‘Artitectura’: os mal-amados (6)


jmmcc,

Le Palais Idéal, em Hauterives (França)

O Palácio Ideal (Le Palais Idéal du Facteur Cheval) tem uma história insólita: Ferdinand Cheval (1836-1924) começou por trabalhar como padeiro, aos 13 anos, mas veio a ser carteiro; um dia, em 1879, disse que tropeçou numa pedra invulgar, que apanhou, e que se sentiu inspirado pela forma dela, pelo que voltou ao mesmo lugar no dia seguinte para apanhar mais pedras; nos 33 anos seguintes, juntou pedras que encontrava pelo caminho e levava nos bolsos, primeiro, num cesto, depois, e num carrinho de mão, mais tarde; muitas vezes, fazia-o à noite, com a ajuda de uma lamparina; pelas suas mãos e sem abandonar a profissão, foi construindo assim o que considerava a sua casa ideal, o seu palácio.

Durante cerca de 20 anos, levantou as paredes, ligando as pedras com arame, cal e cimento, e passou a seguir à profusa ornamentação. Com a casa pronta, fez saber que queria ser sepultado nela, mas as autoridades informaram-no de que não poderia ser. Foi então erguer um mausoléu no cemitério de Hauterives, em que gastou mais oito anos. Morreu no ano seguinte.

Nos últimos anos de vida, Cheval obteve o reconhecimento de surrealistas, como Pablo Picasso e André Breton, e Anaïs Nin destacou a sua obra num ensaio publicado. A casa é uma mistura impressionante de estilos (?) e de elementos decorativos, que incluem inspirações bíblicas e da mitologia hindu. Para muitos, é um exemplar ímpar de arquitectura naif.

Em 1969, o ministro da Cultura francês, André Malraux, decidiu proteger o Palácio e classificá-lo como património cultural. Passou a estar diariamente aberto ao público e, desde aí, recebe visitantes com regularidade. Por certo, vão menos para ver o nonsense do Palácio como casa de habitação e mais para observar o ideal sonhado por um homem solitário, ingénuo e obstinado.

22 comentários em “‘Artitectura’: os mal-amados (6)”

  1. Este é um caso em que a obra se confunde com a biografia do autor. A minha mãe contava tantas vezes a história de Ferdinand Cheval que aprendi a gostar do Palácio. Obrigada por este texto. Com ele voltei à adolescência!..

  2. Primeiro deixe-me de felicitá-lo pela excelente série! Quanto à obra em questão: Ao contrário de outros já apresentados, tem alguns argumentos fortíssimos a seu favor! Primeiro não foi construído com dinheiros públicos, e segundo encontra-se num local em que não interfere com a paisagem pública, urbana ou não. Como projecto privado e pessoal, acho óptimo que exista, mesmo não sendo muito do meu género.

    1. Nem mais, João Pedro. Vim do Camboja há pouco tempo e assim que vi isto lembrei-me de Angkor. Mas está a anos-luz do original, tanto em beleza como em grandiosidade. Este é feíssimo!

  3. Confesso que também me ocorreu a Sagrada Familia. Essa uma verdadeira obra de arte. Mas mesmo assim, talvez merecendo aparecer nesta série?

      1. A exuberância da obra do Palais Ideal, mas também aspectos biográficos – um homem obsessado as viver só para a obra e na obra – fez-me lembrar a igreja da Sagrada Familia em Barcelona e o seu autor, Antoni Gaudí. Acho a Sagrada família uma grande obra de arte, mas tal como muitas obras aqui apresentadas – dumas gosto, outras acho abomináveis – era uma afronta ao gosto corrente.

        1. A Sagrada Família, não, please. Emociono-me só de olhar. Pode haver quem não goste, claro, mas não creio que seja deste campeonato.
          Digo eu.

          :))

        2. Essa Sagrada Família é demasiadamente grandiosa para este efeito, Lutz, mas agradeço a sua sugestão.

          Nesta secção, apenas tento apresentar polémicas e não provocar provocar polémicas, se é que me faço entender. Isto é: pode acontecer provocar a discórdia, mas estou a procurar aquilo que já merece notória discordância generalizada, para mero registo.

  4. Não sei o que será mais extraordinário se – o “projecto” imobiliário ou o “projecto” de vida do seu proprietário…)) Não fazia a mínima ideia da sua existência…Ao procurar mais imagens do “Le Palais ” encontrei uma com a inscrição – Travail d’un seul homme ” e Défense de rien toucher “… João, vislumbro que não lhe faltará material para uma “longa série” e muito interessante…

    (li, algures, que a casa da personagem – Denny “, no Romance – Choke ” – de Chuck Palahniuk , era inspirada “no palácio de sonho” de Ferdinand Cheval – está adaptado ao cinema)

  5. Venho aqui para ler os post do Carlos Barbosa de Oliveira e da Ana Vidal e agora, através do Escafandro fiquei a conhecer o seu nome!
    Achei esta história muito interessante e vou passar a visitá-lo.
    Já vi que neste Blog estou sempre a aprender.

    1. Não é garantido, Maria. Mas neste blogue uma coisa é certa: estará sempre a ser bem recebida.
      Obrigado pelas suas palavras, em nome da Ana, do Carlos e de todos nós. E vá deixando o seu sinal.

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