Leituras – Estio e fastio


jmmcc,

Já vai longe o tempo em que a minha leitura “obrigatória” de praia era a Agatha Christie e o Erle Stanley Gardner ou qualquer título novo ou atrasado da velha Colecção Vampiro. Era ainda um rapazito e lembro-me de ter aberto apenas uma excepção naquele Verão de 1963, por causa do célebre assalto ao comboio-correio Glasgow–Londres, em que devorei — com os olhos a brilhar — páginas e páginas de jornal, dia após dia, semana após semana. Dessa vez, algum livro policial chegou decerto ao Outono sem areia no meio das folhas, mas foi irresistível acompanhar os detalhes daquele roubo fantástico. O roubo e a crescente frustração dos esforços de uma operação policial real sem precedentes — o “progresso negativo da polícia relativamente a operações homólogas anteriores”, como diria Vítor Constâncio.

 

Vieram muito mais tarde as praias tropicais do Extremo Oriente. Tailândia, Malásia e outras paragens exóticas deixaram-me sempre pouco tempo para literatura de veraneio, que os olhos tinham muita areia branquíssima por onde se perder, dentro e fora daquelas águas transparentes à temperatura da sopa. Um dia, quando regressei, o frio do velho Atlântico estava decididamente um gelo de arrepiar. Praia, para mim, passou a ser uma esplanada à beira-mar com um gin tónico cheio de gelo picado e limão à frente. Regressou assim a leitura de praia, mas o meu olhar tinha-se tornado tão gelado como a água do nosso mar, que já antes me atraía pouco e que passou a conservar-me à distância. O mar, sempre o quis bem perto e sempre o tive desde que nasci, mas não necessariamente a cobrir-me, que sou animal de terra.

 

Desde então — e só para exemplificar — posso ler na esplanada duas crónicas do António Lobo Antunes antes de abrir um livro da Rita Ferro, mas leio um livro da Rita Ferro antes de olhar para a contracapa e ficar a dormitar nas badanas de uma história do Lobo Antunes. O que é que mudou? Os autores policiais em edições populares à prova de areia, os assaltos inteligentes e empolgantes, a temperatura da água do mar? É evidente que mudou a idade. Na minha estação da vida, o meu Verão continua a ser para leituras estivais, mas já me dou ao luxo de ser como eu quero. Ou melhor: foi sempre como eu quis, mas agora dou-me ao luxo de dizê-lo sem ficar a ruminar disfarçadamente qualquer fastio só porque os outros acham que sim. Não vou em modas nem preciso de currículo intelectual.

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