Um à esquerda e outro à direita, dois factos políticos em redor do PSD atraíram ontem a minha atenção. Passo a registá-los (e a comentá-los, pois claro) para que constem, pois hão-de vir ambos a ser chamados mais tarde, muito possivelmente.
1.º – O PS e os limites da reforma administrativa
Num espaço de representantes das autarquias socialistas, António José Seguro abordou a reforma administrativa, enrolou-se no tema e nas ideias e ainda conseguiu usar a frase “autarcas e presidentes de câmara”, como se estes não fizessem parte daqueles.
Que achegas deu Seguro para a reforma administrativa, um dos pontos mais importantes e sensíveis da actualidade política? Zero achegas. No geral, quis apenas dizer que não contem com o PS para aprovar qualquer redução das autarquias do interior.
Ora, Seguro tem obrigação de saber mais umas coisas a este respeito. Por exemplo:
— a redução das autarquias é (ou devia ser) imprescindível há muito tempo, porque a realidade actual é completamente inadequada;
— a reforma administrativa do século XIX começou logo aí por ser uma desgraça, quando a proposta de Mouzinho da Silveira copiada do modelo francês foi chumbada pelo exagero da divisão autárquica já então óbvio, mas acabando a seguir por ser aprovado um critério muito semelhante e muito pouco contido face ao modelo de Mouzinho;
— qualquer novo mapa autárquico não se desenha a partir da localização interior ou costeira do território, mas fundamentalmente pelos dados populacionais reais numa determinada área e aquilo que os enforma;
— os contornos gerais da reforma administrativa que o actual governo tem apresentado dão conta de uma intenção medrosa, pouco ou nada profunda, muito aquém do que é necessário e, sobretudo, frustrante para as expectativas mais comuns.
É perante este quadro, que o PS não pode desconhecer, que o líder socialista vem a terreiro anunciar limitações desgarradas e populistas? Sobre um projecto que ainda vai na rama e que está por encarar de frente, Seguro só tem mais limites a anunciar? Ele lá saberá como fazer, mas devia ser escusado lembrar-lhe as suas próprias palavras: a política tem de ser séria.
2.ª – O CDS-PP e o buraco mais enjoativo de Jardim
A uma semana das eleições regionais, o líder do CDS-PP da Madeira contou com a presença do seu líder nacional e disse, para quem quis ouvi-lo e com as palavras todas, que parte das verbas tranferidas de Lisboa para a reconstrução da ilha após a catástrofe foi desviada para as vistosas iluminações de Natal e para o Carnaval (imagino incluído o desfile pseudo-brasileiro que costuma abrilhantar a tradição madeirense).
Esse desvio de verbas, que não foi desmentido, configura não só um escândalo enjoativo, mas um novo (tipo de) buraco nas contas que Alberto João Jardim anda há anos a decidir à sucapa. Pelos vistos, o homem não se limita a fazer letra morta das obrigações que tem, mas também descai para opções à revelia do mais elementar senso comum e do respeito que deve aos outros, ao país, aos que foram acudir à reconstrução da Madeira.
Bem pode ele ser reeleito com a esmagadora maioria que anda a pedir para dar uma sova nos políticos de Lisboa, bem pode ele continuar a perorar sobre legítima defesa e independência, bem pode ele inventar mais e novos disparates todos os dias para ocupar os palcos popularuchos levantados à sombra do défice democrático que controla há mais de três décadas. Nada disso servirá para alterar uma coisa: depois de tanto tempo a mostrar a obra feita, acabará por sair de cena um dia (já faltou mais) pela porta baixa.
Em breve se verá como estes dois apontamentos aqui focados regressarão à mesa da política.

Não percebo tanto barulho com a reforma do poder local. É mais do que necessária e nada tem de novo em Portugal. Se recuarmos aos tempos do liberalismo, chegou a haver, com D. Maria II, 817 concelhos… pouco depois reduzidos para 351, até chegarmos ao belo número de 254, com D. Luís. Portanto, quanto a antecedentes históricos, estamos falados. A racionalização é para o Estado todo, sem excepção. Embora eu compreenda que, passado o nível das freguesias (e aí pode bem fazer-se uma reforma com calculadora), não podemos aspirar a uma reforma dos municípios feita aos trambolhões. Percebo as cautelas.
Sim, sim: as cautelas e os lugares dominados pelos partidos principais. Vamos esperar sentados pela reforma, Laura.
Ora vejamos: o reconhecimento do poder local (cartas de foral) foi, na sua génese, um puro expediente do poder central (= régio) para enfraquecer o domínio das oligarquias, que exerciam poderes paralelos fundados nas persistências sociais do regime feudal. Logo, está na hora de baralhar e dar de novo exactamente em nome da
…….
mesma lógica anti clientelar. Custa? Se custa! Desde logo, custa votos. Mas eu sou menos pessimista do que tu e acredito que o governo vai aproveitar o momento.
E estás proibido de me chamar
Longe de mim sequer pensar tal coisa. Como cavalheiro, apenas insisto para esperares sentada…
Depois de ler atentamente este post excelente (como todos) do JC, concluo duas coisas:
1ª – O Seguro não está nada seguro em política autárquica e na de presidentes de Câmara (será por existir o António Costa?)…
2ª – O soba do Atlântico já não tem porta para sair. É que a Madeira já tem Portas…
É como dizes. O caso do soba já estava escrito nas estrelas. Quanto ao Seguro, há-de ir longe e sem problemas: as estrelas garantem que o Seguro morreu de velho.
Pois bem, João, escreveste duas pertinentes observações que iluminam uma só coisa manifesta por duas vias: a incompetência política, em Seguro, e a deslealdade política, em Jardim.
Dois epítomes de dois epifenómenos maus da democracia: a oscilação flácida e ondulante de uma cana agitada pelo vento, Seguro. A atitude-mostrengo há muito pérfida e devastadora, Jardim.
Sócrates tinha as duas coisas em altíssimo grau, mas armou-se em guru por causa do que lhe rendeu a imagem.
O melhor que poderia suceder à Madeira e a Portugal era uma derrota jardinista e um buraco de rato por onde fosse evacuado da política-meretriz.
Se me permites, João, vou divulgar o teu texto por todas as [plata]formas do nosso tempo.
Um grande abraço!
Agradeço-te, Joaquim.
Um abraço amigo para ti.