"O Continentes"

Já alguém lhe chamou “O Continentes”, numa alusão ao cosmopolitismo e diversidade de etnias ali presentes
Quando lá entrávamos depressa esquecíamos a abominável estética exterior e o nome: Centro Comercial da Mouraria. Como num passe de mágica, abandonávamos Lisboa e aterrávamos a milhares de quilómetros de distância. Os odores e sons standardizados da baixa lisboeta, tão próprios de qualquer capital europeia, eram substituídos por aromas e sons de outros continentes: especiarias, incenso, cheiros fortes e estranhos – por vezes violentos para narizes mais afeitos a perfumes afrancesados – associavam-se aos sons de pedras de mah–jong espraiando-se sobre as mesas, ou a linguarejares incompreensíveis, de proveniências variadas. Decibéis competiam à desgarrada, debitando notas musicais vocalizadas, evadindo-se livremente de uma parafernália de fontes sonoras.
Ao contrário do que acontece em espaços comerciais similares, ali não éramos conduzidos por estreitas ruelas e recantos, obedecendo às regras do marketing. A variedade e o exotismo do ambiente convidavam a uma visita em liberdade. E assim íamos desbravando os espaços que o edifício albergava.
Em plena liberdade, íamos descobrindo mercearias africanas e indianas. Discotecas e cabeleireiros africanos. Lojas de roupas e bijutarias chinesas.
Das lojas de roupa chinesas saíam vendedores ambulantes, transportando grandes sacos de plástico negros. Lá dentro, camisas Ralph Lauren e malhas Burberrys genuinamente falsas conviviam numa orgia de capitalismo contrafeito, ao dispor de bolsas pouco recheadas, alimentando a ilusão de que a igualdade se alcança pelo consumo das mesmas marcas
Quando chegava a hora do almoço, o Centro Comercial Mouraria animava-se ainda mais. Entre as diversas ofertas, era possível optar pelos sabores africanos do “Dois Irmãos”, especialista em comida de Angola e da República Democrática do Congo, onde a ementa anunciava «fumbua» (um prato à base de moamba, cebola e óleo de palma), «pondu», com folha de mandioca, «muteta» ou «funji», ao preço de 5€.
Havia dois restaurantes chineses, muito diferentes daqueles a que estamos habituados. Aos tradicionais crepes, “chau-min” e “chop-soy”, adaptados ao gosto ocidental, somavam-se outros pratos de peixe, carne e legumes, desconhecidos de quem nunca visitou o Oriente.
Se o apetite apelava aos paladares indianos, a melhor opção era o “Faltas Tu”. Os seus proprietários, oriundos do Bangladesh, serviam caril de frango, de cabrito e vegetariano, camarão frito e “biriani” (arroz com carne e vegetais). Antes de atacar o prato principal, podíamos provar as saborosas chamuças, que nada têm a ver com os sucedâneos gordurosos que aparecem à venda em algumas pastelarias. No final, para adoçar o paladar, recomendavam-se bolinhos indianos, como os “lado” feitos com manteiga e farinha de grão, ou os “dudh-penda”, com leite condensado. Para os acompanhar, um chá com leite e especiarias.
Ainda há pouco tempo era possível descer à cave e abancar na esplanada da pequena praça central para tomar uma bica no café “Ilha de Luanda”, no “Bica-Bica” ou no “Faltas Tu”. A esplanada era um dos pontos privilegiados de observação do movimento do Centro e nas mesas podiam ver-se jovens orientais emborcando canecas de cerveja, acompanhadas por camarão miúdo. Fumavam cigarros americanos, riam e conversavam, enquanto na mesa ao lado parceiros de meia idade jogavam cartas. De quando em vez , o toque de um telemóvel interrompia a partida, anunciando negócios no ar.
