Pós-1640 (1) — Os conjurados


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1640. Está a chegar ao fim uma das primeiras experiências de governação autónoma à escala mundial. Uma experiência precoce, ainda incipiente, mas bem sucedida.

Em Madrid, Filipe II não impusera medidas drásticas: um governo autónomo em Lisboa, Portugal governado por portugueses nos quais Castela confiava, uma capacidade legislativa ampla e respeito pela cultura e tradições.

Filipe III dera continuidade ao modo de gerir a região autónoma de Portugal que recebera. Sem muitos sobressaltos, o segundo monarca da União Ibérica mantivera a autonomia portuguesa em diversas áreas da governação e conservara o direito aos usos e costumes lusitanos.

Até que subira ao trono Filipe IV. Depressa se tinham percebido os seus excessos. Autoritário a reinar, começara a reformar as leis no sentido da integração pura e dura de Portugal. Em pouco tempo, já se sentia a perda sucessiva da autonomia, o governo de Lisboa tinha cada vez menos peso, muitos espanhóis passaram a integrar as instituições portuguesas, a obediência a Madrid era total e o passado cultural da antiga nacionalidade tendia a esfumar-se.

A revolta já vinha de trás e ganhara novo fôlego no encontro de Évora, com a adesão de figuras de topo da nobreza, do clero, de várias manchas da população insatisfeita e do quadro de militares.

 

1 de Dezembro. A iniciativa de um punhado de homens arrojados surpreende Lisboa. Em poucas horas, o golpe vitorioso abre caminho à recuperação da independência. Por trás dos revoltosos, o herdeiro da Casa de Bragança já se manifestara disponível para encabeçar os destinos da Nação.

D. João IV precisa de muita coragem: Portugal não tem orçamento e não tem exército, não tem relações externas e não tem escoamento do que produz, quase não tem frota marítima e quase não tem contactos comerciais com outros países. A única coisa que tem é inimigos entre os países que mantêm relações com Espanha, restando um ou outro amigo entre os inimigos (nem sempre poderosos e muitas vezes receosos) dos castelhanos.

O Rei vai enfrentar tempos muito difíceis e tem o bom-senso de se apoiar em duas figuras que hão-de ser determinantes perante a complexidade da situação: o seu secretário de Estado e conselheiro Francisco de Lucena (homem de grande verticalidade que acabará condenado à morte, vítima da intriga) e o seu eloquente inspirador e mentor espiritual, o padre António Vieira, SJ. Com eles, há-de ser consolidada a restauração da independência de Portugal.

Fora do processo ficam os portugueses que se opõem à independência: uns por receio de que a vitória não esteja assegurada, outros para não perderem benefícios, outros ainda por medo, evitando associar-se a qualquer das partes antes de saber de que lado poderiam chegar-lhes represálias.

Fora do processo está também um visionário fadado para ser líder…

Pós-1640 (2) — O líder visionário


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1 de Dezembro, ainda. Miguel de Vasconcelos – secretário de Estado da regente de Portugal, Margarida de Saboia, duquesa de Mântua – é alertado pelo tumulto e decide ir à varanda do Paço para ver o que se passa. Levanta-se em passo rápido, tira um agasalho do armário, abre a portada da varanda e tropeça na soleira. A queda é inevitável: desamparado, não consegue agarrar-se ao balcão, precipita-se no vazio e estatela-se lá em baixo no terreiro, com o corpo em posição estranha e inerte.

A queda brutal deixa-o em mau estado e já não ouve D. Miguel de Almada proclamar da varanda a independência de Portugal e a realeza do duque de Bragança. As fracturas ósseas, traumatismos profundos e escoriações várias vão levar meses de tratamento e de cuidados hospitalares.

Passa muito tempo internado, até ser transportado para as reais instalações de repouso nas Caldas, onde acaba de recuperar.

 

1641. De regresso a Lisboa, rapidamente reúne os homens que lhe são mais chegados, entre os que se opõem à independência. A Nação está um caos e já ninguém se opõe a quem estiver determinado a repor a ordem e o bem-estar.

Miguel de Vasconcelos, o visionário, passara muito tempo a estudar o mapa da Península Ibérica até ter a certeza de que estava ali um só país natural. Com efeito, a Natureza encarregara-se de dar forma ao território ibérico, como que a dizer: fiz isto para ser um só reino e um só reino será.

Figura central de antanho, foi o seu estudo atento e aprofundado que evitou o colapso e que a região autónoma de Portugal se desenvolveu definitivamente. De cada vez que ele olha o mapa e medita na unidade territorial, vai vendo o futuro mais e mais claro.

