Primavera bipolar


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A Primavera sofre de doença bipolar. Em poucas horas transfigura-se. Ora nos aparece risonha e prazenteira iluminando tudo à sua volta, ora se fecha num cenho carrancudo e desfaz-se num vale de lágrimas que nos apanha desprevenidos.

Já não bastava o desconforto das alergias que me atiçam a faringite e a conjuntivite, deixando-me de rastos, agora a Primavera também decidiu influenciar os meus humores, transmitindo-me a sua inconstância.

Não gosto da Primavera assim. Quero-a alegre, bem disposta, choramingando aqui e ali como manda a tradição. Não a quero volúvel e inconstante, mudando de opinião a cada hora, contrariando-se entre birras e exaltações.

Se este ano vieste para nos chatear com a tua má disposição e os teus humores de adolescente, o melhor é ires embora e dar lugar ao Verão. Ouviste?

“i” Nós?


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Tinha muita expectativa quanto ao suplemento de sábado do “i”. Hoje, logo pela manhã, fui comprar e, mesmo antes de ler o jornal, estive a ler a “Nós” enquanto tomava o pequeno almoço, no sítio do costume.

Os que esperavam um “remake” do saudoso DNA, talvez se tenham sentido defraudados. No entanto, o ADN está lá. Uma revista (chamemos-lhe assim) diferente, uma lufada de ar fresco no cinzentismo das revistas de fim de semana que os jornais oferecem. Um grafismo diferente, aqui e ali arrojado, rejeitando o estilo “arrumadinho” que torna todas as revistas portuguesas iguais.

Pode haver quem não goste. Aceito. Eu também não fui um entusiasta de primeira hora do DNA, mas ao fim de meia dúzia de edições fiquei apanhado.

Pedro Rolo Duarte sabe marcar a diferença naquilo que faz, sabe escolher os  colaboradores, conhece os meandros da edição, gosta de apostas arrojadas e sabe o que é unidade editorial. Não percebo a razão de ter estado tanto tempo impedido de fazer aquilo que gosta e tão bem sabe fazer.

Ainda não li tudo, mas a avaliação é francamente positiva. Voltei a sentir o prazer da leitura descontraída das manhãs de sábado, que já não sentia desde que o DNA foi relegado  para a sexta-feira, antes de um fim prematuro. As manhãs de sábado na esplanada, em frente ao mar, voltaram a ter o sabor de outros tempos.

adenda: Numa proposta de 50 números que pretende abordar “qualidades, defeitos e  características que podemos identificar como associadas aos portugueses”, eu não teria começado pelo romantismo, é certo, mas isso fica para outro dia. 

Ternura é…(3)


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Ligar para um “callcenter”, estar a falar com a assistente durante meia hora- até  ela admitir que não consegue resolver absolutamente nada- e responder educadamente à pergunta sacramental:

“Há mais alguma coisa em que lhe possa ser útil?”

 

A lição de Van Gogh


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Uma das coisas que aprendi nos meus primeiros tempos de jornalista foi que devia sempre desconfiar da verdade, mesmo quando ela parecia evidente. Não é que isso fosse novidade para mim. Sempre fui céptico em relação à verdade e sempre tentei testá-la. Por mais evidente que uma coisa me parecesse, procurava encontrar outra explicação que me parecesse menos evidente. Creio que essa postura se deve ao facto de ter começado, muito miúdo, a ler os grandes mestres  dos livros policiais.

Quando escrevo nos blogues não estou preocupado com as regras do jornalismo, como é óbvio, mas de vez em quando procuro analisar determinados assuntos pela perspectiva menos consensual. Como fiz ontem, neste post.

Nem de propósito, hoje leio no DN uma notícia sobre Van Gogh que demonstra que as verdades absolutas podem não ser assim tão definitivas.

Sempre me fez alguma espécie que Van Gogh – mesmo a caminho da loucura – se tivesse auto-mutilado e fosse  entregar a sua orelha a uma prostituta. Com que propósito o faria?

Em 2005, numa visita ao Museu Van Gogh, em Amsterdam, confidenciei a quem me acompanhava que aquilo me parecia mais uma cena de romance do que um episódio da vida real. Ouvi severas críticas que se prolongaram no regresso a  Portugal, em círculo de amigos. Um dia, farto de ser instigado a apresentar uma hipótese alternativa, respondi sem convicção, mas aliviado:

“Olhem, se querem que vos diga, penso que aquilo foi dor de corno!”

