefas que me eram atribuídas. Se é certo que muitas vezes isso não é valorizado, não é comportando-nos de forma diferente que alcançaremos algo. Uma coisa que aprendi desde muito cedo é que sem trabalho (ou ladroagem) não se chega a lado nenhum. Ora, não sendo ladrão, resta-me trabalhar, feliz de o fazer no que para mim desejei. E não como algumas almas chegar com atrasos de meia hora e achar que está tudo bem, excepto o País claro, que não lhes dá a dita oportunidade…

    A Troika? O Governo? É certo…mas estes decorrem do nobre povo:

    «Os chefes aqui andam de ombros tão elevados que já não escutam o bater do coração. […] O que aborrecia Assane não era um princípio mas o já não poder continuar a usufruir das vantagens» Terra Sonâmbula, Mia Couto.

    1. Penso que a perspectiva correcta é essa, Miguel. Comer “o que a terra nos dá”, embora os frutos possam não ser os mais justos para as aptidões de cada um. Em época de tempestades… a dízima diminui.
      Faz muito bem em agir assim,como diz. Não me lembro de ninguém que conseguisse nada de jeito sem trabalhar. E muito menos “assentando logo praça em general”, como dizia a minha Avó. As tão reclamadas oportunidades não são coisas etéreas: são reais e comezinhas. Há que pôr o pé no terreno para então provar o que se vale e apanhar outros barcos…

  3. Para uma biblioteca? Sem qualificações na área? Habituada a lidar com o público, muito bem… E com a informação que tem de procurar e disponibilizar, também está familiarizada? Ainda por cima tratando-se de bibliografia especializada.

    Trabalhar sentada e numa sala quentinha… muito bem outra vez.

    Só é pena o tempo que gastei a estudar e a especializar-me para tentar ser uma bibliotecária competente. Afinal, bastava não ter viagem marcada para o final do ano.

    Percebo o que quis dizer (também já vi situações semelhantes), mas se a história é verdadeira, aconselho a entidade empregadora a contactar a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (www.apbad.pt). Têm disponível um manual de boas práticas para a contratação de pessoal especializado e ainda têm uma base de dados com técnicos devidamente qualificados que procuram emprego.

    1. Oh, Zélia, conheço lindamente tudo isso de que me fala… Mas sabe bem que o estado não pode admitir gente nova a não ser através destas medidas especiais. A candidatura era feita de molde a privilegiar técnicos de BAD. Algum desses desempregados inscritos no IEFP apareceu? Nem um. Mas como se trata de uma sala de leitura (um ‘front office’) e não de manusear fundos, catalogar, etc, o perfil foi alargado para generalistas. Veja no que deu…

  4. Já em casa, Maria das Dores explica ao Zé.
    -Vê lá, queriam que eu fosse trabalhar já amanhã!
    – Amanhã? São parvos os gajos! E que lhes disseste?
    -Atão não temos a viagem a Quarteira? E eu ia perder o fim do ano no algarve?
    – Pois claro e já demos o sinal do aparthotel e tudo! A Tânia e o Vitorino já confirmaram que também vão?
    – Vamos todos no comboio amanhã.
    – Depois na quarta-feira ligas lá para os gajos e pedes o jeitinho de te aceitarem.
    – Sim que aquilo foi trigo limpo, fui logo escolhida. Melhor não havia! Sabes que eu as entrevistas limpo-as bem.
    – Oh amor bem sabes que melhor que tu não há! Bom vamos lá mas é falar de coisas mais importantes; a mala está feita?

    Agora mais a sério, Laura. Pense pela positiva: No fim iam ficar com uma péssima funcionária.

    1. Tem toda a razão, Tiago. Mas agora pense que o problema subsiste, gritante, pelo lado do serviço público. Nessa unidade, 12 pessoas aposentaram-se nos últimos 24 meses. Em contrapartida, nem uma só alma entrou para equilibrar o barco. É legalmente impossível. Ora, assim, como é possível aspirar à qualidade, se a própria viabilidade dos serviços está em causa?
      Onde anda o sangue novo, ainda que cerceado nas suas expectativas? Onde andam os “jovens à procura do 1º emprego”?
      Algo está mal e a culpa não é só da crise, nem do sistema.

  5. Já dizia o nosso primeiro-ministro: “Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Tem de representar também uma oportunidade”. Como por exemplo, viajar e desperdiçar o sustento de pelo menos um ano. De facto, nem todos têm uma oportunidade destas.

    Só lamento os que realmente se esforçam para se sustentarem e não conseguem.

    1. Nem imagina qunto eu própria lamento, também. À parte quaisquer moralismos fáceis e sentenças fulminantes, de que não gosto, não consigo entender a mentalidade de certos novos ricos (do RMN, claro).

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