Um desafio: que país teríamos?


jmmcc,

Tenho pouca queda para as correntes blogosféricas, mas aceito o desafio lançado aqui pelo João Maria Condeixa: «Em que Portugal viveríamos sem o 11/9?»

 

PORTUGAL CÁ DENTRO…

Sem embargo de perceber a sucessão de acontecimentos, alguns eventualmente bem precipitados, que agitaram a política na sequência do violentíssimo golpe terrorista de 11 de Setembro de 2001, parece-me justo salientar a onda de repulsa que atravessou Portugal cidadão a cidadão. Ninguém ficou certamente de fora. Entre incrédulo e solidário no pesar, o País entendeu que só por acaso não houve portugueses envolvidos, sendo verdade que estamos em todos os cantos do mundo. Não houve portugueses envolvidos por simples acaso, mas houve muitas vítimas, gente como nós, seres humanos com os quais sempre nos solidarizamos nas horas difíceis.

Na solidariedade, os portugueses não são de regatear a escala. As reacções são imediatas e nunca inferiores à proporção devida. O 11/9 foi apenas mais uma demonstração do velho comportamento que nos caracteriza. Talvez por isso, todos os inconvenientes que sobrevieram ao ataque tenham sido vistos com compreensão pacífica, com aceitação conformada ou com tolerância racional. As novas medidas aplicadas nos aeroportos e nas viagens aéreas, por exemplo, dão conta desse nosso comportamento, dado que os problemas levantados foram de pouca monta e nunca se generalizaram.

Claro que temos outra velha tradição na nossa mente colectiva: que as medidas especiais teriam os dias contados, que seriam apenas aplicadas enquanto o caso se mantivesse quente, que as coisas iriam funcionar sempre mal por cá. Mas não foi assim. Os erros e falhas têm-se verificado um pouco por todo o lado e têm sido corrigidos na forma possível ao longo da década.

O certo é que os portugueses entenderam facilmente que o mundo tinha mudado e que Portugal, tantas vezes afastado do mundo que nos rodeia, nem por isso deixava de mudar também. Não sei se é consciente, mas há-de estar algures no nosso subconsciente aquilo que acho mais notável. É que, com a reacção ao caso e a aceitação da mudança, os portugueses fizeram saber de novo por que motivo olham, cada vez com maior tristeza e frustração, para o desenvolvimento dos países que nos são mais próximos: as reacções que nos colocam a par dos outros, que dedicamos aos outros, significam também que nos sentimos civilizados o bastante para ter as mesmas ambições, a mesma vida.

Sem o 11/9, Portugal continuaria a achar que lá fora é que é bom. A nossa música, a nossa Bandeira, as nossas ambições talvez não estivessem ainda à mostra ou sequer a servir de sinais novos. Não seria assim, mesmo que a crise actual estivesse a pedir esses sinais.

 

… E NO EXTERIOR

Perceber essa sucessão de acontecimentos é essencial, mas dou de barato o arranjo da Cimeira das Lajes e o que daí possa ter resultado. O 11/9, por ser um massacre gigantesco e impensável, teria sempre de redundar num conjunto de primeiras decisões em que parte delas haveria de ser fruto de natural precipitação. Alguma cimeira se faria, nos Açores ou em qualquer outro lugar. Algumas formas de contra-ataque seriam despoletadas, com ou sem armas ameaçadoras para silenciar no mundo islâmico. Sem aquele infeliz encontro nos Açores, a única diferença provável na época adivinha-se: Portugal recusou-se a receber a cimeira. Com uma agravante: nenhum país se lembraria agora de dizer que tínhamos sido muito perspicazes por recusarmos ser palco do encontro.

A verdade é que Portugal esteve à altura do “seu” mundo, do mundo ocidental, do mundo democrático e livre, do mundo traiçoeiramente atacado como nunca antes se vira. Portugal esteve à altura, para o bem e para o mal. Se o país não esteve sempre bem, também este meio-mundo não esteve. O mundo não é perfeito, nem na parte em que nos incluímos, mas esta é porventura a parte melhor do mundo inteiro.

Estar à altura — atenção — não é necessariamente motivo de grande orgulho. Portugal alinha com facilidade, coloca-se na primeira linha sem perder tempo, apenas para dizer que existe e que gosta de estar com a “nata” da comunidade internacional. Convenhamos que se trata de aproveitar todas as oportunidades para o país se pôr em bicos-de-pés, mas mantendo o maior desleixo e incompetência para se gerir a si mesmo e sem capacidade e imaginação para seguir os outros naquilo em que eles são melhores.

Ainda assim, considero que Portugal esteve à altura — como já disse, para o bem e para o mal, sem grande orgulho. Só que isso deve-se a um factor feliz: está cada vez mais longe o tempo em que ficávamos “orgulhosamente sós”. O país mudou. O país muda com o mundo.