A umas mesas de distância, na esplanada do “Faltas Tu”, indianos de cabelos brancos deliciavam-se com chamuças e chá com leite, aromatizado com especiarias, de olhos fixos no televisor onde, ininterruptamente, passavam telediscos.
Hoje, aquela esplanada é apenas uma recordação, substituída que foi por lojas de chineses. Pergunto a Lu–Yan, proprietária de uma loja de atoalhados, o que aconteceu aos restaurantes. Olha-me com indiferença e, no seu português apalatado, explica-me que os restaurantes só criavam confusão. “É melhor assim” – garante. Percebendo a minha decepção, insiste:
“Tem muito restaulante chinês lá fola. Aqui é pala complale, não é pala passeale”. Ou, como diria Guterres: “É a vida!”
Não consigo disfarçar alguma nostalgia pela perda de um espaço ímpar em Lisboa, onde era possível conviver simultaneamente, no mesmo prato, com sabores africanos, indianos e chineses, a preços módicos. Invadido por um sentimento indecifrável, decido terminar aqui a reportagem. É difícil aceitar a perda súbita de um espaço onde me sentia aconchegado, quando me minavam as saudades do Oriente. Resta a simpatia contagiante de muitos lojistas… Até quando?

O Centro Comercial da Mouraria, que eu saiba, ainda existe e está bem ativo. Não vejo por que motivo neste post se lamenta o desaparecimento de um ou dois restaurantes, como se, findos esses restaurantes, o Centro Comercial tivesse perdido o seu interesse.
Vou lá com alguma frequência comprar alguns produtos, e acho que o Centro está tão bom como sempre.
Só uma ou duas vezes comi, há muito tempo, num restautante indiano que lá havia. Era jeitoso, mas nem era especialmente bom comparado com outros restaurantes indianos que há em Lisboa.
Em suma, não vejo razão para a nostalgia deste post, como se o Centro Comercial da Mouraria já não existisse ou tivesse perdido o seu encanto e utilidade.
Mesmo ao pé, na Rua da Palma, há o restaurante Indian Palace, que é muito jeitose e tem excelente ambiente.
Ah: no Centro Comercial nem tudo é estrangeiro. Há lá uma loja de música pertencente a uma portuguesa de gema, que vende coisas boas e baratas.
Não sei bem do que falas, mas gostei. Gosto de memórias. Vou acreditar que as memórias do País não são só de Lisboa: são também do resto-é-paisagem. Certo?
Um abraço, Carlos.
As memórias que aqui pretendo trazer têm um cunho muito subjectivo, João. Não vou apenas falar de locais , hábitos e coisas que desapareceram, mas essencialmente de coisas que mudaram com o tempo e as tornaram diferentes. É o caso do Centro Comercial da Mouraria, em Lisboa, que embora ainda exista fisicamente, já não tem o “glamour” de outros tempos.
Como tive a sorte de poder viver em 7 capitais de distrito em Portugal , as memórias são abrangentes e não se restringem a Lisboa.
Um trabalho que agora ando a fazer pelo país vai-me levar a revisitar em pormenor vários locais onde vivi há 30 anos ou mais. É um olhar sobre esses locais, onde vivi entre 74 e 77,que também pretendo trazer até aqui.
Abraço
São boas notícias, Carlos. Cá estarei à espera.
onde fica isso?
Gostei das memórias, Carlos. Só lá entrei uma vez, confesso, e não tenho memórias do sítio a registar. Mas há uns anos gostava muito de percorrer as lojas do Bem Formoso, ali mesmo ao lado: um universo fascinante, onde descobri até cabeleireiros especializados em cabelos africanos ou asiáticos. Lisboa, ali, é uma manta de retalhos do mundo.
É uma zona bastante picaresca, Ana. Pena ter perdido algumas das características que já teve noutros tempos. Quando por lá passo, faço sempre uma comparação entre a Londres onde eu vivi no princípio dos anos 70 e a Londres de hoje. Vou ver se, um dia destes, consigo explicar isto num post