Apanhados


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Mais ou menos à sorrelfa, os administradores do Banco de Portugal tinham decidido aumentar-se 5% em 2009.

Ontem, o “i” desvendou a marosca e  Honório Novo, deputado do PCP, veio lembrar que Vítor Constâncio manifestara, em Abril, a sua discordância pelo aumento de 2,9% concedido pelo governo aos funcionários públicos.

Talvez porque em alguma daquelas pérfidas cabecinhas ainda reste um pinguinho de vergonha, horas depois o BdP veio anunciar que os administradores renunciariam ao aumento. Aproveitaram, porém, para lembrar aos portugueses que o aumento de 5% se devia ao facto de, em 2008, se terem esquecido de proceder à actualização dos seus vencimentos. Ou seja: embora discordassem do aumento de 2,9% dos funcionários públicos, aproveitavam a boleia do governo e acrescentavam o aumento de 2008 (2,1%).

Obviamente que só se esquece de actualizar os seus vencimentos quem tem consciência de que ganha muito mais do que merece. A administração do BdP é um exemplo sórdido  do comportamento da alta finança. Demitiu-se da sua função de regulador, foi negligente e manifestou indiferença face aos elementos que tinha em sua posse, não actuando em tempo oportuno.  A sua negligência custará uns milhares de euros a cada contribuinte, razão que seria suficiente, num país civilizado.

Mas, como vivemos em Portugal, o mínimo que se deveria exigir era a redução dos vencimentos.

Espero que o “i”  não se deslumbre com este acto piedoso da administração do Bdp e continue a acompanhar o caso. É que, noutras situações, a atribuição de mordomias veio suprir a inexistência de aumentos salariais. Como diz o povo, “se não vai pelo c…, vai pelas calças”.

Ternura é…(7)


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O governo incentivar os consumidores a reclamar  das empresas e serviços públicos e depois  saber-se que a administração de um hospital do Estado levantou um processo disciplinar a um enfermeiro por ter apresentado queixa ao PR.

O efeito Escorpião


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Na Alemanha os desempregados de longa duração, com mais de 50 anos, são na sua grande maioria provenientes da ex-RDA. Vítimas da industrialização obsoleta do seu país, foram perdendo gradualmente os postos de trabalho desde que se iniciou o processo de “desindustrialização”, após a queda do muro de Berlim.

Um casal de operários não especializados da ex-RDA, desempregado e com mais de 50 anos, não vive de forma desafogada, mas é beneficiário integral do sistema de segurança social, o seu orçamento ultrapassa os 2 mil euros e tem ainda direito a um subsídio de arrendamento.

São, mesmo assim, considerados “novos pobres”, cujos hábitos  os sociólogos têm estudado atentamente: vêem cinco horas de televisão, são grandes consumidores de fastfood e fumadores compulsivos. A sua formação académica é básica, mas não têm interesse em aprender mais. Têm tendência a estados depressivos  e, na altura de votar, optam pelos extremos.

Estudos entretanto realizados indiciam o aparecimento destes novos pobres noutros países industrializados, fruto de uma economia moderna que pouco ou nada tem a oferecer a quem se vê no desemprego depois dos 50 anos e não possui habilitações académicas. Os mesmos estudos concluem que, à medida que a globalização avança, os novos pobres crescem exponencialmente. Alguns apontam esse crescimento como a demonstração  do falhanço completo da economia de mercado, responsável pela destruição gradual dos sistemas de segurança social.

Ou seja: a Europa não está a ser capaz de dar a resposta adequada à crise, nem ao desafio da globalização. Perante esse facto e a incapacidade de assegurar a manutenção  de sistemas que criou para aumentar o bem estar dos seus cidadãos, está a destruí-los numa auto-flagelação que faz lembrar o suicídio do escorpião.

Efeito “Dogville”


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Depois de França e Itália  terem aprovado legislação que pune os cidadãos nacionais que prestem auxílio a imigrantes ilegais, chega a notícia de que a Holanda se prepara para dar a maioria ao partido de Greet Wilders (conhecido pelas suas posições xenófobas) nas próximas eleições europeias.

