A gente vamos ao Continente?


jmmcc,

Finalmente, começo a perceber que não sou o único chocado com o caso, o que me deixa muito mais aliviado.

O Continente

Somos Todos Nós

O país inteiro tem visto e ouvido isto vezes sem conta. Mas, apesar do massacre orgulhosamente exibido, bem pode a marca limpar as mãos à parede. O Continente somos?! O sujeito na primeira pessoa do singular e o verbo na primeira pessoa do plural? Tipo a gente queremos ir ou a gente vamos? E por que não o Continente é todos nós?

O erro é de palmatória. Longe vai o tempo em que a SONAE Distribuição tinha uma direcção de marketing exigente, que punha qualquer agência a deitar fumo pelas orelhas, se quisesse ficar com a conta do Continente. Adivinha-se que esta falta de exigência hoje em dia nada augura de bom.

Afinal, era tão simples criar a mesmíssima ideia em bom português. E até dava para incluir uma rima no slogan (o que, nestas coisas, às vezes não é totalmente indiferente).

O Continente

É Toda a Gente

Tão simples que até chateia. Claro que “ele é” não gera o mesmo envolvimento que “nós somos”, mas não se pode ter tudo ao mesmo tempo. As campanhas servem precisamente para preencher o que falta e resolver isso. Só nunca resolvem a promoção da subcultura.

24 comentários em “A gente vamos ao Continente?”

  1. Mais uma vez, permita-me discordar da análise feita. Mesmo dando de barato que o assunto não é consensual.

    Neste tipo de frases, as funções de sujeito e predicado não são determinadas pela posição que as palavras ocupam – se antes, se depois do verbo.

    No caso em apreço, é de todo possível e aceitável considerar como sujeito da frase o pronome “nós”. Pelo que a concordância verbal estará correcta.

    1. Na verdade, está incorrecta. Em linguagem (digamos assim) “popular”, pode considerar-se passable, mas está incorrecta. Pior ainda quando existem alternativas que repõem cabalmente o bom português.

      1. Insisto: a norma não se aplica a este tipo de frases, chamadas de identificacionais, isto é, em que surge o verbo “ser” identificacional. É mais uma das subtilezas da língua portuguesa, que a tornam tão complicada e tão saborosa.

        Numa frase deste tipo, a presença de um pronome pessoal nominal acaba por condicionar a fórmula verbal. É como se tivesse maior poder de atracção ou mais força gravitacional que outras expressões nominais presentes. Surja em que posição surgir, torna-se o sujeito da oração.

        Exemplos:
        O Continente sou eu
        O Minipreço és tu
        O Lidl somos nós
        O Pingo Doce são eles

        1. Eu percebi à primeira, essa das frases e dos verbos identificacionais (o mundo mudou muito). Faz muito bem em insistir. É como eu, com uma diferença: eu sou um pré-identificacional!

  2. O João Carvalho que me desculpe, mas neste post faz triste figura. Nem é preciso falar-se em orações identificacionais, uma vez que estas questões já são reflectidas há muito tempo. Eu dei-me ao trabalho de ir consultar a gramática do Lyndley Cintra e do Celso Cunha: com o verbo ser a concordância pode fazer-se arbitrariamente quer com o predicativo quer com o sujeito. E passo a citar: “com o singular [os autores] procuram realçar o conjunto, e não os elementos que o compõe, a fim de sugerir-nos as diferentes realidades transformadas numa só coisa.” Em seguida oferem-nos como exemplo a seguinte citação de Camilo Castelo Branco: “Há neles muita lágrima, e o que não é lágrimas são algemas.” Qualquer que seja a nomenclatura gramatical utilizada, parece-me pouco sensato querer corrigir Camilo Castelo Branco. Mas há mais: “O resto são atributos sem importância” (Miguel Torga), “Um dia não são dias” (expressão absolutamente comum), “Tudo na vida são verdades de relação (Urbano Tavares Rodrigues), “Se calhar, tudo é símbolos” (Fernando Pessoa) etc etc etc
    Se calhar, a direcção de marketing da Sonae não vai tão mal quanto se faz crer…

    1. É, se calhar a direcção de marketing são bons. Esta discussão não existe, meu caro: trata-se apenas de pôr direito aquilo que pode estar direito e não está. Ponto final.

      1. Caro João Carvalho, A frase está certa, como se diz no comentário acima. Continente aqui é o complemento directo: todos nós somos o quê? O continente. Exemplo: todos nós somos Portugal (formamos, contituímos Portugal). O sujeito da frase é «todos nós», o verbo é ser e o complemento directo (o que somos?) é o continente.

          1. Portugal somos todos nós.
            Aponte o erro. Não há qualquer liberdade. É bom português.
            Mas antes alguém que erra por preocupação com a gramática, do que que quem erra por se «estar nas tintas».
            O verbo ser concorda com o sujeito e/ou com o complemento directo. Assim, não se diz Portugal é todos nós – o que também não é erro… mas Portugal somos todos nós.
            E vou dormir que são quase três da manhã? São três? Ou «é três da manhã»? «São» é o correcto…
            O verbo ser tem regras próprias de concordância.

  3. Eu acho, João, que, mais que um verbo, é uma questão “identifcacional”: de identificação, mesmo!
    Tem tudo a ver com a Madeira, a verdaeira chave do “identificacional”. Por cá, só quando isto começou a apertar se percebeu que “o estado somos todos nós”. “Identificacional, portanto!
    Agora, que a coisa por lá também vai apertar, vão os madeirenses, para quem o Estado é outra coisa, perceber que “o continente somos todos nós! Todos eles, também, por causa do “identificacional”. Os tipos da SONAE só acharam isto giro…

    1. Quase me convenceu. Para que conste: a gramática foi dando cobertura, quando necessário, a diversas liberdades literárias. Esta é uma delas… mas pode ser que não. Sim, quase me convenceu.

    1. Também acho, Joaquim. Mas reconheço que há boas e convincentes lições nos comentários mais acima. No mínimo, o caso é polémico e, como procurei explicar, era escusado.

  4. Mesmo não entrando na questão gramatical pura não me parece que os técnicos de marketing da Sonae não estivessem cientes das dúvidas que esta frase iria causar. Pode-se discutir o assunto, claro, mas, quanto a mim, ela é apenas fruto da liberdade publicitária pois comparando a frase utilizada e a proposta pelo João não há dúvida que a primeira produz um efeito de envolvimento num colectivo que a outra não tem. “Somos nós” é bem diferente, em termos psicológicos de “é toda a gente”.

      1. silepse: concordância subentendida em género e número, não segundo as leis gramaticais, mas segundo a ideia presente no espírito do escritor.

        Assim:
        O Continente (que é constituido por todos e para todos) somos nós.

  5. Obrigado, estou sempre a aprender. Uma coisa é certa: todos os dias este blog e mais uns quantos (poucos), são visita obrigatória e … muito agradável.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *