Foi-se


jmmcc,

O reparo futebolístico do António Manuel, aqui por baixo, lembrou-me que, ainda há poucas semanas, o finalmente ex-treinador da selecção nacional de futebol garantia: «Só saio daqui morto.» Na linguagem expressiva dele, pergunto: f…-se, acham que ele ainda não sabia que a p… da vida já o condenara à morte, c…?

O homem é como o peixe: morre pela boca.

Para quê o chinfrim?


jmmcc,

Prestei toda a atenção ao que, de principal, foi divulgado sobre a proposta de revisão constitucional do PSD. Prestei toda a atenção e, se querem que vos diga, parece-me uma boa base de trabalho para um debate sério e aprofundado. Terá pontos a repensar, excessos a avaliar e omissões a lembrar, mas nada de mais que justifique o sururu que o PS tem espalhado. Perguntarão: mas quem sou eu para o dizer? Bem, sou cidadão nacional, eleitor e interessado nos assuntos de natureza política e social. Chega?

Por isso mesmo é que também me interrogo: é muito importante dar espaço ao debate para uma revisão constitucional? Claro que não. Podia ser, se não fosse preciso ocupar todos os espaços e mais alguns para cuidar do défice, da dívida, da pobreza, da economia, do trabalho, etc., para já não falar da Justiça, da corrupção, da ética e por aí fora. Será possível acabar com o chinfrim e dar lugar ao bom-senso?

Sabia que… (48)


jmmcc,

… foi recentemente apanhado um goldfish gigante nos EUA? Assim parece. Algures numa região norte-americana onde os populares peixes dourados ou carpas de aquário (também conhecidos entre nós como peixinhos vermelhos) estão mais vulgarizados do que os carapaus, um homem fez-se fotografar com o macro-exemplar que aqui se vê.

Dizem as notícias sobre o caso que o peixe apenas teve de aguentar fora de água o tempo necessário para o registo fotográfico. Depois, portanto, foi lançado novamente à água e pôde continuar a viver tranquilamente no seu habitat. É muito possível, porque não ia ser fácil encontrar-lhe um lugar adequado para viver feliz o resto dos seus dias. Normalmente, as pessoas têm de decidir se querem ter um automóvel na garagem ou um aquário tamanho familiar. As notícias só não dizem se o animal fotografado é real ou não…

Por cá, nem no Entroncamento um peixe dourado destes se salvaria. Outros hábitos, não é? Com efeito, os peixes mais dourados em Portugal nem são as carpas. Costumam ser os robalos, que chegam a transaccionar-se nos parques de estacionamento, embrulhados e pela calada da noite, ao preço do ouro.

Quero regressar à normalidade


jmmcc,

Tive sempre muita dificuldade para encarar as médias absurdas para se entrar em determinados cursos superiores essenciais, como o de Medicina, mas confesso que é a primeira vez que assisto ao ingresso de alunos com médias negativas em cursos que devem conceder licenciaturas ao domingo. Este sítio onde se fala de “exigência” à exaustão não é no meu planeta.

Tenho de arranjar maneira de deixar esta terra cheia de cursos superiores, como os de Guias da Natureza, de Plantas Aromáticas, etc., e ver se regresso ao meu planeta, que era um lugar com cursos normais e exigências normais para gente normal. Tirem-me daqui.

 

Adenda — Nem tudo é mau. Por falta de candidatos, não vão em frente os cursos superiores de Motoristas de Táxi, de Bolos de Casamento, de Alimentadores de Formigas e de Línguas Técnicas.

Um desafio: que país teríamos?


jmmcc,

Tenho pouca queda para as correntes blogosféricas, mas aceito o desafio lançado aqui pelo João Maria Condeixa: «Em que Portugal viveríamos sem o 11/9?»

 

PORTUGAL CÁ DENTRO…

Sem embargo de perceber a sucessão de acontecimentos, alguns eventualmente bem precipitados, que agitaram a política na sequência do violentíssimo golpe terrorista de 11 de Setembro de 2001, parece-me justo salientar a onda de repulsa que atravessou Portugal cidadão a cidadão. Ninguém ficou certamente de fora. Entre incrédulo e solidário no pesar, o País entendeu que só por acaso não houve portugueses envolvidos, sendo verdade que estamos em todos os cantos do mundo. Não houve portugueses envolvidos por simples acaso, mas houve muitas vítimas, gente como nós, seres humanos com os quais sempre nos solidarizamos nas horas difíceis.

