Está patente


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Na intervenção de encerramento da convenção socialista, Sócrates disse que a verdade «não é graça divina nem patente registada». Esta declaração, assim lançada pelo homem que abriu um rol de promessas a que faltou, quando começou por prometer não subir os impostos e referendar o tratado europeu, e  que protagonizou um ror de casos que nunca conseguiu esclarecer, a partir dos casos da licenciatura e das casas na Guarda, é muito curiosa. Não sei se a verdade é graça divina ou não, mas que ele não tem a patente… ah… isso… está patente que não tem.

Aviso inspirado


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O ambiente tem andado um bocado pesado por aqui. Refiro-me aos temas, claro: TVI, Legislativas e quejandos. Apenas timidamente entrecortados pelas séries dos bares e das praias. Vai daí, vou seguir as pisadas do Pedro aqui em baixo com a série Heróis da BD e volto com um Passado presente, que já anda a fazer falta e também serve para desanuviar. Mas aviso já que fui inspirado pela actualidade, isto é, por este nosso país em que se fazem umas acusações e se evaporam outras acusações em autênticos passes de mágica. Mistérios.

Quem está a ganhar com a diversão?


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Esta noite, ao assistir ao Eixo do Mal (como contei em post abaixo), verifiquei com espanto que ainda há muita gente a ver o caso TVI só com um olho. Mesmo entre pessoas que pontuam na comunicação social, o que é mais espantoso ainda. Consigo entender a confusão de um leigo nestas matérias, como de alguns comentários que temos recebido aqui, de quem está menos atento e mais afastado destas coisas e tem outras preocupações. Entendo, sim. Mas – que diabo! – começa a ser altura de distinguir o que está em causa. Era o que eu esperava, pelo menos, por parte daqueles que era suposto estarem informados e acostumados a ter uma visão mais ampla dos acontecimentos.

Trata-se de intuir que a legislação sobre esta matéria foi atropelada. Trata-se de reflectir sobre o afastamento de uma jornalista. Trata-se de discutir a alçada e os limites das administrações que querem ter órgãos de comunicação social. Trata-se de tudo isso. Só não se trata de avaliar a qualidade da jornalista e do jornalismo que ela expunha naquele espaço de informação.

Sejamos sérios: não houve tempo bastante, ao longo de tantos meses, para fazer essa avaliação e opinar sobre isso à fartazana? A que propósito se perde agora tempo a discorrer sobre a jornalista e o seu tom? A quem interessa ficar a chover no molhado e deixar o sol tapado com a peneira? Só por manobra de diversão, que alguns ingénuos têm ajudado a prolongar. E isso – pensem bem – é muito capaz de estar a dar jeito a alguém.

Subscrevo integralmente


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Acabo de assistir ao Eixo do Mal (SIC-N), dedicado em grande parte ao caso TVI. Entre umas banalidades e outras tantas parvoíces, um ou outro detalhe mais ou menos consensual, mas não mais do que isso. Com uma ressalva, que merece o destaque: Daniel Oliveira salvou a honra daquele convento de costumeiros disparates.

Pela lucidez da análise e acerto da posição que tomou, não teve qualquer paralelo na mesa. Não me custa, por uma vez, subscrever tudo o que ele disse sobre o caso. Sabendo-se, mais a mais, que o Daniel Oliveira definitivamente nunca poderia ser um admirador do tal telejornal das sextas e da respectiva protagonista.

O enterro de um ciclo?


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Mais um debate. Jerónimo de Sousa sempre com aquele rosto triste e grave de quem vive o drama dos mais fracos. José Sócrates, que tem andado com nítida dificuldade para optar por uma das máscaras recentes que tem procurado ensaiar, caiu num erro básico: deixou-se ir pela réplica e tentou manter um ar igualmente triste e preocupado. Em vão, porque aquilo não lhe assenta. Ficou apenas com cara de enterro. Veremos se seria premonição.

