O ministro-ampulheta


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A estas horas, já o primeiro-ministro assistiu ao fecho da comporta da Barragem de Odelouca. Acompanhado por quem? Não se imagina. A acompanhá-lo estava nem-mais-nem-menos que o ministro do Ambiente. Em pessoa. Imparável. Hiperactivo. Ninguém o segura. Depois de duas aparições na praia Maria Luísa, Nunes Correia (assim se chama ele) reaparece (ó loucura!) em Odelouca.

Está visto que o ministro do Ambiente é uma espécie de ampulheta do governo: é posto em pé no início do ciclo e volta a aparecer para avisar que a areia está prestes a acabar.

Passado presente (especial)


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Este sinal de aproximação de linha de caminho-de-ferro

(com o perfil de uma velha locomotiva a largar fumo negro

e assim consagrado no antigo Código da Estrada) é centenário

e ainda subsiste, esquecido no meio do mato que o esconde

dos "amigos do alheio" e dos que cruzam montes e vales

para surripiar vestígios romanos e coisas assim.

Pelo-sim-pelo-não, é melhor que nem se divulgue muito onde vive,

antes que morra de morte-macaca.

Deve datar da segunda metade do século XIX e quem o descobriu

foi o nosso amigo Jorge Rêgo.

O caso do sinal de não-paragem


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O motorista do presidente do FCP «tocou» com o carro num repórter fotográfico à saída de uma sessão de tribunal (relativa ao processo que envolve Carolina Salgado) e seguiu sem parar, mesmo depois da ordem dada por um agente da PSP. Porém, a PSP do Porto já correu a explicar: «Não foi um sinal de paragem explícito do agente. O agente ia a acompanhar Carolina e o condutor resolveu sair de lá com pressa e tocou no fotógrafo.»

Tanto quanto se sabe, o agente que presenciou a ocorrência contou ter dado ordem de paragem ao veículo, mas assim só haverá processo judicial se o fotógrafo lesado (socorrido no local pelo INEM e examinado no hospital depois) apresentar queixa, como também fez saber a PSP de Porto: «Dadas as circunstâncias, o lesado terá de desejar o procedimento para seguir para o tribunal.»

Face à célere, prestimosa e insólita explicação, o repórter já fica a saber com o que conta: se quiser queixar-se, irá enfrentar o motorista do Porto-clube e a PSP do Porto-cidade. Fica a dúvida: que estranho sinal de paragem terá feito o agente da PSP para a instituição se apressar a dizer que não foi explícito? E, já agora, que complexo sinal de paragem se ensina um agente da PSP a fazer durante a formação?

Talvez seja caso para o lesado começar por se queixar do sinal de paragem não-explícito feito pelo agente, porque o resto é mais duvidoso: onde é que já se viu um condutor parar voluntariamente naquelas circunstâncias?…

Edward Kennedy (1932–2009)


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Edward M. Kennedy morreu hoje, com 77 anos. O mais novo de nove irmãos era senador pelo Estado de Massachusetts e irmão de John F. Kennedy, o presidente assassinado em 1963, e de Robert Kennedy, assassinado em 1968 durante a campanha para a Presidência dos EUA.

Jurista e último patriarca de uma família (tantas vezes designada como clã ou dinastia Kennedy) reconhecidamente dedicada à política e às causas públicas, Edward Kennedy era senador democrata e fez da Saúde e da Educação as suas grandes causas, destacando-se pelo modo como defendia a reforma dos cuidados de saúde. Tal como os irmãos, mereceu sempre o respeito generalizado de correlegionários e adversários. Porém, a vida de bon vivant com alguns escândalos à mistura barrou-lhe a tentativa para chegar à Casa Branca.

Morreu com um cancro no cérebro, diagnosticado no ano passado e depois de ter sido operado há dois meses. Os EUA perderam um dos seus mais influentes políticos e mais antigos senadores.

“Zona de protecção” já era


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Olho para a televisão. Está a passar um exterior sobre património arquitectónico construído. Escavações em Coimbra. «Só este claustro está aberto ao público, o outro vê-se ali ainda por escavar» – explica uma técnica entendida na matéria. «Mas mesmo sem escavações está protegido pela cortina de contenção periférica.»

