Pela primeira vez na História reage-se correctamente a uma agressão de um país a outro


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Resiste-se ajudando os que são alvos de agressão para que possam defender-se, durante tantos anos quantos forem precisos; ajudam-se as pessoas do país agredido; os países unem-se (todos ou o maior número possível), na ONU, de preferência e todos os que podem boicotam o agressor com sanções, durante os anos que forem precisos para que recue ou alguém no seu país o deponha; documentam-se os crimes do terrorismo (é um terrorismo de Estado) para que mais tarde respondam na justiça; tenta-se sempre a diplomacia com o agressor mas sem lhe dar um milímetro de terreno que lhe dê espaço para que reforce a sua tendência de expansão agressiva.

Entretanto, todos os países que ponham em causa a segurança mundial com ameaças nucleares não deviam ter lugar no Conselho de Segurança. É um paradoxo.

O projecto seguinte mais importante da humanidade é destruir todas as armas nucleares. Todas.

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Coisas que é preciso dizer


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A UE e a Comissão têm estado à altura da situação. O que se tem visto nestes poucos dias é aquilo que gostávamos de ter visto sempre -união, solidariedade, lucidez e coragem- e que esperamos não desapareça rapidamente a seguir a esta crise. Mostraram que são capazes. É verdade que também me parece que a pressão da opinião pública um pouco por todo o lado, nas redes sociais e nas ruas, empurrou os políticos que de início estavam indecisos, mas a verdade é que podiam não ter estado à altura dos acontecimento e estiveram, o que dá gosto ver.

Esse terá sido o grande erro de Putin. Olhando para a situação no seu esqueleto, vejo esta linha de acção de Putin ter um começo remoto na reacção de Bush e da sua entourage, Rumsfeld, Collins e companhia ao 11 de Setembro. Dez anos de destruição irresponsável e insana no Médio Oriente, a que se seguiu uma crise de refugiados, não nos EUA que a causaram, mas na Europa, que fez surgir uma desunião e ganância na UE (os países do Norte a perseguirem as economias do Sul) e EUA, que deu origem ao Brexit e a Trump e que acabou na saída vergonhosa de Biden do Afeganistão. Putin viu neste caos e desunião, por um lado fraqueza e por outro, oportunidade, mas esqueceu-se que a Europa, tendo uma história de guerras, tem também uma história comum de povos entrelaçados por laços familiares, alianças comerciais e políticas.

 

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Putin vai à História como eu vou às maçãs na banca do sr. Armindo


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Escolho as maçãs uma a uma e só trago as que gosto e me interessam. Deixo lá as outras que não me interessam. Assim também o faz Putin. Vai à História e tira um a um os acontecimentos que lhe interessam e ignora os outros.

“Em 1991, quando mais de 90% de ucranianos votaram pela independência e a URSS se dissolveu, a Ucrânia tinha um terço do arsenal nuclear soviético e o terceiro maior do mundo, bem como a capacidade para produzir tantas armas quanto a Rússia. A Rússia pediu aos países que influenciassem a Ucrânia para aderir ao «Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares» e destruir todo o seu arsenal nuclear, bem como a capacidade de produção de armas nucleares.

Em 1993, um professor de Relações Internacionais da Universidade de Chicago, John Mearsheimer, publicou um artigo que incluía a sua previsão de que uma Ucrânia sem qualquer dissuasão nuclear seria provavelmente sujeita a agressão por parte da Rússia, mas esta era uma opinião muito minoritária na altura.”

Seja como for, a Ucrânia assentiu em destruir as suas armas nucleares com condições. As condições incluíam a garantia de que a Federação Russa se comprometesse a não atacar a Ucrânia. A Rússia concordou e essas condições e garantias ficaram escritas no memorando de Budapeste que foi assinado a 5 de Dezembro de 1994, pelos líderes da Ucrânia, Rússia, Grã-Bretanha e Estados Unidos. O líder da Rússia era Yeltsin, o que lançou Putin como primeiro-ministro. Yeltsin estava lá a sossegar e garantir à Ucrânia que ficasse descansada que nunca os atacariam e Putin foi o seu delfim. Lembro-me bem da assinatura deste memorando.

O memorando tem a seguinte redacção:

“Os Estados Unidos da América, a Federação Russa, e o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, saudando a adesão da Ucrânia ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares como Estado não dotado de armas nucleares, tendo em conta o compromisso da Ucrânia de eliminar todas as armas nucleares do seu território dentro de um período de tempo especificado, registando as mudanças na situação de segurança mundial, incluindo o fim da Guerra Fria, que criaram condições para reduções profundas nas forças nucleares, confirmam o seguinte:

1. A Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América reafirmam o seu compromisso com a Ucrânia, em conformidade com os princípios da Acta Final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, de respeitar a independência e soberania e as fronteiras existentes da Ucrânia.

2. A Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América reafirmam a sua obrigação de se absterem da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou independência política da Ucrânia, e que nenhuma das suas armas será jamais utilizada contra a Ucrânia, excepto em legítima defesa ou de outra forma, de acordo com a Carta das Nações Unidas.

3. A Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América reafirmam o seu compromisso para com a Ucrânia, de acordo com os princípios da Acta Final da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, de se absterem de coacção económica destinada a subordinar ao seu próprio interesse o exercício pela Ucrânia dos direitos inerentes à sua soberania e, assim, assegurar vantagens de qualquer tipo.

4. A Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América reafirmam o seu compromisso de procurar uma acção imediata do Conselho de Segurança das Nações Unidas para prestar assistência à Ucrânia, como Estado parte no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, se a Ucrânia se tornar vítima de um acto de agressão ou objecto de uma ameaça de agressão em que sejam utilizadas armas nucleares.

