Depressão…


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Incutem-nos o orgulho de Portugal ser o país com a fronteira fixa há mais tempo em toda a Europa. Certo? Certo. Mas lembrei-me de uma coisa que só o estado de depressão generalizada que também me atinge pode justificar: metade da nossa fronteira é marítima e seria esquisito que nos obrigassem a alterá-la, não? Assim é fácil…

É pena


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No recorte noticioso da alocução do primeiro-ministro da Grécia sobre o orçamento para 2011, ouvi-o falar na recuperação de confiança: «confiança dos mercados internacionais», «confiança dos parceiros europeus» e «confiança dos cidadãos, de quem dependemos». Aqui está algo que nunca ouvimos nem ouviremos ao actual primeiro-ministro português: uma palavra de humildade perante os cidadãos, os seus concidadãos, de quem depende, não condiz com a sua arrogância habitual e casa mal com aquela pose insuportável que serve de defesa aos fracos, por muito ferozes (!) que sejam.

É pena que ele olhe o nosso país de cima para baixo, enviesado e sem dar pelo erro de paralaxe, ao ponto de estar menos preocupado em governar e mais apostado em calar os que discordam da sua altíssima sabedoria. É pena, mas pode limpar as mãos à parede com a confiança que inspira.

Persistência


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Fala-se muito da “ética republicana”, como se houvesse um catálogo de éticas à escolha de cada um, e dos “valores republicanos”, coisa difusa que cada um interpreta a seu modo na ausência de valores. Não é preciso inventar. A grande qualidade da república é a persistência, aquela vontade firme de fazer o país melhor. Ao fim de um século, é caso para perguntar: então por que é que não faz?

«As repúblicas não são eternas»…


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… segundo a opinião do João Távora, escrita aqui há mais de um ano, em tom sério e sereno. «Como se a democracia e o parlamentarismo fossem conquistas da república» — lembrava também o autor na altura. Reflexões que não colidem com comemorações. Pelo contrário: só depois de se reflectir se pode decidir conscientemente sobre comemorar ou não comemorar e porquê.

Carecas


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Pergunta bem, o Gabriel Silva, como tantos têm já perguntado em vão: «onde falhou o previsto no PECII, porque falta dinheiro?» A dúvida arrasta-se sem sentido e parece que essa teimosia nada tem de útil. «Sem isso respondido, sem isso esclarecido, bem podem andar a pedir fretes aos amigos ou a querer passar culpas que não vai adiantar de nada: o governo falhou e recusa-se a dar explicações aos portugueses, pelo que estes não lhe podem dar um cheque em branco.» A conclusão é inteiramente razoável e o Governo deve estar careca de sabê-lo. Tabus como este não cobrem carecas.

Passado presente (CCLXII)


jmmcc,

  

 

Janis Lyn Joplin

 

Norte-americana do Texas, tinha 27 anos e trocara cedo a “erva” por heroína (de que tentara livrar-se em Fevereiro de 1970 durante uma estadia no Rio de Janeiro, escandalosa e em vão): o uso de drogas chegou a ser mais importante do que cantar. Poucos dias antes desse 4 de Outubro de 1970, acabara de gravar para o seu último álbum, Pearl. Conheceu vários sucessos ainda hoje lembrados, como ‘Trust Me‘, ‘Mercedes Benz’ (em que pede ao Senhor um Mercedes, bem diferente do seu Porsche psicadélico, a color TV e a night on the town), ‘Me and Bobby McGee’ e ‘Cry Baby’. Morreu há 40 anos, de overdose.

Corram com ele


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Receio que haja quem não se dê ao trabalho de ler este artigo do Correio da Manhã a que se refere o Paulo Gorjão aqui por baixo. O que se compreende, porque não há pachorra. Porém, é importante registar o que realmente disse o tal deputado socialista (do PS, sim).

— “Se abrissem a cantina da Assembleia da República à noite, eu ia lá jantar. Eu e muitos outros deputados da província. Quase não temos dinheiro para comer.“

— “Tenho 60 euros de ajudas de custos por dia. Temos de pagar viagens, alojamento e comer fora. Acha que dá para tudo? Não dá.“

— “Estamos todos a apertar o cinto e os deputados são de longe os mais atingidos na carteira.“

Mais se lê no artigo que «o deputado socialista, que aufere cerca de 3700 euros mensais, reagiu assim ao corte de 5% que será aplicado de forma progressiva na Função Pública a quem recebe mais de 1500 euros», pelo que o dito cujo ainda «afirma que o assunto é sério e que a classe política também é muito atingida pelas medidas de austeridade».

O deputado socialista, Ricardo Gonçalves de seu nome, é provinciano e tem lata. Temos todos de apertar o cinto, mas não é preciso exagerar: dispensem-no, que está na hora de correr com ele.

Imagem: deputados em pé apertam o cinto

e deputados sentados atingidos pela fome.

Adenda — É pena que o nosso sistema eleitoral ainda não permita que este deputado saiba quem foram os eleitores que o elegeram, para perceber a situação em que cada um se encontra, mas é sobretudo pena que os eleitores que o elegeram não possam saber isso, para o esperarem na estação do comboio.

Sabia que… (54)


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… o reconhecido símbolo da paz que associamos aos hippies do pós-Guerra nasceu precisamente nos anos 50, mas não nos EUA? É verdade: ao contrário da pomba branca e do ramo de oliveira da Grécia antiga, o popularizado círculo em torno da pata-de-galinha é contemporâneo e europeu.

Nasceu em 1958, no Reino Unido, para uma imensa marcha de protesto. Foi a maior de sempre organizada pelos britânicos contra as armas nucleares, com palavras-de-ordem como “Ban the Bomb”, e alongou-se pelo percurso entre Londres e Aldermaston, local de um centro de pesquisas dedicado à bomba atómica. O símbolo, criado pelo designer têxtil Gerald Holtom, teve o intuito de servir de marca a essa enorme manifestação da Direct Action Committee Against Nuclear War (DAC) e foi desenhado nos cartazes ostentados na ocasião.

