Pensamento da semana


filosofiaonline,

Seria bom que os políticos, os psicólogos e os comentadores da comunicação social mudassem a sua linguagem ao falarem da saúde mental dos adolescentes e deixassem de usar termos como «catástrofe» ou expressões como «sequelas para a vida». Os diagnósticos de depressão catastrófica generalizada são uma constante nos meios de comunicação social e como os adolescentes são muito impressionáveis e amplificam tudo o que ouvem, interiorizam a ideia de que o seu sofrimento é uma doença que os danificou para a vida. Essa interiorização reforça o sentimento de desesperança, dramatiza as dificuldades e o próprio sofrimento. 

Os médicos são educados para verem os problemas através da lupa da doença, mas a medicalização generalizada do sofrimento humano leva à perda de significado das vivências próprias da idade. A maioria dos adolescentes vive em casas pequenas, sem grande privacidade e a convivência por períodos longos, forçada pelos confinamentos, fez aumentar os conflitos familiares, já de si naturais, dado que estão numa fase da vida de construção da identidade, ainda sem grande capacidade de regular emoções: ficam tensos, irritados, emocionalmente desequilibrados, angustiados. Falta-lhes a socialização que permite a expansão emocional e vivencial, aprender a regular as emoções, a relativizar os momentos de sofrimento através dos momentos de alegria, a construir a auto-confiança. A maioria dos adolescentes não é doente, está apenas num momento de desequilíbrio.

Em vez de assustarem os adolescentes e os pais com discursos catastrofistas e de desesperança, melhorem as condições de vida das pessoas, contratem psicólogos para as escolas, melhorem a educação. 

Enquanto estamos vivos, estamos sempre a respirar e a qualidade do ar que respiramos influencia a saúde. Da mesma maneira, enquanto somos vivos estamos sempre a respirar o ar cultural que nos rodeia e a qualidade do ar cultural que respiramos influencia as possibilidades de vida – que se escolham e construam as possibilidades positivas.

(também publicado no blog azul)

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.

13 comentários em “Pensamento da semana”

  1. Nem mais. A TV faz mal às pessoas e cada vez espalha mais equívocos e ignorância.

    É como as centenas de paspalhos nas filas para os testes a dizerem que a culpa é do País e, claro. Como é que a culpa é do País se a responsabilidade dos testes é das companhias aéreas? O País tolera-os, e isso já é fazer bastante.

  2. Esses importantes da ribalta conseguindo ser no mesmo trilho tão adiantadamente infantis como retrógrados inveterados, em louvor da própria pequenez seguem a qualquer hora na sua televisão.

  3. ,em nome de sombrias obediências seguem a qualquer hora na sua televisão.
    Agradeço esta alteração

  4. Está cheia de razão e o postal merece aplauso.
    Infelizmente o fenómeno é geral e apenas cito dois casos. Desde que a televisão passou a dar cobertura aos incêndios com imagens, disparou o número de piromaníacos. São dezenas os detidos mas, excepto em divulgação geral da actividade policial não têm merecido atenção mediática.
    Nos Estados Unidos são já vários estudos que confirmam a correlação entre a ocorrência de séries televisivas e filmes violentos e o aumento de violência criminal e escolar. Pessoalmente, arriscaria a opinião que se monitorizassem a violência doméstica, os resultados seriam semelhantes.

    1. É sempre difícil dizer se o aumento da violência nas escolas é causado pelo aumento do visionamento de filmes/séries/jogos violentos porque a esmagadora maioria dos alunos vê esse tipo de programas e não são violentos. Conheço as experiências de Bandura, mas há outros factores. Penso que o aumento desses casos nas escolas tem mais que ver com o exemplo das autoridades políticas e a degradação das condições de vida reflectidas na vivência familiar que os miúdos depois reproduzem nas escolas que é onde passam a maioria do tempo.
      Por exemplo, ontem o debate entre a CM e o AV foi agressivo e incivilizado. Infelizmente, já não estranhamos. Este modo de os políticos se dirigirem uns aos outros normalizou-se.
      A violência doméstica e os fogos sempre existiram, apenas não se falava neles ou falava-se pouco. E os fogos ateiam-se mais facilmente se os campos estão abandonados, como tantos actualmente.

