Rescaldo das Europeias (2)


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Os resultados das europeias, embora possam ser interpretados como um sinal para as legislativas, não são suficientemente claros para fazer previsões. A vitória será um bom incentivo para o PSD mas não significa uma viragem.

Em primeiro lugar, não me parece que o PSD possa alcançar a maioria absoluta, mesmo coligado com o CDS/PP. Depois, não penso que uma vitória do PSD seja razão para deitar foguetes. É bom não esquecer que foi MFL quem começou a perseguição aos professores e aos funcionários públicos, que Sócrates  depois erigiu como bandeira do seu governo. Foi também MFL quem alterou as regras da reforma e só não foi mais longe porque entretanto Durão Barroso fugiu para o seu exílio dourado em Bruxelas.

Logo, uma  vitória do PSD significa a continuação da perseguição aos professores e funcionários públicos e, muito provavelmente, o agravamento das penalizações das reformas.

Se o PSD não conseguir maioria absoluta (sozinho ou em coligação com o CDS-PP) o problema será ainda mais intrincado e, o mais provável é que o país fique ingovernável. Se o Bloco Central já era uma  hipótese remota, depois dos resultados das europeias  praticamente deixou de ser uma possibilidade viável.

Se o BE e a CDU aguentarem as suas expressivas votações (o que em relação ao BE me parece pouco provável…) terão também uma palavra a dizer na formação de um futuro governo. Principalmente, se o vencedor for o PS – que perdeu qualquer hipótese de alcançar uma maioria absoluta.

A grande ilação a tirar dos resultados das europeias é que poderemos estar  a caminho de um beco sem saída que, muito provavelmente, irá retardar a nossa saída da crise.  Essas são as dúvidas de uma noite eleitoral em que o povo português, apesar da elevada abstenção, mostrou claramente não desejar a renovação de uma maioria absoluta. Seria até uma boa notícia, não se desse o caso de as forças políticas portuguesas não darem sinais de se entenderem.

Hoje, porém,  talvez Manuel Alegre tenha razões para sorrir. Uma vitória do PSD, ou um impasse na formação de um governo, aumentam as suas esperanças de ganhar as eleições presidenciais de 2011.

Rescaldo das Europeias (1)


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O PSD venceu as eleições. Não fiquei minimamente surpreendido. Sempre admiti a derrota do PS, embora não esperasse que fosse tão esmagadora.

Sem ter ainda  feito a análise comparativa dos resultados com as Europeias de 2004, parece-me claro que o PSD, embora vencendo, não foi tão demolidor como o PS que, na altura, venceu com 44,1% dos votos.

Uma análise breve ao comportamento de cada um dos partidos:

 

PSD – Não foi Manuela Ferreira Leite que ganhou as eleições, mas sim Paulo Rangel. MFL  andou escondida na primeira fase da campanha e só apareceu quando percebeu que o seu candidato poderia fazer uma gracinha. Ainda chegou a tempo de capitalizar a vitória, pela qual pouco lutou.

Digo, desde 2007, que Paulo Rangel tem todas as características para se tornar num político de sucesso. Algum deslumbramento pode traí-lo, mas iniciou hoje uma nova fase na vida do PSD e pode servir de alento a MFL para as legislativas. Pedro Passos Coelho foi o grande derrotado e a noite das “facas longas” ficou adiada, mas a alternativa a MFL terá de esperar. Santana Lopes e Rui Rio também perderam, mas podem reverter essa perda com vitórias claras nas autárquicas. Aguardemos por Outubro, mas o PSD tem agora boas condições para vencer as legislativas.

Resta saber o que irá fazer com essa vitória, (que não será certamente com maioria absoluta…) mas farei essa análise no próximo post.

 

PS – Derrota humilhante de Sócrates. Pagou pela má escolha do cabeça de lista e já era tarde quando se apercebeu disso. Ao entrar na campanha deverá ter pensado que poderia catapultar o seu candidato para a vitória e imediatamente pela sua cabeça passou a ideia de capitalizar essa vitória para  reforçar a sua debilitada imagem pessoal.

Na hora da derrota Sócrates mostrou-se igual a si próprio: arrogante.

