Carnaval
escafandro,
A polémica acerca da falta de tolerância de ponto no Carnaval mostra várias coisas interessantes. Aquela a que acho mais piada é como, avaliando pelo que a televisão nos mostra, hoje quase não há casos urgentes nos hospitais e centros de saúde. Pelos vistos, os portugueses só têm problemas de saúde nos dias de trabalho.
(Donde talvez o Ministro da Saúde devesse tentar convencer o resto do governo a aumentar e não a diminuir o número de feriados. A poupança que isso permitiria…)
«Então?»
«Foi muito giro.»
«Aprendeste alguma coisa?»
«Aprende-se sempre qualquer coisa.»
«Pensas que a partir de agora vais agir de forma diferente?»
«Talvez, não sei. Mas é sempre bom.»
«E achas que vai ser útil para a empresa?»
«Claro. É sempre útil.»
…
«E este tempo?»
«Pois é. Se não chove depressa, vai ser terrível.»
Tenho andado a ver Era Uma Vez, no AXN (Sextas às 21,30h, com repetição aos Domingo às 20h). A ideia de misturar o universo dos contos de fadas com o mundo real agrada-me e os primeiros três ou quatro episódios não foram maus. Os seguintes já não me entusiasmaram tanto e receio que a série depressa se torne repetitiva, com os principais enredos presos na necessidade de manter as coisas em banho-maria imposta pelo formato, mas nas próximas semanas se verá. De qualquer modo, este post tem menos a ver com a série do que com as actrizes da série. E, no que lhes diz respeito, gostaria de assinalar uma coisa óbvia, uma coisa moderna e uma coisa encantadora.
A coisa óbvia é que são todas atraentes. A única série americana destinada ao grande público em que os actores parecem pessoas normais (e isto não quer dizer feios) é a Nurse Jackie (também se trata da única em que doentes internados parecem mesmo doentes). Confesso que este ponto não me incomoda por aí além: nada tenho contra mulheres bonitas, elas é que parecem ter algo contra mim. E Jennifer Morrison (a médica da equipa original do House) é mesmo muito bonita. Como também o é Lana Parrilla (a médica do Miami Medical). Morrison pode considerar-se a personagem principal de Era Uma Vez, ou pelo menos a catalizadora da acção, enquanto Parrilla desempenha o papel de bruxa má (muito, muito boa). E depois temos Ginnifer Goodwin, que era uma das três mulheres de Bill Paxton em Big Love (a mais novinha) e que descobri ter participado em 2002 num telefilme com o fantástico título de Porn’n Chicken (parece ser o nome de um clube existente na universidade de Yale, o que nos permite afastar ideias sobre o declínio da educação e manter esperanças no futuro). Como seria de esperar, atendendo a que desempenha o papel de Branca de Neve, Ginnifer faz de rapariga atraente, delicada e um tudo-nada ingénua. Ou seja: temos sexo (Morrison), sexo violento (Parrilla) e carícias e beijinhos (Goodwin). Era Uma Vez adequa-se a (quase) todos os gostos e fantasias.
A coisa moderna é as mulheres serem as principais personagens. Gente perspicaz como sois (não me contrarieis), já se aperceberam certamente de que as mulheres ocupam os principais papéis em quase todas as séries actuais, decorram elas num hospital, num tribunal, numa esquadra, na CIA ou numa terrinha com mais vampiros do que passarinhos nas árvores. Já sabíamos que as mulheres estão a tomar conta do mundo e, no fundo, acaba por ser compreensível: é politicamente correcto, está menos visto, haverá mais mulheres do que homens a acompanhar séries televisivas nos dias que correm e os homens não se importam: para a maioria, ver mulheres bonitas não representa um sacrifício (eu, pelo menos, gosto – mas creio já o ter referido).