Durante décadas, o significado das linhas inscritas na moldura circular que a DAC tinha adoptado permaneceu um mistério, mas hoje sabe-se que a ideia de Holtom foi inspirada na sinalização com bandeirolas usada à distância pela marinha em todo o mundo desde o século XIX (depois adaptada à aviação em terra). Trata-se da sobreposição dos dois sinais correspondentes às letras N e D: Nuclear Disarmament. O efeito é simples e elegante, pelo que conquistou rapidamente os movimentos pacifistas e internacionalizou-se como símbolo gráfico da paz.

Entre nós, está na altura de reactivarmos o símbolo. Quanto mais não seja, para tornar mais clara a mensagem política que se impõe: deixem-nos em paz.

As dúvidas


jmmcc,

«O primeiro-ministro explicou ao “Wall Street Journal” e ao “New York Times” que as medidas de austeridade anunciadas têm como objectivo acabar com as dúvidas dos mercados sobre a capacidade de Portugal corrigir o défice.» Sobre as dúvidas dos mercados, os dois jornais já sabiam; parece que só ficaram com dúvidas sobre o estranho idioma da resposta que receberam.

Claro que o Wall Street Journal e o New York Times não sabem o pior: se ontem as medidas de austeridade anunciadas tinham como objectivo acabar com as dúvidas dos mercados sobre a capacidade de Portugal corrigir o défice, hoje é certo que as medidas de austeridade anunciadas não têm como objectivo não acabar com as dúvidas dos mercados sobre a capacidade de Portugal não corrigir o défice — e amanhã as medidas de austeridade anunciadas terão como não-objectivo acabar com as não-dúvidas dos mercados sobre a não-capacidade de Portugal corrigir o défice.

Se aqueles jornais soubessem o que nós sabemos, aí é que as dúvidas se adensariam.

Tendencialmente


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A comparticipação do Estado em medicamentos desce, em exames clínicos também, em apoio a doenças crónicas igualmente, em próteses idem, em equipamento para deficientes igual, em assistência ambulatória semelhante, etc., etc., etc., enquanto os respectivos preços sobem por via do aumento do IVA.

Afinal, não era o PS que andava a dizer muito agastado que o PSD queria matar o SNS tendencialmente gratuito e acabar com o Estado social? Pois quer-me parecer que está aí uma fórmula nova: o Estado social tendencialmente falido. E o PS tendencialmente falhado.

A treta do corte na despesa


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Nada que não me tivesse passado ontem de manhã pela cabeça e até o comentei com quem me estava à mão, mas depois calei-me com medo de estar a passar-me. Só fiquei satisfeito à noite, quando ouvi António Lobo Xavier dizê-lo: reduzir os salários não é cortar na despesa, mas sim criar mais um imposto sobre os vencimentos. Pois se estes estão necessariamente orçamentados, retê-los no todo ou em parte é retirá-los a quem tem como certo recebê-los faseadamente, o que significa que são cobrados como receita. E mais nada, que qualquer outro entendimento é uma treta.

E agora nós?


jmmcc,

Foram resolvidos os problemas dos homossexuais. Estão bem encaminhados os problemas dos transexuais. Somos nós agora? Quando é que o PS se dedica a solucionar os problemas dos heterossexuais? Excesso de impostos, quebra do poder de compra, desemprego, fome, frio… Tudo coisas simples e lineares, tal como nós somos. Quando?

O PS visto pelo PS para o PS


jmmcc,

É nas más horas que se vê quem nos apoia e quem não abandona o barco, o grande Miguel Torga, Transmontano de nascença, dizia “maldito seja quem nega aos seus nas horas apertadas“.

Todos sabemos do mau momento que Portugal e toda a Europa atravessam, o Governo e o nosso 1º Ministro, Engº José Sócrates, têm lutado contra as adversidades e contra aqueles que pela ambição do poder querem contrariar o rumo certo a qualquer preço.

Não vislumbro qualquer alternativa mais credível  e por isso é minha convicção que José Sócrates continua a ser o Timoneiro deste Transatlântico que os nossos adversários querem afundar.

Compete-nos a nós, Socialistas, ajudá-lo a manter o rumo.

Este é o conteúdo de um comunicado-carta, ou carta-desabafo, ou desabafo-comunicado dirigido aos camaradas pelo membro do C.N. e da Comissão Política Nacional do PS Orlando Gaspar, um velho socialista do PS-Porto.

Torga deve ter dado uma volta na tumba. Deixando passar em claro os probleminhas gramaticais e a pobreza do texto, característica de quem nada tem de substancial para dizer, resta confirmar que o camarada Gaspar, uma vez mais, apenas serve de ilustração a este PS indescritível.

Dir-se-ia que o mau momento que Portugal e toda a Europa atravessam (se a Europa o ouvisse ia ser o diabo) só não é pior porque o 1º Ministro, Engº José Sócrates (é sempre bom deixar claro de qual é que estamos a tratar) se farta de lutar. Em vão, como se sabe: o Transatlântico (com a mesma maiúscula de Timoneiro) já era; foi empenhado com as jóias e ficou-nos esta velha traineira que já só sai para esmolar chicharro aos outros pesqueiros.

Orlando Gaspar tem razão quando diz: não vislumbro qualquer alternativa — nunca foi o seu forte. Mas ajudá-lo a manter o rumo, a Sócrates? Ele que vá sozinho, que conhece bem o caminho para o abismo. E, como dizia o outro, que mande de lá saudades, que é coisa que cá não deixa.