Talvez hoje, pela primeira vez desde que foi eleito secretário-geral do PS, Sócrates tenha percebido que não compensa rodear-se de súbditos e capangas que o bajulam e que a criação de uma central de informação que tudo seca à sua volta, não é suficiente para ganhar eleições. Os portugueses não querem outro SNI e hoje  disseram-lhe, sem rodeios, que estão fartos de o aturar. Dificilmente o PS conseguirá inverter, nas legislativas, esta “dinâmica de derrota”. No dia seguinte às eleições Sócrates abandonará o partido, deixando-o à deriva. Na Cova da Beira talvez já se perfilem vários candidatos à sucessão, mas se o PS quiser voltar a ser um partido de esquerda, a solução não passará por aí.

 

BE – Neste momento continua a lutar taco a taco com a  CDU pela obtenção do 3º deputado. Seja qual for o resultado, será outro grande vencedor destas eleições. Não acredito que mantenha a percentagem e o número de votos nas legislativas, mas poderá atrapalhar as contas finais.

 

CDU – Igual a si própria. Se forem ultrapassados pelo BE, os comunistas elegerão como principais adversários nas próximas legislativas o PS e os bloquistas. Infelizmente, a CDU não aprende. Alia-se mais facilmente ao PSD e à direita do que ao PS ou à esquerda.

 

CDS – Grande mistério de todos os actos eleitorais. As sua votações são sempre muito mais expressivas do que indicam as sondagens. Será que quem vota no CDS tem vergonha de o declarar?  Aguentou os seus dois deputados e nas próximas legislativas poderá fazer valer esse peso para negociações com o partido vencedor.

Mais surpreendentes do que a vitória do PSD foram, em minha opinião, as vitórias de Sarkozy e Berlusconi. O PSOE – embora derrotado – aguentou-se bastante bem.

A China hoje (3)


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Nos anos 70, demorava-se um dia para ir de Zuhai a Cantão. Hoje em dia vai-se em duas horas num transporte público (autocarro). No próximo ano – disseram-me – o comboio-bala fará o percurso (cerca de 150 quilómetros) em  pouco mais de 20 minutos!

Cantão é um espelho da nova China. A cidade, outrora suja e poeirenta, onde hordas de chineses cavalgavam bicicletas “pasteleiras”, é hoje uma cidade arejada, verde e florida, de avenidas largas e edifícios modernos. Centro nevrálgico da indústria chinesa, ali se celebram diariamente muitos negócios entre empresários ocidentais e chineses. O frenesim é constante e, à medida que as bicicletas foram sendo substituídas por motoretas e automóveis, a poluição motorizada agravou os problemas ambientais resultantes da indústria. Numa cidade de 12 milhões de habitantes, pode dizer-se que um milhão de automóveis a circular não é demasiado, mas o mesmo não se pode dizer dos milhões de motoretas na cidade.

Daí que o governo local não tenha estado com meias medidas e tenha proibido a circulação das motos-táxis. Haverá no entanto ainda muito a fazer – começando pela reconversão de indústrias obsoletas – para que o ar em Cantão se torne respirável.

O nível de vida também subiu muito em Cantão nos últimos anos, passando o ordenado mínimo na indústria, de 80 para 150 euros mensais. Os trabalhadores conquistaram novas regalias e passaram a ter direito a descanso semanal e 15 dias de férias anuais. Tudo isto, porém, pode resultar numa encruzilhada difícil de ultrapassar…

Ver mais sobre a China aqui, aqui e aqui. 

A China hoje (2)


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Como dizia a canção , “não há liberdade a sério sem educação, saúde, habitação…”

O governo chinês reconheceu o falhanço da sua política em três áreas: educação, saúde e habitação. As propinas nas universidades podem atingir os 1000 euros anuais, os reformados que tinham um sistema de saúde grátis perderam essa prerrogativa e os custos da habitação dispararam para custos astronómicos, podendo atingir, em Xangai, os 9 mil euros por metro quadrado.

Todos reconhecem que se vive hoje em dia melhor na China (embora não se possa escamotear que 65% da população ainda vive da agricultura, tendo rendimentos muito reduzidos…). A maneira como os chineses vestem, os automóveis que ostentam, ou a vida social que fazem, se comparados com o início da década de 90, são bem demonstrativos dessa evolução.

Existe também, nas camadas mais jovens, uma crescente aproximação aos modelos de vida ocidentais. O karaoke já não é o único divertimento dos chineses. Há discotecas a abarrotar, bares pejados de jovens e restaurantes de comida internacional muito disputados. É também visível que os chineses se habituaram ao lazer no fim de semana, pela forma como se passeiam descontraidamente nas ruas, invadem centros comerciais e espaços de lazer. E viajam muito.