— Salvei o problema da desertificação na minha terra – diz em voz baixa Miguel de Vasconcelos, com o olhar perdido nas brumas do porvir. Portugal é a costa marítima de Espanha, pelo que jamais sofrerá o martírio da interioridade desoladora.

Verdadeiro visionário, o futuro sonhado surge-lhe imparável com todos os contornos.

— O TGV de Madrid e da Galiza serão simples extensões da rede ferroviária ibérica – cogita ele, premonitório. As urgências hospitalares, os centros de saúde, as maternidades e as clínicas de IVG estarão aqui bem perto de nós.

E assim prossegue, o grande líder pós-1640, desfolhando cada tema.

— A Zara no Vale do Ave, a Seat na AutoEuropa. Produtos alimentares,  têxteis, bancos, comércio e serviços, tudo circulará livremente até nós. Mesmo o calçado. Zapatero incluído. Nem Platão e Aristóteles seriam capazes de conceber tamanha obra. Nem o grande Sócrates. Grande? Grande sou eu.

 

(Publicado no PPTO há um ano – adaptação)

As senhoras primeiro


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A peixeirada-do-mal é uma nódoa que cai aos fins-de-semana num canal de informação – a SIC-Notícias. O moderador não modera e os opinadores não opinam. Ou opinam, mas ninguém os ouve: atropelam-se todos à molhada, cada qual a levantar mais a voz do que os restantes, e a peixeirada instala-se invariavelmente. Não é um grande mal, porque o pouco que se percebe é um chorrilho de lugares-comuns que não-aquenta-nem-arrefenta.

Pela devida ordem, a senhora vai à frente. Seguem-se dois inócuos. Por fim, o lugar mais honroso é o do Daniel Oliveira. Raramente concordo com ele, mas reconheço que se destaca pela seriedade e coerência. Já lhe dirigi umas gracinhas no passado, mas deve ser por isso mesmo que gastei algum tempo. E até lhe dirijo outra: aquela peixeirada não é séria, Daniel.

Os gurus devem estar loucos


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Ainda no início de Outubro passado, os celebrados gurus do mercado automóvel norte-americano colocavam o Smart ForTwo na posição de topo dos piores carros da década. De repente, no mesmo mercado e neste final de Novembro, o simpático Smart é apontado como o quinto automóvel mais popular do ano, à frente de muitos veículos fabricados nos EUA.

Por estas e por outras é que hei-de continuar a dar imenso valor ao que os norte-americanos pensam (pensam?). É de loucos.

‘Artitectura’: os mal-amados (10)


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Alvalade XXI,

Lisboa

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Alvalade XXI é um complexo em torno do Estádio José Alvalade, do Sporting Clube de Portugal (SCP), que inclui ainda o Edifício Visconde de Alvalade (sede do clube), um centro comercial, um pavilhão desportivo, uma clínica e outros serviços. Foi projectado por Tomás Taveira e custou cerca de 154 milhões de euros, dos quais o estádio custou quase 105 milhões.

O arquitecto ficou conhecido por diferentes polémicas: as polémicas Torres das Amoreiras, o polémico Edifício Arco-Íris, dois outros polémicos estádios de futebol em Portugal, o polémico projecto para um estádio do Palmeiras em São Paulo (Brasil) e um polémico filme pornográfico amador rodado no seu escritório das Amoreiras e que uma revista promoveu a escândalo sexual nacional.

Alguém menos avisado que se aproxime da obra poderá achar estranho que a Selecção do Brasil tenha um estádio e, mais ainda, que esse estádio seja em Lisboa. São as cores do SCP, é certo, mas a aplicação de verde e amarelo é excessiva.

Tem de reconhecer-se que, se assumido o lado artístico da criatividade, um arquitecto é sempre polémico nos projectos (e nos filmes caseiros) que faz. O problema é quando se trata de um clube e muitos adeptos também torcem o nariz.

‘Artitectura’: os mal-amados (9)


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The Obelisk,

em Puerto Maldonado

(Peru)

The Obelisk é um monumento com a altura de um prédio de cinco andares na City Plaza de Puerto Maldonado – um monumento de autoria anónima numa cidade pouco mais do que anónima, cuja única atracção é ser a terra mais importante do distrito de Madre de Dios e eventual ponto de partida para conhecer a Amazónia peruana em que se insere.