O triste humorista


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Não lhe fixei o nome até chegar aqui (e não tenciono voltar atrás), mas a memória do computador deixou-me fixar que o texto é este. Do autor só presumo que é o humorista de serviço do Simplex.

Confirma-se aquilo que quase toda a gente sabe: fazer humor não é para qualquer um. Mais triste ainda é quando o próprio não o sabe.

O maior


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O presidente da ERC não está à mesa do café a falar com amigos e conhecidos. Azeredo Lopes está à mesa de um programa de televisão a ser observado por telespectadores. Mas não se sente inibido: Pacheco Pereira é o Pacheco Pereira, António Costa é o doutor António Costa ou o senhor doutor,  António Lobo Xavier tanto é o António como é o António Lobo Xavier ou o doutor António Lobo Xavier. E o moderador? O moderador é o Carlos.

E o presidente da ERC? O professor Azeredo Lopes? Ora: Lopes é o maior.

Prontuário: falta o correctivo


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Ao ler este post do Sérgio, mais abaixo, sobre o prontuário sonoro que se apresenta, fico com pena de não aparecer por aí um prontuário correctivo: por cada erro de palmatória, salta a dita cuja e dispara uma palmatoada; por cada disparate linguístico, sai uma mão e aplica um valente puxão de orelhas.

Só tenho medo que o hipotético aparelho venha a surgir com tiques institucionais de política aplicada: por cada asneira, sai lá de dentro um burocrata, avalia a situação, instaura um inquérito e fica a cumprir prazos.

No final, já se sabe: não ficará provado que era asneira, ou então era asneira, mas já estava a aguardar despacho para integração no Projecto de Implementação dos Neologismos Urgentes (PINU). Basicamente.

Debate 2: a tradição volta a atacar


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O modelo do debate José Sócrates–Paulo Portas e dos que se seguirão está muito longe do antigo ambiente de feira. Uns gostarão por ser mais audível e garantir em certo número de temas, outros não gostarão por ser bem menos divertido. Terminado este primeiro embate, pus-me a ver a SIC-Notícias, que entrou a debater o debate, e percebi que à volta de Mário Crespo era retomado o modelo tradicional: tudo em frente e fé em Deus.

O resultado foi curioso. Mário Crespo foi recebendo dicas sucessivas de Ricardo Costa (tipo «já lá vamos a esse ponto a seguir»). Os lábios de Luís Delgado mexiam-se ao som da voz de Ricardo Costa. O sussurro de António Costa Pinto saía com o som da voz de Ricardo Costa. Pelo meio, em todos os intervalos entre cada um dos outros, falava Ricardo Costa. Não há dúvida de que a tradição ainda é o que era: num debate à antiga, o tempo conquista-se.

Amado e feliz


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O ministro dos Negócios Estrangeiros pode nem ir à tomada de posse do presidente de um PALOP, pode até nem fazer-se representar por um seu secretário de Estado no funeral do presidente de um Estado-membro da CPLP. Mas há uma tentação a que não resiste, que é acompanhar de perto tudo o que cheire a festa. Das comemorações em Timor-Leste às celebrações na Líbia "livre" e musculada, não há fusos horários que ele tema, não há jet-lag que o vença.

Ainda estou para saber o que é que as festanças de Kadhafi têm de tão atraente e importante, mas já deu para saber que Luís Amado devia ser ministro do Ambiente: se o ambiente for de festa, contem com ele. Portugal tem um ministro feliz.

Coincidências e tragédias


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Mais uma tragédia numa passagem de nível sem guarda. No fim do mundo? Não: na Linha do Douro, entre o Porto e a Régua, perto de Baião. Quatro mortos, três feridos graves.

Longe de mim saber que ainda existem passagens de nível sem guarda em Portugal. Menos ainda que isso fosse possível em regiões populosas e movimentadas. Tenho a certeza de que, após uma tragédia idêntica há tempos, as autoridades garantiram que todos os casos iam ser resolvidos e nunca mais haveria acidentes do género. Tenho a certeza absoluta disso.