Na solidariedade, os portugueses não são de regatear a escala. As reacções são imediatas e nunca inferiores à proporção devida. O 11/9 foi apenas mais uma demonstração do velho comportamento que nos caracteriza. Talvez por isso, todos os inconvenientes que sobrevieram ao ataque tenham sido vistos com compreensão pacífica, com aceitação conformada ou com tolerância racional. As novas medidas aplicadas nos aeroportos e nas viagens aéreas, por exemplo, dão conta desse nosso comportamento, dado que os problemas levantados foram de pouca monta e nunca se generalizaram.

Claro que temos outra velha tradição na nossa mente colectiva: que as medidas especiais teriam os dias contados, que seriam apenas aplicadas enquanto o caso se mantivesse quente, que as coisas iriam funcionar sempre mal por cá. Mas não foi assim. Os erros e falhas têm-se verificado um pouco por todo o lado e têm sido corrigidos na forma possível ao longo da década.

O certo é que os portugueses entenderam facilmente que o mundo tinha mudado e que Portugal, tantas vezes afastado do mundo que nos rodeia, nem por isso deixava de mudar também. Não sei se é consciente, mas há-de estar algures no nosso subconsciente aquilo que acho mais notável. É que, com a reacção ao caso e a aceitação da mudança, os portugueses fizeram saber de novo por que motivo olham, cada vez com maior tristeza e frustração, para o desenvolvimento dos países que nos são mais próximos: as reacções que nos colocam a par dos outros, que dedicamos aos outros, significam também que nos sentimos civilizados o bastante para ter as mesmas ambições, a mesma vida.

Sem o 11/9, Portugal continuaria a achar que lá fora é que é bom. A nossa música, a nossa Bandeira, as nossas ambições talvez não estivessem ainda à mostra ou sequer a servir de sinais novos. Não seria assim, mesmo que a crise actual estivesse a pedir esses sinais.

 

… E NO EXTERIOR

Perceber essa sucessão de acontecimentos é essencial, mas dou de barato o arranjo da Cimeira das Lajes e o que daí possa ter resultado. O 11/9, por ser um massacre gigantesco e impensável, teria sempre de redundar num conjunto de primeiras decisões em que parte delas haveria de ser fruto de natural precipitação. Alguma cimeira se faria, nos Açores ou em qualquer outro lugar. Algumas formas de contra-ataque seriam despoletadas, com ou sem armas ameaçadoras para silenciar no mundo islâmico. Sem aquele infeliz encontro nos Açores, a única diferença provável na época adivinha-se: Portugal recusou-se a receber a cimeira. Com uma agravante: nenhum país se lembraria agora de dizer que tínhamos sido muito perspicazes por recusarmos ser palco do encontro.

A verdade é que Portugal esteve à altura do “seu” mundo, do mundo ocidental, do mundo democrático e livre, do mundo traiçoeiramente atacado como nunca antes se vira. Portugal esteve à altura, para o bem e para o mal. Se o país não esteve sempre bem, também este meio-mundo não esteve. O mundo não é perfeito, nem na parte em que nos incluímos, mas esta é porventura a parte melhor do mundo inteiro.

Estar à altura — atenção — não é necessariamente motivo de grande orgulho. Portugal alinha com facilidade, coloca-se na primeira linha sem perder tempo, apenas para dizer que existe e que gosta de estar com a “nata” da comunidade internacional. Convenhamos que se trata de aproveitar todas as oportunidades para o país se pôr em bicos-de-pés, mas mantendo o maior desleixo e incompetência para se gerir a si mesmo e sem capacidade e imaginação para seguir os outros naquilo em que eles são melhores.

Ainda assim, considero que Portugal esteve à altura — como já disse, para o bem e para o mal, sem grande orgulho. Só que isso deve-se a um factor feliz: está cada vez mais longe o tempo em que ficávamos “orgulhosamente sós”. O país mudou. O país muda com o mundo.

