Chama-se Miguel Costa Gomes, é presidente da câmara de Barcelos e já declarou que vai «manter os subsídios de férias e de Natal para os cerca de 800 funcionários da autarquia em 2012».
O facto de ser «independente eleito pelo PS» parece que anda a dar-lhe umas ideias. Não só esta, mas também a de que os dinheiros da autarquia são para usar do modo que ele entender, que as suas origens celestiais lhe permitem concluir que as normas a aplicar à escala nacional são para os terráqueos, que a sua voz de comando basta para apresentar uma proposta não-agendada numa reunião ordinária da câmara e sair vencedor, etc., ao bom estilo de quem ocupa o poleiro mais alto do galinheiro.
Se a moda pega vai ser um vê-se-te-avias, pelo que é melhor mantermos debaixo de olho a decisão, o modus faciendi e as razões do homem. Limitou-se ele a fazer o executivo camarário aprovar «por unanimidade», ontem, «uma proposta nesse sentido», pelo que vai agora «pedir ao Governo e ao Parlamento um regime de excepção» e, se a ideia reprovar, ignorará o chumbo e irá «pagar através do orçamento municipal». A quantia «ronda um milhão de euros». Para 800 funcionários, hem?
As razões de Miguel Gomes são estas: os «cortes preparados pelo Governo são medidas “injustas, muito violentas, que configuram um ataque da Administração central” e que vêm “perturbar de imediato a vida das pessoas”; “muitos usam os subsídios para reequilibrar as contas e, com estes cortes, há um reflexo imediato na economia local”». E o dinheiro? O milhão de euros cairá do céu? Simples: é só «fazer um rateio nos outros apoios que a câmara concede», como sejam «os subsídios dados a associações», despesas que, pelos vistos, já deviam estar cortadas por serem desnecessárias.
Enfim: se este inesperado rei de Barcelos pode fazer o que anunciou ontem, o problema é apenas (!) de ética. Pergunto-me então se ele não andará a acumular funções de director da PSP. Não, porque esses ainda lá continuam todos? Em exercício e a receber? A sério? Nesse caso… Socorro! Há alguém que possa acudir a isto tudo?


João, o meu ábaco deve estar partido: uma câmara com mais de 50 milhões de euros em dívida e 60 milhões de euros de orçamento para 2012 propõem-se a gastar 1 milhão de euros em subsídios para os seus funcionários; caso o governo não lhes abra a excepçãozinha, o seu presidente diz que fará um ‘rateio’ dos dinheiros que iriam para o apoio às associações locais.
Ora, em Barcelos, como aqui, as associações vivem sobretudo do voluntariado, mas também criam algum emprego (sobretudo para administrativos, contabilistas, motoristas, auxiliares de limpeza e cozinha, etc) a partir dos fundos protocolados com a autarquia (e também angariados junto de patrocinadores e mecenas). O que é que vai acontecer a essa gente? Se essa gente for produto da minha imaginação, outra questão; que associações locais ficarão a ver passar navios? De certeza que quem é de lá não vai deixar isto passar por baixo do radar, resta saber se os media de referência voltam lá para investigar…
Um exemplo de gestão socialista, 50 M€ em dívidas quase iguais ao seu orçamento, não se pagam dívidas porque decide aumentar as despesas para compensar as poupanças do Estado, tinha dinheiro que iria distribuir que deve ser por conveniência política pois em caso de conveniência maior muda a direcção das verbas… quando falido a receita é gastar mais e não pagar dívidas um bom díscipulo de Sócrates e uma das consequências das palavras desastrosas do admirador do sorriso das vacas açorianas
É escusado, Carlos. O PS nunca sabe gerir e nunca aprende a não desbaratar.
Palpitou-me, Ana Cláudia, mas as tuas informações confirmam as minhas suspeitas. Uma investigaçãozinha por lá ia mesmo a calhar.
Fiz link para o meu facebook. Sempre quero ver o que me dirão os munícipes barcelenses (tenho por lá alguns). Isto, se se atreverem a falar…
Depois tens de contar-me.
Então, notícias de Barcelos: o PSD absteve-se. A deliberação não foi, portanto, unânime apenas o foi tecnicamente, uma vez que as abstenções não contam para o apuramento do resultado. Claro, pode dizer-se que ‘tão ladrão é o que fica ao portal como o que vai à vinha’, mas até percebo. Já viste a guerra interna (com os funcionários) que a oposição iria comprar, sem necessidade, caso votasse expressamente contra? É assim a realpolitik…
Muito bem. Sempre atenta.
O que me espanta é que os vereadores do PSD em Barcelos não só não se manifestem, como nem sequer tenham vindo aqui corrigir a sua parte. Afinal, o DO já há muito que não é bem uma coisa tão pequenininha que ninguém dê por nós, como todos sabemos.
Obrigado pela tua cooperação, Laura.
O Boletim Municipal onde há-de constar, forçosamente, a súmula desta deliberação ainda não está online. O último data de 4 de Outubro e o assunto em discussão foi votado em 21, julgo eu. Aí, sim, é que se vai ver se as notícias estão erradas ou se os munícipes andam tão distraídos que engolem o que lhes contam.
Não, não há.
É o que eu temia.
Mas já agora, qual o espanto?
Qual a diferença deste para o da madeira?
E ao da madeira, não lhes ouvi tamanha indignação
Não percebi o sentido.
A Autoridade do Estado está em crise. Vem detrás.
Vem de trás, sim. E os sinais disso aparecem em todas as esquinas e em quantidade crescente.
Completamente de acordo quanto ao essencial do seu post. Contudo, uma observação: o senhor em causa não fez o executivo aprovar por unanimidade; os vereadores votaram favoravelmente porque assim entenderam, incluindo os do PSD, que simultaneamente acusaram o Presidente da Câmara de demagogia. É demagogia, certamente, mas a demagogia de um não obriga às hipocrisia e cobardia política dos outros (eles, neste caso), pois não?
Cada um sabe de si. Por mim, sei que o homem obteve o que quis. Medo do poder? Medo de represálias? Cada um saberá.
A intenção de Miguel Costa Gomes é boa. A maneira como a vai concretizar é que já não sei dizer.
Pode ser como V. diz, mas cheira-me que nem a intenção desse Miguel Gomes é boa. Dizer que «muitos usam os subsídios para reequilibrar as contas» e que, «com estes cortes, há um reflexo imediato na economia local» chega a ser estupidez, porque essas são precisamente as consequências dos cortes. E não apenas na economia local, mas à escala nacional.
Concluindo: tudo o que cheire a excepção em tempos de solidariedade é sempre mau, logo a partir da intenção. Quando a iniciativa é ostensiva sai agravada pelo sabor a provocação, o que ainda é pior por magoar os outros.