Kolmi!
jmmcc,
Finalmente, começo a perceber que não sou o único chocado com o caso, o que me deixa muito mais aliviado.
O Continente
Somos Todos Nós
O país inteiro tem visto e ouvido isto vezes sem conta. Mas, apesar do massacre orgulhosamente exibido, bem pode a marca limpar as mãos à parede. O Continente somos?! O sujeito na primeira pessoa do singular e o verbo na primeira pessoa do plural? Tipo a gente queremos ir ou a gente vamos? E por que não o Continente é todos nós?
O erro é de palmatória. Longe vai o tempo em que a SONAE Distribuição tinha uma direcção de marketing exigente, que punha qualquer agência a deitar fumo pelas orelhas, se quisesse ficar com a conta do Continente. Adivinha-se que esta falta de exigência hoje em dia nada augura de bom.
Afinal, era tão simples criar a mesmíssima ideia em bom português. E até dava para incluir uma rima no slogan (o que, nestas coisas, às vezes não é totalmente indiferente).
O Continente
É Toda a Gente
Tão simples que até chateia. Claro que “ele é” não gera o mesmo envolvimento que “nós somos”, mas não se pode ter tudo ao mesmo tempo. As campanhas servem precisamente para preencher o que falta e resolver isso. Só nunca resolvem a promoção da subcultura.
Óptimo. Nada tenho contra a Monarquia. Contudo, parece-me exagero que se reconheça feriado em Portugal o dia do enésimo casamento da duquesa de Alba em Espanha. Mesmo que seja pelas boas relações ibéricas e por muito que a senhora possa ser centenária. Não é má vontade minha, não, mas aquele pelo de caniche electrocutado no toutiço faz-me impressão. Enfim: que os noivos vivam felizes para sempre. Se lá chegarem.
A Constituição não serve para nada?
Em meados do século XIX, com o Liberalismo ainda sem futuro garantido e o País em crise financeira, económica, social e, acima de tudo, de regime, Mouzinho da Silveira não tem dúvidas de que «os grandes vícios do País estão nas instituições vigentes, caducas e obsoletas, o que lhe permite expressar a ideia de que, para benefício dos cidadãos, é mais importante reformar as estruturas do Estado do que proceder à mudança do sistema de governar» (João Carvalho, O Supremo Tribunal de Justiça em Portugal: Dois Séculos e Quatro Regimes de Memórias; STJ, 2003).
A Mouzinho, «verdadeiro estadista fundamentado no conhecimento profundo das causas públicas, até a Constituição lhe parece supérflua: com ou sem ela, é possível fazer mais e melhor, alterando radicalmente a teia institucional em que Portugal está enredado» (id., ib.).
Não, não sou monárquico. Mas sei cada vez menos se consigo ser republicano.
Estou estupefacto com a demissão do presidente do grupo Águas de Portugal, Pedro Serra de seu nome. Será que já ninguém dá valor ao velho princípio segundo o qual o comandante deve ser o último a abandonar o barco?
Com este abandono e com a ideia de que o grupo fica à deriva, sou assaltado por uma dúvida: terá ele cumprido a obrigação de que foi incumbido há um ano, no sentido de informar o Governo sobre umas mordomiasitas que caíram mal na praça pública, conforme o DELITO DE OPINIÃO registou aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui? Era sobre uma frota de 400 luxuosos automóveis de alta cilindrada, lembram-se? Esta dúvida não me larga.
Percebe-se agora melhor por que razões o poder local precisa de mudar, depois da discussão do tema ontem à noite na RTP. É uma necessidade que já se arrasta há muito e que urge reparar de raiz e a partir de um novo mapa. A discussão de ontem provou amplamente o quanto o poder local está enquistado, como se viu pelos muitos dinossauros nervosos presentes numa plateia com contornos assustadores de parque jurássico.
Hoje, com a crise que nos afecta e às voltas com dívidas que as autarquias se encarregaram de aprofundar, a única virtude nova do poder local é que, de cada vez que suporta uma refeição numa escola, é menos uma rotunda na cabeça dos autarcas.
Miguel Relvas não poderá ter descanso enquanto não tocar a reforma administrativa para a frente. De preferência, sem rotundas e cortando a direito onde for mais preciso. Sobretudo, resistindo a duas tentações, visto que um novo mapa administrativo deve ser feito pelo interesse nacional e para muitas gerações vindouras. São elas: a sindroma da disputa partidária, que pode envenenar irremediavelmente o alcance do projecto, e o complexo da interioridade, que pode deformar a própria reforma.
Um à esquerda e outro à direita, dois factos políticos em redor do PSD atraíram ontem a minha atenção. Passo a registá-los (e a comentá-los, pois claro) para que constem, pois hão-de vir ambos a ser chamados mais tarde, muito possivelmente.
1.º – O PS e os limites da reforma administrativa
Num espaço de representantes das autarquias socialistas, António José Seguro abordou a reforma administrativa, enrolou-se no tema e nas ideias e ainda conseguiu usar a frase “autarcas e presidentes de câmara”, como se estes não fizessem parte daqueles.