E chegamos à coisa que me encanta. Ainda não perceberam? Releiam o título do post e olhem para a fotografia abaixo. Precisamente: as orelhas de Ginnifer Goodwin. Ginnifer tem orelhas de abano. Ou melhor: tem uma orelha de abano (a direita) porque a outra encontra-se muito mais encostada à cabeça. (Imagino-a sempre rodando a cabeça para a esquerda e avançando a orelha direita após alguém perguntar: «Ouviste aquilo?», de modo a ouvir melhor, ou fazendo o oposto durante uma conversa, de forma a equilibrar a intensidade da recepção.) Num universo televisivo em que mendigos da Idade Média têm dentes perfeitos, em que as actrizes de quarenta anos parecem mulheres de sessenta após efectuarem dezenas de intervenções cirúrgicas com o intuito de parecerem ter trinta, em que todos os homens excepto vilões e personagens cuja única função é efeito humorístico são esbeltos e musculados (e, cada vez mais, depilados), descobrir uma orelha assim (ainda que apenas visível nas cenas decorridas na actualidade, em que Ginnifer aparece com cabelo curto) trata-se de um momento sublime. Como é possível que ela ainda não tenha sido convencida a «corrigi-la»? Como é possível que os produtores televisivos a aceitem? Como é possível que a tenham aceitado para um dos três papéis principais (caramba, no genérico o nome dela até surge em primeiro lugar) numa série sobre contos de fadas? Parece-me algo quase impossível e, no entanto, adorável – um sinal de esperança. Que, nos tempos actuais, uma actriz ligeiramente assimétrica faça de Branca de Neve encanta-me. Parece-me até o ponto mais mágico de toda a série.
(Fotografias retirada do site oficial da série e do perfil da Ginnifer na IMDb.)
Está tanto frio que até se vêem políticos com as mãos nos próprios bolsos.
Está tanto frio que, nos transportes públicos, as pessoas se encostam umas às outras voluntariamente.
Está tanto frio que os supermercados transferiram os gelados para a zona dos pratos quentes.
Está tanto frio que foram avistados ursos polares em Bragança e pinguins em Portimão.
Está tanto frio que os idosos já nem dizem: «Oh, no meu tempo é que havia frio!»
Está tanto frio que no Ministério da Agricultura voltou a usar-se gravata.
Está tanto frio que magoei o nariz ao embater contra o meu próprio bafo.
Está tanto frio que todo o peixe é congelado.
Está tanto frio que as centrais nucleares europeias acabam de provar que a fusão a frio nem exige mudanças tecnológicas.
Está tanto frio que a Salta-Pocinhas é agora conhecida por A Raposa Patinadora.
Está tanto frio que a próxima tranche de ajuda externa será entregue em briquetes.
Está tanto frio que até Rocco Siffredi teria vergonha de se despir em frente a uma mulher.
Está tanto frio que Fernando Rosas colocou momentaneamente de lado as suas convicções políticas e telefonou, preocupado, à tia Salazar.
Está tanto frio que um grupo de miúdos se aproximou de mim gritando «Olha um boneco de neve!» e me espetou uma cenoura no nariz.
Está tanto frio que até a Maria e o Cavaco parecem exsudar calor.
(Bom, não, também não está assim tanto frio.)
Ontem à noite assisti no noticiário da SIC a uma peça versando as declarações em que Angela Merkel deu as auto-estradas e túneis da Madeira como exemplo de má aplicação dos fundos estruturais. Falou ela, depois foi transmitida a posição de Alberto João Jardim (em voz-off, que ele limitou-se a emitir um comunicado apelidando Merkel de ignorante e garantindo que teria feito ainda mais obras se não lhe tivessem cortado o dinheiro), a seguir apareceu o vice-presidente do governo regional declarando, num momento de inebriante inspiração, que a Europa é que precisa de ver a luz ao fundo do túnel, depois surgiu Guilherme Silva dizendo esperar que as declarações de Merkel até façam os alemães ter vontade de conhecer a Madeira e finalmente o líder do CDS-Madeira reconheceu que Merkel tinha razão no que dizia mas criticou-a por dizê-lo. Ah, e ainda houve imagens de Carlos César, dos Açores, que se terá solidarizado com Jardim. Esqueçam a nacionalidade das criaturas por um instante: qual(is) merece(m) um mínimo de consideração?