Deixem-me que repita: "cortina de contenção periférica". As coisas que esta gente sabe. Deve ser o limite da "zona de protecção" do meu tempo, que era simplicidade a mais. "Cortina de protecção periférica". É giro. Não posso esquecer-me. Tenho de acompanhar a mudança de paradigma ou ainda me sujeito a correr um risco sistémico.

Os candidatos em Pessoa


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Fernando Pessoa dizia: «Sê todo em cada coisa. Põe o quanto és no mínimo que fazes.» Isto devia ser seguido por todos nós, como é evidente, mas teria especial importância se fosse levado em conta pela classe política, visto cuidar da coisa pública e ter uma visibilidade a que era suposto corresponder o melhor dos exemplos. Infelizmente, não é assim. Hoje em dia, tenho até por provável que haja muita gente em funções políticas que nunca leu uma linha de Pessoa e alguma com dúvidas sobre quem ele teria sido.

Porém, acredito que aquela orientação se aplica muito especialmente em tempo de campanha eleitoral. Até por intuição e para seu próprio bem, mesmo que não esteja muito certo sobre o Autor, cada candidato é todo em cada coisa e põe o quanto é no mínimo que faz em plena campanha.

Eu sei que há quem pense que não, mas é um erro: eles é que não são mais do que isto que se vê…

O ministro e os gauleses


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A tragédia em Albufeira fez aparecer aos olhos do País o ministro do Ambiente. Não uma vez, mas duas vezes. À segunda, chamou a atenção para essa atitude muito nossa de não dar importância à sinalização e declarou: «Quando há um sinal a dizer que uma falésia oferece risco, é porque ela oferece risco.»

Nunes Correia (assim se chama o ministro do Ambiente) tem razão. No aviso dito provisório que estava no local do desmoronamento, lia-se: "Zona de perigo". Portanto, quando um aviso diz que uma zona é de perigo, é porque ela é de perigo.

Se bem me lembro, Abraracourcix, o destemido chefe da aldeia dos irredutíveis gauleses, costumava dizer: "Só tenho medo que um dia me caia um pedaço de céu em cima da cabeça." E acrescentava sempre: "Não há que ter medo, porque esse dia não será amanhã."

"Zona de perigo" não significa, certamente, que pode cair aí um pedaço de céu. Será então por causa das marés-cheias? Será por causa de máquinas em manobras? Por causa dos asa-deltistas? Dos lacraus? Dos carteiristas? O ministro não disse.

Conclusão: se a sinalização é vaga nos perigos e nos limites da zona, os portugueses continuarão a dar-lhes essa vaga atenção de sempre.

Animais ferozes


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Acaba de ser publicada a lei que prevê prisão até dez anos para os donos de cães ferozes, aprovada pelo Parlamento no mês passado. Vale a pena agora lembrar que o diploma recebeu, naquela altura, os votos favoráveis do PS, PCP, BE e PEV e a abstenção do PSD (só Mendes Bota votou a favor) e PP.

Se pensarem bem, aquela votação explica-se à luz do que sabemos hoje, um mês depois. PSD e PP não podiam concordar com uma lei que está contra os animais ferozes de estimação, quando Francisco Moita Flores e Maria José Nogueira Pinto, por exemplo, estão dispostos a estimar um que tem andado à solta a fazer estragos. E o mais que se verá.

Seara valente


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Grande fogo florestal em Belas, cuja origem pode ser criminosa. Fernando Seara, o presidente da câmara de Sintra, foi abordado pelo repórter sobre a origem do incêndio: Diria que é, no mínimo, suspeito? Resposta pronta do autarca: Não! Em português escorreito, diria que é, no mínimo, intrigante.

É assim mesmo. Valente. É isto que eu gosto de ver na política: pessoas directas e frontais. Seara não está com meias palavras e chama os bois pelos nomes. Ou pelos não-nomes. Desengane-se quem pensar que o caso vai ser analisado. Não! Em português escorreito, o caso vai ser averiguado.

Por um bocadinho se ganha


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Lembram-se daquela historinha da criança que ia comprar um bonequinho de chocolate? Quero um bonequinho, não quero uma bonequinha — dizia ela quando chegava à loja. E porquê? Por saber que o bonequinho tem mais um bocadinho de chocolate.

Veio-me isto por causa da vitória nos 800 metros femininos que está a agitar o Campeonato do Mundo de Atletismo. Se a campeã em causa for hermafrodita, é verdade que tem mais um bocadinho de avanço para atingir a linha de chegada antes das adversárias.