Ao reflectir sobre isto, lembrei-me  de  “DOGVILLE”, o filme de Lars Von Trier onde Nicole Kidman encarna a personagem de uma jovem que chega à cidade e precisa, desesperadamente,  de arranjar trabalho para sobreviver. Olhada com desconfiança pela pequena comunidade, acaba por ser aceite a contragosto no seio de algumas famílias que decidem dar-lhe trabalho quase como esmola. A verdade, porém, é que passado algum tempo a jovem se torna tão imprescindível para toda a gente que já ninguém a quer deixar partir.

Lembram-se como acaba o filme?

Memórias do meu país(1)


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"O Continentes"

 

 

 

Já alguém lhe chamou “O Continentes”, numa alusão ao cosmopolitismo e diversidade de etnias ali presentes

Quando lá entrávamos depressa esquecíamos a abominável  estética exterior e o nome: Centro Comercial da Mouraria. Como num passe de mágica, abandonávamos Lisboa e aterrávamos a milhares de quilómetros de distância. Os odores e sons standardizados da baixa lisboeta, tão próprios de qualquer capital europeia, eram substituídos por aromas e sons de outros continentes: especiarias, incenso, cheiros fortes e estranhos – por vezes violentos para narizes mais afeitos a perfumes afrancesados – associavam-se aos  sons de pedras de mah–jong espraiando-se sobre as mesas, ou a linguarejares  incompreensíveis, de proveniências variadas. Decibéis competiam à desgarrada, debitando notas musicais vocalizadas, evadindo-se livremente de uma parafernália de fontes sonoras.

Ao contrário do que acontece em espaços  comerciais similares, ali não éramos conduzidos por estreitas ruelas e recantos, obedecendo às  regras do marketing. A variedade e o exotismo do ambiente convidavam  a uma visita em liberdade. E  assim íamos desbravando os espaços que o edifício albergava.

Em plena liberdade, íamos descobrindo mercearias africanas e indianas. Discotecas e cabeleireiros africanos. Lojas de roupas e bijutarias chinesas. 

Das lojas de roupa chinesas saíam vendedores ambulantes, transportando grandes sacos de plástico negros. Lá dentro, camisas Ralph Lauren e malhas Burberrys genuinamente falsas conviviam numa orgia de capitalismo contrafeito, ao dispor de bolsas pouco recheadas, alimentando a ilusão de que a igualdade se alcança pelo consumo das mesmas marcas

Quando chegava a hora do almoço, o Centro Comercial Mouraria animava-se ainda mais. Entre as diversas  ofertas, era possível optar pelos sabores africanos do “Dois Irmãos”, especialista em comida de Angola e da República Democrática do Congo, onde a ementa anunciava «fumbua» (um prato à base de moamba, cebola e óleo de palma), «pondu», com folha de mandioca, «muteta» ou «funji», ao preço de 5€.

Havia dois restaurantes chineses, muito diferentes daqueles a que estamos habituados. Aos tradicionais crepes, “chau-min” e “chop-soy”, adaptados ao gosto ocidental, somavam-se outros pratos de peixe, carne e legumes,  desconhecidos de quem nunca visitou o Oriente.

  

 

 

Se o apetite apelava aos paladares indianos, a melhor opção era o  “Faltas Tu”. Os seus proprietários, oriundos do Bangladesh, serviam caril de frango, de cabrito e vegetariano, camarão frito e “biriani” (arroz com carne e vegetais). Antes de atacar o prato principal, podíamos provar as saborosas chamuças, que nada têm a ver com os sucedâneos gordurosos que aparecem à venda em algumas pastelarias. No final, para adoçar o paladar, recomendavam-se bolinhos indianos, como os “lado”  feitos com manteiga e farinha de grão, ou os “dudh-penda”, com leite condensado. Para os acompanhar,  um chá com leite e especiarias.

Ainda há pouco tempo era possível descer à cave e abancar na esplanada da pequena praça central para tomar uma bica no café “Ilha de Luanda”, no “Bica-Bica” ou no “Faltas Tu”. A esplanada era um dos pontos privilegiados de observação do movimento do Centro e nas mesas podiam ver-se  jovens orientais emborcando canecas de cerveja, acompanhadas por camarão miúdo. Fumavam cigarros americanos, riam e conversavam, enquanto na mesa ao lado parceiros de meia idade jogavam cartas. De quando em vez , o toque de um telemóvel interrompia a partida, anunciando  negócios no ar.

A umas mesas de distância, na esplanada do “Faltas Tu”, indianos de cabelos brancos deliciavam-se com chamuças e chá com leite, aromatizado com especiarias, de olhos fixos no televisor onde, ininterruptamente, passavam telediscos.

Hoje, aquela esplanada é apenas uma recordação, substituída que foi por lojas de chineses. Pergunto a Lu–Yan, proprietária de uma loja de atoalhados, o que aconteceu aos restaurantes. Olha-me com indiferença e, no seu português apalatado,  explica-me que os restaurantes só criavam confusão. “É melhor assim” – garante. Percebendo a minha decepção, insiste:

“Tem muito restaulante chinês lá fola. Aqui é pala complale, não é pala passeale”. Ou, como diria Guterres: “É a vida!”

Não consigo disfarçar alguma nostalgia pela perda de um espaço ímpar em Lisboa, onde era possível conviver simultaneamente, no mesmo prato, com sabores africanos, indianos e chineses, a preços módicos. Invadido por um sentimento indecifrável, decido  terminar aqui a reportagem. É difícil aceitar a perda súbita de um espaço onde me sentia aconchegado, quando me minavam as saudades do Oriente. Resta a simpatia contagiante de muitos lojistas… Até quando?

Pero que los hay, los hay


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O Tiago Moreira Ramalho, num bravo post, acusa de “mentalidade mesquinha” os que não gostam de bufos, grupo em que orgulhosamente me incluo. A terminar declara: “  … não acho admissível que se venha com o discurso dos bufos, como faz a Ana Gomes e subscreve o Carlos Barbosa Oliveira, apenas porque não nos convém a denúncia em questão”.

Pensei não responder mas, depois de reflectir um pouco, admiti que talvez valesse a pena esclarecer o TMR que, sendo eu um troglodita, não opino ou reajo em função de conveniências ou interesses, mas sim por convicções. Admito que o TMR não saiba o que isso é, mas está sempre a tempo de ir ao dicionário.

Não conheço Lopes da Mota, não sou simpatizante deste governo, mas não gosto de pelourinhos. Subscrevo, por isso, integralmente, as palavras de António Vitorino esta noite no “Notas Soltas”: “Neste momento  e até conclusão do processo disciplinar, a demissão de Lopes da Mota depende apenas da sua consciência”.

Correndo embora o risco de o desiludir, não resisto a explicar ao TMR que os bufos existem mesmo, não são figuras mitológicas do Estado Novo, nem se extinguiram com os cravos de Abril. Aparecem sob diversas formas e sofrem de metamorfoses constantes. Deixo aqui, com todo o gosto, a identificação de algumas classes em que se dividem:

Bufo pé de cabra- Actua normalmente nos locais de trabalho. Insinua-se junto do chefe e quando percebe que um colega vai ser nomeado para um lugar importante, inicia o processo de destruição. Põe a circular notícias falsas sobre o visado ou deixa cair junto do chefe alusões a factos da sua vida pessoal.

Bufo profissional- Vive do mexerico. A sua frase preferida: “Eh pá, se eu fosse jornalista tinha muitas coisas para contar sobre aquele tipo”. Há quem lhes dê muita importância e goza de popularidade por estar sempre a par das últimas fofocas. Normalmente, o que tem para revelar é falso ou não vale um caracol, mas é disso que se alimenta.