Hoje,ao ler o DN, suspirei de alívio. Afinal, foi Gauguin a fazer o servicinho.

Será impressão minha?


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Imagine o leitor que alguém o convida para uma festa e diz para levar um amigo.

Aceita o convite e desafia um amigo a acompanhá-lo. Acontece que esse seu amigo foi, em tempos, amigo do dono da casa, mas a determinada altura zangou-se e passou a dizer mal não só do dono da casa, mas também de todas as pessoas que fazem parte do círculo que a frequenta.

O leitor sabia de toda a história, mas fingiu ignorar a situação. Aliás, a verdade é que o leitor pretendia divertir-se um bocado e até esperava tirar dividendos de uma eventual escaramuça..

Quando chega à festa, o dono da casa engole em seco ao ver  a sua companhia, mas nada lhe diz..O problema surge quando alguns dos convidados, sentindo-se ultrajados com a presença do seu amigo, decidem dar-lhe uns safanões.

O leitor e o seu amigo abandonam a festa. Cá fora, anunciam com espavento o que se passou e exigem que o dono da casa lhes peça desculpa. Parece-me natural. Embora o dono da casa até se tenha comportado de forma civilizada, não recusando a entrada ao seu amigo,  deve assumir a responsabilidade pelo que se passou.

No entanto, se o leitor for uma pessoa civilizada, também deve assumir a sua quota parte de responsabilidade e pedir desculpas ao dono da casa, por ter sido o responsável pela situação que se gerou.

É impressão minha, ou foi isto que se passou no 1º de Maio?

Bem, há um detalhe que faz toda a diferença. Na realidade, Carvalho da Silva (o dono da casa, que convidou o PS para a festa) pediu desculpas. Não lhe compete exigir a um outro convidado (Jerónimo de Sousa) que também o faça. No entanto, será legítimo que Carvalho da Silva, enquanto anfitrião, exija ao PS um pedido de desculpas, pela provocação que estragou a festa. Não o fez, porque é pessoa educada. O PS não pediu desculpas porque adora a arruaça. Não tem, por isso, qualquer legitimidade para exigir desculpas ao PCP.

O nosso agente secreto


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Finalmente, Portugal  tem o seu agente secreto. Só em 2008 gastou mais de meio milhão de euros em viagens secretas, para realizar missões  certamente secretas ao serviço de Sua Majestade, a pretexto de defender  o secreto  interesse da Nação.

Agora percebem-se as razões da vassalagem que (quase) todo o continente lhe presta.

His name? Jardim. Alberto João Jardim

A inevitabilidade das portagens


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Se bem percebi, o JM Coutinho Ribeiro manifesta, num post em baixo, discordância quanto à criação de portagens que reduzam a entrada de automóveis nas cidades. Pessoalmente são favorável, por razões que expliquei num artigo publicado no site do Clube de Jornalistas, em 2005.

Escrevi, então, que qualquer candidato às autárquicas interessado em resolver os problemas de Lisboa deveria anunciar a necessidade de introduzir portagens. Mantenho a mesma opinião e quase aposto que até 2013 essa medida será tomada, pelas seguintes razões:

Primeira: todos sabem que, a nível mundial, é crescente a consciencialização dos poderes políticos para os problemas resultantes da toxicidade do ar, que afecta especialmente as pessoas com problemas respiratórios, os asmáticos, os idosos e as crianças, estimando alguns pediatras que a sujeição das crianças aos gases provenientes dos escape dos automóveis pode ter, mais tarde, efeitos extremamente prejudiciais. (numa altura em que os governos querem reduzir as despesas com a saúde, não faz sentido que uma medida deste género não seja tomada).

Segunda: nenhum candidato desconhece que o automóvel ocupa o primeiro lugar na lista dos maiores inimigos das cidades, em virtude das quantidades de óxido de azoto, monóxidos de carbono e chumbo que a sua circulação lança para a atmosfera.

Terceira: todos os candidatos sabem que estudos realizados num grande número de países industrializados revelaram que a poluição, principalmente a provocada pela libertação dos gases dos tubos de escape, é responsável pelo aumento da mortalidade, sendo a mortalidade cardiovascular prematura, causada pelo dióxido de enxofre. Em Paris, por exemplo, são registadas mais de 300 mortes anuais.