5. A Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América reafirmam, no caso da Ucrânia, o seu compromisso de não utilizar armas nucleares contra qualquer Estado parte no Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, excepto no caso de um ataque a si próprios, aos seus territórios ou territórios dependentes, às suas forças armadas, ou aos seus aliados, por um tal Estado em associação ou aliança com um Estado dotado de armas nucleares.

6. A Ucrânia, a Federação Russa, o Reino Unido da Grã-Bretanha, a Irlanda do Norte e os Estados Unidos da América consultar-se-ão no caso de surgir uma situação que levante uma questão relativa a estes compromissos.

– A França e a China também deram à Ucrânia garantias semelhantes às do Memorando de Budapeste, mas com algumas diferenças significativas. Por exemplo, o compromisso da França não contém as promessas estabelecidas nos parágrafos 4 e 6 acima, de remeter qualquer agressão ao Conselho de Segurança da ONU, nem de consultar no caso de uma questão relativa aos compromissos.

O compromisso da China assume uma forma totalmente diferente, datando de 4 de Dezembro, e lendo da seguinte forma:

O Governo chinês congratula-se com a decisão da Ucrânia de destruir todas as armas nucleares no seu território, e louva a aprovação pelo Verkhovna Rada da Ucrânia a 16 de Novembro da adesão da Ucrânia ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares como Estado não dotado de armas nucleares. A China compreende plenamente o desejo da Ucrânia de garantia de segurança. O Governo chinês sempre defendeu que em circunstância alguma a China utilizará ou ameaçará utilizar armas nucleares contra Estados não dotados de armas nucleares ou zonas livres de armas nucleares. Esta posição de princípio também se aplica à Ucrânia. O Governo chinês insta todos os outros Estados com armas nucleares a assumirem o mesmo compromisso, de modo a reforçar a segurança de todos os Estados não dotados de armas nucleares, incluindo a Ucrânia. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Nuclear_weapons_and_Ukraine

(é claro que a História não confere a ninguém direitos de invasão)

 

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Filmes – Eiffel


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Este filme, de 2019, decorre durante os dois anos (1887 a 1889) que durou a construção da Torre que leva o seu nome e acompanha as vicissitudes da obra, nomeadamente a oposição de que foi alvo por parte de muitos parisienses. No entanto, o filme passa-se à volta de um acontecimento-hipótese que pretende responder à questão que desde há muito intriga os historiadores: porque é que Eiffel, que se opunha veementemente à construção de uma torre de ferro para a exposição de Paris de 1889 -ele tinha visto planos- de repente, de um dia para o outro e sem explicação aparente, decidiu construí-la e tornar-se o seu maior defensor. O filme adianta uma hipótese baseada na história de vida de Eiffel.

Quando era mais novo, Eiffel tinha sido o engenheiro chefe da construção de uma ponte de ferro em Bordéus. Acontece que ele e a filha do dono da construtora, Adrienne Bourgès, se apaixonaram perdidamente, mas foram impedidos de casar pela família dela, devido a ele ser de uma classe social inferior. Então, o filme supõe que eles se encontram em Paris vinte anos depois, por acaso, numa jantar em que se discute que projecto se deve levar à exposição de 1889, para elevar o nome da França, ainda afectada pela derrota de Sedan e para rivalizar com a Estátua da Liberdade, cujo esqueleto é da autoria de Eiffel. Nesse jantar, desafiado por Adrienne Bourgès, ele propõe-se construir a Torre, com 300 metros de altura, toda em ferro, no centro da cidade, para poder ser desfrutadas por todas as classes sociais. A partir daí o filme passa-se nos dois tempos desse grand amour, separados por vinte anos. No filme, a Torre tem a forma de um ‘A’, por causa de Adrienne.

Não sabemos se isto é verdade, mas também não interessa muito porque o filme é menos uma reconstituição histórica dos factos (nem abordam a oposição dos 300 artistas) e mais uma reconstituição da atmosfera, dinâmica e ambiente históricos da época. Dado que tem uma excelente e impecável produção damos vários passos atrás, no tempo, mas também na literatura. Entramos nas novelas de Dickens, com as fornalhas da revolução industrial quando estamos nas cenas de construção das fundações da Torre; estamos no ambiente de Proust nas cenas de interior dos jantares elegantes e passeios pelos parques e entramos nos romances queirosianos quando se discute as inovações e as políticas da época e o ambiente de fim de uma era. Vale a pena ver esse mundo ainda não totalmente perdido.

 

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Sócrates aproveita-se da maioria absoluta do PS para minar a Justiça?


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Porque é evidente que comprometer o juiz responsável pelo seu processo levanta dúvidas quanto à análise justa do próprio processo –Juiz Carlos Alexandre é arguido no caso da distribuição da Operação Marquês..

A questão importante não é a de ter havido erros na distribuição dos processos -se houve que sejam corrigidos e evitados no futuro- a questão que deve pôr-se é se o processo foi bem conduzido, quer dizer, se o caso de Sócrates foi bem analisado e a sua prisão justa e adequada, facto contra o qual o próprio Sócrates não consegue argumentar, pois que motivo teria o juiz para prender Sócrates se não fossem os seus crimes? E como não o consegue argumentar desvia o assunto para a distribuição de processos para levantar suspeitas sobre a justeza de como o caso foi apreciado. 

Imagino que um dia me tivessem pedido para ir fazer um exame oral a um aluno e que depois se viesse a saber que era a vez de outro professor fazer esse exame. Que interessava saber quem fez o exame se tivesse sido bem conduzido e de modo justo? Uma coisa seria mudar os procedimentos administrativos da distribuição de exames, outra diferente seria considerar que a pessoa que fez o exame é culpada do delito de o ter feito.

Pior que tudo é fazerem-lhe a vontade e porem o juiz e a funcionária que lhe distribuiu o processo com termo de identidade e residência, como se fossem bandidos, gente do calibre de Sócrates, Vara, Pinho e quejandos. 

