Filmes – «Munique, The Edge Of War» (Munique, À Beira Da Guerra)


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Este filme gira à volta da controversa assinatura do acordo de paz de Munique, em 1938, entre Chamberlain, primeiro-ministro inglês e Hitler, em vésperas da Segunda Grande Guerra. O filme tem duas histórias paralelas a correr em simultâneo: uma é a da assinatura do acordo e do papel de Chamberlain nesse processo -que o filme defende ter sido positivo pela razão de ter dado um ano de paz à Inglaterra e aos aliados para se preparem para a guerra; outra é uma tentativa de impedir a assinatura do acordo por parte de dois diplomatas, um inglês, secretário de Chamberlain e outro alemão, secretário de Hitler, que se conheciam e eram amigos desde os tempos de Oxford, que ambos tinham frequentado. 

O filme está bem feito. Sabemos a história e, mesmo assim, ficamos presos ao suspense da situação. Somos levados a questionar-nos se, chegado o momento que não tem retorno, o saberíamos reconhecer e, reconhecendo-o, se estaríamos à altura do momento. Esta é uma questão importante no filme. 

É difícil não traçarmos um paralelo com a situação actual, salvas as devidas distâncias, naturalmente, pois Putin não é Hitler, mas a situação geopolítica tem os mesmos contornos. 

Estamos num momento de autoritarismo crescente nos regimes do mundo, de crise económica com muito populismo, muita revolta e temos a Rússia de Putin a exigir que o Ocidente feche os olhos e permita o sacrifício de uma parte grande da Ucrânia e da sua possibilidade de sucesso económico, bem como de outros países da esfera da ex-URSS, a troco de paz. Na altura do acordo de Munique, em 1938, também se estava numa grande crise económica, com autoritarismos crescentes no mundo, populismos e revoltas e com a Alemanha de Hitler a exigir que o Ocidente fechasse os olhos à anexação dos Sudetos da Checoslováquia a troco de paz. 

Tal como na época, também hoje há acordos secretos entre os líderes da minoria separatista e o ditador invasor. Então como hoje, o ditador que faz exigências a troco de paz não é pessoa capaz de honrar compromissos ou acordos e tem a mão leve para o assassinato. Então como hoje o Ocidente tem, acima de tudo, desorientação e medo do ditador.

(publicado também no blog azul)

27 comentários em “Filmes – «Munique, The Edge Of War» (Munique, À Beira Da Guerra)”

  1. É Populismo quando o povo gosta de ideias que eu não gosto.
    É Democrático quando o povo gosta de ideias que eu gosto.
    Por isso o regime saído do 25 de Abril hoje com mais de 200 mil milhões de dívida não é Populista…

    A pessoa que usa a palavra Populista está-se automáticamente a se colocar como fora do povo. Não deixa de ser curioso ver muitos que se dizem igualitários a se auto excluirem do povo ao usar expressões elitistas depreciativas do povo como Populismo.

    1. O populismo vive do ressentimento das pessoas e traduz a ideia de que o povo é puro e a elite é impura e que os males da sociedade se resolvem com um líder puro que interprete a verdadeira alma pura do povo. Não estou fora do povo mas estou fora do populismo que vê tudo dicotómico. E também não sou igualitária.

      1. Então o Estado Social é Populista, assim como o Regime do 25 de Abril?
        Os mais de 200 mil milhões de dívida não são sinais de Populismo?
        As tabelas progressivas do IRS não são Populistas?

        Claro que está fora do povo, acabou de dizer que não sofre dessas emoções populares como o ressentimento,

        1. “O populismo traduz a ideia de que o povo é puro e a elite é impura e que os males da sociedade se resolvem com um líder puro que interprete a verdadeira alma pura do povo.” Não vejo a realidade dividida em bons e maus, puros e impuros.
          Ressentimentos tenho mas acerca de pessoas individuais que nada têm que ver com a política e não contra sistemas. E mesmo esses tento ter poucos porque o ressentimento é auto-fágico.

  2. populismo sempre houve e haverá.
    Andar de referendos na boca para tudo e mais alguma coisa porque o povo tem de ter voz e a democracia se quer participativa, e depois não os querer quando se tem maioria parlamentar e se sabe que as nossas propostas serão chumbadas pela populaça enquadra bem no “populismo”.