O topo do monumento permite observar toda a cidade – uma terra praticamente parada – e, sobretudo, para lá dela, espalhar a vista sobre a selva. O problema é que a subida lá ao alto tem de fazer-se com grande parcimónia, porque o espaço é pouco.

Cá em baixo, a base do obelisco é redonda e apoia uma coluna quadrangular com pretensões futuristas que termina no dito observatório exíguo e que mais parece um fungo dos trópicos nascido sem ser convidado.

Numa região em que faria sentido encontrar uma ruína dos incas, esbarrar com um conjunto piroso em que a base de apoio hostiliza a torre e o cabeção que lhe pesam é absurdo. Resta a tal vista, que não é de cortar a respiração a partir daquela altura modesta de cinco andares.

O protesto de quem abomina a obra nunca se fará ouvir longe, mas uma coisa é certa: além de ser um caso menor e de mau gosto como tantas outras, não passa de mais uma auto-celebração das vistas em redor que se plantam por todo o mundo. Podia ser mais alta e mais sóbria, simultaneamente, e deve ser por isso que custa tanto encontrar uma imagem decente deste hino aos fungos, por muito que se procure.

‘Artitectura’: os mal-amados (8)


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Ed. Mirador,

em Madrid

(Espanha)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Edifício Mirador data de 2005 e está em Sanchinarro, uma zona suburbana de Madrid, para o lado norte. A concepção pertenceu ao MVRDV – um grupo holandês de jovens arquitectos com alguns trabalhos arrojados (quer temporários, quer permanentes) espalhados por alguns lugares do mundo – e à espanhola Blanca Lleó.

Trata-se de um bloco de habitação com 21 pisos e 165 apartamentos de nove tipologias diferentes. Os apartamentos estão organizados de acordo com cada tipologia, formando uma espécie de bairros dentro do prédio, pelos quais se circula como se o fizéssemos por uma espécie de arruamentos e que se distinguem no exterior e no interior por umas fantasias arquitectónicas e pelos tons: branco, uns cinzas, corredores e áreas comuns a vermelho. Só falta saber se é distribuído um manual de instruções à porta.

O edifício incluiu um enorme buraco na estrutura, cuja base constitui uma zona comum de lazer – uma espécie de terraço – com vista para a Serra de Guadarrama. Como a serra não faz 360 graus em torno do observador, o resto da vista não consta que tenha algum interesse. O que condiz com o inverso: quem estiver na serra a apreciar a vista para Sanchinarro, esbarra com uma estrutura em betão que tem um buraco e que não devia estar lá.

Com os seus 63,4 metros de altura, destaca-se definitivamente numa área em que a urbanização tem crescido a olhos vistos. Foi erguido junto de uma rotunda e serve de cortina de fecho a uma avenida que aí desemboca.

Se a ideia foi conseguir travar de todo a vista para lá da avenida, o resultado teve sucesso. Se o buraco foi para evitar a ideia de uma cortina, o resultado foi continuar a ser uma cortina gigantesca com um enorme rasgão.

‘Artitectura’: os mal-amados (7)


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Secret Intelligence Service (SIS),

em Londres (Reino Unido)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vulgarmente conhecido por MI6, o Secret Intelligence Service acabou de celebrar em Outubro o seu primeiro centenário, instalado desde 1995 na nova sede, na Vauxhall Cross, em Londres. O projecto é de Terry Farrrell, que se aproximou do governo britânico em 1987 para ver se vendia a ideia. Na altura, o MI5 (que tem funções internas, ao contrário do MI6) procurava novas instalações e foi estudada a possibilidade de ter os dois serviços juntos, só que se entendeu ser arriscado que as duas instituições passassem a constituir um único alvo. Mas a primeira-ministra Margaret Thatcher, no ano seguinte, aprovou a reinstalação do MI6 e acabou por aparecer este bolo-de-noiva-armado-em-fortaleza, salpicado com um creme de corantes.

Sempre a lidar com crescentes exigências governamentais, o projecto foi revisto e a obra arrancou com as normas de segurança sofisticadas que foram impostas, parte das quais ainda são mantidas em segredo e encareceram substancialmente os custos. Por curiosidade: foram abolidas janelas e, a par de câmaras que espiam tudo o que se passa em redor, apareceu na base um fosso defensivo envolvente, com água e tudo, como nos castelos medievais!

O certo é que lá ficou pronto e recebeu o SIS em 1995, tendo sofrido um ataque a 20 de Setembro de 2000 (atribuído aos republicanos irlandeses) com um rocket russo RPG-22 anti-tanque, que atingiu o oitavo piso e não causou mais do que estragos superficiais.

