Cresce dramaticamente o número de desempregados. Inclusive o número oficial, que ninguém tem dúvidas de que é esmagado à custa dos mais diversos "truques". Toda a gente sabe que o Verão costuma atenuar estes dados, à custa do trabalho sazonal em torno do turismo, mas o mês de Julho alterou a tradição e registou um desemprego assustador.
Porém, o presidente do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) encarrega-se de traduzir à sua maneira a situação. Francisco Madelino acha que é mais importante sublinhar que há um abrandamento e até uma "estabilização do crescimento do desemprego". Por outras palavras: crescer, cresce, mas parece que agora está a crescer de modo mais regular! Junte-se a isto que o IEFP teria colocado este ano no mercado de trabalho 35 mil desempregados, além dos 307 mil desempregados que fez desaparecer dos seus centros de emprego.
Madelino também explica estas sucessivas limpezas das listas do IEFP: o desempregado encontra sozinho emprego, falta à convocatória dos centros de emprego, está em formação profissional, é alvo de medidas de emprego ou reforma-se. Todos nós podemos encontrar mais motivos: o desempregado emigra, morre, desiste, não recebe a convocatória do centro de emprego ou recebe e está doente sem poder deslocar-se, entre outros.
Motivos possíveis é o que não falta. O que falta são os motivos reais, que os parceiros sociais com assento no conselho de administração do IEFP exigem, mas que o conselho directivo do IEFP se recusa a divulgar, por achar suficiente o que já divulga.
Como é isto de termos um instituto com conselho directivo e conselho de administração? Contornos empresariais num instituto em que, afinal, o patrão é que manda sozinho? Será que o INE está a precisar de um tradutor de números? Eram dois ganhos: o INE ficava com a imaginação musculada de Madelino e nós livrávamo-nos da ginástica mental do presidente do IEFP.
Obs. — Há duas expressões nesta história que se enquadram no novo e infeliz linguajar dos nossos políticos e para-políticos: a estabilização do crescimento do desemprego e o empregado foi alvo de medidas de emprego. Até à geração anterior, toda a gente sabia dizer coisas destas com menos palavras, de modo escorreito e sem margem para dúvidas. É como ‘estamos a vivenciar um período de crescimento negativo das exportações‘, ‘estamos a proceder a averiguações para eventual abertura de um inquérito‘ e outras que tais.
A razão da mudança a que temos assistido é simples, neste como em todos os casos: eles não fazem e não querem dizer que não fazem, pelo que lhes resta dizer que fazem, mas sem que se perceba se fazem ou não fazem aquilo que deviam fazer e não fazem.
Concordam? Ou estarei a dizer alguma não-verdade?