A tragédia em Albufeira fez aparecer aos olhos do País o ministro do Ambiente. Não uma vez, mas duas vezes. À segunda, chamou a atenção para essa atitude muito nossa de não dar importância à sinalização e declarou: «Quando há um sinal a dizer que uma falésia oferece risco, é porque ela oferece risco.»
Nunes Correia (assim se chama o ministro do Ambiente) tem razão. No aviso dito provisório que estava no local do desmoronamento, lia-se: "Zona de perigo". Portanto, quando um aviso diz que uma zona é de perigo, é porque ela é de perigo.
Se bem me lembro, Abraracourcix, o destemido chefe da aldeia dos irredutíveis gauleses, costumava dizer: "Só tenho medo que um dia me caia um pedaço de céu em cima da cabeça." E acrescentava sempre: "Não há que ter medo, porque esse dia não será amanhã."
"Zona de perigo" não significa, certamente, que pode cair aí um pedaço de céu. Será então por causa das marés-cheias? Será por causa de máquinas em manobras? Por causa dos asa-deltistas? Dos lacraus? Dos carteiristas? O ministro não disse.
Conclusão: se a sinalização é vaga nos perigos e nos limites da zona, os portugueses continuarão a dar-lhes essa vaga atenção de sempre.

Não sei se viu mas, no dia seguinte, as pessoas continuavam a amontoar-se junto a outras falésias com idêntica sinalização. Sabiam perfeitamente o que acontecera mas nem por isso haviam alterado o comportamento. Uma senhora disse mesmo que não iria certamente cair outra este ano. Acho bem que se tente saber se houve ou não incúria, que se discutam formas de melhorar a sinalização mas há limites para o que se pode (e deve) fazer. A menos que se façam vir abaixo todas as falésias da costa portuguesa.
É verdade. Tal como escrevi, trata-se de uma atitude muito nossa. Mas não se minimiza a incúria com avisos vagos.
João:
Eu tenho a certeza que mais uma vez a culpa irá morrer solteira. Tendo em atenção a manchete do Expresso, se for verdade o que está ali escrito é mau de mais para as entidades responsáveism mas já estamos habituados a este desleixo (Entre-os-Rios é um bom exemplo e deu em nada).
Uns não fazem prevenção apenas reagem, outros não ligam aos alertas e sendo assim o “cocktail” é explosivo, até quando…
Pois é, Carlos. Uma coisa e outra fazem parte desta nossa forma de estar na vida…
Completamente de acordo João. Só acrescentaria o seguinte: não conhecendo eu a praia, é zona que não frequento, julgo ter ouvido dizer que existiria um perímetro de segurança perfeitamente delimitado, que os veraneantes, com os suplícios do calor teriam arrancado para se abrigarem à sombra da falésia. . Infelizmente as autoridades são o reflexo de tudo isto, desta forma desleixada e displicente com que contornamos regras, normas, avisos, formas de conduta. Como diz a Paula Rego em entrevista à revista do Expresso , este país vive do chicote e da caridade. Nunca vi pensamento mais certeiro.
Tem toda a razão, Ariel. Não sei se ficou confirmado que havia um perímetro de segurança. Acho que não. Nem se combate a irresponsabilidade com sinalização vaga. Mas isso do chicote e da caridade também me parece bem visto.
João:
Eu esqueci-me no comentário anterior de deixar uma questão que é a seguinte:
Se o auto de noticia vai ser entregue ao Ministério Público qual o motivo da arriba ter sido demolida?
Com esta decisão não se destruiram as provas da tragédia?
Aguardo que alguém me esclareça se estou errado.
Carlos…100% de acordo. Como vão instaurar um processo ou o que seja se a prova principal não está lá…
Também gostava muito de saber.
Faro, 24 Ago (Lusa) – O auto da notícia relativo à trágica derrocada na praia Maria Luísa, que matou cinco pessoas sexta-feira, foi entregue esta manhã no Ministério Público de Albufeira, que tomará posteriormente as diligências que considerar necessárias, disse à Lusa fonte oficial.
“Foi enviado esta manhã ao Ministério Público de Albufeira o auto da notícia”, confirmou, em declarações à Agência Lusa, o comandante da Polícia Marítima Marques Pereira, que esteve nas operações na praia Maria Luísa no dia do acidente.
Segundo aquele responsável, qualquer “acção ou diligência” futura relativamente ao desastre natural que ocorreu na praia Maria Luísa, matando cinco pessoas, está agora do lado do MP.
A culpa vai morrer mesmo solteira a não ser que construam a arriba(tipo Puzzle)novamente 😉
João mas também é verdade que o Português gosta muito de arriscar…onde é proibido é onde gostam de estar…está lá o sinalito de perigo mas encolhes os ombros e pensas “não deve acontecer nada hoje…”
Infelizmente, não há qualquer dúvida sobre isso.
A tragédia da praia Maria Luísa é a tragédia do povo português.
Há uns anos, na praia de Cascais, havia um letreiro avisando as pessoas que poderiam contrair doenças no caso de tomarem banho naquelas águas. A praia estava sempre cheia e as pessoas tomavam banho, indiferentes aos avisso. Na altura entrevistei vários banhistas. Algumas respostas foram esclarecedoras: se a água faz mal, então que fechem a praias. Enquanto não o fizerem, continuo a vir aqui.
O comportamento dos portugueses face aos avisos de perigo não é de risco. É de ignorância, irresponsabilidade, iliteracia, falta de consciência cívica, tec. Deve ser muito difícil governar um povo assim.
Tens toda a razão: é a nossa atitude habitual e deve ser uma trabalheira governar-nos. Mas acrescento dois pontos: por um lado, o povo que somos também tem sido mal governado por falta de quem saiba governar bem; por outro, quem tem governado faz parte do povo que somos e, talvez por isso mesmo, tem-se genericamente demonstrado que sofre dos mesmos males.
Lamento profundamente o sucedido na praia “Maria Luísa” e solidarizo-me no desgosto dos que perderam os seus familiares e amigos.
O João, não deixa de ter razão, no entanto fica aqui mais um exemplo da falta de cultura preventiva e do excesso de “parolice” da nossa gente. A semana passada num centro de saúde, aqui do meu pacato burgo, durante as consultas houve uma suspeita de um caso de gripá . Por precaução, um dos enfermeiros pediu que as pessoas saíssem da sala de espera onde já tinha estado o paciente “suspeito” e fossem para outra. Ao pedido foi respondido, não – “Isso é o que nos faltava, daqui não saímos, estamos aqui há tanto tempo e ainda perdemos a vez”, mais ou menos assim, relatou-me o enfermeiro e uma outra testemunha, meus conhecidos. Vai daí o enfermeiro, rapaz dinâmico habituado a reagir com rapidez e eficazmente (é nadador salvador e bombeiro voluntário) veste uma bata xpto , luvas e põe a máscara, apresentando-se assim na sala, ah, aquilo é que foi,”pernas para que te quero”…
Aí está outra atitude que demonstra bem a incúria que faz parte do nosso comportamento colectivo. É uma realidade.