Acerca dos deputados do nosso Parlamento


filosofiaonline,

O Presidente da direcção da Associação sindical dos juízes Portugueses escreve hoje um artigo, “Os deputados do nosso Parlamento” onde defende que o nosso Parlamento nem sempre elege os mais capazes porque premeia a fidelidade partidária à frente da competência, que vota-se nos partidos e não nas pessoas que nos representam, que o Parlamento tem défice de representatividade, que tem excesso de juristas e licenciados em geral e que deixa de fora o povo (agricultores, artistas, operários, desempregados, etc.) e outras pessoas que pensam “fora da caixa”.

– O nosso Parlamento nem sempre elege os mais capazes porque premeia a fidelidade partidária acima de tudo? Se os partidos escolhessem deputados que não lhes fossem fiéis, deixavam de ter significado enquanto partidos políticos. O problema não está em escolherem pessoas fiéis ao partido mas em escolherem pessoas fiéis apenas ao líder partidário do momento e, desta maneira, porem um certo líder à frente da fidelidade ao programa do partido e à representação dos que os elegeram. Também me parece que os votos deviam ser contados de maneira a não serem agregados pelos dois grandes partidos em detrimento dos outros. O nosso Parlamento, desde as primeiras eleições pós-25 de Abril tem tido uma média de 7 a 10 partidos na AR. Parece-me bem ter diversas sensibilidades políticas representadas na AR. Ter grandes maiorias absolutas não tem trazido benefícios de boa governação ao país, só grande corrupção e, ter mais pessoas nos pequenos partidos não tem sido factor de instabilidade. Essa instabilidade tem mais que ver com as pessoas dos partidos do que com o seu número: Ventura sozinho faz um vendaval no Parlamento. O PCP nunca fez gritaria, com muitos ou poucos deputados, não é o seu estilo. Já Louçã, quando lá estava, fazia-as.

– Vota-se nos partidos e não nas pessoas que nos representam? Não vejo problema em que se vote nos partidos, pois cada partido representa uma proposta de organização social baseada numa certa ideologia, de maneira que as pessoas votam na orientação político-social que lhes parece melhor para o país e mais de acordo com os seus valores. Agora, também considero que nem todos os deputados deviam ser escolhidos pelo partido e, em cada partido, devia haver um número de deputados eleitos directamente por aqueles que vão representar. Isso obrigava a que, pelos menos esses, não pusessem a lealdade ao líder do momento, acima de todos os princípios e deveres que os obrigam.

– O Parlamento tem défice de representatividade? Sim, parece-me que sim. Sabemos pela análise do passado que onde não há mulheres, os homens, grosso modo, não sabem representá-las nos seus problemas específicos. Da mesma maneira que os problemas das minorias étnicas, como se diz, também não são atendidos, grosso modo, nos grupos onde não estão presentes.

– O Parlamento tem excesso de juristas e licenciados em geral e deixa de fora o povo (artistas, agricultores, operários, desempregados, etc.) e outras pessoas que pensam “fora da caixa”? Cabe aos partidos escolherem pessoas diversificadas para a AR e isso, em parte, resolvia-se, se pudéssemos eleger/recusar alguns dos deputados, directamente. Não me parece mal que a AR tenha um número significativo de juristas, visto que é lá que se fazem as leis. Discordo completamente da ideia de que o Parlamento tem licenciados a mais que não representam aquele povo, academicamente pouco habilitado. Em que sentido pessoas pouco habilitadas academicamente e sem conhecimentos adequados para os problemas complexos que vão ao Parlamento seriam melhores a representar o povo? Queremos pessoas mais educadas e não menos. Os deputados não têm que ser um espelho do povo, nem têm que ser do [desse] povo, eles têm é que ser pelo povo. Por isso era importante poder escolher alguns dos deputados que representam cada região directamente – dessa maneira exercia-se o poder de afastar aqueles que mostrassem ser apenas por si mesmos e pelo seu líder e não, pelo povo.

(também publicado no blog azul)

33 comentários em “Acerca dos deputados do nosso Parlamento”

  1. Excelente post. Concordo com as seguintes ideias:

    Se os partidos escolhessem deputados que não lhes fossem fiéis, deixavam de ter significado enquanto partidos políticos.

    Não vejo problema em que se vote nos partidos, pois cada partido representa uma proposta de organização social baseada numa certa ideologia, de maneira que as pessoas votam na orientação político-social que lhes parece melhor para o país e mais de acordo com os seus valores.

