Há muito que não se ouve falar da secreta e das suas estranhas actividades.
Andará a desvendar algum segredo?
O «Theatro Circo assinala hoje cinco anos da reabertura e um balanço de 300 mil espetadores». A notícia é da Lusa, que escreve o seguinte em lead: «O diretor do Theatro Circo [em Braga] considera “positivo” o balanço dos cinco anos após a reabertura, hoje assinalados, e revela que a “sala” que se tornou “espaço da memória coletiva da cidade” recebeu mais de 300 mil espetadores neste período.»
Portanto, a Lusa não só dá voz ao diretor do teatro que é memória coletiva, como garante que ele recebeu centenas de espetadores. É por estas e por outras que o povo quer espetar uma lança na comunicação social do Estado que anda a pagar a peso de ouro.
É a insuspeita agência Lusa que divulga que «Moita Flores afirma que futura “Cidade Judiciária” vai receber “forte concentração de tribunais”». Eis a confirmação mais detalhada: «O presidente da câmara de Santarém disse à agência Lusa que a “cidade judiciária” que está a ser criada na antiga Escola Prática de Cavalaria (EPC) deverá receber uma “forte concentração de tribunais”».
Traduzindo a ideia, pode dizer-se que o presidente da câmara de Santarém, Monsieur de La Palisse, e que o responsável pela agência nacional de notícias, Conselheiro Acácio, estão ambos de acordo: a futura cidade judiciária vai ter instituições judiciárias.
Num país em que há novos estádios de futebol abandonados, autoestradas às moscas, pavilhões multiusos sem uso, piscinas que só são depósitos de água, centros culturais para receber as rutes-marlenes no Verão, etc., é um alívio saber que a cidade judiciária há-de ter tribunais. Quero lembrar-vos que La Palisse e o Conselheiro Acácio nunca se enganaram.
Ainda há quatro políticos portugueses no activo que acumulam pensões de reforma com o vencimento dos cargos que ocupam. São todos da Madeira e a exercer na Madeira. Trata-se do presidente da Assembleia Regional, do chefe do Executivo Alberto João Jardim e de mais dois membros do Governo. Por sinal, já aqui me referi à continuidade dessas acumulações.
A Assembleia Regional da Madeira afectou este ano 1,6 milhões de euros, um-décimo do seu orçamento, para o pagamento de subvenções vitalícias a 52 ex-deputados, um privilégio que os políticos do continente e dos Açores perderam em 2005, na sequência da alteração do regime relativo a pensões e subvenções dos titulares de cargos políticos, os quais perderam as acumulações por inteiro e passaram a ter de fazer opções.
Agora, com a previsão de que tais privilégios, regalias e mordomias vão levar uma machadada radical, os políticos madeirenses vão entrar nos eixos e ficar finalmente equiparados a todos os outros políticos portugueses. É um efeito que tarda, mas que já se desenha no horizonte.
Até lá — e retendo a situação de privilégio da Madeira desde 2005, quando recusou a afinação pelo diapasão nacional — bem podem os políticos madeirenses favorecidos dar corda às lamúrias sobre moral, solidariedade, partilha de dívida, etc., e aproveitar para limpar as mãos à parede. Especialmente esses madeirenses exemplares que são o presidente do Parlamento e o presidente do Governo (e subordinados mais próximos), homens seguramente vacinados contra o rubor nas faces.
Dizem os noticiários que os seis meliantes que andaram a assaltar não-sei-quantas caixas Multibanco, para os lados de Setúbal, não só foram apanhados e levados a tribunal como o juiz até decidiu deixá-los em prisão preventiva. Por uma vez, vá lá.
Estranha-se, por ser invulgar. Eu cá não sou de intrigas, como sabem, mas comenta-se por aí que o apartamento daquele juiz deve ter por baixo uma caixa Multibanco. Má-língua, é o que é. Se calhar nem sabem se o juiz mora num apartamento.
«(…) Ninguém quer falar apesar de nos dizerem em off aos muitos jornalistas que aqui estão que souberam deste assalto que aconteceu como já disse pouco passava depois das 11 horas, souberam então aqui já na rua, mas garantem que presenciaram e que não perceberam então o sucedido, este assalto a esta loja de onde terão tirado então dois indivíduos, dois jovens, a empregada da loja disse-nos que apesar de estarem com gorro deu para perceber que eram dois jovens, este assalto aqui em Paivas-Xeixal, na Avenida 1.º de Maio, a avenida principal aqui no Seixal.»
