O que fazer com o eduquês?


Rui Rocha,

 

O Ramiro Marques propõe à discussão uma lista de 10 pecados mortais do eduquês, que aqui transcrevo com a devida vénia:

 

1. Concepção instrumental da educação: “aprender a aprender”, “aptidão para o pensamento crítico”, “aptidões metacognitivas”, “aprendizagem permanente”. 2. Desenvolvimentalismo romântico: “escola centrada na criança”, “diferenças individuais dos alunos”, “ensinar competências e não os conteúdos”. 3. Pedagogia naturalista: “construtivismo”, “aprendizagem por descoberta”, “aprendizagem holística”, “método de projecto”, “currículo em espiral”, “aprendizagem temática”. 4. Antipatia pelo ensino de conteúdos: “os factos não contam tanto como a compreensão”, “os factos ficam desactualizados”, “menos é mais”, “aprendizagem para a compreensão”. 5. A desvalorização dos padrões culturais tidos como relativos e subjectivos, portanto irrelevantes. 6. Crítica do uso da memória e recusa das actividades de repetição, tidas como não significativas, portanto inúteis. 7. Defesa da ideia falsa de que as crianças só compreendem o que lhes está próximo e o que é concreto e manipulável. 8. Primazia à componente lúdica e recreativa por oposição à valorização do esforço na aprendizagem. 9. Redução da aprendizagem a um processo construtivista que diminui a função de transmissão dos conteúdos. 10. Visão anti-intelectualista da cultura e da educação.

Partilho, em boa parte, da crítica implícita em cada um dos pontos apresentados. Mas considero que a avaliação essencial do eduquês não se deve fazer ponto por ponto. O aspecto realmente nocivo da proposta está no facto de ter sido erigida como pensamento único e de ser aplicada por fanáticos. Historicamente, o eduquês responde a um estado de coisas que era, também ele, inaceitável. O do ensino centrado no professor, de sentido único, em que os conteúdos eram despejados sobre o aluno e em que este era encarado como mero receptor, acrítico e abúlico. Nas ciências sociais, a uma tese sucede, mais das vezes, a sua antítese. A uma visão da sala de aula em que o professor era o protagonista principal, o eduquês respondeu com a sobrevalorização do papel do aluno. À visão da escola como ensino, veio contrapor uma abordagem centrada num certo conceito de aprendizagem. Estará talvez na altura de compreendermos que urge fazer a síntese. Aprender exige esforço, memorização e compreensão de conceitos abstractos. E o papel do professor é fundamental. Mas  não pode ser só isso. Na era da internet, da abundância da informação, os alunos não podem ser considerados como folhas de papel em branco ou baldes vazios para dentro dos quais o professor desepeja conteúdos (em rigor, nunca foi assim e agora é-o ainda menos, por maioria de razão). A participação e o envolvimento dos alunos na construção do conhecimento e o “manuseamento” dos conteúdos é também indispensável. Por isso, uma nova abordagem do ensino não pode prescindir das propostas úteis do eduquês e do pré-eduquês, organizando-as rumo a um novo equilíbrio na sala de aula.

14 comentários em “O que fazer com o eduquês?”

  1. Todos esses “pecados mortais” devem ser assacados a quem de direito, e que são os senhor Pestalozzi, Frobel, entre outros estrangeiros, (para além de estrangeirados como o nosso Verney que, felizmente, teve por cá pouco impacto). Sugiro, por isso, uma vigília em frente do jardim de infância Pestalozzi, que inoculou gerações de crianças com os virus da criatividade, ludismo, compreensão, escola centrada na criança, autonomia da criança, etc, ao arrepio das nossa nobres tradições do copismo e da memorização, no que era imitado e seguido por colégios privados com origem estrangeira ou estrangeirados (lá está). Diziam eles, os parvos, e continuam a dizer os seus seguidores, que a compreensão conduz à sabedoria, e que cada criança é um ser único. Ora, toda a gente sabe que as letras e os números todos ele se desenham da mesma maneira, chamem-se as crianças Manuel ou Maria. O único pecado que não compreendo é “a visão anti-intelectualista da cultura e da educação”.