Bufo-osga- É um sedutor. Faz amizades facilmente. Procura cultivar a amizade de jornalistas e pessoas influentes, insinuando-se  com uma ou duas histórias verdadeiras. Ganha a confiança, a falta de material atractivo leva-o a inventar histórias. Quando percebe que já não tem crédito, procura outro hospedeiro. Tanto pode ser outro jornalista, como uma pessoa influente, ou do “jet-set”, disposta a fornecer-lhe novas histórias que depois utiliza para se insinuar junto de outro jonalista.

Bufo-oportunista- É o maior inimigo dos locais de trabalho. Não faz nenhum. Anda sempre à espreita, para saber o que corre mal. Assim que obtém informação suficiente, mesmo sabendo que o assunto já está resolvido, lança a notícia cá para fora. O último ataque deste exemplar foi detectado hoje. Ia a sair do IEFP.

Bufo-saudosista– Vive no tempo do Estado Novo. É um agente da PIDE falhado. Se pudesse, escreveria no BI – Profissão: delator. Prolifera nos partidos políticos, mas mais nuns que noutros.

Bufo de sacristia- Resulta do cruzamento do bufo-osga com o oportunista. Videirinho, procura passar despercebido, mas está sempre atento a tudo o que se passa à sua volta. Recolhe um conjunto de elementos que parecem encaixar e passa a informação para os jornais. Gosta de viver em tribunais.

Bufo – cordeiro- Dizem-me que vive na madeira e é uma espécie de bicho do caruncho. Só denuncia quando a vítima está longe. Assim que ele se aproxima, torna-se um cordeiro. Dizem que está em vias de extinção, mas eu não acredito

Como vê, TMR, bufos não faltam, é apenas uma questão de escolha. Como TMR acha que a “denúncia é do mais saudável que pode haver” eu até lhe apresentava alguns exemplares, mas acontece que não sou bufo e esses animais não gostam de ser desmascarados. Pessoalmente, continuo a preferir as fontes credíveis que não me engrominam e a acreditar que o “mais saudável que há” é uma democracia sã. Coisas de velho sonhador. Quem me manda a mim ler o Luís Sepúlveda?

Denúncias anónimas confirmam?


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Marinho Pinto reitera hoje, em entrevista, que o caso Freeport foi “cozinhado”.

Tenho especial apreço pelo Bastonário da Ordem dos Advogados e não tenho qualquer rebuço em acreditar na consistência da sua afirmação. 

O Bastonário – que conheci durante a sua fugaz passagem por Macau – não se preocupa com o discurso politicamente correcto, exprime as suas opiniões com frontalidade, sem se preocupar em saber se está contra a corrente. Por isso, quando na mesma entrevista defende a demissão de Lopes da Mota, antes da conclusão do processo disciplinar, também  valorizo a sua opinião.

Curiosamente, as palavras de Marinho Pinto têm tido pouco eco. Presumo, mesmo,  que haja por aí muita gente a desvalorizá-las e a acusá-lo de se estar a colar ao poder, no caso Freeport, mas a invocá-lo em relação a Lopes da Mota.

Persigno-me diante do Cristo Rei e peço perdão por valorizar mais as afirmações de pessoas que não escondem a cara do que as informações e cartas anónimas fazendo denúncias, de que a comunicação social faz eco.

A denúncia anónima é um resquício do espírito pidesco que desprezo. Será uma questão geracional? Talvez. Isso não impede que arregale os olhos de espanto quando ouço (e leio) " denúncias anónimas confirmam…" .

Se a memória não me falha, Eduardo Graça – ex-presidente do Inatel – afirmou há tempos, numa entrevista, que não dera sequência a uma queixa que lhe tinha sido apresentada, por ter sido feita a coberto do anonimato. Segundo as suas palavras, atirou a queixa para o lixo. Penso que fez bem. Eu faria o mesmo. Por imposição ética que pauta a minha conduta pessoal e profissional. *

Uma sociedade que dá especial credibilidade a denúncias anónimas e desvaloriza quem assume com frontalidade as suas posições, desde que não sirvam os interesses que prossegue, é uma sociedade doente. Portugal é um país doente.