Sandra Claudino em reportagem sobre o assalto a uma loja de compra e venda de ouro em Paivas (Seixal), Jornal da Tarde, RTP1
Sobre a queda parcial do aeroporto de Faro com uma rajada de vento, acabo de ver na televisão um passageiro a dizer em inglês ao repórter, com ar incrédulo e um sorrisinho dúbio, que o arquitecto da aerogare tem boas razões para estar preocupado. Estava na cara que o homem só pode ser estrangeiro e, seguramente, de algum país civilizado. Um responsável português preocupado com uma obra em Portugal? Estes estrangeiros civilizados têm sempre uma visão estreita da vida. É o que eu digo: viajam muito, mas nunca conseguem ver para lá da rua deles…
O «DELITO DE OPINIÃO é o melhor blogue político», conforme se lê no Pau Para Toda a Obra, onde o João Severino escreve que o DO «é o blogue que encerra os mais diversos e diferenciados temas políticos com melhor classificação no blogómetro Webblog» (v. aqui).
Estás sempre atento, João. Obrigado em nome de todos nós e um abraço com amizade.
Este país anda um bocado deprimido, mas sem motivo. Todos os dias há notícias palpitantes que nos compensam dos choques mais duros. Vejam este título: «Derrapagem de 115 milhões em contrato de aviões militares». Digam-me lá se já tinham visto aviões a derrapar.
É certo que «os 12 aviões comprados pelo anterior executivo socialista, que se destinavam ao transporte militar e vigilância marítima, custaram mais 115 milhões de euros que o previsto — indica uma auditoria do Tribunal de Contas à Locação de Aeronaves Militares, uma empresa do grupo Empordef – Empresa Portuguesa de Defesa», com a agravante de estarmos perante uma empresa portuguesa de defesa que não só não defende Portugal e os portugueses como ainda nos vem aos bolsos.
Mas pensem bem nisto: se é verdade que «a verba daria para comprar mais cinco aviões, que ajudariam a substituir os Aviocar da Força Aérea», não é motivo de grande alegria que isto não tenha acontecido? Sim, que se fosse feito negócio para mais cinco aviões é evidente que haveria mais derrapagens e que estávamos todos a arder com prejuízos ainda maiores, muito maiores mesmo.
Andamos deprimidos porquê? Nem tudo é mau, afinal.
«A instituição adiantou que mais uma vez voltou a recorrer desta decisão». O caso deverá estar concluído daqui a menos de dez anos, mas isto é apenas um palpite.
O que mais me toca é haver ex-políticos que recebem do Estado as famosas subvenções vitalícias de que se fala e, mês após mês, andem há anos a dar largas ao seu espírito altruísta, ao seu lado benemérito, à sua veia filantrópica: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — diz o socialista retirado e presidente da Mota-Engil Jorge Coelho.
Há gente assim, gente que entrega o dinheiro todo como se tivesse uma arma apontada às costas. Entregam-no todo. Todo-todo? Todinho mesmo? Nunca ficou um centimozinho nestes anos que já passaram? Claro que não: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — garante Jorge Coelho. Mesmo que seja sob anonimato, todo é todo, não é?
Recusa ele receber a subvenção que sai dos meus impostos? Não. Recusa receber a subvenção para aliviar as contas do Estado? Também não. O que é que ele faz? Desprendido do mundo de perdição dos homens, desinteressado dos bens materiais, recebe o vil metal e dá o mais abnegado dos exemplos apressando-se a sacudi-lo para longe: «Aplico o dinheiro todo em instituições de solidariedade» — assegura Jorge Coelho. Bem longe dos comuns mortais, portanto.
Jorge Coelho só precisa de ter cuidado com as palavras. Vem-me à ideia que, quando vou na rua e dou algum dinheiro a um pedinte, jamais me passaria pela cabeça pensar que apliquei dinheiro num pobre. Quando posso doar algum dinheiro a uma instituição de apoio humanitário, não me vejo a dizer que apliquei dinheiro numa obra que cuida dos que mais precisam. Aplicar dinheiro é um tique capitalista que nem me ocorre, menos ainda para legendar um donativo.
