Ler aqui o Francisco Clamote sobre a demissão de Manuel Maria Carrilho é dar o assunto por encerrado. No fundo, não há grande pachorra para estas minudências. Só nos faltava agora uma “crise Carrilho”, não? Arquive-se.
Crise e minudências
jmmcc,
Ler aqui o Francisco Clamote sobre a demissão de Manuel Maria Carrilho é dar o assunto por encerrado. No fundo, não há grande pachorra para estas minudências. Só nos faltava agora uma “crise Carrilho”, não? Arquive-se.
“A crise é o Governo; o Governo é a crise.”
Diogo Leite Campos, vice-presidente do PSD
O DELITO DE OPINIÃO e o nosso Paulo Gorjão em especial têm sido alvos de várias atenções por parte dos dois autores deste blogue, no qual até já se destaca a «classe, educação e até elegância de escrita» que aqui se pratica. Não era preciso incomodarem-se, mas ficamos sensibilizados. É sempre bom saber que a ERC ainda mexe. Como e quando deve, naturalmente.
«A Câmara de Portimão aprovou em Março a construção de um bloco de habitação com uma área de pavimento superior em 83 por cento à que viabilizara em 2002 para o mesmo local, mas para outros donos», na apetecível estrada Portimão-Praia da Rocha. A área de assentamento da construção passou de 2485 para 4545 metros quadrados. Entre os novos donos favorecidos está um antigo vice-presidente daquela câmara.
Ora, casos deste tipo estão longe de ser invulgares. Aumento da área de construção, alteração de finalidade e coisas do género após uma mudança conveniente de mãos não são propriamente pontuais, como se sabe: têm sido encontrados um pouco por todo o país e costumam envolver ligações suspeitas.
A verdade é que isto tem sérias implicações num qualquer projecto de regionalização. Num país assim tão igual, há que reconhecer que se torna muito difícil dividi-lo em regiões com características e hábitos diferenciadores…
Afinal, a linha de alta velocidade do Poceirão fica (ou ficava) pelo dobro do preço indicado pelo Ministério das Obras Públicas. O ministro Mendonça, claro, já explicou que há o custo das “acessibilidades” (são os acessos) e outras coisitas de somenos que são inerentes à obra. Ora, precisamente por serem inerentes à obra é que fazem parte do custo da obra, não é? Ninguém ergue um hospital a partir do primeiro andar se o vazio do rés-do-chão não tiver uma escadaria ou um elevador de ligação com a parte de cima (a integrar no orçamento da obra), nem se fabrica vestuário sem operários têxteis (cujo salário faz parte do preço da roupa).
A gente sabe que a mentira está institucionalizada. Mas, por favor, ao menos façam-no com profissionais. Bons tempos em que o conto-do-vigário era uma arte.
«Até somos ‘grão-líder‘.»
(José Sócrates a falar de Portugal na abertura da mostra Portugal Tecnológico)
… a Citroën e a Lacoste (imaginem) se juntaram para criar um automóvel? Pois é: juntaram-se mesmo e o projecto já vai adiantado, como se vê pelo concept car nestas imagens.
O Citroën Lacoste é suposto usar a tecnologia mais recente aplicada a um carro pequeno e versátil, que combine audácia com uma vestimenta atraente. Se vai ser atraente ou não, caberá ao público confirmá-lo, mas não há dúvida de que esta joint-venture é absolutamente insólita. Esperemos, então, para ver o que irá ser comercializado, porque é o mercado que decidirá o que acha do(s) modelo(s) e da forma como há-de recebê-lo(s).
Em Portugal, como se trata de um carro eléctrico, poderá conhecer grande sucesso, visto que o governo prometeu uma ampla e pioneira rede de abastecimento. Pelo rumo do país, o problema consiste em saber se não será mais um daqueles “elefantes” inúteis pagos a peso. Mas sempre resta uma alternativa baratucha: faltar à promessa.
O famoso «crescimento negativo» de que Vítor Constâncio tanto gostava está a desenvolver-se em novas fórmulas. O Rodrigo Moita de Deus faz aqui um update, a partir da “redução do ritmo de crescimento” e coisas no género. É sempre bom estarmos actualizados, para percebermos melhor e estranharmos mais as frases do que aqueles que as proferem. Até porque esses não as percebem nem as estranham — apenas as proferem.