Afinal, só naquela região, a Refer tem «um plano que foi acordado com a autarquia há um ano para supressão de cinco passagens de nível sem guarda», bem como (já cá faltava mais um naco de prosa contra a clareza) «garantia de condições de segurança em mais seis». Ou seja: se bem entendo, só por aquelas bandas ainda há onze ou doze passagens de nível sem guarda. Além de uma outra encerrada há apenas seis meses.

O que revolta, nestes casos, é ouvir das entidades que (lá vem mais um naco de prosa contra a clareza) «a passagem de nível do acidente estava a ser objecto de um projecto de execução». O que é que isto quer exactamente dizer, não se adivinha. Porém, uma coisa é certa: em Portugal, quando há desastre, já estava para ser feito, já há um projecto, já ia ser executado, já está em vias de ser planeado, já tinha sido pensado, já foi lançado. Nem sempre com a prosa simples que aqui estou a usar, mas sempre neste sentido da coincidência.

Infelizmente, tornou-se comum a tragédia andar adiantada. Porque as autoridades, essas, têm sempre tudo previsto. Portugal é um país onde as coincidências não há meio de aprenderem a respeitar o calendário de quem manda.

 

ADENDA – A responsabilidade destes casos é da Refer. Por isso é que me lembrei de, há poucos anos, quando a Refer nasceu, a sua administração ter descurado o trabalho durante não-sei-quanto tempo e ter andado ocupada a atribuir-se vencimentos e carrões, com tal pressa e ligeireza que até o fizeram em situação altamente irregular, segundo então foi noticiado. Alguém sabe como é que isso ficou?

TAP: evolução na continuidade


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Que a TAP apresenta uma "situação financeira crítica" nada tem de novo, para lá da actualização dos números sobre o desastre do costume: no primeiro semestre deste ano, o grupo apresentava 247,2 milhões de euros negativos. Só que isto é bem mais do que os 171,7 milhões de euros negativos com que fechou 2008.

 

Ora, se esta é a sina da TAP que andamos todos a pagar, escusava de ser nossa sina ter de aturar aquilo a que, pelos vistos, ninguém hoje resiste: a terminologia dos exercícios literários desajustados que passaram a ser moda, só para dizer coisas que antigamente eram simples e formais. No caso, por exemplo, o relatório do semestre passado da Parpública (accionista única do Grupo TAP) diz que a situação crítica se mantém por causa do «resultado negativo apurado no semestre». M. de La Palisse cairia derrotado se lesse estes impagáveis nacos de prosa que passaram a ser norma entre nós.

 

Do mesmo relatório ressaltam coisas assim, vejam só:

– o segmento das "actividades aeronáuticas" «continua a ter um peso relativo extremamente expressivo no âmbito do Grupo» (pudera!);

– «neste segmento o capital próprio, que já era negativo no final de 2008, apresenta ainda uma redução de aproximadamente 77 milhões de euros, integralmente explicada pela evolução do Grupo TAP» (evolução!);

– «este prejuízo, embora bastante significativo, representa menos de metade do registado em igual período do ano anterior e está em linha com o orçamentado» (parabéns!);

– «há assim uma evolução positiva a qual se deve essencialmente aos resultados do negócio do transporte aéreo» (é a chamada evolução positiva dos resultados negativos do negócio que me cheira ser a vocação da TAP!).

 

Poupo-vos outras pérolas do mesmo quilate. E peço desculpa pelo desafio à vossa paciência, mas foi só para registar mais este ensaio literário que vem ajudar a arrumar na gaveta da História o tempo em que as coisas simples eram relatadas com simplicidade.

