Não sei quanto tempo irá decorrer até que percebamos que as loas tecidas às decisões tomadas pelo G-20 foram manifestamente exageradas e que em nada serviram para debelar a crise. O reforço da confiança no papel do FMI, por exemplo, parece-me uma decisão errada, pois todos sabemos que o papel daquele organismo na recuperação das economias sul-americanas foi um tremendo fiasco.
No entanto, a reunião de Londres serviu para perceber que Obama já não tem dúvidas de que o poder mundial mudou de mãos e os Estados Unidos deixaram de ser os donos do mundo.
Já muito escrevi sobre a ascensão da China e a sua importância nas decisões que durante as próximas décadas (pelo menos…) serão tomadas a nível global. Entre essas medidas, está a alteração das regras de actuação do FMI, onde a China exige ter um papel de parceiro dos americanos, impondo alguns princípios de funcionamento daquela instituição.
Ao aceitar algumas exigências dos chineses, Obama não está apenas a reconhecer a necessidade de uma aproximação entre os dois países. Está também a reconhecer o modelo de desenvolvimento chinês que catapultou a China para potência mundial onde, a breve prazo, ocupará o primeiro lugar. E estará, muito provavelmente, a tentar ganhar espaço para dialogar com a China sobre a necessidade de um desenvolvimento mais sustentável. O modelo de desenvolvimento chinês assenta em modelos ultrapassados ao nível de eficiência energética, o que em termos práticos significa que, ainda este ano, a China se tornará no país mais poluidor do mundo. Numa altura em que os EUA se propõem diminuir a sua “pegada ecológica”, este pode ser um bom ponto de partida para o diálogo.
Hoje, em Istambul, tem início o encontro da Aliança das Civilizações (ver aqui), sendo de esperar que Obama sublinhe a importância de uma aproximação entre a cultura islâmica e a cultura ocidental e o desenvolvimento do diálogo intercultural, como base de criação de um espaço de cidadania global.
Independentemente do que venha ainda a ocorrer, esta visita à Europa do presidente americano salda-se já por um êxito assinalável. Obama tem uma visão do mundo policentrada, bem diversa da de Bush para quem os EUA eram o centro do mundo de onde emanava toda a verdade. É um bom sinal para o mundo, resta saber como o Partido Republicano e a opinião pública americana reagirão.
É fundamental para o progresso civilizacional da Humanidade que se esbatam as diferenças – o que não quer dizer assimilação dos valores da cultura ocidental pelos outros povos, como pretendia Bush – mas a tarefa não será fácil, como se pode constatar, por exemplo, nesta questão.