Sócrates tem andado a gozar com a Justiça, mas o que pergunto é: se não tivéssemos uma maioria absoluta do PS, cheia de grande amigos e correligionários dele no poder, isto de aceitarem a acusação de um juiz por ter ficado com um processo contra ele, acontecia?

 

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Acerca dos deputados do nosso Parlamento


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O Presidente da direcção da Associação sindical dos juízes Portugueses escreve hoje um artigo, “Os deputados do nosso Parlamento” onde defende que o nosso Parlamento nem sempre elege os mais capazes porque premeia a fidelidade partidária à frente da competência, que vota-se nos partidos e não nas pessoas que nos representam, que o Parlamento tem défice de representatividade, que tem excesso de juristas e licenciados em geral e que deixa de fora o povo (agricultores, artistas, operários, desempregados, etc.) e outras pessoas que pensam “fora da caixa”.

– O nosso Parlamento nem sempre elege os mais capazes porque premeia a fidelidade partidária acima de tudo? Se os partidos escolhessem deputados que não lhes fossem fiéis, deixavam de ter significado enquanto partidos políticos. O problema não está em escolherem pessoas fiéis ao partido mas em escolherem pessoas fiéis apenas ao líder partidário do momento e, desta maneira, porem um certo líder à frente da fidelidade ao programa do partido e à representação dos que os elegeram. Também me parece que os votos deviam ser contados de maneira a não serem agregados pelos dois grandes partidos em detrimento dos outros. O nosso Parlamento, desde as primeiras eleições pós-25 de Abril tem tido uma média de 7 a 10 partidos na AR. Parece-me bem ter diversas sensibilidades políticas representadas na AR. Ter grandes maiorias absolutas não tem trazido benefícios de boa governação ao país, só grande corrupção e, ter mais pessoas nos pequenos partidos não tem sido factor de instabilidade. Essa instabilidade tem mais que ver com as pessoas dos partidos do que com o seu número: Ventura sozinho faz um vendaval no Parlamento. O PCP nunca fez gritaria, com muitos ou poucos deputados, não é o seu estilo. Já Louçã, quando lá estava, fazia-as.

– Vota-se nos partidos e não nas pessoas que nos representam? Não vejo problema em que se vote nos partidos, pois cada partido representa uma proposta de organização social baseada numa certa ideologia, de maneira que as pessoas votam na orientação político-social que lhes parece melhor para o país e mais de acordo com os seus valores. Agora, também considero que nem todos os deputados deviam ser escolhidos pelo partido e, em cada partido, devia haver um número de deputados eleitos directamente por aqueles que vão representar. Isso obrigava a que, pelos menos esses, não pusessem a lealdade ao líder do momento, acima de todos os princípios e deveres que os obrigam.

– O Parlamento tem défice de representatividade? Sim, parece-me que sim. Sabemos pela análise do passado que onde não há mulheres, os homens, grosso modo, não sabem representá-las nos seus problemas específicos. Da mesma maneira que os problemas das minorias étnicas, como se diz, também não são atendidos, grosso modo, nos grupos onde não estão presentes.

– O Parlamento tem excesso de juristas e licenciados em geral e deixa de fora o povo (artistas, agricultores, operários, desempregados, etc.) e outras pessoas que pensam “fora da caixa”? Cabe aos partidos escolherem pessoas diversificadas para a AR e isso, em parte, resolvia-se, se pudéssemos eleger/recusar alguns dos deputados, directamente. Não me parece mal que a AR tenha um número significativo de juristas, visto que é lá que se fazem as leis. Discordo completamente da ideia de que o Parlamento tem licenciados a mais que não representam aquele povo, academicamente pouco habilitado. Em que sentido pessoas pouco habilitadas academicamente e sem conhecimentos adequados para os problemas complexos que vão ao Parlamento seriam melhores a representar o povo? Queremos pessoas mais educadas e não menos. Os deputados não têm que ser um espelho do povo, nem têm que ser do [desse] povo, eles têm é que ser pelo povo. Por isso era importante poder escolher alguns dos deputados que representam cada região directamente – dessa maneira exercia-se o poder de afastar aqueles que mostrassem ser apenas por si mesmos e pelo seu líder e não, pelo povo.

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O grande paradoxo das sociedades


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Penso que foi Proust quem disse que não podendo mudar as pessoas entretemo-nos a mudar as instituições. Ele refere-se à natureza das pessoas, nomeadamente no que respeita à sua relação com o poder, mas a verdade é que também é difícil mudar as instituições. É que para mudar as instituições é necessário que as pessoas mudem, pois as mesmas pessoas, com a mesma natureza de apetência de poder, não produzem instituições diferentes. Pelo contrário, trabalham para a manutenção do seu poder. Veja-se como o PS já rasgou a proposta de tornar a nossa democracia mais representativa através da mudança da lei eleitoral. Só porque pode. E esse é o paradoxo. O poder gera mais vontade de poder e não vontade de mudar as instituições no sentido de maior justiça.

Por conseguinte, o que vemos quando olhamos para trás é que as grandes mudanças das instituições que mudam as sociedades são, por norma, precedidas de grandes acontecimentos catastróficos -geralmente guerras- onde quem mais sofre são os inocentes sem poder. É após esses acontecimentos que as pessoas mudam: ganham consciência das consequências das injustiças, da ganância de poder, da pobreza, da acumulação obscena de riqueza de uns à custa de outros, etc. e, durante um tempo agregam esforços e mudam, de facto, as instituições (quando isso acontece, porque também existem os casos de grandes guerras e revoluções produzirem mudanças institucionais piores, mais injustas). Depois, com o tempo, esquecem e deixam as instituições entrar de novo em decadência. Quase todos querem a paz mas poucos evitam as guerras. E parece que não saímos deste ciclo. A UE é uma grande aventura de tentativa de quebrar o ciclo, mas as forças de entropia são muito grandes: nacionalismos, populismos, intenções hegemónicas. 

