Mutatis mutandis…


jmmcc,

… onde é que eu já vi isto?

2 comentários em “Mutatis mutandis…”

  1. Onde é que vimos isto…

    (…) Quando ninguém precisa da cooperação da sua força chamam-lhe ZÉ POVINHO, figurando-o com uma albarda às costas e é o lobo manso de quem todos mofam. Quando aos filósofos em desinteligência convém açulá-lo, chamam-lhe o POVO SOBERANO, omnipotente e absuluto.
    Por sua parte ele acha-se no seio da civilização que o explora como touro em tarde de corrida no meio do redondel. (…) Como o boi puro o povo não se desilude nunca, nunca se desengana na lide. Um dos seus lidadores, num desses comícios suburbanos a que o povo fielmente concorreu em quase todos os domingos de propraganda revolucionária(…) Pôs-lhe diante este argumento aritmético e demonstrativo da fome da nação originada do escândalo da lista civil no orçamento geral do Estado. O orador somou, parcela por parcela, o que recebiam o rei e demais pessoas da família real; dividiu o total em reis por 80, e demonstrou pelo quociente que cerca de quatrocentoas mil famílias receberiam de graça dois pães de pataco desde o dia imediato ao do advento da República, o que se distribuisse pelo povo o que devorava na monarquia. Outro retórico em outro comício, explicou, por meio de processo igualmente matemático, que o custeio de cada cavalo de luxo nas reais cavalariças importava em tanto como o sustento de quatro famílias.
    Ora, sucede que, abolida a Monarquia, e achando-nos nós no mês 5 do ano I da República, nenhum pão de pataco dos oitocentos mil que engeria o rei, foi por enquanto distribuido ao povo, e que o mesmo povo, outra vez transferdo de “Povo Soberano” a Zé Povinho” (…)

    Ramalho Ortigão
    In Farpas Fevereiro 1911

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