Que achegas deu Seguro para a reforma administrativa, um dos pontos mais importantes e sensíveis da actualidade política? Zero achegas. No geral, quis apenas dizer que não contem com o PS para aprovar qualquer redução das autarquias do interior.
Ora, Seguro tem obrigação de saber mais umas coisas a este respeito. Por exemplo:
— a redução das autarquias é (ou devia ser) imprescindível há muito tempo, porque a realidade actual é completamente inadequada;
— a reforma administrativa do século XIX começou logo aí por ser uma desgraça, quando a proposta de Mouzinho da Silveira copiada do modelo francês foi chumbada pelo exagero da divisão autárquica já então óbvio, mas acabando a seguir por ser aprovado um critério muito semelhante e muito pouco contido face ao modelo de Mouzinho;
— qualquer novo mapa autárquico não se desenha a partir da localização interior ou costeira do território, mas fundamentalmente pelos dados populacionais reais numa determinada área e aquilo que os enforma;
— os contornos gerais da reforma administrativa que o actual governo tem apresentado dão conta de uma intenção medrosa, pouco ou nada profunda, muito aquém do que é necessário e, sobretudo, frustrante para as expectativas mais comuns.
É perante este quadro, que o PS não pode desconhecer, que o líder socialista vem a terreiro anunciar limitações desgarradas e populistas? Sobre um projecto que ainda vai na rama e que está por encarar de frente, Seguro só tem mais limites a anunciar? Ele lá saberá como fazer, mas devia ser escusado lembrar-lhe as suas próprias palavras: a política tem de ser séria.
2.ª – O CDS-PP e o buraco mais enjoativo de Jardim
A uma semana das eleições regionais, o líder do CDS-PP da Madeira contou com a presença do seu líder nacional e disse, para quem quis ouvi-lo e com as palavras todas, que parte das verbas tranferidas de Lisboa para a reconstrução da ilha após a catástrofe foi desviada para as vistosas iluminações de Natal e para o Carnaval (imagino incluído o desfile pseudo-brasileiro que costuma abrilhantar a tradição madeirense).
Esse desvio de verbas, que não foi desmentido, configura não só um escândalo enjoativo, mas um novo (tipo de) buraco nas contas que Alberto João Jardim anda há anos a decidir à sucapa. Pelos vistos, o homem não se limita a fazer letra morta das obrigações que tem, mas também descai para opções à revelia do mais elementar senso comum e do respeito que deve aos outros, ao país, aos que foram acudir à reconstrução da Madeira.
Bem pode ele ser reeleito com a esmagadora maioria que anda a pedir para dar uma sova nos políticos de Lisboa, bem pode ele continuar a perorar sobre legítima defesa e independência, bem pode ele inventar mais e novos disparates todos os dias para ocupar os palcos popularuchos levantados à sombra do défice democrático que controla há mais de três décadas. Nada disso servirá para alterar uma coisa: depois de tanto tempo a mostrar a obra feita, acabará por sair de cena um dia (já faltou mais) pela porta baixa.
Em breve se verá como estes dois apontamentos aqui focados regressarão à mesa da política.
Chama-se George Wright, costumava aparecer pela Praia das Maçãs e já toda a gente sabe quem é. Preso ao fim de 40 anos de buscas, não quer ser extraditado para os EUA: prefere ser julgado, condenado e preso em Portugal. Porquê? Vá lá saber-se. Cá para mim, ele tem esperança de poder isaltinar. Ou vale-azevedar, ou algo do género.
Oito anos depois, o homem foi dentro. Mas não quer dizer que tenha ido mesmo dentro. Ultrapassada mais esta fase de incidentes processuais levantados e eventuais irregularidades a conferir, o homem pode ter ido dentro apenas para uma charutada e já volta.
Um companheiro de lides do homem já declarou a Oeiras, à Nação e à Justiça qualquer coisa a que a RTP deu voz e que se resume assim: o homem foi dentro, mas não tinha de ir; afinal, há tanta gente por aí que devia ir dentro e nunca foi; basta ver o caso da Madeira, por exemplo. Ou seja (dito de outro modo): antes de serem multados todos os outros condutores mal estacionados, ninguém tem de ser multado por estacionar mal o carro.
Enfim: a nossa Justiça não tem apenas de começar a ser mais justa, a evitar ter dois pesos e duas medidas, a ser mais célere e a aprender a funcionar sem gerar muitos incidentes. Não. A nossa Justiça também tem de saber que, depois de um certo tempo, é preciso e urgente deixar uma pessoa isaltinar sem mais delongas.
Ao fim de oito anos, vá lá, é justo permitir que um homem isaltine de vez, sem continuar ainda sujeito à instabilidade de ser posto dentro e voltar a sair. Alimentar tamanha intranquilidade num homem que anda há oito anos a dizer que está de consciência tranquila só prova como é difícil isaltinar em Portugal.