      1. Se o que há de lixo moral
        e mental em todos os
        cérebros puder ser varrido
        e reunido, e com ele se
        formar uma figura gigantesca,
        tal figura seria, do comunismo(,socialismo)
        imimigo supremo da liberdade
        e da humanidade.Fernando Pessoa

  2. Não deixando de assinalar a satisfação de ver mais uma respeitável voz a pôr o dedo na ferida, para não ser exaustivo deixo uma simples frase que talvez conduza ao cerne da questão:
    Muito antes de o primeiro voto cair nas urnas já os lideres partidários escolheram por nós os deputados ao seu gosto e medida através dos famigerados lugares elegíveis.

        1. Ahhh, está bem nem lembrei disso.
          Tenho cá em casa um romance histórico dos finais do século XIX, de um tal Fernão de Goa, chamado ‘Beatriz’ , com sub-título, ‘Os Mysterios da Ultima Revolta de Goa’. Fernão de Goa deve ser um pseudónimo. O livro está assinado e dedicado a um amigo e se calhar é a assinatura do autor. Nunca vi referência nenhuma a este livro, nem nunca o vi à venda, mas não sou especialista, claro.

  3. “Queremos pessoas mais educadas e não menos”. Mas o problema está em termos no parlamento pessoas pouco educadas. Assim constituída, ela expressa a falência da nação que os muito educados construíram.
    Vemos esta realidade no estado, na educação, nos partidos, nas empresas e nas diversas instituições.
    A democracia é o governo do poder visível.
    Todavia, baseando-se na imagem e semelhança do Deus oculto, surgiram os arcana imperii (autoridades ocultas) que agem do seguinte modo: ocultando-se, isto é, tomando as decisões no “conselho secreto”, e ocultando, isto é, mediante o exercício da simulação ou da mentira, considerada instrumento lícito de governo.

    É obvio que será de todo impossível fazer acreditar aos pouco educados licenciados que são tão falhos de habilitações.
    Aliás, o problema da nação reside no facto de os licenciados imaginarem-se como credenciados através de seus canudos, ocultando que estes papelitos têm como objectivo uma falsa promoção social e não a promoção do conhecimento.
    Em resumo, e por analogia, criou-se uma sociedade de putas e os bordeis são muitos.

    Como sou celestialmente elevado e pragmático, prefiro as putas sérias e bem educadas, pois oferecem o original e não falsificações.

    Aliás: “as putas (as sérias e bem educadas, não as farisaicas) preceder-vos-ão no reino dos céus” Mt. 21,31

      1. Se me permitir que a instrua um pouco, recomendo-lhe a leitura atenta dos capítulos de Mateus em que se contextualiza a afirmação que subjaz relativamente a fariseus-escribas-doutores da lei; e compreenderá os porquês das putas precede-los no reino dos céus (da verdade e conhecimento). Associe a atitude destes aos arcana imperii que refiro em meu comentário e terá uma perspectiva mais abrangente do texto e do contexto.
        Graças a Deus considero-me habilitado na compreensão do fenómeno putedo (em ambos) a que aludo.
        Beijufas

          1. A Bíblia não é um livro é uma biblioteca. Certamente desconhece-a para não reconhecer autoridade no que está reproduzido.
            Depois, se ainda tiver tempo, recomendo estudo sobre a fenomenologia até Edith Stein.

          2. Não disse que não dou valor à Bíblia: é um livro histórico com muita informação histórica, alguma poesia, reflexão e exortação moral também. Em si mesma, é uma fonte de conhecimento como outra qualquer e a única coisa que a torna diferente é haver tantas pessoas a considerarem-na uma autoridade absoluta e verdadeira para tudo e mais um par de botas. E isso é que não compreendo.

          3. Compreendo o seu desabafo. Em tom provocatório, também considero que o protestantismo não é uma religião, mas um sistema religioso constituído por várias sucursais antagónicos que misturam o pior da tradição do judaísmo com o gnosticismo grego e por vezes fenómenos de percepção holiudescos. Aliás, o mesmo ocorre em matéria dita científica.
            Não obstante, considero que os protestantes e judeus convertidos são os que reproduzem com mais fidelidade a essência bíblica. Mas não nos ficamos por aqui, as sagradas escrituras dos hindus – os vedas e Upanishads – ajudam-nos também em vários domínios à também compreensão científica do que a Bíblia – no Novo Testamento – espelha nas acções de Jesus.

            Porém, recomendo-lhe a leitura da Bíblia com base também na compreensão do significado original das palavras hebraicas, aramaicas e gregas, e não pelo que os outros dizem. E sim, a Bíblia tem autoridade.
            Esta é somente a recomendação de um gajo nada licenciado e algo mergulhado na busca do saber, isto é, “sapere” ou sabor.

            P.S. Não se esqueça da Edith Stein e mande lixar as dissertações sobre os “bem-educados”. É mais uma sugestão deste especialista em putedo.

