
Não deve ter havido ainda nenhum canal de televisão, rádio, revista, jornal ou folha de couve que não tenha abordado as alterações do comportamento dos consumidores face à crise.
Ao pequeno almoço a televisão informa que os consumidores já só comem cereais de linha branca; a meio da manhã uma dona de casa desesperada lamenta aos microfones da rádio já só comer carne branca (seja lá o que ela quer dizer com isso); à hora do almoço leio no jornal que os portugueses estão a substituir a carne por enlatados (fico logo a pensar como é que o governo irá resolver o problema da ferrugem que ameaça invadir as nossas entranhas); quando regresso a casa aproveito a viagem de metro para folhear as páginas de uma revista cuja leitura ficou em atraso e, entre as lamentações de duas obesas, pela carestia de vida, salta-me um anúncio de uma cadeia de supermercados anunciando promoções.
Chego a casa, ligo a televisão para ver o telejornal, fico a saber que os portugueses trocam o peixe e a carne por produtos congelados (quanto tempo nos falta para saber os efeitos no nosso organismo da mistura da ferrugem dos enlatados com o excesso de gelo?) e depois do jantar venho até à blogosfera onde felizmente não se fala destas coisas.
Antes de me deitar dou uma vista de olhos pelo “Expresso” que não tive paciência de ler durante o fim de semana e… Hélas! Na última página o artigo que me faltava ler: “Consumo – Apertar o cinto”. Entre alguns conselhos que eu me fartei de dar em revistas da especialidade, ainda a crise vinha longe, descortino uma conversa com a responsável pelo gabinete de sobreendividamento da DECO*.
O(a) jornalista pergunta-lhe quais são as principais alterações nos hábitos de consumo, Natália Nunes não se faz rogada e responde “os consumidores começam por cortar nos produtos básicos; trocam os caros por outros mais baratos e…. Suspense…. reduzem as necessidades mais superficiais como… ir ao cinema.
Extraordinário! Para os consumidores portugueses (pelo menos na opinião de Natália…) ir ao cinema é uma necessidade superficial. Provavelmente tão superficial como ler um livro. Compreende-se: mais vale passar o ano a comer atum Bom Petisco, hamburguers, congelados Continente e moelas de frango do aviário do Freixial, do que trocar as férias em Cancún pelo parque de campismo de Monte Gordo.
Mais vale ler as revistas da DECO – que até oferece um daqueles aparelhómetros supérfluos a quem fizer a assinatura de uma revista no prazo de 10 dias – do que perder tempo a ler um livro ou ir ao cinema. Essencial, para os portugueses, é continuar a fazer turismo no Verão, em praias distantes, onde podem conviver com milhares de outros portugueses que se acotovelam nos bares e restaurantes e lutam por 10 cms de areia para estender a toalha. O português não gosta de atravessar o Atlântico sozinho, quer sentir o calor humano dos compatriotas, ter um ombro luso onde carpir as mágoas pelo tufão que lhe estragou as férias – pagas em 11 prestações – e só lamenta a falta da sardinha assada e do garrafão de tinto, para ter umas férias perfeitas. A DECO podia aproveitar a embalagem e explicar aos portugueses que com o turismo não se aprende nada. Quem quiser conhecer o mundo e ter uma visão diferente da vida deve é viajar, mas isso é muito complicado para a DECO. E para a maioria dos portugueses também…
Depois, temos ainda aqueles quebra-cabeças que ajudam a perceber a crise.
* Para quem não saiba, a DECO é uma associação de consumidores especializada em campanhas de marketing agressivas em que oferece produtos supérfluos, a quem assinar as suas revistas (algumas delas também supérfluas).


