Já aqui expressei a minha opinião sobre as alegadas pressões de que os magistrados do Ministério Público se consideram vítimas. Resumidamente, relembro aos leitores que em minha opinião só é pressionado quem se deixa pressionar. Uma pessoa de bem não precisa de vir para a praça pública clamar “acudam-me que estou a ser pressionado!”
O caso Freeport – que já cheira mal de tanto aproveitamento político e “noticioso” – tem servido para evidenciar o clima de guerrilha no Ministério Público, mas também para desacreditar a justiça.
Num país onde a justiça desempenhasse normalmente o seu papel, Oliveira e Costa não passaria os dias sozinho a fazer paciências e escrever as memórias. Teria já vários companheiros de outros bancos na sua cela a fazer-lhe companhia e a jogar Monopólio, para não perderem o hábito.
Infelizmente, Portugal é um país onde a justiça utiliza os velhos métodos de Pilatos. Deixa escapar informação para a imprensa, para ver a reacção da populaça, e de quando em vez dá umas entrevistas para mostrar que está viva e é séria.
A tendência dos portugueses para acreditarem em quem berra mais alto e pedirem a condenação de quem é alvo de um mero processo disciplinar dá uma preciosa ajuda.
Penso que a justiça, em Portugal, devia vir acompanhada de um Livro de Instruções. Perceberíamos melhor esta e outras sentenças. (via Jumento) .

Tens razão, genericamente. Apenas duas notas.
1. Discordo de que só seja pressionado quem se deixa pressionar: qualquer um pode ser pressionado, cedendo ou não. Ou seja: se eu for pressionado, não será por não ceder que nunca fui pressionado, na forma tentada.
2. ‘O Jumento’ continua a ser anónimo, não é?
Claro que tens razão quanto às pressões.
Em relação ao “Jumento” continua a ser anónimo, mas as sentenças dos tribunais não…
Não era uma provocação, Carlos. Hehehe…
Provocação? Por que havia de ser?
Não sei, naturalmente se o homem é culpado ou não (JS) embora esteja certo de que a opinião pública, com vídeos, comentários, análises e fugas de informação, já o condenou há muito, justa ou injustamente. Era engraçado que, por uma vez, o processo chegasse ao fim. Imaginem por um momento o seguinte desfecho: John Smith meteu o dinheiro ao bolso e nunca pensando no sururu que a coisa ia dar, inventa a história para os ingleses. Gostava de ver que brilhantes análises brotariam então dos cérebros que rejubilam com a ideia de ter um 1º ministro corrupto…
Imaginem também o contrário, prova-se que o homem meteu o dinheiro ao bolso, próprio ou do PS e teríamos (seria possível?) um ex-primeiro ministro na cadeia.
Em ambas as hipóteses quem perde mesmo somos nós enquanto país credível.
Não me repugna nada aceitar a primeira hipótese, Paulo.
Obviamante que os cérebros de que fala, imediatamene diriam que a justiça não funciona. Como disse, já está julgado pela opinião pública, graças à justiça que temos e liberta estrategicamente informação que lhe convém. O caso Lopes da Mota foi sintomático. Ainda não tinham sido entregues as conclusões ao PGR e já havia dois jornais a anunciar o desfecho.
Brilhante, para a credibilidade da justiça portuguesa!
Lopes da Mota foi acusado pelos dois procuradores que investigam o caso Freeport de tentar pressioná-los para arquivarem o caso, o que suscitou o processo disciplinar em curso. São alegações graves – suficientemente graves para que Lopes da Mota devesse suspender as funções como presidente do Eurojust enquanto durasse o processo disciplinar. Até porque, não esqueçamos, enquanto presidente do Eurojust compete-lhe assegurar a ponte entre a investigação judicial portuguesa e a britânica no caso Freeport.
Sobre este assunto, em suma, a minha posição coincide com a do candidato socialista Vital Moreira, que também já defendeu publicamente que Lopes da Mota suspendesse funções no Eurojust.
Concordo que as alegações são graves, mas um processo disciplinar não implica acusação, Pedro!
Tenho medo de viver num país onde se comece a exigir a demissão de uma pessoa porque está envolvida num processo disciplinar. Eu também já fui alvo de um e, no final, quem me acusava é que foi punido, porque se provou que INVENTARA tudo!
Não quero viver num país justicialista, onde se corra o risco de ser acusado por um juiz (por mera vingança)e isso signifique ser condenado pela opinião pública.
Por este andar, um dia alguém ainda se lembra de fazer com o Alan Garcia no Perú. Lembro-te que a partir de Julho, naquele país, qualquer cidadão passa a poder prender outro se o apanhar em flagrante delito. Sabes o que isso significa e a que resultados pode conduzir, não sabes, Pedro?
Talvez pela minha formação continue a acreditar que, até ser condenada, qualquer pessoa é inocente.
Sei os erros a que isso condz numpaís onde a justiça não tem qualquer credibilidade, mas prefiro assim às condenações no pelourinho.
Essa história do Peru é verdadeiramente arrepiante. Daria um ou mais ‘posts’, certamente. Mas quanto ao Lopes da Mota: considero que deveria aplicar-se nesta situação o mesmo princípio de ética republicana que reclamo também, por exemplo, quanto à participação de Dias Loureiro no Conselho de Estado. Dir-me-ás que D.L. não é sequer arguido. Quanto a mim, bastam as contradições sérias e graves em que caiu ao prestar depoimento na comissão parlamentar de inquérito para justificar a suspensão de funções no Conselho de Estado, aliás já reclamada até por sociais-democratas, como Capucho e Rangel.
Aí estamos em perfeita sintonia. Também defendo que DL se devia demitir, pelo facto de ter mentido na comissão parlamentar de inquérito.
No caso de Lopes da Mota, porém, não me consta que ele tenha negado as conversas. Resta saber é se isso deve ser interpretado como pressão e o seu exacto teor. Claro que se LM tem consciência que tentou pressionar, deveria demitir-se. Suspender as funções não será suficiente.
O facto de eu não dar o dinheiro ao tipo que me quer assaltar e, pelo contrário, ainda lhe dar uma tareia, não nega o facto de ele me ter querido assaltar. Isto apesar de eu não ser “assaltável”.