Sem o 11/9, os Açores continuariam a ser uma base aérea norte-americana sem qualquer outro interesse. Hoje, o arquipélago está na moda e é procurado por muita gente: passou a ser uma ponte cultural entre a Europa e os EUA, uma ampla reserva da biosfera com ecossistemas riquíssimos e reconhecidos, um paraíso escondido e preservado no coração do Atlântico Norte. Não seria assim, mesmo que Durão Barroso estivesse em Bruxelas.

 

CONCLUSÃO

Sem que tivesse acontecido o 11/9, viveríamos no Portugal de ontem. Não fomos atingidos directamente pelo massacre e limitámo-nos a acompanhar a mudança mais ou menos generalizada, mas não muito mais do que isso. Não sendo profundas as mudanças, apenas estamos mais atentos ao que se passa dentro e fora de portas, que é apenas o que nos permite ter um Portugal pós-11/9, um Portugal de hoje.

No mais, ainda (repito: ainda) ninguém estranha muito que o Portugal de hoje seja excessivamente parecido com o Portugal de ontem. Até com o de anteontem, para ser franco. Seria assim, mesmo com Durão Barroso e sem Santana Lopes em São Bento e sem José Sócrates a cavar a crise.

18 comentários em “Um desafio: que país teríamos?”

  1. Não foi isso o que aconteceu também o que aconteceu com as duas Guerras, João?
    Afinal, o “orgulhosamente sós”, por muito que custe a muita gente admiti-lo, ainda está bem vivo.

  2. De facto “ninguém estranha muito que o Portugal de hoje seja excessivamente parecido com o Portugal de ontem.” Infelizmente é esse o nosso fado. Desconhecia completamente que os Açores tivessem ganho uma particular relevância cultural à conta desse mau momento da História. Confirma-se o aforismo “não importa o que digam, o importante é que falem de nós”…
    Excelente post, João.

    1. Obrigado, Ariel. O facto é que não se pode exagerar em relação à importância cultural despertada pelos Açores, mas o interesse pelo arquipélago já o pôs na moda e isso começa a sentir-se.

  3. João, o Portugal de hoje não é igual ao Portugal de ontem nem ao de anteontem definitivamente, e já que estamos na moda da fundamentação, sugiro a exposição no museu da electricidade ” O povo “.

    1. Não estou em posição de visitar essa exposição, CR. Creio que entendo o que quer dizer-me, mas espero que repare na interpretação possível do “ontem” e do “anteontem”, que se referem ao antes do 11/9 e ao pós-11/9.

          1. 🙁 ai é?, pensei que estava aqui por estas terras, da metrópole, também não sei explicar o que me levou a pensar isso… A cusca pede desculpa e retira-se pezinhos de lã…
            (que grande sortudo)
            :):):)

          2. Tenho sempre a pretensão que sim.

            (já estou a calçar as tamancas, ih ih ih )

  4. João, em primeiro lugar obrigado por ter aceite o desafio. Ainda bem que foi por este prisma mais desprendido da politiquice corriqueira.

    É verdade que com o 11/9 nos apercebemos que os outros também têm calcanhares de Aquiles e adoptámos, pela primeira vez, medidas de segurança que não veríamos cair com o arrefecer dos ânimos. Aprendemos um pouco mais e aparentemente estaremos mais atentos – ainda que tenhamos ministros que denunciem espiões! –

    Quanto à cimeira e ao que terá os Açores conquistado com ela, já não sei se terá sido assim tão proveitoso. Acredito que somos dos poucos, por termos sido anfitriões, a saber quando, onde e o que se passou naquele dia naquela base aérea. Mas com isto não quero dizer que nos devíamos ter recusado a fazê-lo. Se o tivessemos feito, aí sim, julgo que teríamos dado um passo em direcção a anteontem!

    1. Procurei precisamente encarar de forma solta ângulos menos abordados, porque achei que V. já tinha escrito (e bem) sobre a politiquice.

      Não posso garantir que os Açores tenham beneficiado de modo muito visível com o resultado, mas a verdade é que dei por mim a contrariar, pela primeira vez, a suma importância que sempre tem sido dada àquela cimeira. E, pelos vistos, V. também acha que recusá-la não nos traria um Portugal melhor.

      Um abraço, João.

  5. Gostei desta reflexão, compadre. E do desafio que o João Condeixa nos lançou. Genericamente, creio que o mundo vive hoje sob o signo do medo. Há hoje muito mais medo no planeta do que existia em 2001. Sem o 11/9, viveríamos com menor sensação de insegurança. Portugal não é imune a nada disto.
    Mal ou bem, abdicamos de parcelas da liberdade em troca da segurança. Porque sentimos o mundo mais perigoso.

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