Acerca da estabilidade governativa


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António Costa confunde estabilidade com ausência de obstáculos no seu caminho. Não é o único. Hoje, num artigo de jornal, Mª Manuel Marques defende que Um governo de maioria serve para assegurar estabilidade na governação (…)Serve para fazer algumas reformas (…) impossíveis ou que mais dificilmente se conseguem fazer com governos minoritários, (…) que deviam ser negociadas com uma alargada maioria parlamentar. Esta euro-deputada fala na virtude de maiorias absolutas para negociar reformas necessárias e diz que, “Se formos capazes de o fazer bem, talvez daqui a quatro anos este fantasma da maioria absoluta desapareça do debate político”.

Aqui há duas questões: a primeira é que uma maioria absoluta não precisa de negociar nenhuma reforma: impõe-na; a segunda é que os governos de maioria absoluta que tivemos não “o souberam fazer bem”, quer dizer, têm aproveitado para impor reformas (não negociadas) que são desfeitas logo na legislatura a seguir. Portanto, ambos, como muito outros, entendem estabilidade como facilidade de governação, no sentido de não terem que confrontar-se com opiniões contrárias às suas, com as quais é necessário entender-se e negociar. A geringonça acabou por falhar, justamente porque Costa não sabe negociar e alcançar compromissos nas suas grandes políticas. 

O que oferece estabilidade a um sistema é a solidez da sua estrutura, que no caso de um regime político democrático corresponde à força das leis e das instituições públicas. Quanto mais sólidas e independentes dos poderes políticos são as leis e as instituições públicas menos a robustez do sistema depende dos vapores e humores dos políticos do momento. Não queremos que um sistema dependa das boas intenções de políticos particulares mas sim da solidez das suas instituições. Por isso que é tão importante que um político saiba negociar e entender-se com os partidos da oposição, para que as reformas não sejam, como têm sido em vários sectores fundamentais, reformas com o prazo de validade daquela legislatura. Esta característica, na educação e na saúde, só para dar dois exemplos, tem sido, e é, dramática. 

Vemos que até dentro dos próprios partidos há pouca preocupação em assegurar a estabilidade interna da suas estruturas e reduz-se a vida do partido à aclamação de um líder com as sua claques que imediatamente anulam as vozes adversárias. Veja-se o resultado dessa falsa estabilidade de liderança no CDS, no BE e agora no PSD que descurou as suas estruturas de base. Também o PS já lá esteve e há-de voltar. 

A política é a arte de governar para o bem público e dado que cada governo só representa uma parte da população, dado que é eleito por muitas razões que ultrapassam a confiança do povo nas soluções daquele partido ou coligação e dado que os nossos políticos têm mostrado não serem bons políticos no sentido de terem capacidade (ou interesse) de compromissos com as outras forças representadas no Parlamento temos muito a temer de maiorias absolutas, que não têm sido factores de estabilidade do sistema.

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A razão em questão


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A não que se desista da comunicação e entendimento entre os seres humanos e nos reduzamos ao silêncio mútuo ou à guerra, a razão -a racionalidade-, continua a ser o único caminho capaz de conhecimento não-relativo, portanto, universal. Mesmo que no domínio da razão uns sistemas não aceitem as razões de outros como válidas ou rejeitem o próprio critério da racionalidade como garantia de validade das ideias, ainda assim é com razões que refutam esse sistema racional. Logo, mesmo ao criticar ou tentar negar o critério da racionalidade e a sua aspiração à universalidade, fazem-no afirmando a própria racionalidade, pois ao argumentar contra essa racionalidade universalizante, aspiram eles mesmos a que as suas razões sejam universalmente válidas. 

Não se segue daí que todo o conhecimento ou comunicação tenham que ser racionais ou universais, ou sequer que devam ser obliterados ou reduzidos a ordens racionais ou científicas, mas no domínio do conhecimento e da comunicação dos sistemas [culturas] uns com os outros, temos de aceitar como prioridade a ordem das razões. A não ser que se desista da comunicação e entendimento entre os seres humanos e nos reduzamos ao silêncio mútuo ou à guerra.

A ordem das razões não  é meramente normativa, pois se o fosse não seria possível explicar a eficácia do conhecimento científico no avanço das explicações sobre a natureza e no domínio dos sistemas naturais. [não estou aqui a referir-me a questões de ordem moral sobre se a ciência é usada para fazer mal – essa é outra discussão] 

Dois exemplos: 

1º – podemos ser a favor de fazer equivaler os direitos dos pais biológicos aos dos pais adoptivos, mas daí não se segue que se anule a diferença entre uns e outros, pois até do ponto de vista da saúde, quando é necessário saber da herança genética da criança para tratar uma doença, é aos pais biológicos que tem que ir buscar-se a resposta. Isso não representa uma diminuição dos direitos dos pais adoptivos, mas apenas o reconhecimento de que não é possível anular os processos naturais através de normas legais. São coisas diferentes, a aceitação e normalização da diversidade, da asserção de não haver diferença entre uma coisa e outra e ser tudo mesmidade. Parece-me que essas confusões são filhas do relativismo actual do conhecimento que pretende estar a lutar contra o que chamam, ‘a tirania da razão’: 

2º – não podemos aceitar a ideia de certas culturas condenarem as raparigas e as mulheres a uma não-vida proibindo-lhes a educação, a liberdade, o trabalho, etc., com o argumento de que é a sua cultura, pois ao argumentarem desse modo estão a querer universalizar esse princípio de não se universalizar a cultura local, ou seja, estão a adoptar o critério da racionalidade universal, que criticam, como fundamento da validade das suas ideias. A partir do momento em que o fazem, têm que aceitar ouvir os argumentos, as razões, contrárias.