      1. A violência sempre existiu, mas os fogos não tinham a dimensão que agora vemos.
        Tenho para mim que a violência (doméstica, ou não) era muito maior no passado, não muito longínquo, mas os fogos, que aconteceriam em número semelhante ao de hoje, não causavam as desgraças e os enormes prejuízos como o que hoje acontece com bastante frequência.
        Todavia, saiba que gostei do seu postal.

        1. Não sei se a VD era maior no passado. Hoje existe uma dinâmica de denúncias e intervenção diferentes da existia antes e portanto esses números serão sempre relativos. E Portugal actualmente já não é tão homogéneo e os casos de violência doméstica já não correspondem apenas à ideia tradicional (de que existia de um certo machismo na sociedade responsável por isso). Não só já não é só violência do homem sobre a mulher como também há quase dois milhões de estrangeiros no País e isso altera a natureza cultural desses fenómenos em termos de números absolutos. Por motivos ideológicos apenas, não temos acesso a essas realidades.

  5. O homem é um animal social e esta judiaria que estão a fazer a nível global só vem confirmar a tese da formação de uma nova ordem mundial.
    Os comentadores da comunicação social já não comentam, são apenas correias de transmissão de uma realidade utópica.
    O crime que estão a fazer às crianças, a prisão domiciliária a que estão a obrigar os jovens e o assédio moral que estão a fazer a todos ilustra bem o clima de insanidade que estamos a viver.
    Focar só a saúde mental dos adolescentes é branquear todas as malfeitorias que estão a ser infligidas ao resto da sociedade.
    A sociedade funciona como um todo, não pode por capricho, ser isolada por escalões etários.
    De que serve contratar mais psicólogos para as escolas se o problema mental está em quem nos governa?
    De que serve melhorar a educação nas escolas se a falta de educação está toda fora das escolas?
    Não nos iludamos, enquanto continuarmos todos a ser coniventes com esta palhaçada e enquanto continuarmos a fechar os olhos a todas as patifarias que fazem à nossa beira, tão cedo não nos vamos sair deste manicómio.

  6. Tenho muito pouca fé nesse seu grito de transformação social. Fundamento esta pouca fé na constatação de que em regra possuímos muito pouco saber nesta sociedade que se diz altamente cultivada, mas pouco habilitada para aprender e ainda menos para empreender.
    Quando uso a palavra empreender refiro-me exactamente à questão a que alude em colocar nas mãos de outros a orientação de adolescentes ou jovens.
    M. Scott Peck constatou nas diversas realidades que observou que é a morte que oferece todo o sentido à vida. Certamente que penso na morte ontológica, também. Este é o “segredo” e a sabedoria central da religião (no sentido de religar) quando intuída e experienciada, pois “eu vim para que tenhais a vida em abundância”.
    Jamais nas artes da psicologia, da ciência ou da neurociência se poderá curar sem que se busque o sentido elevado da existência em todas as suas facetas da alegria e da tristeza e, mais importante, o edificar a vida através do sentido do sofrimento. Pois este mesmo sofrimento pode e quase sempre oferece – se entendido – o novo renascimento.

    Portanto, o jovem ou adolescente, tal como o adulto, tem de ser ensinado através de suas vivências e experiências que existe sempre uma oportunidade para se parir de novo. É certamente uma gestação extra-uterina que necessita ser aplicada em todos os domínios da ciência e da sociedade.
    E mais não digo, porque estou sem pachorra para aturar a soberba da ignorância que se presume sabedora nesta sociedade que se deixa morrer. Pretendo com esta última afirmação dizer que é necessário curar primeiro quem pensa que pode curar. Scott Peck dizia, sabedoramente, que o que cura tem de saber curar-se.

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