A Praça de Tian An Men, (Paz Celestial), por exemplo, é invadida por milhares de excursionistas ao fim de semana. A melhoria do nível de vida reflecte-se, obviamente, num aumento do número de automóveis em circulação. Em Pequim há 3 milhões de automóveis e a poluição disparou para níveis inimagináveis há uma década atrás. A primeira preocupação do Governo chinês para combater a poluição centra-se, por isso, na limitação de veículos. A medida encontrada foi limitar o numero de venda de automóveis que se reduz, em Pequim e Xangai, a mil unidades mensais. Mas não basta a um chinês ter dinheiro para comprar um carro. Precisa também de obter uma licença de circulação que aumenta todos os meses. Em Outubro, em Xangai, o custo dessa licença era de 5 mil euros!

A China hoje


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Treze anos depois da minha última visita,  não foi só a paisagem que mudou em Pequim, Xangai ou Cantão. Foi também a forma de vida, a estrutura social e o modelo comportamental dos chineses. Tive, durante um mês, a sensação de que estive a viajar pelo futuro e, garanto-vos, não é uma sensação fácil de digerir.

Uma classe numerosa de novos ricos e yuppies emerge na China com grande fulgor.

Xangai é o novo paraíso do capitalismo e pelas suas ruas circula um elevadíssimo número de automóveis topo de gama.

No antigo quarteirão francês, chinesas elegantíssimas, vestindo modelos das marcas europeias mais conceituadas, encaminham-se para os restaurantes, acompanhadas de executivos vestidos a rigor, a maioria deles provenientes de Taiwan. A escassos metros, deserdados da fortuna vasculham os caixotes do lixo em busca do sustento do dia.

Riqueza e miséria convivem paredes meias, numa demonstração de que o capitalismo chinês não é diferente do ocidental, apenas difere nas roupagens.

A aproximação política entre a Mãe China e o filho rebelde (Taiwan) fez-se através do capital que se instalou em força nas ruas da grande metrópole e no caminho para o aeroporto, onde fica o parque tecnológico de Zhangjiang.

Ao passar naquela zona, não deixo de recordar que ainda em meados dos anos 90 toda a área era ocupada por campos agrícolas e que os arredores de Xangai ou Pequim ainda apresentavam um ar medieval. Não me restam dúvidas que a China está a mudar a uma velocidade vertiginosa. Regresso ao centro da cidade, a bordo do comboio-bala – o mais rápido do mundo. Foi construído gratuitamente pela Siemens, na tentativa de convencer os chineses a adoptarem-no.

Pela janela vejo viadutos que se sobrepõem, torres gigantescas inspiradas na arquitectura ocidental, hotéis de 5 estrelas das mais prestigias cadeias internacionais, o bairro de escritórios de Pudong, estaleiros imensos preparando a Expo-2010, lojas das mais prestigiadas marcas europeias e americanas e duvido se não terei acabado de chegar a Nova Iorque. Os painéis publicitários, piscando em milhões de lâmpadas multicores onde se lêem caracteres chineses, desfazem-me todas as dúvidas.

Apenas uma questão me fica a bailar nos neurónios: o que levou os chineses a abandonarem o seu isolamento secular, a prescindir da sua impermeabilidade à nefasta influência estrangeira e abraçar, de peito aberto, a volúpia ocidental. Admito que ainda vá demorar alguns anos a encontrar a resposta.

Não me restam, porém, quaisquer dúvidas de que a China, que visitara pela última vez em 1995, está enterrada. Ou talvez não…

 

 

Mergulho na cidade velha de Xangai – berço do capitalismo chinês – e recupero uma parte da China de outros tempos. Naquele espaço respira-se sensualidade, ouve-se o barulho inconfundível das pedras de mah-jong e pairam no ar os cheiros de uma cultura milenar. Mas onde antes estavam casas de chá, se fumava ópio ou jogava xadrez, agora há estabelecimentos de marcas europeias conceituadas, misturadas com aquilo a que se pode chamar comércio tradicional. Apenas as fachadas, hábil e pacientemente retocadas, nos devolvem a poesia da dama de Xangai. Nessa época, porém, Xangai já consumia mais energia eléctrica que Londres ou Paris. Decido ir jantar ao Peace Hotel (talvez o mais emblemático hotel da China) para me deixar envolver pelo espírito dos anos 30, com o som de uma orquestra de jazz em fundo. Azar! Está encerrado para obras e só reabrirá nas vésperas da Expo-2010. Afiança-me o guia que não vale a pena pensar em fazer reservas, porque a lotação está esgotada para todo o período da Exposição.