Por sinal, o imenso prédio já apareceu em alguns filmes do James Bond (primeiro, até sem autorização para ser filmado e, depois, já nos créditos da ficha técnica): GoldenEye, 007 – O Mundo Não Chega, 007 – Morre Noutro Dia e Casino Royale. Diz quem sabe que só mesmo Bond conseguiria descobrir e pousar um helicóptero nas coberturas certas, tal é a profusão e variedade dos planos de topo.

Compreende-se o desgosto de muitos londrinos (e não só por lembrar um hotel de estância balnear): o insólito complexo parece uma construção feita por fases, tem uma volumetria gigantesca e mal distribuída por diversos volumes e ignora por completo qualquer enquadramento estético. Mais a mais, aquela área de Vauxhall, junto da ponte com o mesmo nome, é uma zona tradicional de habitação social que tem estado, nos últimos anos, a ser requalificada.

Ora, plantar tamanho edifício numa zona urbana sensível e, pior ainda, fazê-lo praticamente em cima do Tamisa – como um muro a tapar a vista da marginal para a água e vice-versa – para muito boa gente foi asneira grossa e jamais disfarcável. E quem é que aceita pacificamente que esteja de frente para o rio e que, do lado oposto, seja uma traseira virada à rua e não outra frente?

Por isso, os londrinos só não olham de soslaio para a casa-forte do SIS porque é impossível olhar para ela de outro modo que não seja com os olhos esbugalhados.

Xanadu e Kane: realidade e ficção


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File:XanaduConstructionCitizenKane.jpg

A propósito do que o Pedro Correia comentou aqui, deixo-vos este momento da construção de Xanadu, o lugar ficcionado de Charles Foster Kane, a figura central do filme de Orson Welles Citizen Kane (com Orson Welles e Agnes Moorehead, de 1941), com a sua mansão acastelada a dominar ao fundo. Xanadu e o nome de Kane têm servido, desde então, para apontar os excessos e as loucuras que sempre rodeiam e fazem parte da vida de algumas celebridades endinheiradas. Foi o caso de Michael Jackson, por exemplo, com o seu Neverland Ranch. Também a propriedade de Bill Gates é conhecida por Xanadu 2.0, com a alusão ao mundo da informática associada à grandeza.

‘Artitectura’: os mal-amados (6)


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Le Palais Idéal, em Hauterives (França)

O Palácio Ideal (Le Palais Idéal du Facteur Cheval) tem uma história insólita: Ferdinand Cheval (1836-1924) começou por trabalhar como padeiro, aos 13 anos, mas veio a ser carteiro; um dia, em 1879, disse que tropeçou numa pedra invulgar, que apanhou, e que se sentiu inspirado pela forma dela, pelo que voltou ao mesmo lugar no dia seguinte para apanhar mais pedras; nos 33 anos seguintes, juntou pedras que encontrava pelo caminho e levava nos bolsos, primeiro, num cesto, depois, e num carrinho de mão, mais tarde; muitas vezes, fazia-o à noite, com a ajuda de uma lamparina; pelas suas mãos e sem abandonar a profissão, foi construindo assim o que considerava a sua casa ideal, o seu palácio.

Durante cerca de 20 anos, levantou as paredes, ligando as pedras com arame, cal e cimento, e passou a seguir à profusa ornamentação. Com a casa pronta, fez saber que queria ser sepultado nela, mas as autoridades informaram-no de que não poderia ser. Foi então erguer um mausoléu no cemitério de Hauterives, em que gastou mais oito anos. Morreu no ano seguinte.

Nos últimos anos de vida, Cheval obteve o reconhecimento de surrealistas, como Pablo Picasso e André Breton, e Anaïs Nin destacou a sua obra num ensaio publicado. A casa é uma mistura impressionante de estilos (?) e de elementos decorativos, que incluem inspirações bíblicas e da mitologia hindu. Para muitos, é um exemplar ímpar de arquitectura naif.

Em 1969, o ministro da Cultura francês, André Malraux, decidiu proteger o Palácio e classificá-lo como património cultural. Passou a estar diariamente aberto ao público e, desde aí, recebe visitantes com regularidade. Por certo, vão menos para ver o nonsense do Palácio como casa de habitação e mais para observar o ideal sonhado por um homem solitário, ingénuo e obstinado.

Liverpool & Beatlemania (6)


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Foi nas instalações deste centro social da Igreja de S. Pedro, em Liverpool, que Lennon e McCartney se conheceram.