  3. Parabéns pelo postal. A comparação entre os tempos do acordo de Munique e os actuais é excelente,… e aterradora.

    Quase toda a gente será contra o populismo, de que talvez Mussolini tenha sido o expoente, logo seguido por Péron, e de que é fácil encontrar exemplos desde a Antiguidade, mas sem esquecer que houve populistas simpáticos como De Gaulle. De Gaulle, depois de fazer o contrário do que dele se esperava, foi um populista íntegro. Governou como um rei, consultando o povo como vários referendos e demitiu-se quando perdeu um. Demitiu-se mesmo e viveu a sua reforma sem tentar influenciar os sucessivos governos. .
    Pessoalmente e desculpe-me o reparo, nos dias que vivemos, parece-me errado, contraproducente ou pouco isento, falar de populismo, deixando em silêncio os motivos que o estão a alimentar.

    1. Este post era sobre o filme e não sobre o populismo. O populismo é alimentado pelo ressentimento de todos aqueles para quem a educação e a democracia falharam enquanto instrumentos de melhoria de vida e de perspectivas de futuro. Não por acaso, quando há revoltas a primeira coisa que fazem é ir destruir lojas pois são o símbolo da sociedade de consumo que os deixou à margem.

  4. o papel de Chamberlain nesse processo -que o filme defende ter sido positivo pela razão de ter dado um ano de paz à Inglaterra e aos aliados para se preparem para a guerra

    Que raio de argumento tão convoluto.

    O papel de Chamberlain foi positivo, porque ele procurou evitar uma guerra que, como é manifesto, foi, no final, prejudicial para o país dele.

    1. Não é essa a interpretação que se tem feito do papel de Chamberlain no processo. Pelo contrário, geralmente considera-se que ele teve falta de visão, que ajudou a difundir uma imagem benigna de Hitler não percebendo o seu grau de perigosidade, que se comprometeu com os nazis ao andar a passear-se com os seus cabecilhas por Munique e a assinar acordos que já todos previam não valer grande coisa e ter atraiçoado os checos na questão dos Sudetos. A História não tem sido simpática com ele.

      1. A História não tem sido simpática com [Chamberlain].

        É verdade. Porque quem escreve a História vê a Inglaterra como tendo saído vitoriosa da Guerra. Tratou-se porém de uma vitória pírrica, porque após a Guerra a Inglaterra estava terrivelmente endividada, incapaz de manter o seu Império (teve que dar a independência a praticamente todas as suas colónias), e praticamente vassala dos EUA.

        Quando uma pessoa se apercebe que a vitória da Inglaterra foi pírrica, conclui facilmente que a opção de Chamberlain — evitar entrar em guerra — talvez não tivesse sido um erro.

        1. Chamberlain fez parelha com o rei que abdicou em dar crédito a Hitler e não perceber o que estava em causa.
          Não considero a vitória da Inglaterra pírrica, muito antes pelo contrário. E todos os países que estiveram na guerra, excepto os EUA ficaram endividados. É o costume nas guerras… A Inglaterra ficaria endividada de qualquer modo porque a ideia da autodeterminação dos povos estava em marcha e era imparável. Mais cedo ou mais tarde aconteceria.

        2. Tretas. A Inglaterra autodestruí-se no pós guerra devido ao “consenso” que saiu dela: o Labour controla a economia, os Tories a defesa. A pessoa que quebrou a lógica só apareceria em 1979.
          O mais desastroso Governo de Sua Majestade: o de Clement Atlee que tinha um fetiche pela pobreza e igualdade. E tal incluia destruir produção.
          O Racionamentro durou mais no UK que na Alemanha derrotada. Em 1970 o rendimento per capita da Alemanha Ocidental já era superior ao do UK, Isto 25 anos depois da Alemanha ter perdido a guerra e em ruínas.

  5. Putin não é Hitler, mas a situação geopolítica tem os mesmos contornos

    Que disparate.

    A situação é totalmente diferente. Hitler estava numa posição agressiva: desde 1924 que ele tinha anunciado ao mundo, no seu livro, que queria invadir a União Soviética. Hitler estava, pois, numa posição agressiva. Putin, pelo contrário, está numa posição defensiva: ele não quer agredir ninguém, só pede que a NATO não avance mais em direção a leste.

    1. Dizer que Putin não quer atacar ninguém quando já invadiu a Ucrânia, a Geórgia, está às portas da Arménia, do Cazequistão, controla a Bielorrússia e quer agressivamente o controlo dos outros países da ex-URSS.

    2. O Putin não quer agredir ninguém, a Ucrânia é que se põe a jeito para levar umas lambadas. Mas porque fez por isso.

  6. temos a Rússia de Putin a exigir que o Ocidente feche os olhos e permita o sacrifício de uma parte grande da Ucrânia e da sua possibilidade de sucesso económico

    Como assim?! Em que é que Putin impede a economia ucraniana de prosperar? Em que é que Putin impede a Ucrânia de ter sucesso?