Recordações do 4 de Junho


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Há 20 anos estava em Macau. Lembro-me que era sábado, um tufão se aproximava do Território e as pessoas eram aconselhadas a não sair de casa.

Manhã cedo, no  meu quarto da Pousada de Mong-Há, iam passando as imagens da CNN mostrando os acontecimentos numa praça da Paz Celestial (Tian an men) que se transformaria pouco depois na Praça dos Horrores. Quando a emissão foi interrompida, oscilava entre a surpresa e a esperança. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem perduram ainda hoje na minha memória.

Ignorei os avisos de tufão e fui encontrar-me com uns amigos chineses. Tinha esperança que eles soubessem mais do que eu, mas acima de tudo queria perceber como é que  interpretavam o que se estava a passar. Lo Weng Keong e Lawrence Tshui tinham visões diferentes do que se estava a passar, mas ambos partilhavam da mesma opinião: na China nada seria como dantes.

Os acontecimentos dos dias seguintes, em Macau, mostraram-me que ambos tinham razão.  A mobilização das pessoas manifestando solidariedade com os estudantes, o discurso destemido de Carlos Melancia, condenando os acontecimentos, a homenagem dos empresários, eram sinais evidentes de que os estudantes não estavam sozinhos e que o regime chinês iria tirar ilações dos acontecimentos.

O ocidente reage com indignação mas, poucas semanas depois, corre para Pequim a beijar a mão a Deng Xiao Ping e a oferecer os seus produtos. A Internacional Consumista não pode desprezar o mercado chinês…

Pela noite, numa tertúlia  portuguesa, a discussão correu animada. Alguém dizia que o Maio de 68 chegara à China. Banho de sangue à parte, houve algumas semelhanças. Os efeitos na China é que só se começariam a fazer sentir uma década mais tarde. Antes disso, ainda assistiríamos à queda do muro de Berlim, ao desmoronar do império soviético e à queda das ditaduras chilena e argentina.

Só conheci Pequim um ano mais tarde. Quase em surdina, comentávamos os acontecimentos daquele mês de Junho e procurávamos, em Tian An Men, vestígios do massacre.

Dezoito anos depois voltei à China e a Pequim. Para constatar que a Internacional Consumista não necessitara de se sentar ao colo da democracia para invadir o país. O ocidente parece satisfeito. O importante é que, por aquelas bandas, se discutam as últimas novidades das novas tecnologias, se exibam modelos de grandes marcas do vestuário ou do sector automóvel. Essa coisa da democracia pode esperar.

Porque será?


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"…Porque será que transpira tão pouco no caso BPN, porque será que este é um dos poucos processos em que se respeitou o segredo de justiça, porque será que quase não há arguidos, porque será que as buscas são escassas, porque será que os jornalistas andam tão descuidados? Eu gostaria de saber mais coisas sobre o caso BPN, até porque enquanto contribuinte estou a contribuir para gatunos que parecem estar a ser protegidos."

(via Jumento)

Quem te viu e quem TV


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Hoje pelas 23h30m, na RTP 2, o programa  quinzenal do Clube de Jornalistas vai debater a discussão entre Manuela Moura Guedes e António Marinho Pinto, em directo, no Jornal de 6.ª.

Uma oportunidade para debater a degradação progressiva do jornalismo português, cuja  credibilidade se tem esvaído entre a mediocridade técnica e o aviltamento deontológico.

Sem puxar a brasa à minha sardinha, parece-me oportuno este debate alargado, que terá como convidados:

Francisco Sarsfield Cabral – Jornalista;

João Miguel Tavares – Jornalista;

António Marinho Pinto – Bastonário da Ordem dos Advogados

(Nota: Manuela Moura Guedes não aceitou o convite para participar no programa)

A Europa aqui tão perto?


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Janto num restaurante perdido no Alentejo profundo. O televisor  está sintonizado na TVI. Acabo de ouvir as notícias do acidente da Air France. Segue-se a campanha eleitoral. A determinada altura a repórter pergunta a uma senhora:

– Sabe para que são estas eleições?

– Sei sei! São para escolher o Primeiro Ministro que este é uma vergonha “inedmessível” ( o discurso continuou, mas o aspecto delicioso do “piano” que o empregado me acaba de pôr na mesa fez-me atiçar o paladar e enfraquecer o ouvido)

Faço um balanço rápido. Mais palavras para quê?