Alguma bandeira a mais?


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Amantes dos Reis de Portugal, de Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni (Esfera dos Livros), e A Herança de D. Carlos, de António Cândido Franco (Ésquilo) têm sido os meus dois (sou geminiano) livros neste Verão.

O primeiro percorre as quatro dinastias numa abordagem insólita à vida de cada um dos monarcas portugueses, de D. Afonso Henriques a D. Manuel II, e a autoria apenas confirma o que emana do próprio tema: este livro só podia nascer da ideia e da escrita de mulheres.

O segundo é um romance histórico e o autor acha-o «essencial para compreender as raízes profundas do declínio da Monarquia Portuguesa». Quer-me parecer (para já) que é precisamente o peso da História que valoriza a trama da história, visto que se alarga do Marquês de Pombal à República.

Tenho a certeza que alguns dos fogosos do ’31’ vão dar pulinhos de contentes por saberem que ando a ler ao mesmo tempo Amantes dos Reis de Portugal e A Herança de D. Carlos. Até já pus um mastro junto do portão, para ver se ganho uma bandeira azul e branca que venha a sobrar das que andam a ser distribuídas. Só para colecção.

Não-perplexidades


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O post do José aqui mesmo por baixo (salvo seja) despertou-me imensa curiosidade e apeteceu-me ver o que acontece. Eu sei, eu sei: não aproveitei o tamanho integral desta foto. Mas não fiquei tão perplexo que me parecesse ser preciso dar-lhe mais espaço. Nem tamanho é qualidade. nem ela iria gostar que isto fosse empolado a uma dimensão desnecessária.

O tradutor de números


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Cresce dramaticamente o número de desempregados. Inclusive o número oficial, que ninguém tem dúvidas de que é esmagado à custa dos mais diversos "truques". Toda a gente sabe que o Verão costuma atenuar estes dados, à custa do trabalho sazonal em torno do turismo, mas o mês de Julho alterou a tradição e registou um desemprego assustador.

Porém, o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) encarrega-se de traduzir à sua maneira a situação. Francisco Madelino acha que é mais importante sublinhar que há um abrandamento e até uma "estabilização do crescimento do desemprego". Por outras palavras: crescer, cresce, mas parece que agora está a crescer de modo mais regular! Junte-se a isto que o IEFP teria colocado este ano no mercado de trabalho 35 mil desempregados, além dos 307 mil desempregados que fez desaparecer dos seus centros de emprego.

Madelino também explica estas sucessivas limpezas das listas do IEFP: o desempregado encontra sozinho emprego, falta à convocatória dos centros de emprego, está em formação profissional, é alvo de medidas de emprego ou reforma-se. Todos nós podemos encontrar mais motivos: o desempregado emigra, morre, desiste, não recebe a convocatória do centro de emprego ou recebe e está doente sem poder deslocar-se, entre outros.

Motivos possíveis é o que não falta. O que falta são os motivos reais, que os parceiros sociais com assento no conselho de administração do IEFP exigem, mas que o conselho directivo do IEFP se recusa a divulgar, por achar suficiente o que já divulga.

Como é isto de termos um instituto com conselho directivo e conselho de administração? Contornos empresariais num instituto em que, afinal, o patrão é que manda sozinho? Será que o INE está a precisar de um tradutor de números? Eram dois ganhos: o INE ficava com a imaginação musculada de Madelino e nós livrávamo-nos da ginástica mental do presidente do IEFP.

 

Obs. — Há duas expressões nesta história que se enquadram no novo e infeliz linguajar dos nossos políticos e para-políticos: a estabilização do crescimento do desemprego e o empregado foi alvo de medidas de emprego. Até à geração anterior, toda a gente sabia dizer coisas destas com menos palavras, de modo escorreito e sem margem para dúvidas. É como ‘estamos a vivenciar um período de crescimento negativo das exportações‘, ‘estamos a proceder a averiguações para eventual abertura de um inquérito‘ e outras que tais.

A razão da mudança a que temos assistido é simples, neste como em todos os casos: eles não fazem e não querem dizer que não fazem, pelo que lhes resta dizer que fazem, mas sem que se perceba se fazem ou não fazem aquilo que deviam fazer e não fazem.

Concordam? Ou estarei a dizer alguma não-verdade?