Quarta: cada candidato terá tido acesso a pelo menos um dos vários estudos e inquéritos sobre transportes públicos realizados na última década em Lisboa. Assim sendo, ser-lhes-á fácil constatar que um em cada três portugueses (33 por cento) é peremptório ao afirmar que em circunstância alguma está disposto a abdicar desse privilégio que é andar diariamente num vaivém de longas filas de trânsito e engarrafamentos, conduzindo a sua viatura.

Se acrescentarem a este número os 12 por cento que manifestam impossibilidade temporária (não definida) para abdicarem do carrinho, concluirão que quase metade dos lisboetas está definitiva, ou temporariamente, “indisponível” para se deslocar em transportes públicos.

Esta percentagem já seria suficiente para pensar duas vezes sobre a necessidade de dar prioridade à melhoria dos transportes públicos, em detrimento de medidas restritivas à circulação automóvel. No entanto, qualquer cidadão mais perspicaz juntará mais dois elementos importantes.

Num estudo encomendado pelo governo ao ISCTE, em 2001, pode ler-se o seguinte:

“…as razões invocadas para a não utilização do transporte público não se prendem directamente com a qualidade do serviço disponível, mas tão só com a preferência pelo uso do transporte privado. (…) não existe uma relação directa entre a qualidade percepcionada do transporte e a tendência para o seu uso, pelo que não será suficiente aumentar a qualidade do transporte público para que aumente, automaticamente, a procura deste tipo de transporte.”

O mesmo estudo conclui que “não existem diferenças entre os inquiridos que utilizam transportes (públicos) e aqueles que não os utilizam” e que “apenas 11% dos não utilizadores e 13% dos utilizadores percepcionam os transportes públicos como estando piores que há 3 ou 4 anos atrás”.

Haverá algum estudo mais esclarecedor, do que este encomendado pelo governo?

Quinta: chegou a altura de Lisboa estabelecer um cotejo com as grandes cidades europeias em termos de qualidade de vida ambiental, restringindo a circulação automóvel. A necessidade é ainda mais imperiosa, porque Portugal terá de cumprir a directiva comunitária sobre a “qualidade do Ar”, sob pena de se sujeitar a sanções impostas por Bruxelas.

Sexta: anualmente, aumentam os dias em que são ultrapassados os valores máximos de concentração de ozono na atmosfera (180 microgramas por metro cúbico), sendo frequente encontrar valores na ordem dos 225 microgramas.

Sétima: com o aumento do tráfego rodoviário, provocado pela construção da ponte Chelas/Barreiro, a concentração de ozono elevar-se-á a níveis insustentáveis, nomeadamente nos meses de Verão e o trânsito será caótico.

Resta saber se haverá algum candidato à presidência da Câmara de Lisboa, em 2009, disposto a dizer a verdade, ou todos vão continuar a apostar nas promessas vagas. Acredito que o candidato que souber explicar claramente porque vai introduzir portagens em Lisboa poderá ganhar vantagem na corrida. Se nenhum o fizer, os lisboetas vão sofrer as consequências.

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Tragédia grega


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Regresso a Portugal, leio as notícias dos últimos dias e sinto-me num cenário de tragédia grega. Depois de  Sócrates e as suas cabalas, o elenco é reforçado. Uma mulher oráculo, sedeada em Belém, assume o lugar de protagonista. Por cada mensagem cifrada, aparecem logo  20 pitonisas dispostas a interpretá-la.

Se em Outubro Sócrates se juntar com o oráculo de Belém, formando um Bloco Central, passaremos a viver num país indecifrável.

Pensava que a tragédia grega tinha sido um episódio isolado, tendo como protagonista Scolari, mas afinal a maldição grega criou raízes em Portugal desde a malfadada final do Euro 2004. Irra!

 

25 de Abril Sempre!


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Sou um daqueles portugueses que não renegou Abril e estarei, até ao fim da vida, grato aos militares que me devolveram a Liberdade.

Sou um daqueles portugueses que se indigna quando se lembra que neste país de Abril o actual PR concedeu pensões vitalícias a dois ex-PIDE, por serviços excepcionais prestados ao país, mas a viúva de Salgueiro Maia viu recusada a mesma  pretensão.