 

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Filmes – «Munique, The Edge Of War» (Munique, À Beira Da Guerra)


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Este filme gira à volta da controversa assinatura do acordo de paz de Munique, em 1938, entre Chamberlain, primeiro-ministro inglês e Hitler, em vésperas da Segunda Grande Guerra. O filme tem duas histórias paralelas a correr em simultâneo: uma é a da assinatura do acordo e do papel de Chamberlain nesse processo -que o filme defende ter sido positivo pela razão de ter dado um ano de paz à Inglaterra e aos aliados para se preparem para a guerra; outra é uma tentativa de impedir a assinatura do acordo por parte de dois diplomatas, um inglês, secretário de Chamberlain e outro alemão, secretário de Hitler, que se conheciam e eram amigos desde os tempos de Oxford, que ambos tinham frequentado. 

O filme está bem feito. Sabemos a história e, mesmo assim, ficamos presos ao suspense da situação. Somos levados a questionar-nos se, chegado o momento que não tem retorno, o saberíamos reconhecer e, reconhecendo-o, se estaríamos à altura do momento. Esta é uma questão importante no filme. 

É difícil não traçarmos um paralelo com a situação actual, salvas as devidas distâncias, naturalmente, pois Putin não é Hitler, mas a situação geopolítica tem os mesmos contornos. 

Estamos num momento de autoritarismo crescente nos regimes do mundo, de crise económica com muito populismo, muita revolta e temos a Rússia de Putin a exigir que o Ocidente feche os olhos e permita o sacrifício de uma parte grande da Ucrânia e da sua possibilidade de sucesso económico, bem como de outros países da esfera da ex-URSS, a troco de paz. Na altura do acordo de Munique, em 1938, também se estava numa grande crise económica, com autoritarismos crescentes no mundo, populismos e revoltas e com a Alemanha de Hitler a exigir que o Ocidente fechasse os olhos à anexação dos Sudetos da Checoslováquia a troco de paz. 

Tal como na época, também hoje há acordos secretos entre os líderes da minoria separatista e o ditador invasor. Então como hoje, o ditador que faz exigências a troco de paz não é pessoa capaz de honrar compromissos ou acordos e tem a mão leve para o assassinato. Então como hoje o Ocidente tem, acima de tudo, desorientação e medo do ditador.

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A poética do espaço


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Esta fotografia é de um dos corredores de laboratórios da minha escola. Para lá da porta corta-fogo que se vê aberta, o corredor estende-se com salas de aulas normais. Estão aulas a decorrer, mas o silêncio é total. Com as portas fechadas não se ouve mesmo barulho nenhum. Mesmo com as portas todas abertas, como agora fazemos, para arejar o ar dentro das salas, é raro ouvir-se barulho. Estamos dentro das salas concentrados no nosso trabalho e em sossego. Na escola antiga, antes das obras, durante toda a aula se ouvia o barulho das aulas adjacentes, o que levava a que falássemos todos muito alto, a que houvesse distracções constantes que interrompiam o trabalho. Numa aula, cada interrupção do ritmo de trabalho causa dano no rendimento da aula. Imensas vezes éramos obrigados a ter de vir à porta mandar calar alunos que andavam por ali. A biblioteca era pequena, a sala dos alunos era esconsa, escura e fria, os alunos fugiam de lá; agora ambas são muito amplas, muito solarengas e luminosas. A minha escola tem mais de 1400 alunos, é muito grande e tem uma falta dramática de funcionários. Apesar disso, os corredores, as salas de aulas e outras salas estão limpas, não estão ‘grafitadas’ ou sujas. Os alunos que não têm aulas não andam nos blocos nem nos corredores. Na escola antiga, estava tudo tão degradado que não havia segurança nos laboratórios e em muitas salas o ambiente era perigoso – tudo estava sujo e avariado e não havia uma parede ou uma mesa livre de escritos e graffiti.

Quem critica as obras que foram feitas nas escolas -uma das duas medidas positivas da Lurdes Rodrigues- não tem a mínima ideia do benefício em termos de rendimento de trabalho, em termos de saúde física e mental tanto de alunos como de professores. Fala-se agora muito da saúde mental dos alunos, mas não se faz ideia do excesso de ruído constante das escolas antes das obras e de como isso punha toda a gente, muito rapidamente, no limite do stress, já de si elevado na profissão.

Sou uma grande defensora da importância da arquitectura no rendimento de trabalho e na disposição mental das pessoas com os benefícios para a saúde que daí advêm. As obras na minha escola foram bem feitas, com materiais robustos e de baixa manutenção. 

Quando me lembro do stress que era a escola antiga, o desconforto, o barulho constante, a falta de luz, a falta de equipamentos, os buracos no chão, a instalação eléctrica sempre a falhar, as persianas que não levantavam, as mesas meio apodrecidas, as paredes das salas todas sujas, vidros partidos, no Inverno tudo encharcado porque não havia telhados para ir de uns blocos para outros, a sala de professores tão pequena que metade das pessoas ficava no jardim, as casas de banho nojentas, a sala dos alunos horrível, fria e escura, toda a gente sempre constipada e com gripe da humidade e do frio… era como se estivéssemos num país de terceiro mundo. 

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fotografia de Carlos Henrique Pimenta

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20 perguntas à civilização


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1. Valerá a pena a “civilização” se traz consigo a perda da liberdade de desobedecer, da liberdade de ir para outro lugar e da liberdade de criar novos arranjos sociais?

2. Estamos presos numa ideologia individualista ou conseguimos transformar a civilização em ajuda mútua, cooperação social, activismo cívico e hospitalidade?