Num fim de tarde do Verão de 1957, antes da actuação do John com o sexteto The Quarry Men, um amigo comum, Ivan Vaughan, apresentou-lhe o Paul. Nunca mais se perderam de vista e tornaram-se amigos. Em curto tempo, partilharam projectos que chegariam, após poucos anos de experiências musicais, à criação de grandes canções e à formação da banda mais famosa do mundo: The Beatles.

Na parede, uma placa lembra esse primeiro encontro. Na base dela, de cada lado, lêem-se os nomes de Paul McCartney e de John Lennon. Em cima, um contorno em relevo ténue alude ao grupo, seguido das seguintes palavras, gravadas em maiúsculas:

IN THIS HALL ON

6th JULY 1957

JOHN & PAUL

FIRST MET

Eis os dizeres da placa:

The Quarry Men featuring, Eric Griffiths,

Colin Hanton, Rod Davies, John Lennon,

Pete Shotton and Len Garry performed on

the afternoon of 6th July 1957 at St Peters

Church Fate. In the evening before their

performance in this hall Ivan Vaughan,

who sometimes played in the group,

introduced his friend Paul McCartney to

John Lennon. As John recalled….

 

"that was the day, the day

that I met Paul, that it

started moving."

O que sabemos e o que escapa


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Fico a pensar nisto que o nosso Luís M. Jorge deixou mais abaixo, também nas palavras do estimável advogado Daniel Proença de Carvalho e ainda no destaque dispensado a este pelo João Pinto e Castro. Questiona o advogado: «Todos nós conhecemos os actores políticos, os seus percursos, as ideias que professam, os seus comportamentos políticos; e, muito importante, exercem o poder com base no voto popular, que é a regra da democracia. Que sabemos nós dos detentores do poder judiciário? Por onde andaram, que ideias políticas professam? E a pergunta fatal: qual a raiz do seu poder soberano?» Vamos ver se nos entendemos.

Sabemos que faz parte da «regra da democracia» (a expressão é do mesmo advogado) a independência do poder judicial (os juízes e os tribunais, que são órgãos de soberania) e que este não deve confundir-se com «poder judiciário» (que é um conceito amplo e impreciso e que não é formalmente um poder).

Sabemos por onde tiveram de andar os juízes (ou magistrados judiciais) para chegar aos tribunais, concordemos ou não com o percurso que está actualmente determinado, que já foi diferente e que poderá vir a ser alterado a todo o tempo.

Talvez não saibamos as ideias políticas que professam, mas não vejo por que teríamos de sabê-las, porque sabemos que elas não devem tomar assento nem ser chamadas ao assunto: o seu poder («soberano»?) independente reside no facto de estarem obrigados a cumprir e a fazer cumprir a lei, concordem ou não com ela. A qual não parte deles, mas do poder legislativo legitimidado pelo voto popular directo e universal. E é daí que vem a legitimidade democrática da Justiça, enquanto poder independente exercido por profissionais em regime de exclusividade.

Estará a escapar alguma coisa a Proença de Carvalho? Estará a escapar-me alguma coisa? Ao João Pinto e Castro escapou seguramente.

‘Artitectura’: os mal-amados (5)


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Pałac Kultury i Nauki (ou PKiN), Varsóvia (Polónia)

O Palácio da Cultura e Ciência perdeu o resto amaldiçoado do nome que já teve: Pałac Kultury i Nauki imienia Józefa Stalina. José Estaline mandou fazê-lo e disse que era uma oferta da União Soviética ao povo polaco. Foi construído entre 1952 e 1955 e passou a dominar Varsóvia dia e noite.

Espécie de bolo-de-noiva gigante (o "bolo russo", como lhe chamam os polacos), nasceu das mãos de Lev Rudnev, que o projectou como tantos outros arranha-céus russos da época, misturou-lhe renascentismo e uns maneirismos variados, juntou-lhe alguns traços polacos que colheu no caminho, deixou-o crescer desmesuradamente, salpicou-o com uma pitada de estalinismo q.b., enfeitou-o com o que lhe veio à cabeça e serviu-o bem quente.

O nome de Estaline foi banido com a "destalinização", mas a memória ficou: Varsóvia odeia o dador e a oferta. Não admira: o novo-riquismo disforme ditou que fosse, de 1955 a 1957, o edifício mais alto da Europa e ainda é o maior do país e o oitavo mais alto da União Europeia; o complexo Palácio abafa uma cidade cujo centro histórico, ainda por cima, é Património Histórico classificado pela UNESCO.