Podemos lamentar-nos, irritar-nos, mostrarmo-nos ofendidos. Podemos apelidar os alemães de metediços, arrogantes e prepotentes. Podemos clamar que somos um Estado independente há quase mil anos. A Grécia pode até reclamar ser o berço da civilização ocidental. Isso não altera a realidade: fomos, e em muitos casos ainda somos, mal governados. E, em grande medida, fomos mal governados porque escolhemos ser mal governados. Jardim foi reeleito em Outubro passado. Sócrates foi reeleito em Setembro de 2009, quando os sinais de alarme já eram claros. Acham estranho que os alemães duvidem de nós? Eles até podem estar dispostos a fornecer-nos a cana de pesca – mas sabem que primeiro têm de nos ensinar a pescar. O problema é nós não querermos aprender. Somos crescidos, sabemos tudo, passámos há muito a fase dos conselhos e das imposições. E, no fundo, também não queremos a cana: queremos o peixe.
Façam o favor de assinar. Para quem não conhece o caso, na Wikipedia encontra-se uma descrição breve.
Através do Portugal dos Pequeninos.
É quase meia-noite e parece que nos jornais, televisões e blogues ninguém conseguiu deturpar declarações de membros do governo.
Obsessivo, sabia tudo sobre o amor. Lera imenso acerca do assunto. Vira centenas de filmes. Escrutinara a letra de inúmeras canções. Apesar disso, as relações nunca lhe duravam. Pensara e voltara a pensar e chegara a uma conclusão: a probabilidade de encontrar uma mulher com o mesmo grau de compromisso com a paixão enquanto objectivo de vida que ele tinha era infinitesimal. Inferior a ganhar o euromilhões. Provou-o começando a jogar no euromilhões e obtendo o primeiro prémio três anos depois, após mais um par de relações falhadas. Mas provou-o à justa, uma vez que logo a seguir começou finalmente a encontrar mulheres que pareciam dispostas a tudo para ficar junto dele para sempre.
Também aqui.
Charles Dickens nasceu há exactamente duzentos anos. Eu devia ter escrito algo sobre o assunto mas faltaram-me tempo e inspiração. Em homenagem ao criador de personagens como Oliver Twist, deixo uma foto mal ‘scannerizada’ tirada há treze ou catorze anos (exceptuando o carro lá atrás, não haverá assim muitas diferenças para o tempo dele, pois não?). Quanto a textos, felizmente o Pedro Correia já abordou a obra de Dickens um par de vezes aqui no Delito. Vão (re)lê-lo, ok? A ele e ao Dickens. Eu prometo fazer o mesmo.
Acerca de História de Duas Cidades.
Acerca de Um Cântico de Natal.
1. Também estaríamos a criticar o governo se tivesse concedido a tolerância de ponto.
2. Nas rádios e televisões, presidentes de Câmara, comerciantes e responsáveis por desfiles carnavalescos garantem que a inexistência da tolerância de ponto na Terça-Feira de Carnaval é má para a economia. Bom – para a das localidades em que vivem, com certeza. Para a do país, se esquecermos eventuais vantagens de mais um dia de trabalho, é irrelevante: o dinheiro ficará noutros bolsos, certamente não mais ricos, e será gasto noutras coisas. A menos que alguém consiga provar que o nosso Carnaval, essa imitação pindérica do Carnaval brasileiro, traz milhares de turistas estrangeiros ao país.
No fundo, vivendo de ilusões e derrotas consecutivas*, já era. Mas a situação de falência iminente demonstra sem margem para dúvidas que, ao contrário do que defendem os pretensos seis milhões de benfiquistas, o Sporting é o clube que melhor representa o país.
* Houve mais uma esta noite, contra o Gil Vicente, por 0-1. Não foi um grande golo mas é um grande galo. De Barcelos.