3. Reduzimos as nossas possibilidades de futuros melhores? Quantas possibilidades nos restam agora, num mundo de políticas cujas populações são em número de dezenas ou centenas de milhões?

4. Estaremos melhor juntos ou separados? Estamos no princípio do fim da era da globalização?

5. Teremos tornado a vida mais difícil para a próxima geração? Será que a próxima geração vai ficar pior?

6. Como usar a tecnologia para abrandar as alterações climáticas provocadas pelo homem?

7. O trabalho escraviza?

8. Qual é a realidade da imigração? Sempre houve migrações, mas nunca o tema foi tão tóxico.

9. O que é a vida?

10. O que é a felicidade?

11. Estamos dispostos a sacrificar o ego à ditadura do diagnóstico médico?

12. Como acabar ou abrandar as desigualdades sociais?

13. Como nos podemos envolver com os problemas que enfrentamos universalmente (isto é, alterações climáticas, crescimento populacional, etc…) de uma forma que seja sensível a todas as religiões, crenças culturais e políticas particulares do mundo?

14. Em que é que grandes nações, como a China, se poderão transformar e transformar-nos a todos: na sociedade, na guerra, na indústria e na política?

15. Há alguma realidade fora da língua que falamos?

16. Seremos capazes de desfragmentar as nossas opiniões e culturas o suficiente para nos unirmos sob um objectivo comum e um esforço colectivo para a melhoria da humanidade e da nossa biosfera?

17. Como contrariar o apelo do irracional?

18. Que objectivos de educação queremos ter?

19. Estamos preparados para seres humanos biónicos?

20. Como preservar a privacidade sem a qual não há liberdade?

 

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Limites


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Recentemente dois casos chamaram-me a atenção. O primeiro através de J.K. Rowling. Na Escócia, um homem acusado de violar uma mulher pediu ao chefe da polícia que o registasse como uma mulher, porque, disse, sentia-se uma mulher. O chefe da polícia disse que sim, provavelmente com receio de ter os problemas que J.K. Rowling teve -críticas e ofensas virulentas- quando comentou publicamente o absurdo, declarando: “A Guerra é Paz. A Liberdade é Escravidão. O indivíduo com orgãos sexuais masculinos que te violou é uma mulher”. 

Levando o caso à sua conclusão extrema, este violador, biologica e sexualmente masculino, que diz sentir-se mulher e todos os outros que resolverem seguir o seu exemplo, podem, na sequência, pedir para serem transferidos para prisões de mulheres. 

 

Outro caso que gerou críticas virulentas foi o da antiga nadadora e funcionária da selecção norte-americana, há décadas,  Cynthia Millen, por dizer que Lia Thomas, uma nadadora «trans», sexualmente masculina de nascença, da Universidade da Pensilvânia, está a “destruir” o desporto. Thomas competia pela equipa masculina antes de declarar-se mulher e passar para a equipa feminina. Passou a ganhar as provas todas e bate recordes femininos a torto e a direito. “A natação é um desporto em que corpos biológicos competem contra corpos e não identidades contra identidades”, disse Millen. A Associação Nacional de Desporto das Universidades diz que a terapia hormonal anula o facto de Lia ser biologicamente um homem, coisa que Millen e outras mulheres não aceitam como provado e muito menos evidente.

Levando o caso à sua conclusão extrema, todos os homens que não ganham competições no seu género masculino, podem declarar-se mulheres, tomar hormonas, passar-se para as equipas femininas e acabar no hall of fame do desporto feminino.

 

Digo já que não tenho nenhum problema em que as pessoas se sintam mulheres ou homens ou outra coisa qualquer, como o indivíduo que fez cirurgias para parecer um felino porque sente-se um felino. Se um João me disser que se sente Maria não tenho problema em passar a chamar-lhe Maria e tratá-lo como tal. Porém, tenho problemas com a injustiça no domínio da ética e com o absurdo no domínio da racionalidade. Platão argumentava que quando há dificuldade em decidir de um assunto deve usar-se como critério levar o argumento até ao extremo e ver se resulta em absurdo inaceitável. Sendo esse o caso, deve abandonar-se. 

 

Ora, estes casos e outros semelhantes desembocam em evidentes absurdos. Sabendo-se que os homens são biologicamente diferentes das mulheres, como é que num hospital se pode tratar um doente se não se souber categorizá-lo? Trata-se, em vez disso, a sua identidade? Imagine-se um pedófilo que diz identificar-se com a categoria de adolescente ou de criança, reivindicar ser incluído nos espaços, jogos e brincadeiras das crianças. Absurdo? Pois é, mas trata-se apenas de levar o argumento até ao seu limite. Imagine-se levar uma turma em visita de estudo e pôr «rapazes trans» a dormir nos quartos das «raparigas biológicas» e acontecer haver uma violação. Absurdo? Pois é, mas trata-se apenas de levar o argumento até ao seu limite. 

 

A questão, pois, é essa mesma: qual é o limite?

 

(publicado também no blog azul)

 

Pensamento da semana


filosofiaonline,

Seria bom que os políticos, os psicólogos e os comentadores da comunicação social mudassem a sua linguagem ao falarem da saúde mental dos adolescentes e deixassem de usar termos como «catástrofe» ou expressões como «sequelas para a vida». Os diagnósticos de depressão catastrófica generalizada são uma constante nos meios de comunicação social e como os adolescentes são muito impressionáveis e amplificam tudo o que ouvem, interiorizam a ideia de que o seu sofrimento é uma doença que os danificou para a vida. Essa interiorização reforça o sentimento de desesperança, dramatiza as dificuldades e o próprio sofrimento. 