Durante a construção, 3500 operários russos foram instalados num bairro suburbano a expensas da Polónia – com cinema, restaurante, centro comunitário e piscina – e a obra registou 16 acidentes de trabalho mortais.

Depois da saída soviética, em 1989, o ódio esmoreceu e o impacto do complexo foi atenuado: recebeu no topo quatro relógios de 6,3 metros de diâmetro, em 2000, e os prédios erguidos entretanto alteraram a volumetria urbana. Mas será possível um dia gostar de tamanha aberração? Nunca: a sua omnipresença é uma sombra do passado odioso que ficou a pairar sobre a sofrida capital.

Outros tempos


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O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas é visado aqui nestes (e noutros) termos: «O CD (…) considerou "tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, pelo Correio da Manhã e pelo Expresso", relembrando que "a devassa da vida privada dos cidadãos por alguns meios de comunicação não é, por si, susceptível de transformar acontecimentos privados em públicos, nem a sua divulgação e conhecimento legitima que eles possam ser retomados por outros media".»

Ora, entre a posição do CD e a de quem o visa, lembrei-me de ter sabido um dia que uma das minhas avós namorava numa janela do rés-do-chão, com o pretendente especado na rua à altura do parapeito. Nas redondezas, dizia-se que ela era «namorada de»: não comentavam a sua vida privada; apenas concluíam o que era publicamente percebido. Só seria chato se ela mostrasse "publicamente", por exemplo, que também namorava outro. E haveria "conflito de interesses" se ela recomendasse a uma outra, por exemplo, o seu recomendável namorado.

Hoje em dia, as coisas mudaram muito. Nesse tempo, entre ser dona-de-casa ou ser médica, aquela minha avó nunca viria a ser menos do que uma jornalista. E, se tivesse sido jornalista, jamais se queixaria ao CD ou gastaria energias a deplorar as considerações do CD. O mundo está mesmo muito mudado: passámos a viver entre portas escancaradas para a nossa própria devassa, mas namorar passou a ser do foro privado? Nas capas da imprensa cor-de-rosa também? Ah!… Como vai longe o tempo em que «com CD quem ganha é você».

‘Artitectura’: os mal-amados (4)


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Ryugyong Hotel,

em Pyongyang

(Coreia do Norte)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ryugyong Hotel foi projectado para 330 metros de altura e uma área de 360 mil metros quadrados em 105 andares, com três mil quartos, sete restaurantes rotativos, casinos, nightclubs, etc. À época, o governo empatou 750 milhões de dólares (dois por cento do PIB norte-coreano).

Começou a ser erguido em 1987 para estar concluído dois anos depois; seria o maior hotel e o sétimo maior edifício do mundo. Mas correu mal: em 1989, quando devia ficar pronto, estava muito atrasado, por consecutivos problemas com o método de construção e materiais utilizados. Três anos depois, em 1992, era o caos: problemas de financiamento, cortes de energia eléctrica e racionamento de toda a ordem. A construção parou e assim ficou até ao ano passado: durante 16 anos, o único movimento foi o do guindaste deixado lá no alto, ao sabor do vento.

Em 2008, um grupo egípcio decidiu ficar com a obra e já iniciou os trabalhos a partir dos andares de topo. Muitos materiais foram repensados e estão a ser substituídos; grande parte da estrutura já sofreu deterioração irremediável pela exposição às condições climatéricas durante tanto tempo. Os investidores esperam abrir a Ryugyong Tower em 2012 e o governo de Pyongyang faz as contas: para o edifício ficar seguro, deverá chegar aos dois mil milhões de dólares (dez por cento do PIB).

Nem mesmo um norte-coreano ingénuo e sem termos de comparação pode apreciar o historial interminável de um arranha-céus que lhe custa os ossos e a medula, pensado para desafiar a Coreia do Sul e agora desejado para celebrar em 2012 os cem anos do nascimento de Kim Il Sung (o antigo líder e pai do actual).

Além do mau gosto, é também o triste símbolo arquitectónico de uma ditadura comunista dinástica em que o poder tira da população miserável para erguer aos céus uma torre absurda no centro da sua decrépita capital.

Mundial: uns vão, outros não


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A Selecção Nacional vai estar no Mundial/2010. Ao contrário de um impensável punhado de portugueses, capazes de se empenhar para assistir ao vivo ao Mundial de Futebol na África do Sul, há um bom número de políticos que não está em condições de lá ir. A menos que desçam à Terra a tempo, o que também dava um certo jeito cá dentro.