Denúncias anónimas confirmam?


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Marinho Pinto reitera hoje, em entrevista, que o caso Freeport foi “cozinhado”.

Tenho especial apreço pelo Bastonário da Ordem dos Advogados e não tenho qualquer rebuço em acreditar na consistência da sua afirmação. 

O Bastonário – que conheci durante a sua fugaz passagem por Macau – não se preocupa com o discurso politicamente correcto, exprime as suas opiniões com frontalidade, sem se preocupar em saber se está contra a corrente. Por isso, quando na mesma entrevista defende a demissão de Lopes da Mota, antes da conclusão do processo disciplinar, também  valorizo a sua opinião.

Curiosamente, as palavras de Marinho Pinto têm tido pouco eco. Presumo, mesmo,  que haja por aí muita gente a desvalorizá-las e a acusá-lo de se estar a colar ao poder, no caso Freeport, mas a invocá-lo em relação a Lopes da Mota.

Persigno-me diante do Cristo Rei e peço perdão por valorizar mais as afirmações de pessoas que não escondem a cara do que as informações e cartas anónimas fazendo denúncias, de que a comunicação social faz eco.

A denúncia anónima é um resquício do espírito pidesco que desprezo. Será uma questão geracional? Talvez. Isso não impede que arregale os olhos de espanto quando ouço (e leio) " denúncias anónimas confirmam…" .

Se a memória não me falha, Eduardo Graça – ex-presidente do Inatel – afirmou há tempos, numa entrevista, que não dera sequência a uma queixa que lhe tinha sido apresentada, por ter sido feita a coberto do anonimato. Segundo as suas palavras, atirou a queixa para o lixo. Penso que fez bem. Eu faria o mesmo. Por imposição ética que pauta a minha conduta pessoal e profissional. *

Uma sociedade que dá especial credibilidade a denúncias anónimas e desvaloriza quem assume com frontalidade as suas posições, desde que não sirvam os interesses que prossegue, é uma sociedade doente. Portugal é um país doente.

Mas isso eu já sabia e a maioria dos que lêem o DO certamente também.

 

* Voltarei mais tarde a este tema

11 comentários em “Denúncias anónimas confirmam?”

  1. Fica-me sempre a ideia incómoda de que há casos – não poucos – em que a denúncia anónima parece ser a única possível. Porquê? Porque, em matéria de vinganças, os pequenos poderes fazem grandes estragos. É a força aplicada aos mais fracos, resultado da tua oportuna observação: Portugal é um país doente.
    A minha reserva, portanto, está ligada ao facto de que a vida saudável em sociedade precisa de começar pela cura daqueles poderes cuja razão está na força.
    Quanto aos princípios, à essência do que falas, estou contigo: o anonimato é repulsivo e a ética deve prevalecer.
    Os grandes princípios também devem abarcar o poder, para que este não seja arbitrário. Com armas desiguais e abusos dos fortes, não é fácil terminar com a denúncia anónima dos fracos. A miséria em nome da dignidade é uma atitude quixotesca que não contribui para repor a ética que vai faltando.

    1. Esqueci-me de concordar: “denúncias anónimas confirmam” é intolerável. Podem dar início a uma qualquer acção institucional, mas jamais devem ter cobertura jornalística, excepto como informação complementar de notícia sobre aquela eventual acção.

      1. Concodo contigo nos dois comentários, João, mas a palavra denúncia faz-me urticária. Deve ser da idade…mas faz-me lembrar tempos e coisas que prefiro esquecer.
        Eu sei que é preciso denunciar o que está mal e que o modelo de sociedade em que vivemos não favorece quem dá a cara, mas nunca fui capaz de me resguardar no anonimato para acusar fosse quem fosse. Se tenho a ceteza do que afirmo, dou a cara. Se não tenho, calo-me. Já sofri grands dissabores com isso, mas essa é a minha maneira de estar na vida.
        Abraço

  2. “Marinho Pinto reitera hoje, em entrevista, que o caso Freeport foi “cozinhado”. “

    o Marinho Pinto ao falar sobre um caso em concreto, está a pressionar claramente o Ministerio Publico sobre um processo que ainda está em investigação!!

    Como Bastonario dos Advogados, esta a desvalorizar factos como as afirmações do Tio de Socrates que dariam para abrir um processo em qualquer parte do mundo…

    mas não se preocupe, existe outro processo que em que ja se meteu a panela ao lume, para fazer um novo cozinhado, que é a questão das vendas dos imoveis do estado ao desbarato e alguns sem concurso publico…

  3. Sabe que «acreditar» é um verbo pouco adequado para casos de justiça, onde se espera que quem julga não vá atrás da «fé» e exija provas. Quanto a essas, o comportamento do Bastonário Marinho Pinto tem sido mais próprio de um jornalista que de um advogado. O último exemplo está aqui: http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1236753. Se o Bastonário conhece advogados que auxiliam na prática de crimes tem o dever de os denunciar, já não digo ao Ministério Público, mas pelo menos, ao poder disciplinar da própria Ordem. Assim fica tudo em alarido, para já não falar na suspeita injusta a pairar sobre todos.
    Coragem? Julgo que coragem seria atirar a pedra sem esconder a mão. Não é o que tenho visto. Por isso as «denúncias» dele não me merecem qualquer consideração.

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