União de facto pior que gripe


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O candidato recém-aliciado do PS Miguel Vale de Almeida dá hoje explicações no lugar do costume por causa de «alguma confusão noticiosa sobre o que disse ontem no Campus da JS em Santa Cruz». Ninguém sabe se foi a imprensa que não o compreendeu, se foi ele que não se fez explicar. Mas fez questão de deixar agora mais claro que «reduzir» o que quis dizer «a uma questão politiqueira entre o PS e o BE é coisa que não» lhe «interessa nem motiva». Designadamente, «porque bem mais importante é denunciar o projecto reaccionário do PSD».

Em suma: Vale de Almeida ainda não está no segredo dos deuses. Mas há-de estar. Mais tarde. Ou tarde de mais. Quando os seus novos amigos começarem a viver em união de facto com os tais «reaccionários». O Bloco Central ainda vai ser pior do que a gripe A.

Centrão: a terceira travessia


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Sempre que se fala em grandes projectos políticos, ela aí está. Chamam-lhe a terceira travessia. Não se adivinhava, mas os primeiros sinais concretos foram assinalados aqui pelo Pedro Correia, há quatro dias: a entrevista de João de Deus Pinheiro ao i era «a resposta simétrica às recentes declarações de Ferro Rodrigues ao Expresso». Faltava apenas ligar as duas margens. Foram ligadas ontem, quando um socialista fez a apologia do programa eleitoral dos sociais-democratas.

Joaquim Pina Moura representa a terceira travessia. Ele é a ponte que faltava. Agora, resta apenas saber quem irá liderar o Bloco Central depois de 27 de Setembro, porque o projecto já é real e está pronto a ir por diante. A menos que a Terra trema, cheira-me que há muita gente por aí que vai ficar com cara de peixe. E com os bicos dos sapatos esfolados em vão.

Ambiente: o ciclo da ineficácia


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Cíclica e cansativamente, passou a ser um fado arrastado ouvir que o Estado tem continuado a produzir muitos papéis e pouca obra para salvar a orla marítima. Nos quase mil quilómetros da costa continental, os atentados são escandalosos e agrupam-se maioritariamente em dois planos: barracas, habitações precárias e casas modestas construídas sem autorização e que não dispõem das infraestruturas mínimas indispensáveis de salubridade e quejandas (clandestinas, portanto); construções familiares de veraneio ou de exploração turística erguidas com autorização suspeita por conveniências inconfessáveis (de clandestinidade encoberta por despachos irregulares, portanto).

Ainda há poucos anos, o anterior ministro do Ambiente parecia um irredutível gaulês quando declarou que iria arrasar com tudo o que estivesse a mais. Ia fazê-lo em dois tempos, mas ficou tudo na mesma em dois contratempos: primeiro, o tal ex-ministro deve ter percebido que tinha de arrasar com a sua propriedade de ócio numa reserva natural e, depois, ainda por cima, ele próprio não teve tempo para cumprir a sua palavra por estar muito ocupado a estudar o destino de milhares de sobreiros que a lei determinara serem intocáveis. Um caso bicudo, como se calcula, já que era preciso abatê-los sem lhes tocar. Era como estrelar um ovo sem lhe partir a casca, não é verdade?

Já nestes últimos anos, o actual governo foi deixando as coisas como estavam, mas acaba por ter menos culpas no seu cartório. É o resultado – reconheça-se em abono da verdade – de ter Ministério do Ambiente e não ter ministro. Temos de ser justos: era muito difícil alterar a situação com este estranho modelo.

Imagem — Um raminho de sobreiro intocável

que sobrou do célebre abate em Portucale.

Nada na manga


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— … E por isso é que temos de proceder a esta busca. Diga-nos lá: o senhor tem alguma coisa escondida em qualquer local da casa?

— Nada tenho a esconder na casa-de-banho secreta com uma porta secreta para um aposento secreto que é o meu escritório secreto. Estou com a consciência secreta tranquila por ter feito tudo com a maior clareza secreta e transparência.