Dia da Criança (3)


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Números divulgados pela UNICEF indicam que cerca de 250 milhões de crianças, entre os 5 e os 14 anos, trabalham em todo o mundo. Cerca de metade, fazem-no em condições inaceitáveis, dez a doze horas por dia, sem ir à escola e em troca de salários de miséria. O trabalho de muitas destas crianças destina-se a encher de produtos as montras das lojas onde satisfazemos a nossa ânsia de consumir.

Infelizmente, nem todas as empresas se comportam de acordo com a credibilidade de que desfrutam no mercado, como podem ler aqui

Dia da Criança (2)


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Saúl levantava-se todos os dias às 6 da manhã e ia de bicicleta para a fábrica de cerâmica onde trabalhava 11 horas por dia, ganhando 60 escudos por hora. Um acidente com uma máquina levou-lhe uma perna e já gastou mais de 4 mil contos em despesas médicas, na vã tentativa de recuperar uma vida normal. (1996)

Hélder tem apenas seis anos e começa às 7 e meia da manhã a britar pedra. Diariamente parte cerca de 500 pedras que vão revestir as calçadas de cidades estrangeiras para onde o seu patrão exporta a pedra. (1998)

Adelino foi bem cedo trabalhar para uma serração, mas aos 13 anos um acidente com uma máquina levou-lhe três dedos da mão direita e agora faz alguns pequenos trabalhos para ajudar em casa. (1998)

Anabela divide o seu dia entre a escola e a casa, onde não estuda nem brinca com meninas da sua idade. Todo o tempo que lhe resta depois da escola, passa-o a coser sapatos. E como ganha à peça, quanto mais trabalha, mais ganha, o que a leva a trabalhar até altas horas da noite.

Sérgio arrumava carros numa rua do Porto, mas a concorrência e má vizinhança dos adultos atirou-o para uma esquina da cidade onde, de pano na mão, se esforçava para lavar os vidros dos automóveis que param nos semáforos. Um dia, com apenas 11 anos, foi agredido por um automobilista mais exaltado que não queria que lhe tocassem no carro novo. (2003)

Paulo era aprendiz de maquinista numa empresa têxtil  e encontrou a morte numa máquina de fiar onde trabalhava apenas há dois meses.

Conheci estas crianças ao longo dos anos em que me dediquei a estudar o trabalho infantil em Portugal, na Ásia e na América Latina. A cada história nova que conhecia, colocava sempre a mesma pergunta:

Por que razão, apesar das medidas internacionais tomadas contra o trabalho infantil, este parece um problema incontornável? A resposta poderia ser encontrada na conversa com este guia indiano.

A cena passou-se nos arredores de Bombaim (mas poderia passar-se também em Istambul, Katmandu ou Carachi, onde são inúmeras as crianças a trabalhar na indústria dos tapetes) quando visitava uma fábrica. Crianças desenrolam à minha frente, com esgares de esforço, vistosos tapetes por elas parcialmente confeccionados. Reajo com a indignação possível e o guia pergunta-me em escorreito inglês:

"Nunca viu disto no seu país? E por acaso não compra produtos de grandes marcas, que são fabricados por crianças? Se comprar um destes tapetes está a ajudar o nosso país e a impedir que muitas pessoas morram de fome. Mais vale comprar um tapete destes do que roupa de muitas marcas conceituadas que vocês usam no Ocidente. Vocês não compreendem o que custa sobreviver nestes países!"

Se os argumentos deste indiano podem ser compreensíveis em países asiáticos e africanos onde a miséria é grande, os mesmos nem sempre colhem quando se aborda o problema no mundo ocidental, afogado em desigualdades crescentes, mas esgrimindo os valores da democracia como um bem a preservar.

Dia da Criança


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Com apenas 12 anos, uma criança paquistanesa foi assassinada por denunciar os castigos corporais a que ela e outras crianças estavam sujeitas, numa fábrica de tapetes. Já não lhe podemos desejar, hoje, um feliz Dia da Criança.

Ao longo do dia, escreverei aqui sobre algumas crianças que conheci, em Portugal e em vários pontos do mundo, que não tiveram direito a uma infância feliz

Valeska, miúda de 13 anos que conheci em Santiago do Chile. Vendia artigos de contrafacção numa tenda perto do palácio de La Moneda. Estudou até aos 12, mas entretanto a mãe adoeceu e ela teve que deixar a escola para ajudar ao sustento de sete irmãos. Tem saudades do tempo da escola e espera poder voltar a estudar um dia. Não tem dinheiro para pensar nos ténis da Nike, nas sapatilhas da Adidas ou da Reebok, cujas imitações vende na sua tenda.