Os médicos são educados para verem os problemas através da lupa da doença, mas a medicalização generalizada do sofrimento humano leva à perda de significado das vivências próprias da idade. A maioria dos adolescentes vive em casas pequenas, sem grande privacidade e a convivência por períodos longos, forçada pelos confinamentos, fez aumentar os conflitos familiares, já de si naturais, dado que estão numa fase da vida de construção da identidade, ainda sem grande capacidade de regular emoções: ficam tensos, irritados, emocionalmente desequilibrados, angustiados. Falta-lhes a socialização que permite a expansão emocional e vivencial, aprender a regular as emoções, a relativizar os momentos de sofrimento através dos momentos de alegria, a construir a auto-confiança. A maioria dos adolescentes não é doente, está apenas num momento de desequilíbrio.

Em vez de assustarem os adolescentes e os pais com discursos catastrofistas e de desesperança, melhorem as condições de vida das pessoas, contratem psicólogos para as escolas, melhorem a educação. 

Enquanto estamos vivos, estamos sempre a respirar e a qualidade do ar que respiramos influencia a saúde. Da mesma maneira, enquanto somos vivos estamos sempre a respirar o ar cultural que nos rodeia e a qualidade do ar cultural que respiramos influencia as possibilidades de vida – que se escolham e construam as possibilidades positivas.

(também publicado no blog azul)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

Uma questão em duas perguntas


filosofiaonline,

Se as pessoas que escrevem programas políticos que já deram mau resultado no passado e as que executam programas políticos com maus resultados são as mesmas, não será uma loucura confiarmos nelas e nas suas políticas? Não cabem na definição atribuída a Einstein, segundo a qual, “Loucura é fazer a mesma coisa vezes sem conta, mas esperando resultados diferentes”?

Legislativas: 36 debates


filosofiaonline,

 

Para que servem os debates  dos candidatos às legislativas?

Nesta entrevista ao Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, Manuel Soares aborda os principais problemas da Justiça em Portugal, clarifica os seus contornos e aponta alguns caminhos de solução.

Isso mesmo é o que queria ouvir dos candidatos às legislativas: que expliquem o que vão fazer, sendo eleitos, relativamente aos principais problemas do país. Não falo de os ouvir dizer que ‘vão incentivar isto ou apostar naquilo ou valorizar aqueloutro tema’. Refiro-me a dizerem, relativamente à justiça, à educação, à saúde, ao emprego, às desigualdades, ao problema da baixa natalidade, da banca, do abandono do interior e outros, quais os nós do problema, como vão desatá-los e com que objectivo. Por exemplo, como lemos nesta entrevista ao Presidente da Associação Sindical de Juízes Portugueses, um nó do problema da justiça é a sua morosidade e outro é o seu acesso ser restrito a quem tem muito dinheiro ou nenhum dinheiro, deixando de fora a maioria da população. Sendo assim, como vão os candidatos atacar esses dois problemas da justiça. E não interessam respostas vagas de petições de princípio como dizer que vão investir na justiça, melhorar o sistema e outras generalidades afins. Queremos saber em concreto as medidas que vão ser tomadas, as razões dessas escolhas e os objectivos pretendidos. 

 

Só assim é possível diferenciar e escolher candidatos. 

 

É tempo de sermos exigentes com os candidatos políticos porque são as pessoas que vão ter acesso ao orçamento do nosso desenvolvimento e com ele melhorar, ou hipotecar, o nosso futuro, particular e colectivo. Se querem meter a mão no saco do dinheiro têm que dizer-nos, muito concretamente, como vão utilizá-lo para melhorar a nossa vida.

 

Também temos que ser exigentes com os jornalistas que lhes vão fazer perguntas. Não queremos jornalistas-freteiros que estão ali a fazer de boneco para que os candidatos descarreguem as suas demagogias.

 

No que me respeita, tenho menos interesse em ver debates entre candidatos, do que em ver entrevistas bem conduzidas, com jornalistas especialistas ou conhecedores dos grandes dossiers do país (justiça, saúde, educação, economia, etc.) que saibam fazer as perguntas certas e não deixem os entrevistados entrar na conversa de generalidades formais, vazias de conteúdo, de tão abrangentes que são. Essa é a estratégia dos políticos para não se comprometerem de maneira que os eleitores não os possam diferenciar e, eventualmente, afastar-se deles. Contudo, o que queremos mesmo é diferenciá-los para podermos fazer escolhas esclarecidas e consequentes.

 

É preciso que fique claro se os candidatos estão por dentro dos grandes problemas do país, se têm medidas pensadas e quais, ou se não têm nenhuma ideia dos problemas e têm a intenção de ir navegando à vista. Mesmo que não estejam ali apenas para distribuir cadeiras pelos correligionários, não somos um país rico que possa dar-se ao luxo de ter governantes que levam os anos todos da legislatura a perceber como deveriam ter resolvido os problemas. 

 

A ideia de debates entre candidatos só tem interesse, quanto a mim, porque os adversários trazem à tona assuntos que os jornalistas, por vezes, têm medo – ou nenhum interesse – em abordar e porque vemos a maneira como aguentam a pressão do contraditório. No entanto, na maior parte das vezes esses debates são meros espectáculos de ataques ad hominem que em nada ajudam a diferenciar as políticas específicas de uns candidatos relativamente aos outros.

 

Gostava que não se pusesse o pé no futuro com os vícios do passado. Vamos ver.

 

(texto também piblicado no blog azul)

 

Ementa de Natal


filosofiaonline,

 



Receita para umas Festas de Natal Felizes

         (Em homenagem a minha mãe)

     

         Condimentos:

 

                           Tome 12 meses completos.

        Limpe-os cuidadosamente de toda a amargura, ódio e inveja.

         Corte cada mês em 28, 30, ou 31 pedaços diferentes, mas não cozinhe todos ao mesmo tempo.