Sem o 11/9, os Açores continuariam a ser uma base aérea norte-americana sem qualquer outro interesse. Hoje, o arquipélago está na moda e é procurado por muita gente: passou a ser uma ponte cultural entre a Europa e os EUA, uma ampla reserva da biosfera com ecossistemas riquíssimos e reconhecidos, um paraíso escondido e preservado no coração do Atlântico Norte. Não seria assim, mesmo que Durão Barroso estivesse em Bruxelas.

 

CONCLUSÃO

Sem que tivesse acontecido o 11/9, viveríamos no Portugal de ontem. Não fomos atingidos directamente pelo massacre e limitámo-nos a acompanhar a mudança mais ou menos generalizada, mas não muito mais do que isso. Não sendo profundas as mudanças, apenas estamos mais atentos ao que se passa dentro e fora de portas, que é apenas o que nos permite ter um Portugal pós-11/9, um Portugal de hoje.

No mais, ainda (repito: ainda) ninguém estranha muito que o Portugal de hoje seja excessivamente parecido com o Portugal de ontem. Até com o de anteontem, para ser franco. Seria assim, mesmo com Durão Barroso e sem Santana Lopes em São Bento e sem José Sócrates a cavar a crise.

A porta-voz do porta-voz


jmmcc,

Entre dizer que Carlos Cruz pode ser mais do que porta-voz de si mesmo, mas também porta-voz de tantos injustiçados anónimos, e que há condenados que ainda não sabem do que são acusados, chamar sentença a um acórdão é um pormenor de somenos (apesar das obrigações de conhecimento de quem tem voz pública).

Quem disse aquilo e outras tantas barbaridades foi Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal da SIC-N. Ela própria uma porta-voz notável neste país dos disparates.

Ser ou não ser


jmmcc,

«(…) Pode-se dizer, hoje, em Portugal, “Salazar foi um democrata-cristão convicto”. Pode. Não é proibido nem dá prisão. É só aviltante. É só estulto. É só falso.» São ideias, ou mais palavras do que ideias, de Fernanda Câncio, que não encontrou melhor maneira para afrontar o autor de Salazar, a recente obra biográfica de grande fôlego de Filipe Ribeiro de Meneses.

Ora, é falso — ou provavelmente falso — o que escreveu Fernanda Câncio, que se esqueceu de fundamentar a contra-afirmação, ao contrário do que fez Ribeiro de Meneses sobre a afirmação. Por muito aviltante e estulto que seja.

Ser-se democrata-cristão convicto é como ser-se católico não-praticante, ou social-democrata alinhado, ou comunista pouco ortodoxo. Estamos tão-só a falar de cidadania, de posicionamento político, de opções sociais, da chamada consciência colectiva.

Considerar-se alguém um democrata-cristão convicto não é uma garantia ao abrigo do léxico: não faz de um homem um democrata, nem um cristão, nem sequer um crédulo numa determinada linha de conduta. Ao longo do século XX e ainda hoje, não faltam ditadores que chegaram ao poder por via de eleições livres, por exemplo, e essa ascensão democrática, que permite considerá-los democratas e porventura convictos numa determinada altura, não chegou para que o epíteto ficasse ou venha a ficar gravado nas suas sepulturas.

A definição adoptada, seja ela qual for, obedece a critérios para atribuição de um figurino aceite, baseado em factos e fundamentado no que se nos apresenta e se conhece sobre alguém num dado contexto — não é um exame à consciência de alguém.

Diogo Freitas do Amaral, por exemplo, liderou o velho CDS. Se calhar, ia bem chamar-lhe um democrata-cristão convicto, mas sem perder de vista que a definição pode ser redutora e balizar um período da sua história de vida. Isso faz dele um convencido eterno daquela linha sócio-política? Talvez não. É um cristão? Só ele sabe. É um democrata? É bem possível que seja. E, no entanto, é (ou foi) um democrata-cristão convicto.

A intimidade da consciência de cada um não é biografia — é confessionário (e, mesmo assim, ainda suscitaria grandes reservas). Estas coisas são sempre muito mais complexas do que um artigo à Fernanda Câncio, que acha uma coisa aviltante e estulta e logo conclui que é falsa. Como se o aviltante e o estulto não existissem e como se as contradições não fizessem parte das curvas e contracurvas da vida e do comportamento de todos nós. A questão, como a tradição, ainda é o que era: ser ou não ser.