Eu sei, Jorge Coelho, que o socialismo está démodé. É verdade, meu caro, mas tente por um momento recuar ao vocabulário dos seus velhos tempos, pegue na subvenção vitalícia deste mês, do mesmo modo que deve andar a pegar há dezenas de meses, e diga para si mesmo em voz alta que vai aplicar o dinheiro todo em instituições de solidariedade. Soa-lhe bem? Aplicar o dinheiro a ajudar os outros parece-lhe uma linguagem adequada ou sequer normal? Como vão longe aqueles tempos, Jorge Coelho, não acha?
Pode Jorge Coelho continuar a vestir-se como um socialista retirado e a falar como um liberal insensível, com as celulazinhas cinzentas canalizadas para a aplicação de dinheiros. Pode, mas deve fazer coisa diferente do que aplicar a subvenção por conta própria, que não é para isso que a gente lha paga. Deve recusá-la e não ter pretensões de se substituir ao Estado, que é de onde ela lhe chega aos bolsos. Deve abdicar dela, que é só o que se espera de um antigo socialista que já teve outrora algumas preocupações de solidariedade. Afinal, por que é que os portugueses há-dem pagar-lha?
Ontem, a RTP noticiava que a Segurança Social apenas garantia reformas até 2040. Hoje, a mesma RTP dizia que a Segurança Social afinal só tem fundos até 2030, acrescentando que o prazo fôra antecipado cinco anos!
De repente, lembrei-me que as cinco estátuas no frontispício daquela igreja além representam os Dez Mandamentos da Lei de Deus, que são Fé, Esperança e Caridade…
«A Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) considera “ilegais” os cortes dos subsídios de Natal e férias na Função Pública e promete zelar pelo Estado de direito», garantindo que se trata de uma «medida violenta, injusta, discriminatória e flagrantemente violadora da Constituição». Sou tentado a achar muito bem. Porém, também acho mais duas coisas: acho que a gente vai ter de pagar seja qual for a fórmula e acho que os magistrados judiciais são parte interessada no caso.
Todos sabemos que é difícil ser-se advogado em causa própria. Todos menos a ASJP, pelos vistos. Partindo do princípio de que esta só quer agitar bandeiras para lembrar que ainda existe, permito-me salientar outros assuntos para que ela consiga estabelecer outras prioridades e tenha mais com que se entreter. Um desses assuntos pode ser, por exemplo, a ASJP vir a público declarar que “promete zelar pelo Estado de direito” no sentido de começar a ser regra e não excepção fazer justiça em tempo útil.
Outro assunto muito a propósito: como o problema dos cortes dos subsídios de Natal e de férias visa poupar dinheiros públicos, também seria bom que a ASJP começasse a manifestar que os juízes recusam a escandaleira dos subsídios de habitação que recebem e, de caminho, que vão passar a usar a prerrogativa dos transportes de borla apenas quando viajarem em serviço de facto.
Com estas e outras medidas que ponham cobro a mordomias claramente inadequadas — além de violentas, injustas, discriminatórias e flagrantemente violadoras do interesse público — não há-de faltar à ASJP matéria para se entreter e ainda sair bem vista aos olhos dos cidadãos. Se não o fez até agora não foi por falta de tempo, porque tudo isso já tem barbas e os cortes dos subsídios só têm dias.
… se for a de Coimbra. Sim, ter uma Praça do Comércio não é exclusivo de Lisboa, embora em finais dos anos 40, princípios de 50, o antigo Terreiro do Paço da capital tivesse outro ar de graça. Tinha, mas perdeu-o.
A Praça do Comércio de Coimbra pode não ser perfeita, mas ao menos não tem aquele campo de hóquei às moscas no centro, rodeado de ministérios. Está visto que não há presidente da câmara de Lisboa que se decida a alegrar o espaço.
O presidente da câmara de Torres Novas, o socialista António Rodrigues, vai voltar a ter carro de serviço. É uma pena que esta excepção não seja a regra geral, como devia ser. Só a tristíssima realidade em que andamos a viver justifica o realce deste caso, que contrasta com as permanentes escandaleiras que nos consomem.