  2. Rui Rocha, o mais curioso disto tudo, agora falando a sério (começo a sentir receio de ter sido interpretado literalmente ;)…), é que se ache, convictamente, que essas teorias, a que agora se chama “eduquês”, foram inventadas por burocratas do ministério da educação, obviamente militantes do bloco de esquerda, nos últimos trinta anos… Como é que se fala sobre este assunto ignorando tudo sobre pegagogia ou, pelo menos, história da pedagogia, (não) espanta. Em Portugal, até a palavra “pedagogia” é anátema. O que se prova é que nunca se correu por aqui excessivamente o risco de se “compreender” o que se discute. Vamos “memorizando” e “copiando” o que se lê, escrito por aqueles a quem conferimos autoridade. Como sempre.
    Vai mudando, felizmente. Sou pai de uma criança de nove anos, e todos os seus problemas se resumissem ao facto de a escola procurar adaptar o ensino às suas características, de o fazer compreender a matéria, de salientar a parte lúdica. Sinceramente vos digo: venha o meu filho um dia para casa a cantar a cantilena da tabuada e eu vou ter uma conversinha com a professora e o director. Sei eu de muitos adultos que ainda o coinseguem fazer, com voz de barítono ou soprano, e que não fazem ideia nenhuma do que seja isso do défice que tanto se discute agora na televisão e nos jornais, por exemplo.

    1. Espero também ter sido bem interpretado no que escrevi. O que pretendi realçar é que existem propostas pedagógicas válidas sob a capa daquilo a que se chamou eduquês. E que o anátema que foi lançado globalmente não pode anular o seu interesse. Penso que temos assim posições próximas, Falorca.

  3. Só mais uma coisa, Rui (que já estou a ocupar demasiado tempo e espaço). Não me parece possível (fisicamente, até), que se possa aplicar o tal “eduquês” de forma “fanática”. Os professores estão sempre pressionados para dar o programa a trinta alunos até final do ano lectivo. Difícil seria serem “fanáticos” no ideal que é considerar a criança de per si, de as fazer compreender a matéria, de as fazer reflectir e de as fazer criar. Não se corre esse “risco”, infelizmente, digo eu. Já se vai fazendo um esforço, e está muito melhor. Por outro lado, tratar o aluno como “mero receptor, acrítico e abúlico”, sim, é fácil. Mas não é assim que se criam adultos responsáveis e cidadãos críticos e interventivos. Nenhuma destas coisas tem a ver com disciplina e indisciplina. Tive em tempos um professor que “despejava” a matéria directamente do manual para um grupo de alunos completamente indisciplinado.

  4. é assim a vida de tem que alimentar um blogue.
    há que escrever coisas, tal qual fez o tal de ramiro marques.
    deve ter dado um grande contributo para qualquer coisa, na área de interesse do rui rocha, penso eu, qualquer que tenha sido.
    pois é, pois é, que fazer com o eduquês, senão fazer posts, posts e mais posts?
    abençoado eduquês, sejas o que fores, que permites a tantos publicar posts, e posts e posts (sempre aplaudidos), por professores que são sempre classificados como bons, muito bons ou excelentes, ensinem (?) “eduquesmente” ou não.
    olha se o tal de eduquês é erradicado por decreto…(missão impossível: na área da educação, alguém irá sempre identificar uma qualquer atitude como sendo “eduquês”, tal qual alguém sempre identifica uma qualquer atitude como sendo fascista).
    quando eu era miúdo dizia-se que “à dúzia é mais barato”.
    o tal de ramiro marques, opta pelo número dez…
    as equipas de futebol são constituídas por onze (excepto o sporting)…
    também há futebol de cinco…e andebol de sete…e um primeiro-minsitro…mas não há segundo-ministro…
    será que o tal de ramiro marques não quer postar sobre isso?
    deve ser “professor” para isso.

      1. Mas é isso mesmo. Ainda bem que há posts para os que apreciam – é o meu caso. Todos os dias me é dada a possibilidade de aprender qualquer coisa e nunca considero inútil o tempo gasto.
        Relativamente ao exposto, abordo de forma muito breve dois ou três pontos: nem sempre o uso da memória ou actividades de repetição se tornam inúteis ou negativas e, sustentadas com sistematização podem conduzir a resultados satisfatórios. No que toca às competências, tropecei quase sempre no seu interesse e não entendi nunca como é que elas se ensinam, mas encontrei bons resultados na aprendizagem dos conteúdos científicos com inclusão de subtemas adequados e bem estruturados. São raros os alunos (faixa etária dos 10-12 anos) capazes de criticar ou construir/ adquirir conhecimentos a partir do nada. A “aprendizagem pela descoberta” incluindo actividades práticas, ainda que muito elementares, revela-se por vezes muito interessante. A valorização do esforço na aprendizagem é de superior importância e o papel do professor continua a ser primordial.

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