Adenda — Também o Gabriel Silva não resistiu a registar aqui que «a despesa total do Estado está a reduzir o seu ritmo de crescimento». É a herança de Constâncio, sem dúvida.
A despesa do Estado não só subiu, em relação ao ano passado, como acho curioso verificar que essa subida se verifica em 12 dos 16 ministérios. Mais curioso ainda é que, entre eles, tenha subido no Ministério da Economia, apesar de ter poupado com a extinção do plano anti-crise nacional (?), e no Ministério da Agricultura, que apresenta o aumento impensável de um-terço das suas despesas em 2009.
Nesta realidade assustadora em que a abertura dos cordões à bolsa da Segurança Social já não serve de pretexto, o primeiro-ministro diz que a subida corresponde ao que estava previsto e que está tudo controlado. O que não impediu que viesse um secretário de Estado do ministro das Finanças declarar que não há qualquer alarme e que o governo vai continuar a diminuir a despesa do Estado, numa referência a qualquer coisa que deve ter sonhado de noite. Nem vale a pena pedir explicações. De explicações precisam os decisores que nos arrastam à força para este pesadelo.
Pelo meio, têm aparecido vários gurus em macro-economia e finanças a garantir que é muito mais importante ter um bom Orçamento de Estado para 2011 do que obter um rápido consenso para a sua aprovação em tempo útil. Não preciso de ser um especialista para entender que, sem Orçamento aprovado a horas, governa-se por duodécimos do anterior, o que significa não haver subida nem descida das despesas do Estado: gasta-se o mesmo, o que é pior que mau. E isto os gurus não dizem.
Com o fantasma do FMI a pairar cada vez mais perto, o que fazer? Como alguém já disse, a receita é simples e conhecida: bastaria que Portugal aplicasse as medidas que estão a funcionar na Grécia sob a batuta do FMI, com a vantagem de podermos fazê-lo sozinhos, por iniciativa própria e sem ingerência externa. Já alguém assistiu ao encerramento de organismos e instituições que parasitam por aí? E qual é o tamanho real do buraco financeiro em que a verdade completa das contas públicas está metida, escondida nas empresas públicas e nas chamadas empresas municipais? E quanto custa ao Estado (e com que proveito) a teia infindável de fundações que o governo esconde?
Pois é: vamos discutir a revisão constitucional enquanto a gestão do país se faz a martelo. Só que as marteladas são perigosas: com estes habilidosos do martelo, depois das jóias pode já nem haver dedos sãos.
Embaixador junto da UNESCO, Manuel Maria Carrilho nem acredita que vai ser substituído no cargo em Paris: «Soube pela Lusa esta manhã.» Ainda há poucos dias, sobre a possibilidade de estar para breve a sua substituição, respondia ele ao Expresso que isso era apenas «um rumor».
Depois de fazer as malas a correr, Carrilho há-de ter tempo para repensar devagar quem são os amigos que escolheu.
Cada vez somos menos auto-suficientes e mais dependentes do que vem de fora. Agora até importamos óvulos e (pasme-se!) espermatozóides (por falta de produção, supõe-se). Ao que nós chegámos. Que coisa.
A VW Kombi nasceu há 60 anos. Recebeu a motorização e tudo quanto foi possível do ‘Carocha’ e, tal como este, foi rebaptizada carinhosamente nos mais diversos mercados; entre nós, ficou conhecida como ‘Pão-de-Forma’.
A versatilidade da Kombi (do alemão Kombinationfahrzeug, veículo combinado), ampliada pelas diferentes versões que teve, garantiu-lhe um sucesso jamais conhecido por outro veículo do mesmo tipo.
Desde 1950 e durante décadas, fez jus ao velho Beetle e mereceu os milhões de fãs que também teve por todo o mundo. A par do carro que lhe serviu de base, alcançou um lugar inesquecível na cultura dos anos 60 e 70.
… há uns sites na Internet dedicados à astronomia que são particularmente interessantes para quem gosta do tema? Há, sim, e vou deixar-lhe aqui algumas orientações, para que tire bom proveito sem se perder no Universo.
Sobre o cometa Halley e o seu passado, por exemplo, vá dar uma espreitadela aqui e aqui e irá saber que este popular astro nómada, descrito pelo astrónomo inglês Edmond Halley, que previu a sua passagem em 1758 e acertou (a passagem mais recente foi em 1986 e a próxima há-de ser em 2061), deve ser o mesmo asteroide observado em 466 a.C. pelos gregos.