Chama-se Miguel Costa Gomes, é presidente da câmara de Barcelos e já declarou que vai «manter os subsídios de férias e de Natal para os cerca de 800 funcionários da autarquia em 2012».
O facto de ser «independente eleito pelo PS» parece que anda a dar-lhe umas ideias. Não só esta, mas também a de que os dinheiros da autarquia são para usar do modo que ele entender, que as suas origens celestiais lhe permitem concluir que as normas a aplicar à escala nacional são para os terráqueos, que a sua voz de comando basta para apresentar uma proposta não-agendada numa reunião ordinária da câmara e sair vencedor, etc., ao bom estilo de quem ocupa o poleiro mais alto do galinheiro.
Se a moda pega vai ser um vê-se-te-avias, pelo que é melhor mantermos debaixo de olho a decisão, o modus faciendi e as razões do homem. Limitou-se ele a fazer o executivo camarário aprovar «por unanimidade», ontem, «uma proposta nesse sentido», pelo que vai agora «pedir ao Governo e ao Parlamento um regime de excepção» e, se a ideia reprovar, ignorará o chumbo e irá «pagar através do orçamento municipal». A quantia «ronda um milhão de euros». Para 800 funcionários, hem?
As razões de Miguel Gomes são estas: os «cortes preparados pelo Governo são medidas “injustas, muito violentas, que configuram um ataque da Administração central” e que vêm “perturbar de imediato a vida das pessoas”; “muitos usam os subsídios para reequilibrar as contas e, com estes cortes, há um reflexo imediato na economia local”». E o dinheiro? O milhão de euros cairá do céu? Simples: é só «fazer um rateio nos outros apoios que a câmara concede», como sejam «os subsídios dados a associações», despesas que, pelos vistos, já deviam estar cortadas por serem desnecessárias.
Enfim: se este inesperado rei de Barcelos pode fazer o que anunciou ontem, o problema é apenas (!) de ética. Pergunto-me então se ele não andará a acumular funções de director da PSP. Não, porque esses ainda lá continuam todos? Em exercício e a receber? A sério? Nesse caso… Socorro! Há alguém que possa acudir a isto tudo?
Na rua, de microfone em punho e cameraman no seu encalço, a repórter apanha Pedro Passos Coelho e indaga sobre a sua posição face às declarações do Presidente em relação à proposta de Orçamento do Estado. O primeiro-ministro explica calmamente que não vale a pena esperar-se que venha a alimentar quaisquer polémicas nestas circunstâncias, agradece e afasta-se.
Em conformidade com as bacoquices habituais, a repórter vira-se para a câmara e tenta repetir as palavras proferidas por Passos Coelho no momento anterior, não vá dar-se o caso de nós não termos o dom dela para perceber as coisas que nos são ditas. E a repórter acrescenta, a terminar: “Portanto, Passos Coelho a não querer responder directamente a Cavaco.“
Ficámos todos a saber que, se o primeiro-ministro quiser responder em directo ao Presidente, deve fazê-lo directamente através daquela repórter. De outro modo, será sempre um disparate, não é?
Acabo de assistir a uma notícia na televisão que, embora sem grande importância, é típica da leviandade instalada na comunicação social. Dizia o jornalista que os líbios tinham passado toda a noite a festejar o fim do ditador e que só com o raiar do dia se retiraram para descansar. A notícia concluía que a manhã nascera «serena, mas expectante em relação ao futuro».
Isto serve de exemplo: ora se salpica a notícia com um disparate, inconsequente ou não, ora se acrescenta um dado que é óbvio e não requer confirmação, mas desinserido de qualquer contexto adequado. Afinal, o certo é que a manhã deve ter nascido calma nas principais cidades da Líbia, mas precisamente por ter nascido calma e sem gente nas ruas é que não existia qualquer contexto que desse corpo à afirmação de que havia uma expectativa no ar, por muito que isso seja mesmo verdadeiro.
Dou por mim a pensar no meu Porto. A 24 de Junho, depois de uma intensa noite de S. João, a cidade acorda sempre tranquila e quase deserta. Deverei concluir que a manhã de 24 de Junho, no Porto, indica serenidade e expectativa em relação ao futuro? Ou será que hoje é Dia de S. João em Tripoli?