Não sou ingrato para quem me devolveu a Liberdade. Fiquei sempre do mesmo lado. Recusei vender a alma ao Diabo. Chamem-me burro, por manter a coerência, mas fiquem a saber: 

Esteja onde estiver, todos os anos celebro e recordo o dia 25 de Abril de 74, com a mesma emoção. Não me esqueço que, nesse dia, estava aqui. E quando de lá saí encontrei um país diferente.

25 de Abril em Santa Comba


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Não percebo muito bem o alarido à volta da inauguração, amanhã, do Largo Salazar em Santa Comba Dão.

Como todos sabemos, há inúmeras pessoas no PSD e no PS no desempenho de funções públicas para os quais foram democraticamente eleitas, que poderiam estar a exercer as mesmas funções se, desgraçadamente, ainda vivêssemos no Estado Novo.

A ideia de que o 25 de Abril renovou de alto a baixo a mentalidade dos portugueses é uma falácia  diariamente  comprovada.

Não encaro sequer a atitude do presidente da Câmara de Santa  Comba Dão (PSD) como uma afronta, nem me surpreendo com a iniciativa. Surpreendente, talvez, seria se amanhã ouvíssemos, durante a cerimónia, o discurso deste homem.

Porque isso significaria que, contrariando as palavras de João Lourenço, o passado ainda é presente e os fantasmas não foram exorcizados.

Hoje é Dia Mundial do Livro


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 Por isso decidi recordar esta pérola:

“Chego a concordar que a Censura é uma instituição defeituosa, injusta, por vezes, sujeita ao livre arbítrio dos censores, às variantes do seu temperamento, às consequências do seu mau humor (…). Eu próprio já fui em tempos vítima da Censura e confesso-lhe que me magoei, que me irritei, que cheguei a ter pensamentos revolucionários.”

António de Oliveira Salazar  em entrevista a António Ferro (1933)

(Citado em A Censura na Iconografia e na Caricatura Portuguesa – Humorgrafe/Museu da República e da Resistência 1997)

 

Iniciei hoje, aqui, uma série de posts sobre a censura do livro no Estado Novo.

Blá, blá, blá, blá, blá….


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A entrevista de Sócrates resume-se ao título deste post. Espremida,  daquela hora não jorrou uma gota de sumo. Culpa de Sócrates? Concerteza… mas se quisermos ser imparciais e fazer um juízo isento, temos de reconhecer que a culpa não foi só dele.

Os portugueses esperavam  que Judite de Sousa e José Alberto Carvalho obrigassem Sócrates a  falar dos problemas do país, a reconhecer  que não sabe o que fazer para minorar os efeitos da recessão, que  confrontassem o PM com medidas erradas tomadas ao longo destes quatro anos, mas os jornalistas perderam mais de metade da entrevista a discutir o discurso de Cavaco e o caso Freeport. Discutiram tricas, em vez de discutir o país. Sócrates deverá ter saído dos estúdios da RTP com um sorriso de orelha a orelha, porque acabou por conduzir a entrevista para onde lhe dava mais jeito. Azar dele, os portugueses preferem as novelas da TVI às novelas do caso Freeport  e do discurso de Cavaco, caso contrário teria ontem ganho votos suficientes para renovar a maioria absoluta. Os entrevistadores deveriam saber disso. Ou não?

Sócrates foi arrogante? Não! Sócrates é arrogante. Mas até nisso teve sorte, porque a arrogância de Judite de Sousa ( tão contrastante com a docilidade canina que exibe perante entrevistados de outros quadrantes políticos, como foi o caso da entrevista a Dias Loureiro)não lhe ficou atrás.

Judite de Sousa e JAC tiveram ontem uma oportunidade de encostar Sócrates à parede e desperdiçaram-na, porque preferiram falar de questiúnculas em vez de falar dos problemas do país. Fizeram mal. Até porque, ao contrário das novelas da TVI, nestas novelas já se conhece o fim.

 

Nota: A notícia sobre os bastidores do vídeo me apanharam  de surpresa . Sou bruxo? Não, mas tal como outros jornalistas, já conhecia há pelo menos uma semana o desfecho desta história que a TVI tem servido em episódios. Compreende-se que assim seja. Num canal de televisão que apenas exibe telenovelas durante todo o horário nobre, sete dias por semana, é natural que a partir de determinada altura se confunda jornalismo com outras coisas.