Com Júpiter (na foto à esquerda) a passar amanhã mais perto da Terra, visite o maior planeta do sistema solar aqui, aqui (boas imagens) e aqui. A política de exploração espacial da NASA está aqui e a Boeing promove aqui um curioso plano de turismo espacial, assunto também abordado aqui e aqui. Vale ainda a pena ver as imagens que a revista Time tem aqui e o mapa topográfico da Lua feito aqui pela NASA.
Para nós, portugueses, este conhecimento é de especial relevância, uma vez que temos líderes políticos que não vivem com os pés na Terra e que nos vêem de outro planeta.
Vou demorar um minuto a escrever isto. Está quase. Calma. Só mais uns segundos. Pronto. Devemos agora mais 50 mil euros ao estrangeiro.
A dívida do País cresce 40 e tal mil euros por minuto. Para Sócrates, estava tudo previsto, está tudo sob controlo, está tudo bem. E esse deve ser o maior mal.
«O Papa esteve há pouco na Abadia de West Minister.»
(Pivot no bloco noticioso das 19 horas, SIC-N)
O TGV baixou de nível: o palco passou agora a ser ocupado por um secretário de Estado. E o que já fez ele? Veio dizer que daqui a meio ano é que vai ser. Já estou a imaginar: mais uma “primeira” pedra lançada com toda a pompa e circunstância no próximo ano. De pedra em pedra, alguma coisa há-de ficar um dia construída, senhores. Mas façam-nos um favor: não falem mais, mantenham-se silenciosos. É que já não há saco.
Adenda — No dia em que cai o ex-urgente TGV, o ministro Mendonça sai do país para estar com o seu homólogo espanhol? Não. Sai para conversar com o presidente da Junta de Extremadura espanhola «relativamente a esta matéria». Aos jornalistas dá respostas redondas «relativamente a esta matéria» e diz que nada se passa de especial «relativamente a esta matéria». Daqui a seis meses parece que o mundo volta a mudar «relativamente a esta matéria». E a crise daqui a seis meses? É em crise que tem de se ser mais exigente «relativamente a esta matéria». É pena termos este governo, porque a exigência devia existir sempre e servia para enfrentar melhor as crises. Exigência é o que tem feito falta «relativamente a esta matéria» e a todas as outras.
Madahil foi almoçar a Madrid com Mourinho. Dou a mão à palmatória: começo a achar que o TGV está mesmo a fazer falta. Só não sei se os gurus do futebol concordam com o terminal no Poceirão.
Adenda — Afinal, posso regressar ao ponto de partida: eu estava certo, Sócrates estava errado e o ministro Mendonça fez desta novela um circo.
N.B.: O País aguarda que o ministro Mendonça explique a figura que andou a fazer, com as suas declarações semana após semana, e eu aguardo que os optimistas opinadores da urgência venham meter os pés pelas mãos.
… a manipulação digital é cada vez mais um furor onde a censura mais aperta? É, sim, e um dos exemplos mais recentes vem do Egipto e refere-se a um caso de política internacional: as conversações sobre a paz no Médio Oriente, que tiveram lugar 1 de Setembro em Washington.
A primeira das duas fotografias aqui ao lado foi publicada pelo jornal egípcio Al-Ahram, abençoado pelo governo do Cairo, que exerce uma forte política de censura sobre a comunicação social. Nela se vê o presidente do Egipto Hosni Mubarak a liderar o grupo integrado pelo primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, o presidente dos EUA Barack Obama, o presidente da Autoridade Palestiniana Mahmoud Abbas e o rei da Jordânia Abdullah II na Casa Branca, quando se dirigiam para a Sala Leste.
A segunda foto é a original, divulgada pela BBC, que deu pela marosca e a denunciou, comentando que o Al-Ahram tinha estado a brincar com o ‘Photoshop’. O jornal nem respondeu à BBC, pelo que a única razão que ocorre é tão mesquinha que se torna caricata: dar aos egípcios uma ideia da suma importância de Mubarak na cena política internacional e o quanto ele é respeitado e venerado pelos líderes mundiais. É isto que acontece na imprensa corrupta dos regimes musculados. Vale tudo, mesmo o que não tem valor.
Em Portugal não há censura — só há recados. E não há ‘Photoshop’ — só há almoços. Por isso é que não há a tentação de manipular — só há a tentação de mandar comprar.