Acabo de assistir a uma notícia na televisão que, embora sem grande importância, é típica da leviandade instalada na comunicação social. Dizia o jornalista que os líbios tinham passado toda a noite a festejar o fim do ditador e que só com o raiar do dia se retiraram para descansar. A notícia concluía que a manhã nascera «serena, mas expectante em relação ao futuro».
Isto serve de exemplo: ora se salpica a notícia com um disparate, inconsequente ou não, ora se acrescenta um dado que é óbvio e não requer confirmação, mas desinserido de qualquer contexto adequado. Afinal, o certo é que a manhã deve ter nascido calma nas principais cidades da Líbia, mas precisamente por ter nascido calma e sem gente nas ruas é que não existia qualquer contexto que desse corpo à afirmação de que havia uma expectativa no ar, por muito que isso seja mesmo verdadeiro.
Dou por mim a pensar no meu Porto. A 24 de Junho, depois de uma intensa noite de S. João, a cidade acorda sempre tranquila e quase deserta. Deverei concluir que a manhã de 24 de Junho, no Porto, indica serenidade e expectativa em relação ao futuro? Ou será que hoje é Dia de S. João em Tripoli?

A manhã nasceu calma e serena porque é sexta.
Tão simples como isso.
Deve ser o seu S. João. Mas calma e serena são sinónimos: se nasceu calma, nasceu serena; e vice-versa.
Queria eu apenas dizer que não há necessidade de evocar a ressaca sanjoanina para explicar a tranquilidade desta manhã. Por norma, num país muçulmano todas as sextas nascem no sossego.
Certo, mas as minhas origens portuenses deixam-me evocar tranquilamente as imagens do Porto. O que nada retira à imagem que V. aqui colocou e que está muito bem colocada. Ou seja: pelo menos aparentemente, a manhã de hoje na Líbia devia ser igual a qualquer outra manhã de sexta-feira.