          4. O principal problema das pessoas que não acreditam em Deus é porque desse modo, acreditam que o Homem é a medida de todas as coisas.
            O resultado é o Mundo que vemos.
            Por essa razão nunca votei nem votarei num PR ateu, e semelhantes reservas face a outras funções de responsabilidade social.
            A Biblia pode encontrar-se parcialmente comprometida por sucessivas traduções revisões censuras e “encostos” mas continua a ser uma fonte de autoridade moral cujas histórias merecem reflexão.
            E não, no meu (não especialista) entender, a história que conta não é a mesma que Vaticano (e outros) vendem.

          5. ‘O resultado é o Mundo que temos’ (entende-se como não está bem)
            Desde sempre ou desde quando?
            Desde sempre, está o assunto arrumado.
            Desde quando, já é mais difícil de calendarizar.

  4. “Os grunhos ao poder” parece ser o grito de guerra do texto.
    Mas como é que um desempregado que fosse eleito deputado poderia defender os direitos e interesses dos desempregados se, ele mesmo, já não era desempregado e passara a auferir o módico ordenado de cerca de 3.700,00 € limpos?

  5. Mas alguém acha que pessoas com qualidade queiram fazer parte da escumalha de oportunistas que nos tem desgovernado nestes últimos trinta anos?

  6. esta a faltar-me a expressao conhecida, que diz uma no coiso e outro no oposto, para classificar este post.
    Faz muito bem abordar o tema, mesmo que a proposito do tal lider sindical, sendo que esse lider nao é exemplo de nada.
    Digo : para melhor está bem, para pior basta assim.
    Fica-se com a impressao que descobriu a polvora, ou como tenho dito, os outros sao todos tolos ou incompetentes, ou como aqui se diz fieis ao lider.
    E o pior é que fica a impressao de que está a imaginar

  7. Em primeiro lugar o sistema que temos actualmente não é democrático. O cidadão é que tem de ter o poder de aceitar ou rejeitar as leis, em pleno século XXI onde existe uma interconectividade entre vários sectores deveria de haver já á muito tempo uma ligação entre os cidadãos e os deputados eleitos em cada região e desse modo os seus deputados serem transformados em secretários do cidadão, no qual, poderiam apresentar leis, mas quem votaria eram os cidadãos. Tal como está,o estado apoderou-se da república e transformou-se numa espécie de Deus, e isso é inaceitável. Um dos exemplos mais flagrantes e relativamente às maiorias absolutas, e que nestes casos os cidadãos deveriam ir a uma espécie de segunda volta e dizer se a aceita ou não. Muito mais haveria a dizer nas mudanças que seriam necessárias no futuro, mas estão muito longe dessa realidade. Quem em nome do estado age contra os cidadãos invocando a lei e transformar a lei e m justiça, dizendo e repetindo que o seu cumprimento ou o seu inverso é a justiça, verão a verdadeira justiça ser a lei. Dizem que todos aqueles que desempenham funções para o estado são funcionários públicos, mas os funcionários públicos são aqueles que ajudam o publico, descritos sendo somente os médicos, enfermeiros e os professores, todos os restantes sim o são. O tempo que vira, será sempre mais longo do que aquele que passou. O dito Inferno não existe, mas as trevas encontra-se com a perda da ligação entre a alma e o espírito. Isto significa que a religião não é uma questão de fé,mas sim, ou perde-se ou mantém-se, dependendo dos actos praticados.

      1. l Sartre apenas descreveu aquilo que achava, e realmente ele existe em certo modo em vida, não após a morte. Inferno como o nome diz, é a existência de algo inferior,um lugar ou circunstância. O mesmo acontece com os 7 pecados mortais d, dito ou referido por Maquiavel, ele os inventou, tendo em conta o conceito de justiça. O inferno ou os pecados, não são referidos em nenhum manuscrito de carácter religioso. Mas a alusão a religião,foi apenas um aparte, diz a tua opinião em relação ao tópico que lancas-te e o que acha da reflexão que descrevi,concordas?

        1. Não concordo com democracias directas em sociedades complexas com milhões de pessoas.
          Parece-me falsa a dicotomia: ou somos nós que votamos as leis ou o Estado apodera-se da democracia e transforma-se em Deus. Há inúmeras alternativas intermédias.
          Não concordo que funcionários públicos sejam apenas aqueles que ajudam directamente o público. Uma administração pública competente e leal presta um serviço inestimável.
          “O tempo que vira, será sempre mais longo do que aquele que passou. ” – que quer isto dizer?
          “…as trevas encontra-se com a perda da ligação entre a alma e o espírito.” – que quer isto dizer? E desde quando a alma e o espírito, a existirem, são coisas diferentes?
          “a religião não é uma questão de fé,mas sim, ou perde-se ou mantém-se, dependendo dos actos praticados.” – esta frase não tem sentido…

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