Uma baixa de peso


lauraramos,


Paulo Varela Gomes dá neste momento a sua Última Lição.
‘Do sublime em arquitectura’.
Olho este anfiteatro e, mais do que nele, penso sobretudo nos outros, os muitos que aqui se apinham e são os que verdadeiramente ficarão privados de qualquer coisa de vulto, porque não vão poder mais contar com a pedagogia do mestre: impaciente, perfeccionista, rebelde, exagerado, incessantemente à procura da verdade e concluindo, desafrontadamente, pela incerteza dos cânones e pelos antagonismos da realidade.
Mas que deixarão de poder contar, acima de tudo, com a pedagogia do homem: pragmático e no entanto utópico, lutando contra as injustiças, os abusos, a gritante imperfeição do comodismo.
Sim, esta assembleia é, verdadeiramente, a despojada, porque um professor como ele marca, sobretudo, ao ensinar a pensar de maneira diferente, a alimentar a dúvida, a dasafiar os limites.

Quantos restarão como ele?…

Um dos apresentantes diz, com infinita graça, que a aula que se segue irá de certeza ser uma anti-aula. Porque, como sempre, o Paulo acabará por provar, no fim, e tudo dito, que o seu contrário também poderia ser verdadeiro.

 

Esta não será, naturalmente, a sua última lição.
Espero que os jornais e as televisões se voltem a lembrar dele.

Urgentemente.

8 comentários em “Uma baixa de peso”

  1. Mas ele não tem “apenas” 60 anos (googlei)?

    Recordo-me de uma série interessantíssima de sua co-autoria que passou na RTP, “O Mundo de Cá”.

    E dos magníficos debates a dois que manteve com o actual deputado do PSD Abreu Amorim num programa moderado por Vitor Gonçalves, “Choque Ideológico” (googlei outra vez, por não me recordar de momento do nome), onde também apareciam outras figuras que fazem falta à tv, como Maria de Fátima Bonífácio.

    1. É um “já” relativo. O Paulo VG não esperou pela jubilação, que é o depor das armas dos universitários, 5 anos mais tarde do que o limite comum da aposentação (logo, aos 70).
      Sai cedo demais, mas também é verdade que a universidade, hoje, é um campo de experimentação amargo onde tudo pulsa em conjunto. Palpita-me que, entre outras razões, a paciência dele chegava ao fim. A falta de verbas onde era urgente tê-las para cumprir o que deve ser feito. E muito pior: as gerações que desaguam neste cosmos, notas elevadíssimas (como é o caso da escola dele) e um défice cultural, histórico e contextualizador que o subaproveitava. A geração sem culpas que nós preparámos, claro.

  2. Sinto imensa pena de não ter podido partilhar contigo esse privilégio de escutar a ‘última lição’ do Paulo Varela Gomes, Laura. Um dia destes julgo que valeria a pena iniciarmos aqui no Delito uma secção colectiva intitulada ‘Pessoas que admiramos’. Pessoas das mais diversas proveniências, dos mais diversos saberes. Pela minha parte, inauguraria sem hesitar essa série com um texto dedicado ao Paulo Varela Gomes, a quem daqui envio um forte abraço.

    1. Bem me lembrei de ti. Essa série era um belo desafio e o Paulo ficava a teu cargo, claro, que não raro o tens trazido qui. Foi um belo momento. Cheio de humor e descontracção mas com um simbolismo que a informalidade – pouco comum nestes rituais – não apagou nem por um segundo.

  3. a busca da verdade é a essência da verdadeira arte, no mundo de hoje, neste mundo em que a espécie não pára de crescer é o mesmo que padece da falta de verdade.

    1. Uma enorme independência de espírito. Mais do que tudo o resto, e que é muito, isso foi o que sempre mais me tocou nele. A contrastar com tantos pigmeus, comendadores da opinião nacional.

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