       Prepare um dia de cada vez com os seguintes ingredientes:

      – Uma parte de fé
      – Uma parte de paciência
      – Uma parte de coragem
      – Uma parte de trabalho

Junte a cada dia uma parte de esperança, de felicidade e boa-vontade.

Misture bem, com uma parte de dignidade, uma parte de meditação e uma parte de entrega.

Tempere com uma dose grande de bom espírito, uma pitada de alegria, um pouco de acção, e uma boa medida de humor.

   Coloque tudo num recipiente de amor.

      Cozinhe bem, ao fogo de uma alegria radiante.    

         Guarneça com um riso franco e sirva sem reserva. 

 

(publicado também no blog azul)

 

Pôr as coisas em perspectiva


filosofiaonline,

 

Voltou a falar-se muito da inépcia da justiça a propósito da prisão cinematográfica de Rendeiro e da prisão tardia de Pinho. Por entre as muitas críticas que se fazem à justiça -os preços absurdos que a afastam do cidadão comum, a interpretação da lei que permite aos acusados escapar-se-lhe com a interposição infindável de recursos, a promiscuidade com o poder político- há uma que me parece não levar em conta a evolução da ciência e da tecnologia. Falo da lentidão da justiça.

Hoje em dia o processo da prova é muito mais complexo do que era há vinte anos, quando pouco mais havia que a testemunha, alguns testes imprecisos e alguns documentos. Agora existem perícias científicas de toda a ordem: médicas, químicas, balísticas, métricas, genéticas, de vídeo, de áudio e um ror de outras que eu nem sei porque não conheço a justiça pelo lado do forro, por assim dizer. Para não falar da complexidade da própria legislação. Essas perícias mobilizam pessoas de várias instituições, cada uma e todas elas com as suas burocracias a cumprir. 

Sabendo nós que as instituições públicas estão em processo de desfalque de recursos humanos, parece-me inevitável que todos estes factores tenham influência no tempo que leva a finalizar-se um caso judicial. A vantagem, no entanto, é haver maior rigor nos processos e cometerem-se menos erros, nomeadamente erros que atiram para a cadeia pessoas inocentes – no passado isso devia ser comum e, se fizessem cá a revisão de processos como fazem nos EUA e em Inglaterra, acredito que assistiríamos ao que vemos passar-se lá que é libertarem-se pessoas ao fim de dez, quinze, vinte ou mais anos, por erros judiciais. Esses erros, apesar de tudo, são piores que os seus contrários, aqueles que deixam fugir os Rendeiros. 

 

(texto também publicado no blog, Azul)

E assim nasceu «La Bohème»


filosofiaonline,

 

imagem da wiki

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Giacomo Puccini nasceu neste dia, 22 de Dezembro, em 1858, em Lucca, Itália. Pertencia a uma família de músicos, tanto pelo lado do pai como da mãe, organistas e compositores da corte. O seu pai era mestre-de-capela, lugar que muitas vezes passava de pais para filhos.

A família não tinha muito dinheiro e Puccini, que desde cedo tocava orgão em várias igrejas, completava esse magro salário tocando músicas populares, ao piano, em bares e casas de má reputação locais.

Em 1879 foi assistir à representação da «Aida», uma ópera de Verdi. Esta representação afectou-o muito, emocionalmente, e teve um grande impacto nos seus planos de futuro. Decidiu abandonar a ideia de ser compositor da corte como o pai e, em vez disso, enveredar pelo caminho da composição teatral operática.

 

Depois de acabar os estudos em Lucca foi para o Conservatório de Milão com uma bolsa de estudos mais algum dinheiro de um tio que o ajudava. Porém, o dinheiro era sempre curto para os gastos. Puccini passou esses anos anos de estudante em Milão numa vida boémia. Fez muitas amizades no mundo da música e da literatura. Conheceu Mascagni, outro compositor, com quem partilhava um quarto numa mansarda. Cozinhavam no quarto para poupar dinheiro, mas como isso era proibido, tocavam música em altos berros, para abafar o ruído dos tachos e panelas. Juntavam ali outros amigos boémios do mundo da música e da literatura. E assim nasceu «La Bohème».

 

«La Bohème» é uma ópera de Puccini passada no ambiente boémio do Quartier Latin, em Paris, entre um grupo de músicos, pintores, filósofos e escritores com pouco ou nenhum dinheiro que vive entre os quartos de mansardas e os cabarés, sempre a fugir dos senhorios e das rendas. A história gira à volta de Rodolfo, poeta parisiense pobre que se apaixona por Mimi, uma costureirinha e do seu amigo Marcello, apaixonado por Musetta, uma cantora.

 

«La Bohème» é a ópera mais famosa, não só de Puccini, mas de todas as óperas de sempre. É extremamente popular e fácil de ver. No próximo ano o Teatro Nacional de São Carlos traz à cena uma representação da «La Bohème». Para quem nunca teve a experiência da ópera, «La Bohème» é talvez a melhor introdução que pode ter: música muito melodiosa, acção cativante. Tem duas das árias mais famosas de todo o repertório operático, Che gelida manina e  Mi chiamano Mimì.

 

Giacomo_Puccini_Albumblatt_Mi_chiamano_Mimi.jpg

Trecho partitura da ária “Mi chiamano Mimì”, de La Bohème, com autógrafo de Puccini (1902). (Wiki)

 

(texto também publicado no blog, Azul)

Porta de entrada


filosofiaonline,

 

O Delito fez-me um convite para colaborar com eles e eu aceitei participar desta experiência colectiva. Sou uma leitora assídua, de há anos, deste blog, que conseguiu manter o espírito crítico e aberto, fugir às polarizações culturais e políticas do nosso tempo e acolher sensibilidades diferentes. Ao transpor a porta de entrada do blog cumprimento todos os autores do blog e agradeço o simpático convite que implica a aceitação da minha maneira de ser, politicamente desalinhada.