    1. É evidente que enquanto a Ucrânia for impedida de aderir à UE e ao euro e estiver com uma parte do país em guerrilha ou em guerra com a Rússia, a prosperidade é uma miragem.

  7. Creio que à “desorientação e medo do ditador” se junta a materialidade. A região dos Sudetas, contígua à Alemanha e à Áustria (que, na altura, já tinha sido integrada no Reich), tinha mais de 90% de população alemã (3 milhões de pessoas, expulsas na sua totalidade após o fim da II Guerra Mundial). A sua integração na Checoslováquia violou o princípio da autodeterminação, que, supostamente, norteava o Tratado de Versalhes, que levou à independência daquele país. Na tolerância que houve com Hitler, havia muita má consciência pelos óbvias injustiças a que esse tratado sujeitou os alemães (até se tornar óbvio que Hitler queria ir muito além da “correcção” das mesmas). Do mesmo modo, é evidente que as fronteiras das Repúblicas Soviéticas não reflectiam, rigorosamente, realidades nacionais, gerando estados soberanos com parcelas de território habitadas por populações irredentistas. O caso ucraniano é evidente, bastando atentar nos resultados eleitorais desse país, rigorosamente divididos em termos geográficos (sendo que o caso da Crimeia era especialmente gritante, pois a população ucraniana era de apenas 25%). Em países que assentam no princípio democrático, isso também gera alguma renitência em intervir.

    1. A região dos Sudetos era da Boémia. O rei convidou os alemães a instalarem-se na zona mas não a deu aos alemães e a questão começou porque os alemães da zona queriam fazer propaganda nazi e os checos não deixavam.
      A má consciência devida às consequências nefastas do tratado de Versalhes também têm um paralelo com a má consciência actual relativamente à Rússia, pois aquando da queda da URSS, o Ocidente teve uma atitude de grande arrogância (a vitória do capitalismo e a aniquilação do inimigo e tal) que criou ressentimentos.
      Não sabemos que a Rússia não ‘exporta’ cidadãos para as zonas de fronteira para instigar separatismos para ter pretexto de invasão?

      1. Que “a região dos Sudetos era da Boémia”, é um facto (tal como é um facto que, desde o Século XIV a Boémia foi governada por monarcas alemães). Todavia, essa afirmação faz tanto sentido, para justificar que, em 1918, uma região inteiramente habitada por alemães fosse integrada no estado Checoslovaco, como seria justificar a integração do terço sul da Península Ibérica no Reino de Marrocos, com fundamento em quem mandava lá (cá) no Século XIII eram os berberes. O ponto X da célebre declaração dos 14 pontos do Presidente Wilson era claro: “The people of Austria-Hungary, whose place among the nations we wish to see safeguarded and assured, should be accorded the freest opportunity to autonomous development.” No entanto, esse princípio não se aplicou nem aos alemães, nem aos húngaros (nem aos ucranianos da Ruténia, igualmente anexados à Checoslováquia), com as consequência que já muitos na altura previam: uma nova guerra mundial. PS: os resultados nas eleições ucranianas são consistentes desde há 30 anos. Aliás, até recentemente, a táctica russa era controlar a política ucraniana através dos seus testas-de-ferro nos partidos com apoio eleitoral do leste e sul da Ucrânica. Quanto a balança eleitoral pendeu para o lado ocidental / setentrional do país (primeiro com a “europeização” do eleitorado do centro e irreversivelmente depois da “secessão” da Crimeia) passou a usar outros meios. Mas o problema é de base: grande parte (a maior parte?) dos russos e ucranianos russófonos da Ucrânia Oriental e do Sul revê-se na Rússia e não no Ocidente.

        1. É verdade que a região dos sudetas é incorporada na Checoslováquia no fim da Primeira Guerra e que eles pedem para se unirem à Alemanha, mas eles eram uma minoria entre os sudetes e na altura do acordo de Munique têm um partido nazi estabelecido. Não é bem a mesma coisa que Marrocos querer integrar a Península Ibérica. Wilson pede que lhes seja dada autonomia mas nessa altura já era difícil e a região, como bem mostra, era complicada. E os americanos sabiam. Usaram isso como pretexto para não se envolverem. Esses países aí do centro e do Leste têm séculos de invasões mútuas e de territórios com populações mistas. A Crimeia é um caso desses de território usado para incursões e ataques, de um lado e de outro, mas a verdade é que o território foi dado à Ucrânia uns anos depois da Segunda Guerra. Putin usou um pretexto de referendo para invadir a Crimeia e depois continuou e foi avançando. Como já tinha feito na Geórgia. E não está disposto a parar.

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