Leituras – Estio e fastio


jmmcc,

Já vai longe o tempo em que a minha leitura “obrigatória” de praia era a Agatha Christie e o Erle Stanley Gardner ou qualquer título novo ou atrasado da velha Colecção Vampiro. Era ainda um rapazito e lembro-me de ter aberto apenas uma excepção naquele Verão de 1963, por causa do célebre assalto ao comboio-correio Glasgow–Londres, em que devorei — com os olhos a brilhar — páginas e páginas de jornal, dia após dia, semana após semana. Dessa vez, algum livro policial chegou decerto ao Outono sem areia no meio das folhas, mas foi irresistível acompanhar os detalhes daquele roubo fantástico. O roubo e a crescente frustração dos esforços de uma operação policial real sem precedentes — o “progresso negativo da polícia relativamente a operações homólogas anteriores”, como diria Vítor Constâncio.

 

Vieram muito mais tarde as praias tropicais do Extremo Oriente. Tailândia, Malásia e outras paragens exóticas deixaram-me sempre pouco tempo para literatura de veraneio, que os olhos tinham muita areia branquíssima por onde se perder, dentro e fora daquelas águas transparentes à temperatura da sopa. Um dia, quando regressei, o frio do velho Atlântico estava decididamente um gelo de arrepiar. Praia, para mim, passou a ser uma esplanada à beira-mar com um gin tónico cheio de gelo picado e limão à frente. Regressou assim a leitura de praia, mas o meu olhar tinha-se tornado tão gelado como a água do nosso mar, que já antes me atraía pouco e que passou a conservar-me à distância. O mar, sempre o quis bem perto e sempre o tive desde que nasci, mas não necessariamente a cobrir-me, que sou animal de terra.

 

Desde então — e só para exemplificar — posso ler na esplanada duas crónicas do António Lobo Antunes antes de abrir um livro da Rita Ferro, mas leio um livro da Rita Ferro antes de olhar para a contracapa e ficar a dormitar nas badanas de uma história do Lobo Antunes. O que é que mudou? Os autores policiais em edições populares à prova de areia, os assaltos inteligentes e empolgantes, a temperatura da água do mar? É evidente que mudou a idade. Na minha estação da vida, o meu Verão continua a ser para leituras estivais, mas já me dou ao luxo de ser como eu quero. Ou melhor: foi sempre como eu quis, mas agora dou-me ao luxo de dizê-lo sem ficar a ruminar disfarçadamente qualquer fastio só porque os outros acham que sim. Não vou em modas nem preciso de currículo intelectual.

Um texto sobre o contexto


jmmcc,

Sobre a nova e pouco abonatória posição de Portugal no Global Competitiveness Report 2010/2011, o ranking de competitividade do Fórum Económico Mundial (em que passámos do 43.º lugar para o 46.º), Afonso Azevedo Neves anota aqui muito bem o “tratamento” e as primeiras “explicações” surgidas entre nós. Sugiro que vejam a coisa descontextualizada no contexto devido, porque vale a pena. Tem graça e não ofende — só ridiculariza o ridículo.

Convém lembrar que, até Sócrates chegar a primeiro-ministro em 2005, Portugal estava em 22.º lugar no mesmo ranking. Por outras palavras: há cinco anos estávamos muito melhor. Como todos sabemos.

Sabia que… (47)


jmmcc,

… a formação em V no voo dos patos bravos que emigram tem curiosas explicações? Pois tem e é mais do que copiar o exemplo das esquadrilhas de caças norte-americanos. Como acontece com frequência em várias espécies do reino animal, há sempre um líder que os restantes seguem. No entanto, o instinto diz-lhes que o voo pode complicar-se e a visão é parcialmente tolhida se ficarem em linha, pelo que a solução natural é a que se sabe.

O resultado desta formação permite ainda uma organização que os observadores assinalam: sendo o líder o que dispende maior esforço, ciclicamente afasta-se, atrasa-se e coloca-se mais atrás, dando a vez ao que lhe estiver mais próximo, à esquerda ou à direita. E assim se vão rendendo e rodando ordenadamente durante as viagens migratórias.

Em Portugal, os patos-bravos nunca tiveram o hábito de voar e emigrar. O que é natural: não precisam de temer, que nenhum mal lhes cai em cima.