Pablo é uma criança argentina de 12 anos que trabalha num supermercado. A sua tarefa, de segunda a domingo, é meter dentro dos sacos as compras dos clientes. Vejo os seus olhos brilhar quando pega numa pizza congelada que comprei. Ofereço-lha juntamente com um chocolate, mas imediatamente os mete no meu saco com um ar assustado. Explica a sua recusa pelo facto de um dia um vigilante lhe ter chamado ladrão, porque estava a comer um pacote de batatas fritas que uma cliente lhe oferecera.

Tarika é uma miúda de 10 anos. Conheci-a em Wewak, na Papua Nova Guiné, no momento em que as suas mãozitas trémulas entornaram sobre os meus "jeans" parte da sopa. Foge para a cozinha, debulhada em lágrimas, perseguida por um empregado bem adulto que lhe dirigia ameaças. Nunca mais a voltei a ver no hotel, nem sei se é verdade a história que Ben, uma personagem bem conhecida dos turistas que demandam aquela zona em busca de um guia para o rio Sepik me contou.

Segundo a sua história, o patrão condoera-se ao saber que a miúda, filha de uma empregada do hotel, trabalhava em Madang na apanha do café, em condições de quase escravatura. Mandara-a vir para estar junto da mãe, mas não para trabalhar no hotel. Tudo não passara de um descuido. Verdade ou não, o facto é que no dia em que abandonei Wewak para uma viagem pelo rio Sepik, Tarika estava à beira da estrada, com uma mulher aparentando os seus 30 anos, vendendo pequenas peças de artesanato local.

Em Patpong, Banguecoque, é usual ver a altas horas da noite miúdas de 10, 12 e 13 anos oferecendo-se para a prostituição. Não é difícil, também, ser abordado por adultos oferecendo os favores sexuais de menores.

Em Hua Hin, a escassa centena e meia de quilómetros da capital tailandesa, uma miúda vende relógios aos turistas. Os preços são regateados à exaustão e assisto à cena de um turista anglo-saxónico propondo-se a pagar os 500 "bahts" (aproximadamente 15 €) por um Rolex de imitação se a criança "for passar uns momentos na sua companhia".

Nos centros turísticos tailandeses, como nas Filipinas, cenas destas repetem-se diariamente, diversas vezes ao dia.

Berlusconi proíbe livro de Saramago


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A editora de Berlusconi censurou um livro de Saramago. Estou ansioso por ver as reacções daqueles que acusaram Chavez de ditador por, pretensamente, (digo pretensamente, porque já se provou que tudo se reduziu a uma montagem grotesca) ter proibido a entrada de Mario Vargas Llosa na Venezuela.

Povavelmente vão dizer que foi um acto normal em democracia…

Provedor volta à estaca zero


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Como se esperava, depois dos bizarros esclarecimentos de Bernardino Soares justificando a abstenção do PCP, a AR  não conseguiu eleger o Provedor de Justiça.

Os parlamentares demonstram, uma vez mais, que se estão borrifando para os cidadãos que os elegeram.

Numa altura em que alguns  tiranetes e capangas vão mostrando a sua raça,  atropelando os mais elementares direitos dos cidadãos, a inoperância da Provedoria de Justiça até convém ao PS. Não se julgue, porém, que  depois do escarcéu à volta deste assunto o PSD sai de cara lavada.

Por quanto tempo mais vai ficar Nascimento Rodrigues de baixa?

Slogans das Europeias


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Por toda a Europa, a oferta de brindes continua a ser uma prática seguida por vários partidos. Na Holanda, por exemplo, o partido “Os Verdes” oferece preservativos com este slogan: “apetece-me ter relações europeias”.

Os liberais holandeses recorreram a uma ventoinha e acrescentaram-lhe o slogan “Fan of Europe”, aproveitando o duplo significado da palavra “fan”.

Bem distantes do miserabilismo dos slogans exibidos nos outdoors que proliferam em Portugal.

ERC reprova actuação da TVI


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Não faltará por aí quem critique a decisão da ERC mas, face às queixas apresentadas, o regulador não podia deixar de tomar posição, sob pena de perder toda a credibilidade.

Em causa está um conjunto de peças a propósito do caso Freeport, exibidas no Jornal da sexta-feira onde, a coberto de jornalismo de investigação, se torpedeou constantemente o Estatuto do Jornalista.