«(…) no caso do cônjugue estar isento (…)»
Ministro Paulo Macedo sobre novas taxas moderadoras na Saúde, Telejornal, RTP
Passei pela televisão e fiquei a saber que hoje se celebra (?) o Dia Mundial da Saúde Ambiental. O que será isto? Um apelo para irmos respirar em bom ambiente? Um desafio para nos afastarmos e deixarmos o ambiente respirar sozinho? Uma data para estudarmos o impacto da nossa saúde no ambiente ou do nosso ambiente na saúde do vizinho? Só hoje ou todos os dias?
Proliferam, multiplicam-se, desmultiplicam-se e até se atropelam e sobrepõem os dias nacionais, os dias internacionais, os dias mundiais e os dias anuais. Alguém conhece metade deles? Alguém quer saber de um-terço deles? Alguém está prevenido para a chegada de um-quarto deles? Nem pouco mais ou menos. Ou porque muitos foram inventados por qualquer boa intenção que se perdeu no tempo, ou — sobretudo — porque a tradução real pretendida nem sequer é clara, a verdade é que a maioria das pessoas se está nas tintas para a maioria dos dias nacionais, dos dias internacionais, dos dias mundiais e dos dias anuais, que são muito mais do que os dias do ano.
O defeito disto explica-se, como sempre, pela banalização das iniciativas. Será sempre desinteligente banalizar aquilo a que quer dar-se importância. A propósito: que dia é hoje?
Sobre as afirmações sem nexo proferidas diariamente pelo chefe do executivo madeirense, umas comicieiras outras nem isso, está tudo mais do que dito. Nesta fase, parece-me bem mais interessante o que ainda está por dizer e que todos, genérica e aparentemente, andam a evitar. Refiro-me à iniciativa do procurador-geral da República, centrada (tanto quanto deu para entender) no apuramento de uma possível omissão de dados sobre a política orçamental e o endividamento da Madeira. Vejamos.
Desde logo, é indispensável que os grupos parlamentares da Assembleia Legislativa da Madeira tomem posição sobre esses temas, não sendo razoável sequer supor que isso possa ter-lhes sido ocultado. Alguém admite assim do pé para a mão que lhes tenha passado tudo ao lado ano após ano?
Depois, a Madeira possui serviços da República que não têm apenas a competência — mas a obrigação — de velar pelo cumprimento das políticas adoptadas pela administração pública e de zelar pelos interesses do país e da região no que respeita à condução dessas mesmas políticas regionais. Portanto, faz sentido perguntar pelos pareceres e cabimentação orçamental das despesas que o Ministério Público na Madeira necessariamente visou, tal como faz sentido perguntar pelos relatórios anuais elaborados pelo Tribunal de Contas na Madeira sobre a justeza das mesmíssimas despesas.
É da maior relevância, pois, que as delegações regionais do Ministério Público e do Tribunal de Contas (ambas serviços da República) não fiquem à margem da iniciativa do procurador-geral da República. Se este quisesse investigar o que anunciou sem ouvir as (eventuais) intervenções dos deputados madeirenses sobre orçamento e endividamento e, ainda por cima, desperdiçasse a recolha de dados da delegação do seu Ministério Público e da delegação do Tribunal de Contas na Madeira, então é que a fotografia ia ficar mal de escura.
Para já, a história está apenas à espera de ser bem contada. Aguardemos, porque tudo isto tresanda a facilitismo. Ou incompetência. Ou qualquer coisa assim parecida. E se fosse? Já imaginaram?
Seguro e Zorrinho, incansáveis, insistem à exaustão que Passos Coelho devia retirar a confiança política ao chefe do executivo madeirense. Pois bem: retirar a confiança política seria o quê? Seria dizer que retirava a confiança política ao líder do PSD-M e assobiar? Seria o líder do PSD-M continuar a ser líder do PSD-M e o candidato-líder do PSD-M continuar a ser o candidato-líder do PSD-M? Isto parece-me fracote para justificar a teimosia cansativa do PS.
Mais razoável me parece que o PS se tenha manifestado muito interessado em ver a situação financeira da Madeira a nu ainda em tempo útil para as eleições de 9 de Outubro. Isto não só o PS está a obter como até já obteve mais: em plena campanha eleitoral na região e com toda a oportunidade, com a situação financeira da região obrigada a mostrar-se num strip tease escandaloso, o Governo da República tratou já (e muito bem) de anunciar cortes nos benefícios fiscais e nas facilidades insulares que têm vigorado.
Neste quadro, não vale a pena o PS continuar a pedir que Passos Coelho retire a confiança política ao líder madeirense, coisa que não faz o mais pequeno sentido e só serve para perder tempo. Neste quadro, o que vale a pena é o PS aproveitar tudo o que agora lhe é favorável para ganhar as eleições na Madeira. É assim e mais nada.
Sempre de dedo em riste com a marca habitual do mau gosto, o chefe do executivo madeirense (visto aqui por Miguel Madeira/Público) prossegue a sua campanha eleitoral com a agenda recheada de inaugurações de obras públicas, como faz há mais de 30 anos. Claro que, desta vez, algumas das festanças popularuchas que foram marcadas devem andar a provocar-lhe urticária. Mas a dúvida é outra: quem andará a pagar a agitada campanha?