Mas isso eu já sabia e a maioria dos que lêem o DO certamente também.

 

* Voltarei mais tarde a este tema

Vampiros


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Este post da Ana Gomes é de leitura obrigatória. Essencial para perceber a utilidade e as funções de alguns conselheiros de imprensa que, como borboletas saltitantes, alternam  entre a profissão de jornalistas e de bufos, na volatilidade dos minutos. Também já fui alvo da cobardia de alguns  bufos e sei o que isso custa.

Mas a leitura do post também ajuda a perceber a minha posição face ao caso Lopes da Mota. 

Allgarve is back!


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O Algarve está de volta ao futebol da I Liga. As ruas de Olhão estiveram desertas durante duas horas mas, num repente, inundaram-se de gente que saiu à rua para celebrar a subida da equipa da cidade à I Liga, 34 anos depois. O Olhanense regressa ao convívio entre os grandes do futebol português. O Algarve esta de novo no mapa do futebol português. Parabéns ao SC Olhanense, a Olhão e a Jorge Costa. Fico a aguardar que Cajuda cumpra a  promessa de levar Jorge Costa ao colo. Deve ser hilariante e todas as televisões irão registar o momento.

De Cannes, ao sul do Equador


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A escolha do  filme de abertura do Festival de Cannes (UP)  está carregada de simbolismo. Pela primeira vez, na história do Festival, é dada essa honra a um filme de animação.

A história gira em volta de um velho vendedor de balões que, viúvo e prestes a perder a casa devido à especulação imobiliária, decide realizar a aventura que ele e a mulher sonharam  toda a vida.

Para isso,  prende milhares de balões à casa e parte com destino à América do Sul.

Contrariando as previsões, afirmo há mais de uma década que o futuro está “a sul do Equador”, nesse continente fantástico que lentamente se vai libertando do jugo americano e dos ditadores abençoados pela Casa Branca, descobrindo as suas próprias riquezas e potencialidades.

Encaro por isso, como boas, as notícias que nos aproximam dos sul-americanos aqui trazidas ontem pela Ana Margarida Craveiro e que confirmam o que escrevi aqui.

Depois de 10 anos consecutivos presente em Cannes, terei falhado um dos filmes que melhor se coadunam com o meu projecto de futuro. Não penso ir de balão, claro, e espero abancar pelo Parque Nacional de Los Alerces, antes dos 78 anos…

Olh’á pressão! Sai fino ou imperial?


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Já aqui expressei a minha opinião sobre as alegadas pressões de que os magistrados do Ministério Público se consideram vítimas. Resumidamente, relembro aos leitores que em minha opinião só é pressionado quem se deixa pressionar. Uma pessoa de bem não precisa de vir para a praça pública clamar “acudam-me que estou a ser pressionado!”

O caso Freeport – que já cheira mal de tanto aproveitamento político e “noticioso” – tem servido para evidenciar o clima de guerrilha no Ministério Público, mas também para desacreditar a justiça.

Num país onde a justiça desempenhasse  normalmente o seu papel, Oliveira e Costa não passaria os dias sozinho a fazer paciências e escrever as memórias. Teria já vários companheiros de outros bancos na sua cela  a fazer-lhe companhia e  a jogar Monopólio, para não perderem o hábito.

Infelizmente, Portugal é um país onde a justiça utiliza os velhos  métodos de Pilatos. Deixa escapar informação para a imprensa, para ver a reacção da populaça, e de quando em vez dá umas entrevistas para mostrar que está viva e é séria. 

A tendência dos portugueses para acreditarem em quem berra mais alto e pedirem a condenação de quem é alvo de um mero processo disciplinar dá uma preciosa ajuda.

Penso que a  justiça, em Portugal, devia vir acompanhada de um Livro de Instruções. Perceberíamos melhor  esta  e outras sentenças. (via Jumento) . 