A TVI pode preencher todo o horário nobre com  telenovelas, o que não pode é fingir que faz informação quando está a produzir apenas uma telenovela informativa, desrespeitando o Estatuto do Jornalista e as regras mais elementares do jornalismo.

Na sua deliberação, o Conselho Regulador considerou "verificada, à luz da análise efectuada, a possibilidade de a TVI ter posto em causa o respeito pela presunção de inocência dos visados nas notícias (tal como resulta do artigo 14.º, n.º 2, alínea c) do Estatuto do Jornalista)". Afirma ainda o Conselho que a TVI se afastou de alguns princípios expostos no seu Estatuto Editorial, a cujo cumprimento se encontra vinculada, e onde se compromete "a observar, nomeadamente, nos seus programas de Informação, regras estritas de honestidade, de isenção, de imparcialidade, de pluralismo, de objectividade e de rigor".

Poderá haver quem acredite que aquilo que a TVI anda a fazer é jornalismo, mas compete à ERC, enquanto entidade reguladora, esclarecer os cidadãos sobre as diferenças entre jornalismo, opinião e “vendetta”.

Texto da deliberação e peças analisadas, aqui.

A Leste, nada de novo…


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O caso Alexandra, que abordei aqui e aqui, tem-me apaixonado pelas diferentes componentes que o envolve e não se esgotam na  vertente humana – sem dúvida a de maiores consequências para os envolvidos, mas com pouca relevância no foro jurídico.

As decisões contraditórias dos juízes de Barcelos e Guimarães evidenciam uma vez mais que a justiça portuguesa é uma roleta russa onde a vida dos cidadãos é decidida de acordo com o juiz que lhe cai em sorte.

Como dizia ontem uma amiga advogada, à maioria dos juízes apenas interessa o aspecto processual, ignorando outras vertentes que mereceriam análise.

O tratamento jornalístico do caso em Portugal e na Rússia também me suscita especial atenção. Penso estamos perante um caso que irá permitir uma análise ainda mais rica do que o caso Maddie, em que a manipulação noticiosa da imprensa britânica era demasiado visível. Será também uma boa oportunidade para perceber em que nível está a liberdade de imprensa na Rússia

Temos, depois, a análise do comportamento social e cívico. Os imigrantes russos podiam ter ficado calados, mas decidiram sair em defesa da família portuguesa e ponderam organizar uma manifestação para o demonstrar aos portugueses, mas também às autoridades russas. De registar, para memória futura.

Finalmente, temos a vertente política. Se já havia sinais de que o caso Alexandra se poderia transformar num caso político, a recusa do visto à família portuguesa, para participar no programa de televisão onde se ia encontrar com Alexandra, vem retirar quaisquer dúvidas.

A partir de agora, o caso joga-se em mais um tabuleiro e convém estar atento ao desenvolvimento das jogadas.

Adivinho, a breve prazo, a abertura de uma outra frente. Na cabeça de alguns guionistas (atenção, Moita Flores!) já anda certamente a bailar a hipótese de fazer um filme ou uma novela sobre o assunto. Em breve, aparecerá um livro (pelo menos) onde toda a história será relatada.

Alguma imprensa irá explorar o assunto à exaustão. Tal como Maddie, também Alexandra irá permitir a alguns a obtenção de bons lucros. Esperemos é que as histórias que surjam sejam bem contadas.

Entretanto, é bom não esquecer, estamos a cinco dias do Dia Mundial da Criança. Espero que este caso seja lembrado nessa data. Como caso exemplar de violação dos seus direitos.

O efeito Centrão


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Há muito que tenho opinião formada sobre Sócrates e não a alterei desde 2005.

Gostaria, no entanto, de ver discutida com seriedade a actuação do governo  que dirige. Ver  um país, a duas semanas de eleições europeias  e a seis meses das eleições autárquicas e legislativas, discutir até à exaustão o caso Freeport (sobre o qual  tem tanta informação como sobre o caso Maddie), as roupas de Sócrates, se ele fala bem espanhol ou se deixou de fumar, dá-me a sensação de estar a viver num  cenário de telenovela ou de revista cor de rosa.

Queria saber a opinião dos portugueses sobre a política deste governo para áreas tão importantes como a saúde, a educação, a segurança social, o trabalho, ou a justiça. Queria que os portugueses comparassem a actuação deste governo com a que o precedeu e equacionar, com seriedade, se o PSD ou o CDS poderão fazer melhor. Queria  ouvir os portugueses  discutir o futuro em bases sérias e não de mera chicana, com discursos prenhes de frases feitas e preconceitos.