Histórias da Carochinha


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Cavaco pediu a Jardim para receber Sócrates com calma. Jardim respondeu que iria receber o PM “de braços abertos”. Guilherme Silva pediu a Sócrates para corresponder ao apelo do PR (estará a pedir a Sócrates para ter calma?)

Tudo isto me parece surrealista num país democrático.

Cavaco tratou Jardim como o filho rebelde a quem os pais pedem para se  portarem bem quando recebem visitas em casa.

Jardim, dando mostras de ser um filho bem comportado, acata o pedido e promete não fazer comentários nem durante, nem depois da visita. Os amigos riem-se à socapa e esfregam as mãos à espera do momento de verdadeiro desfrute. Sabem que, passado o período de nojo, AJJ lançará o seu remoque. Provavelmente, durante a festa do Chão da Lagoa, depois da habitual visita às tasquinhas.

Entretanto, Cavaco continuará a ter esta visão idílica da Madeira.

 

Actualização: Jardim não reage, mas já mandou os seus moços de recados fazer o servicinho.

Proibido proibir


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A União Europeia anda muito preocupada com a nossa saúde. Depois de proibir os jaquinzinhos e outras apetitosas minudências gastronómicas, normalizar o tamanho dos tomates, determinar a curvatura dos pepinos e legislar sobre os implantes mamários, encetou a cruzada anti-tabágica.

O proibicionismo, como é sobejamente sabido, favorece o crime. E nem é preciso recuar aos tempos da Lei Seca e Al Capone para o demonstrar. A lei anti-tabágica está a revelar-se um excelente negócio para o mundo do crime. Aumentou o contrabando, o número de assaltos a carrinhas de transporte de tabaco e surgiram os cigarros de contrafacção vendidos no circuito paralelo, mas também em alguns estabelecimentos.

Os cigarros contrafeitos têm uma dose mais elevada de alcatrão do que os cigarros normais, agravando os efeitos nocivos sobre a saúde e aumentando o risco de doenças pulmonares e de acidentes cardiovasculares.

Com a legislação anti-tabágica, os Estados deixaram de arrecadar receitas de impostos, mas pensaram que essa perda seria compensada com a redução nos custos a suportar pela segurança social, resultantes de doenças provocadas pelo tabaco.

Parece que as contas saíram furadas. As receitas dos impostos vão directamente para os bolsos dos criminosos e as poupanças da segurança social não cobrem as perdas das receitas com os impostos.

Um dia destes todos vão perceber que a sociedade proibicionista é uma sociedade cega que está constantemente a dar tiros no pé. Parece-me importante combater a obesidade e o tabagismo – embora fosse igualmente importante combater o alcoolismo dos adolescentes e o uso e  porte de arma, aspectos para que a União Europeia não se tem mostrado muito vocacionada, nem habilitada – mas em vez de proibir talvez fosse melhor investir na educação e informação dos consumidores europeus.

Sentir-me-ia mais seguro numa sociedade capaz de educar  os seus cidadãos, habilitando-os a fazer escolhas conscientes, do que numa sociedade que inculca valores e comportamentos em função do mercado.

Afirmo isto porque a sociedade que hoje me obriga a ler nos maços de cigarros mensagens ameaçadoras sobre os efeitos nefastos do tabaco é a mesma sociedade que, há pouco mais de uma década, utilizava a publicidade para incentivar os jovens a fumar,  veiculando a ideia de que o tabaco estava associado  a promoção social.

Hoje em dia, a publicidade veicula outras mensagens – e incita outros comportamentos -nada consentâneos com os princípios de uma sociedade  que se pretende saudável. Apenas mudaram os actores e os padrões. A sociedade do futuro parece assentar na preocupação de  facilitar a comunicação através da internet, do telemóvel e outras tecnologias mas, curiosamente, como revelam estudos recentes, a facilidade de comunicação não está a tornar-nos mais comunicativos ou solidários. Ao invés, a sociedade do Eu, Ldª está cada vez mais pujante. Por muito que tenhamos a ilusão do contrário…