Queria que as comparações que se fazem entre a situação actual do país e a de há quatro anos não esquecesse a crise que afectou o país, a Europa e o mundo em geral. 

Queria que os portugueses tivessem crescido em 34 anos de democracia.

Infelizmente, olho à minha volta e constato que nestas três décadas a maioria dos  portugueses apenas aprendeu a aumentar o volume de som,  não evoluiu na forma de analisar e discutir os problemas. Bem pelo contrário. E isso entristece-me e mostra-me um futuro cheio de nuvens negras no horizonte. Sem luzes ao fundo do túnel.

Sejamos sérios: nenhum dos partidos do arco do poder (PS, PSD e CDS) pode, seriamente, oferecer um futuro melhor aos portugueses.

Na economia global, não se pode analisar  a solução dos problemas de um  país olhando para o umbigo, ou tendo a veleidade de pensar que o problema português se resolve sem equacionar a crise a nível global.

Os partidos políticos que reclamam maior participação dos cidadãos no acto eleitoral de 7 de Junho também não querem discutir a Europa. Neste momento não é oportuno porque, ao fazê-lo, talvez os portugueses descobrissem  que a solução pode estar  mesmo noutro lado, mas isso é uma coisa de que nem querem ouvir falar.

Em cada português habita, ainda, o mito do  gigante Adamastor. Convenientemente alimentado pelo Centrão.

Venham Mais 5


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Não tenho complexos em relação a Marinho Pinto. Sempre admirei a sua frontalidade e não sou “cristão novo”, nem  mudei  a minha opinião depois da cena lamentável da noite de sexta-feira. No dia em que foi eleito bastonário, previ-lhe o destino aqui. E confirmei-o aqui, quando começou o desfile das virgens ofendidas. Como o algodão, certas pessoas não enganam…

Os portugueses detestam as pessoas frontais e capazes de dizer a verdade, enfrentando os interesses corporativos. Nem o facto de hoje o “Público” revelar que só em 2008 foi condenado um advogado por dia, por “má conduta profissional”, calará certos barões, incomodados com a verdade.  Falhas deontológicas, abuso de confiança, abandono de clientes e faltas a julgamentos não podem ser desvalorizadas, com a alegação de que se trata de casos isolados.

A conduta pouco edificante de alguns advogados, que  Marinho Pinto referiu, posso confirmar  através de um caso ocorrido comigo.

Corriam os anos 80 e eu não vivia em Portugal. Precisei de recorrer aos serviços de um advogado, para que me representasse em tribunal num acto meramente formal. Pessoa amiga recomendou-me um nome. Contactei-o, expliquei-lhe o que pretendia e disse quem me recomendara. Não me esqueci de lhe perguntar quais seriam os honorários. Sossegou-me, dizendo que cobraria apenas as deslocações e o tempo perdido, atendendo a que fora recomendado por uma amiga comum. O caso resolveu-se com duas idas a tribunal que lhe terão ocupado, no máximo, duas tardes.

Resolvido o assunto, telefonei a agradecer e pedi que me enviasse a nota dos seus honorários. Quando, um dia, ao chegar a casa abro a carta do advogado, com os honorários, ia tendo um ataque cardíaco: 325 contos (moeda da época)! Telefonei à minha amiga e ela explicou-me que era normal alguns advogados cobrarem à percentagem, mas aconselhou-me a participar à Ordem dos Advogados, caso pudesse comprovar essa prática. Fiz as contas e lá estava. Cinco por cento do valor envolvido. Redondinhos!

Participei à Ordem dos Advogados. A única resposta que recebi pedia-me para enviar comprovativo do acordo de honorários que estabelecera com o advogado. Fiquei esclarecido e, mais do que nunca, com a certeza que tinha andado a perder tempo na Faculdade de Direito. Ainda enviei uma cópia da carta do advogado e o valor em causa, mas resposta "nickles".

Pessoalmente, se fosse advogado, ficaria satisfeito se a Ordem denunciasse as ervas daninhas que denigrem a profissão. Infelizmente, parece que não é essa a opinião dos advogados a que a TVI e outra comunicação social dá voz. Seria interessante saber as razões que levam a TVI (ou a ex-advogada MMG?) a fazer campanha contra Marinho Pinto. Por mim, ficaria satisfeito se viessem mais 5 Marinhos Pinto. Não aprecio heróis Gosto mais de gente corajosa, do que de cúmplices… O corporativismo mental é um dos cancros da nossa democracia.